sexta-feira, 21 de abril de 2017

O correio no Porto - apontamentos para a sua história

Embora o estabelecimento de serviços postais em Portugal venha já de alguns séculos atrás, a sua generalização, ou massificação, é em alguma medida consequência do fontismo (termo generalista usado como sinónimo do Progresso que o país materialmente experimentou a partir da chegada de Fontes Pereira de Melo ao poder). No caso dos correios, foi nessa altura que se fez uma reforma estrutural dos serviços onde por exemplo se generalizou a distribuição porta a porta nos centros urbanos e também a diferenciação dos preços a pagar através dos agora tão comuns selos.

No Porto, a administração dos Correios passou por diversos locais, mas para a época que nos interessa, inícios do século XIX, este serviço albergava-se num edifício localizado entre as atuais ruas de Cândido dos Reis e Conde de Vizela, com fachada virada para a rua das Carmelitas[1].
Segundo li em artigo de O Tripeiro, apenas em 1836 passou para o extinto convento das Carmelitas, agora totalmente desaparecido mas que na altura centralizava várias repartições do Estado; contudo como vamos ler abaixo, essa mudança fez-se provavelmente uns anos antes...
Estas duas fotos provenientes de postais antigos mostram-nos a Rua das Carmelitas nos inícios de novecentos: 1- Edifício onde esteve sediada a Administração do Correio[1]; 2- Igreja dos Clérigos; 3 - Antigo convento das Carmelitas, onde largos anos esteve também sediado a Administração do Correio; 4 - Mercado do Anjo, construído em 1837.

Os curiosos apontamentos que abaixo apresento foram retiradas de periódicos portuenses:

1. A Junta Provisória Encarregada de Manter a Legítima Autoridade de El Rei o Sr. D. Pedro IV mandou em junto de 1828 que o administrador do correio do Porto fizesse estabelecer dous ou tres pontos nesta cidade, onde julgar mais proveitosos, caixas para receção de cartas, encarregando a sua guarda e vigilância a pessoas de probidade; isto para facilitar ao público comodidades para a remessa das correspondências particulares. Com a ressalva de que: para não retardar a regular partida dos correios para as diferentes partes do reino, tomará Vm. as medidas necessárias, em relação às distâncias em que estiverem colocadas as caixas, para mandar recolher a essa administração as que se acharem dentro delas.

Era uma modernidade!: três caixas de correio espalhadas pela cidade, dando descanso aos pés dos interessados, obstando-os de um longo caminho até à casa da administração! Se de facto a situação prevaleceu no tempo ou não é algo que desconheço, pois poucos meses depois o país "absolutismou" com D. Miguel usurpando o poder e os partidários de D. Pedro fugindo para Inglaterra![2].

Notícia mais interessante foi a que encontrei remontando a 1834, quase um ano depois do fim do cerco à cidade (1832-1833), nos derradeiros meses da guerra civil (1828-1834):

«Somos authorizados a annunciar, que para utilidade pública dos Habitantes desta Cidade se achão deffinitivamente collocadas em differentes paragens,  - Caixas para recepção das Cartas – a fim de se evitar a demora em remessas á Administração do Correio, aonde até agora havia unicamente a Caixa geral.
Os sitios onde se achão as Caixas, são os seguintes:
- Na Porta Nobre, da parte de fóra.
- Na Esquina, entre a rua dos Inglezes, e a rua de S. João.
- Na Feira de S. Bento das Freiras.
- No Largo da Batalha, junto á Capella.
- Na Rua direita, defronte da travessa dos Capuchos.
- Na Esquina, entre a rua do Bomjardim, e a rua do Estevão.
- Na Rua d’Almada, ao cimo.
- Na Esquina entre a rua de Cedofeita, e a rua dos Bragas.
- Em Villa Nova, no Cabeçudo.
- E nas Costeiras.
Os moradores proximos destes sitios podem informar-se das horas a que da Administração do Correio se mandão tirar as Cartas, conforme está escripto em cada huma, para ficarem certos de que todas as Cartas deitadas antes das horas fixadas são expedidas na competente partida regular, - e que deitadas depois sómente são enviadas no turno seguinte.
A utilidade deste estabelecimento, que na Capital se acha em via há muitos annos, mas que a estupida crença dos Sectarios de D. Miguel julgou innovação perigosa para o Porto, quando em 1828 o Absolutismo reassumiu o sceptro de ferro, depois de alguns dias de uso, - he evidentemente proveitosa porque assim vimos a ter ramificada em diversos 11 pontos a recepção de todas as Cartas para o Correio, com a mesma regularidade, com que até agora se usava na que se acha á porta da Administração, no extincto Convento das Carmelitas.»

Ou seja, estamos a falar dos primeiros marcos de correio que foram realmente estabelecidos na cidade! Mas o artigo vai mais longe:

«Da mesma fórma, se tem tomado medidas para pouco e pouco se ir estabelecendo a Posta pequena, que he encarregada de entregar as Cartas em casa de que para isso der ordem, logo que cheguem os Correios, pagando sómente 5 reis em cada carta, a maior, do preço da Lei para o Correio Geral. As Pessoas que desejarem receber assim as suas Cartas, queirão avisar a Administração do Correio nesta Cidade; ou por Carta lançada em qualquer das Caixas, ou no mesmo local da Distribuição.»

