terça-feira, 18 de abril de 2017

A freguesia da Vitória (nas memórias paroquiais) - parte 3

E para acabar este exposição sobre a paróquia da Vitória nas memórias paroquiais de 1758, prosseguimos seguindo o Rev. Abade na sua dissertação:


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Tem mais esta freguezia a perenne fonte q está emcostada a o muro da cerca do convento de S. João Novo, porem naõ sei, que algua destaz agoas mencionadas, tenham algua especial qualidade, ou virtude, ainda que esta ultima da que se faz mençaõ, tem a sua origem no sitio aonde esta situada a Senhora das Virtudes, que he freguezia de S. Pedro de Miragaya extra muros desta cidade.

Nesta imagem do googlemaps tento reproduzir parte de uma planta do século XVIII, assinalando a branco os locais (aproximados) onde existiram casas que foram demolidas naquele século, as do lado de dentro da cidade; e as que ficavam do lado de fora que só o foram já em meados do seguinte. O circulo verde é o local do chafariz já descrito na 2º parte. Surge aqui também uma capela que existia diante da cadeia e onde, creio, os condenados à forca ouviam missa pela última vez; bem como o local da antiga Porta do Olival, marcada com o n.º 1. De referir, por último, que do lado sul, as últimas casas dos lotes assinalados só foram demolidas na primeira década do século atual.
... a cidade do Porto he murada e em todo o ambito de seus muros tem dezoito portas por onde se serve entre as coatro principais, q saõ Porta Nova, Porta da Ribeira, Porta de Cimo de Villa e a Porta do Olival pertencente a esta freguezia, e tomou o nome de se continuar fora della antigamente hum grade olival, he a milhor e de mayor concurso e se acha formada entre duas torres quadradas e sobre ambas tem hua atalaia e grande [1] q antigamente servio de corpo da guarda, enquanto se naõ edeficou o novo defronte do Palacio dos Marquezes de Arronches junto a Rua Cham, daqual atalaya por ser alta, e no sitio mais  alto da cidade se descobre literalmente muitas povoaçois e freguezias; como sam o Lugar de Maçarellos, Ribeira do Ouro, S. João da Foz do Douro, a sua barra, Cabedello, e huá dilatada parte do mar oceano, e desse sitio costumaõ os moradores ver a entrada e sahida das flotas[2] do Brazil, Inglezas, e mais navios estrangeiros, que pera sua segurança devem observar quando entraõ e sahem, a torre da baliza, q tambem deste sitio se vé, q vulgarmente se chama a Torre da Marca, obra q mandou fazer o bispo de Vizeu ao depois Cardeal D. Miguel da Silva...no tempo em q asistio nesta cidade no anno de 1543...
Pormenor que mostra as casas que apenas foram demolidas já no início do século XXI (por alturas do Porto 2001?). Tal como a casa do café Porta do Olival também para a elas se aceder havia que subir por uns degraus de pedra; remanescência de como era todo aquele correr no século XVIII.
As demais portas abertas no muro da cidade, q circunda esta freguezia, sam o Postigo das Virtudes, porq delle se faz tranzito pera a fonte de Nossa Senhora das Virtudes, e o Postigo de S. Joaõ Novo, e supposto tem o nome de postigos, milhor lhe convem o nome de portas depois de serem alargados pera mayor comodidade da serventia da cidade, porq ficaraõ com largura de mais de doze palmos, e de altura mais de vinte cuja obra foi feita modernamente por serem estreitos, e no seu principio foram fabricados com os muros da cidade, que teram de altura pouco mais ou menos sincoenta palmos, e de grossura mais de doze tudo de pedra de cantaria lavrada, e aSentada as fiadas, coroado tudo de ameas da mesma pedra.
A muralha nas traseiras das casas do largo de S. João Novo. o n.º 1 indica um torreão e o 2 o corpo da muralha, ficando-se com uma ideia da largura do antigo caminho de ronda.
Continha todo este muro trinta torres cubicas, q sobre sahiaõ, e se alteavam sobre os muros couza de quinze palmos, porq alguns se lhe tiraraõ, como foi na parte do muro, que circuita esta freguezia, por ordem de S. Magestade em carta firmada pella real maõ do dito senhor do primeiro de fevereiro do anno de 1752, se lhe tiraraõ duas, que estavam no dito muro abaixo da nova e insigne igreja dos clerigos pobres por fazerem prejuizo, e aSombrarem as ditas torres o frontespicio da dita igreja, e ao prezente na parte q circuita esta freguezia, se achaõ somente seis, excepto a torre da Porta do Olival ja mencionada, e aSim estas, como todaz as mais torres, que no muro se acham foraõ principiadas com o dito muro da cidade, q teve principio no anno de 1336 em que reinava D. Afonço 4º, e findou no de 1374 reinando seu neto D. Fernando, q por isso a elle se attribuiu esta grande fabrica, que todo occupa quaze tres mil passos ... de tres pes geometricos cada hum, e a parte, q circunda esta freguezia, tera coatro centos, e sincoenta passos sobreditos, e conforme a constante tradiçaõ, gastou toda a obra o espaço de quarenta annos pera se acabar, porq só no tempo de El Rey D. Pedro o 1º filho de hum e pay de outro rey se trabalhava com concluir[1] na dita obra, como se pode ver em D. Nicol de Santa Maria na Cronica dos Conegos Regrentas...
A obra dos muroz ainda que antiga, e sem aggramassa de cal, he de tal fortaleza, q rezistio ao grande, e formidavel terremoto do anno de 1755 porq lhe naõ fes brecha, ou fenda alguã de novo, e somente lhe fes cahir huã ameya entre arbores da Porta do Olival, e descompos as da atalaya que se sustenta nellas, as quaes se mandaraõ abater em lugar de se comporem, ficando a dita atalaya sem a sua prespectiva, e antigo ornato das ameas q lhe serviaõ de coroa, e que a faziaõ destinguir das mais da cidade.

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NOTA: Esta memoria foi escrita pelo abade Francisco Antonio.

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