terça-feira, 4 de abril de 2017

Alguns apontamentos e uma imagem inédita da fonte dos Banhos

O meu interesse pela história da cidade do Porto começou precisamente pelo desaparecido bairro dos Banhos, uma vez que a sua localização coincidiu com a rua onde fui criado. A isso ajudou as longas conversas que tive com um vizinho que me incutiu este gosto e que funcionou como que o gatilho dele, o que recordo com saudade.

É difícil atualmente termos consciência plena de como era aquele bairro, de como se dispunham as casas, vielas, passagens, etc. Dele resta-nos apenas parte da rua de S. Francisco, do Forno Velho e as Escadas do Recanto (topónimo certamente criado após a demolição dos arruamentos ali existentes). Não me irei alongar muito mais sobre esta situação, até porque já coloquei algumas postagens sobre o assunto. Mas voltando à incógnita dos nomes dos arruamentos ali existentes, transcrevo abaixo o edital da câmara referente às expropriações naquela zona para a construção da rua da Nova Alfândega. Imaginem os leitores o Barredo completamente desaparecido e parte da Ribeira e talvez fiquem com uma ideia de tudo o que realmente se perdeu.


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«TENDO de proceder-se á expropriação, por utilidade publica, de diversas casas para a abertura da rua da Nova Alfandega, são por esta forma e por deliberação da exc.ma camara municipal prevenidos os interessados, de que os predios comprehendidos na expropriação são os seguintes: - Todas as casas do lado do sul da rua de S. Francisco, desde a rua dos Inglezes até á viella de Calca Frades. - Todas as casas do lado do norte da rua de S. Nicolau, desde os n.º 1, 3 e 5 até 45 e 47 inclusivè, e a casa do lado do sul com os n.º 4 e 6. - As casas da rua da Reboleira com os n.º 63, 65 e 67. - As casas da rua dos Banhos do lado do norte desde os n.º 2, 4, 6 e 8 até 42 e 44 inclusivè, e desde os n.º 46 e 48 até 176 e 178 inclusivè. - Todas as casas do lado do sul da dita rua dos Banhos, desde os n.º 1, 3 e 5 até 83 e 85 inclusivè - Todas as casas de Cima do Muro, desde os n.º 159 a 261 inclusivè. - As casas em Calca Frades com os n.º 5, 9 e 11, e as casas de Miragaya com os n.º 1 e 2 a 23. - Todos estes predios deverão ser despejados até ao dia 31 de Março proximo, que tanto é o tempo que se julga preciso para a conclusão do processo d'expropriação.
Porto e Paços do Concelho, 9 de fevereiro de 1870.»

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A demolição em 1871, o circulo vermelho aponta o local da fonte dos Banhos, referida mais abaixo
No caso da rua dos Banhos nada ficou para contar a história. Para termos uma ideia de como seria, talvez que aquela que mais se lhe aproximará em ambiente seja por ventura a rua da Fonte Taurina. Curiosamente no edital não se fala na rua do Reguinho, topónimo mencionado pelo menos uns anos antes, quando a população daquele bairro pediu à Câmara que lhes ministrasse água potável para a fonte local.

Ora essa mesma fonte localizava-se na Travessa dos Banhos (novamente uma rua não nomeada no edital), tendo sido levada na hecatombe demolidora e da qual pouco mais se sabe para além do nome. Não lhe conhecendo eu nenhum registo fotográfico, tive contudo a felicidade de a encontrar em desenho no livro Here and there in Portugal, editado em Londres em 1856 onde o autor descreve sucintamente a rua dos Banhos:

« The coopers, for whom there is abundant occupation in Oporto, occupy a long and very narrow street, running parallel with the river, called Rua dos Banhos, whose irregular but picturesque buildings would give an artist ample occupation. The fountains are some of them quaint and curious, but the most characteristic is situated in this street. »

É muito curiosa esta observação sobre ser a fonte dos Banhos a mais característica das fontes. O autor ou alguém por ele deu-se ao "trabalho" de a registar em desenho, registo histórico único(?) para alegria do portuense do século XXI! Ei-la:

A fonte dos Banhos.
Local onde se situava a fonte no denominado bairro dos Banhos.
Local aproximado onde a fonte se encontrava, ainda que a uma cota mais baixa.

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