terça-feira, 16 de maio de 2017

Sobre o obelisco do Mindelo

Desta vez fujo um bom bocado do propósito deste blogue, que recai sobretudo sobre o centro histórico do Porto e seus antigos arrabaldes...

Após a vitória de D. Pedro IV em 1834, aquela que será por ventura a primeira proposta para erguer um monumento na praia onde teve lugar o desembarque inicial das forças liberais é originária de 1835 e da autoria de J. J. Lopes de Lima, escrita a 31 de janeiro do ano referido. No final, e após apresentação em cortes o projeto «ficou para segunda leitura». O Diário do Porto publicou este texto em 18 de fevereiro, dias após a sua apresentação em cortes por Manuel Passos (ou Passos Manuel, como é mais conhecido desde há muito tempo para cá)

-- // --

PROJETO DE LEI

Art. 1.º - Na praia do Mindelo, no lugar aonde se efetuou no dia 8 de julho de 1832 o desembarque do Exército Libertador, comandado por sua Magestade Imperial o senhor D. Pedro, Duque de Bragança, de saudosissima memória, se elevará uma pirâmide triangular, de construção sólida e doradoura; mas de uma estrutura simples, e económica.

§ 1.º Na frente do lado do mar se lerá em grossas letras de bronze dourado - 8 de Julho de 1832 - e por baixo, em letras menores do mesmo metal, esta legenda:
Eis o dia maior da heroicidade!
Dom Pedro e os seus aqui tomaram terra:
Moveu-se ao Despotismo assídua guerra
E o Reinado nasceu da Liberdade

§ 2.º Na frente que olha para a cidade do Porto, se esculpirá uma lista dos Corpos que desembarcaram, formando a Expedição, sua força, e os nomes dos Senhores D. Pedro, dos seus ministros, dos seus generais, comandantes de Corpos etc.e por cima, em letras de bronze, esta legenda:
Sete mil e quinhentos combatentes
Triunfaram da fome, e dos pelouros;
O Porto o viu... e vos pasmai, Vindouros,
E imitai os seus feitos excelentes.

§ 3.º Na frente do lado do norte se esculpirá uma lista das forças do usurpador (cujo nome se omitirá por desprezo); e por cima, em letras de bronze, a seguinte legenda:
Em luta desigual vencer tirano
Impossível não foi, bem que pasmoso!...
Daqui aprenda o déspota orgulhoso
Quanto podem os brios Lusitanos.

Art. 2.º Para a fundição de todas as letras, e chapas de bronze da pirâmide, será aplicada a grande peça de J. P. Cordeiro, e mesmo, a ser necessário, mais algumas tomadas aos rebeldes, das que fizeram fogo sobre o Porto.

Art. 3.º A direção dos trabalhos para a construção deste monumento, será confiada por o Governo à Câmara Municipal da muito Nobre e sempre Leal Cidade do Porto; incumbindo-lhe igualmente para o futuro o vigiar sobre a sua conservação. À vista da sua proposta o Governo lhe adjudicará desde logo os fundos necessários para se levar a efeito.

-- // --

Curioso notar que este projeto prevê uma pirâmide de três faces e com letras de bronze. Mais curioso é ver o simbolismo do grande canhão que D. Miguel trouxe para o Porto ver a sua matéria prima ser utilizada na fundição das letras para este monumento. Este canhão fora arrastado de Lisboa para o Vila Nova de Gaia por várias juntas de bois durante semanas e fora alcunhado de mata malhados, tendo sido tão inútil que cedo os portuenses o elegeram como alvo de chacota.

Em relação ao monumento, este apenas veria a sua primeira pedra lançada em 1840 por iniciativa de António José de Ávila. Às custas de doações através de uma subscrição pública lá se foi lentamente erguendo na Praia da Memória junto à divisão das freguesias de Lavra e Perafita. Concluído em 1864, o concretizado um monumento muito diferente do que acima se descreve e a bem da verdade, para muito melhor a julgar pela projeto.

O monumento na atualidade (foto SIPA)

4 comentários:

  1. Viva. Desde já os meus parabéns pelo excelente artigo.
    De acordo com o que publicou, é neste Decreto Lei citado que está a intenção de se construir o Obelisco da Memória. A questão que coloco é de saber se é possível e de que forma ter acesso à publicação contida nessa publicação. A segunda questão que coloco é se existe algum local onde esteja contida todo o projecto de construção (arquitecto, preço da obra, origem da rocha, no caso granito e calcário, etc..).

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Bom dia, muito obrigado.
      Devo advertir que esta informação foi retirada avulsamente de um discurso mais longo de Passos Manuel. O meu interesse nele residiu em dar a conhecer informação relacionada com o Obelisco da Memória que expõe a diferença do inicialmente proposto contra o efetivamente construído. Repare que não é um "Decreto Lei" mas um "Projecto de Lei". Creio que para saber mais pormenores sobre este projecto terá de ser consultado o Diário do Governo da época. Como o projeto ficou para "segunda leitura" e na realidade não foi construído, será indicador que foi colocado de lado.

      Desconheço pormenores sobre o projeto do obelisco construído. Os dados que refiro vêm do site dos monumentos (http://www.monumentos.gov.pt/Site/APP_PagesUser/SIPA.aspx?id=33087).
      António José de Avila era deputado pelos Açores em 1840 pelo que acredito que terá sido este senhor a fazer renascer um projeto que por ventura caíra no esquecimento após a revolução setembrista de 1836. Tal como o anterior, o projeto final deverá vir referenciado igualmente no Diário do Governo(?).

      Eliminar
  2. Muito grato mesmo pela resposta.
    Se me permite, aproveito para lhe perguntar onde se pode encontrar esse discurso de Passos Manuel que que faz alusão na sua resposta.
    Mais uma vez grato.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. No meu caso encontrei-no no "Diário do Porto" em Fevereiro de 1835, como refiro na postagem. Contudo ele deve estar também inserto em outros periódicos da cidade ou mesmo nos lisboetas pois este discurso encontre-o, salvo erro, na secção "Cortes" que era remetida para o jornal pelo seu correspondente de Lisboa.

      Em relação ao início da obra do obelisco construído, em 1840, é quase certo que também nos jornais portuenses da época exista referência à sua arquitetura e divulgação da subscrição como forma de angariar subscritores.

      Eliminar