segunda-feira, 10 de abril de 2017

A freguesia da Vitória (nas memórias paroquiais) - parte 1

As memórias paroquiais de 1758 são uma boa fonte de informação para quem quiser conhecer a organização e outras particularidades do país pouco depois do terremoto de 1755. Foram mandadas fazer pelo Marquês do Pombal, tendo os inquéritos sido enviados aos bispos para que estes os distribuíssem pelos seus párocos e posteriormente devolvessem à administração central. Não é meu propósito transcrever inteiramente as respeitantes à cidade do Porto, até porque elas estão disponíveis AQUI; limito-me a apresentar extratos delas que possam ter informação interessante para o portuense de agora a quem, como eu, apaixonam estas antiqualhas...
Deveria talvez começar pela freguesia da Sé, o núcleo mais antigo da cidade, mas permitam-me os leitores, começarei pela da Vitória.


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«A freguesia de Nossa Senhora da Victoria da cidade do Porto está situada dentro dos muros della pera a parte do norte, e fundada a sua parochial igreja no mais alto do monte Victoria, que lhe deu o nome, porq conforme a tradição e o constante, este foi o sitio em que os Catholicos alcansaraõ huá insigne victoria dos Mouros, quando depois da universal perda da Hespanha, em que entrou esta cidade, a restaurarão, e sendo o mayor conflicto no sitio da batalha que ainda conserva o nome, fora da porta de Cima de villa freguesia de S. Ildefonso, neste monte da Victoria a vieraõ concluir, dedicando com este nome huá capella a Nossa Senhora no lugar aonde ao dipois se fundou a igreja da freguezia, e desta victoria se conserva huá excelente pintura, q cobre a tribuna do altar mor, que mostra com delleitavel horror o destrosso dos inimigos da fé, e triunfo dos portuguezes asistidos do patrocinio da Senhora[1].
E por ameassar ruina esta igreja, não por causa do terremoto do anno de 1755, mas por a sua fabrica ser antiga e de madeira, se mudaraõ as imagens da Senhora, sanctos, e e Santissimo Sacramento por ordem do governador do bispado o Exmo. bispo de Tangere, D. João da Silva Ferreira em huá solemne procissaõ, que se fes em o Domingo 4. de mayo do dito anno, pera a capella de S. Joze da rua das Taipaz, que fica dentro da freguesia.

...contem esta freguesia em si, quinze ruas: a saber; Rua de S. Bento, Porta do Olival, Ferraria de Sima, Viella do Ferras, Rua de Traz, Taipas, Postigo das Virtudes, Padram de Belmonte, Rua de S. João Novo, Ferraria de Baixo, Rua de S. Domingos, Rua de Sam Miguel, Rua detras da Victoria, Rua de S. Roque e Viella da Esnoga; q tomou este nome dos antigos judeus, que ahi viviaõ aRuados, e com goardas, e se permitiaõ dentro das cidades; e pello contrario os Mouros fora dellas como dis Brandaõ na 6ª parte da Monarchia Luzitana...

... o Orago da igreja he a dita Nossa Senhora da Victoria, e he de huá só nave e se compoem de coatro altares: o mayor em que está colocada a imagem nova de Nossa Senhora estofada dentro de vidrassas; dois coletraes: o da parte da Epistola dedicado a S. Paulo e o da parte do Evangelho a nosse Senhor crucificado da invocação das Almas...
Na dita igreja parochial se acha colocada a imagem milagrosa do Martir S. Sebastiaõ no altar mor da parte da Epistola ... a qual foi trasladada do Convento dos religiozos de S. Domingos desta cidade para esta igreja em 9 de abril de 1742...

... O parocho desta dita freguezia da Victoria tambem o he dos prezos da Rellaçaõ, e lhes admenistra os Sacramentos, por esta Rellaçaõ se achar dentro dos lemites da sua freguezia, e pello preceito Parochial na dita caza da Rellaçaõ, q se acha aRuinada de prezente, mas com esperanças de reforma...
Este regio tribunal da Rellaçaõ he hum dos milhores ornamentos da cidade, e se pode ver sua origem no Catalogo dos Bispos della ... aonde diz q a mudança da caza da Rellaçaõ tam dezejada e tantas vezes pedida ao senhor rei D. João 3º, e a seu neto o senhor rei D. Sebastiam, so teve execuçaõ no tempo do senhor rei D. Filipe II de Castella, mudando este tribunal pera esta cidade...[2]

He composto ao prezente este tribunal de dez dezembargadores de aggravoz, coatro corregedores de vara, dois do crime, e dois do civel: hum juiz da Coroa, hum procurador da mesma, tres ouvidores do crime, hum promotor das justiças; e outros menistros, q todos sam dezembargadores e vestem beca. Hum chanceler, q naõ havendo governador, serve como tal, e he hum dos mayores lugares de letras[?], q o nosso soberano costuma prover, e a este tribunal vem por aggravo, e appelaçaõ civel o crime as cauzas, que excedem as alçadas dos julgadores das tres provinciais do reyno Beira, Minho e Trasosmontes, com escrivaõs, meirinhos, e mais officiaes competentes para a recta admenistraçaõ da Justiça; e fica sendo esta famosa cidade com tanta concorrencia de feitos e pleitos como um dos conventos juridicos dos romanos, de q faz mençaõ Plinio e outros historiadores...
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1 - Se a lenda da batalha é verdadeira ou não ficará por apurar. Mas estas lendas do tempo dos mouros... Facto é que o monte da Vitória (nome que aliás na prática caiu em desuso) era conhecido no início da baixa idade média por mons menendi, como o atestam alguns documentos do século XIII que até nós chegaram. A igreja da Vitória atual foi erguida no século XVIII, substituindo uma outra que havia por sua vez sido ereta no terreno onde existira a sinagoga judaica.

2 - O que se deu em 1583.

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