Como os meus caros leitores compreenderão, a posta pequena é nada mais, nada menos do que a entrega ao domicílio da correspondência; coisa tão banal nos dias que correm... Mas prossigamos com a leitura do artigo que é deveras interessante:

«He preciso desarreigar varios prejuizos, e de certo he hum dos que temos mais inveterados, o uso de julgarmos por melhor o escreverem-se os nomes de quem tem Cartas a receber, em Listas públicas á porta do Correio, habilitando assim quem quizer a hir tirar as Cartas que lhe parecer, sem responsabilidade de quem as entrega, porque não he obrigado a conhecer todo o mundo nem a saber se esta ou aquella pessoa vai mandado pelo dono da Carta &c. Presentemente, não he possivel pôr em pratica com regular distribuição a entrega geral pelas diferentes casas, porque não tendo ainda voltado a suas habituaes residencias os moradores dos diversos Bairros, pela mudança forçada em rasão dos projecteis do inimigo, composição d’antigas habitações &c, em vez de se acreditar o novo arranjo, acharia nos tropêços desta confusão de moradias, hum estorvo terrivel. Mas pouco e pouco he necessario hir acostumando, até por que pouco e pouco se vai habitualmente regulando o exercicio dos Entregadores etc. Porque ao principio se acham embaraçados em qualquer forma, querer logo que se diga que a innovação he má, parece desairoso na bocca de quem confessa a todos os respeitos, que he preciso sahir da velha rotina de abusos. Queixe-se quem julgar irregularidades, e se depois as não vir remediadas, embora grite, que a opinião geral fará justiça, porque ás vezes he o frenezi do genio que falla, e não a justêza do raciocinio do Cidadão impaciente, e desarrazoado. Em as cousas tomando o habito antigo das moradas certas e regulares, há de fazer-se no Porto, o que se faz já em Lisboa, e nos Paizes civilisados, que a experiencia d’abusos teve a felicidade de corrigir por fortuna delles, primeiro que nos tocasse a nossa vez.
Vamos por tantou pouco e pouco, que vamos melhor, e as Pessoas interessadas em que nos mostremos dignos de reformas, e não bisonhos e faltos de instrucção para as receber, principiem a dar o exemplo: estabeleça-se a Posta pequena para se nos entregar a correspondencia, mandando nossos nomes para isso ao Correio, pois que as Pessoas de menos raciocinio, vendo o exemplo desenvolvido pela prática, convencem-se e seguem a marcha dos outros.»[3]

Aqui estão uns simples parágrafos, caro leitor, que nos abre uma janela para o Porto de oitocentos e nos mostra alguns pormenores dele que não fazem parte da história, pois a maioria destes pormenores ficaram perdidos no tempo, envoltos em generalidades necessárias para efeitos de concisão, repetidas sobre esse mesmo quotidiano ou simplesmente esquecidos no tempo...
Seriam os marcos de 1834 semelhantes a este do final de oitocentos, em baixo à esquerda neste postal antigo? (cruzamento da Avenida Rodrigues de Freitas com a Rua de D. João IV; o marco está em frente a um dos portões do jardim de S. Lázaro, não visível na foto). 
Para terminar, e do mesmo jornal, extraio aquela que é talvez a primeira reclamação sobre as caixas do correio[4]:

«Ninguem poderá negar a utilidade desta innovação; mas quizera eu perguntar ao Sr. Administrador [do correio], porque rasão havia de hir incommodar o publico para conseguir este fim, pondo sobre os passeios caixas enormes, que quasi obrigào os caminhantes a descer delles, e de noite a esbarrar-se contra ellas, como acontece no cimo da rua d’Almada? Não seria melhor que a adoptar-se a medida, se seguisse o exemplo das nações onde ella está em pratica, pondo as Caixas em diversas lojas?» o protesto continua e extende-se também à «chiadeira dos carros, e hum certo perfume, que se consente derramar a toda a hora do dia pelas ruas da Cidade»; abusos que, segundo o autor, «só huma relaxação inaudita póde ter deixado introduzir» e espera também que se tomem «as providencias necessarias para a limpeza das ruas, e outros regulamentos indispensaveis de se pôrem em pratica n’huma Cidade com tantas porpoções para ser huma das mais aceadas e commodas»[5]

Embora não tenha encontrado qualquer referência ao início da distribuição domiciliária do correio, é evidente que ela já se encontrava em curso pelo aviso que surge publicado nos finais de Setembro:

«Previnem se as Pessoas que recebem Cartas pela pequena posta nesta cidade, e que tenhão tenção de querer a continuação da entrega como até aqui - que se houverem de mudar de habitação no proximo S. Miguel - haja de previnir a Administração a tempo de não soffrerem interrupção».[6]
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1 - Esta informação não a reputo como 100% correta pois ainda não vi estudo ou documento que apresente de uma forma credível a certeza de ter sido aquela casa.
2 -  Morrendo alguns às mãos de carrascos miguelistas na Praça da Liberdade. A notícia em si, colhi-a do Diário do Porto que existiu durante os curtos meses em que se manteve a Junta.
3 - Da Chronica Constitucional da Cidade do Porto de 21 de março de 1834.
4 - Os jornais a partir deste ano começam a ser verdadeiras portais de opinião equivalentes aos nossos desabafos de hoje nas "redes sociais". Por vezes existiam mesmo lutas bastante acesas entre fulano e sicrano, bem como periódicos onde o partidismo era declarado.
5 - O artigo era assinado simplesmente por hum portuense. Lembremos que a iluminação noturna era feita à época por lampiões de azeite e que não era fiscalizada corretamente, pelo que a sua luz era em muitos locais medíocre.
[6] - O S. Miguel de Setembro é o dia 29 desse mês, dedicado ao arcanjo; o costume de se pagar foros, rendas, etc ou mudar de casa nesse dia vinha já desde os tempos medievais.

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