domingo, 19 de março de 2017

O Porto do século XII

Continuando a mostrar algumas descrições da cidade do Porto, a desta postagem é talvez a mais difícil (por se encontrar em latim) se bem que a mais sucinta pois quem a escreveu não estava propriamente de visita "turística" e não se desprende muito em falar no burgo, aliás parcas palavras lhe proporciona. Contudo considero-as muito importantes dado que é a primeira vez na história escrita que se fala da cidade sem ser nas fugidias notícias dos cronicões antigos asturo-leoneses (onde portucale urbe se confunde muitas vezes com a região que lhe tomou o nome) ou no foral de D. Teresa (cuja autenticidade embora aceite pelos modernos historiadores, é-o sem provas irrefutáveis) ou mesmo a sua confirmação por Afonso Henriques (este mais tendente a ser considerado falso, não obstante a importância que tem para a toponímia existente aquando da suposta falsificação).

Com efeito, esta descrição vem já desde os século XII! Foi escrita pelo célebre Osberno e está incluída na sua De expugnatione Lyxbonensi de 1147 que relata a conquista de Lisboa. A armada que transportava este nobre até à Terra Santa passou pela costa de Portugal e aportou ao Porto sem dúvida para se abastecer de mantimentos e proceder a reparações nas embarcações, se necessário.
Afonso Henriques terá enviado emissários ao Porto com uma carta para ser lida aos cruzados por forma a que estes o ajudassem na conquista daquela que é agora a nossa capital. O bispo do Porto, D. Pedro Pitões, pediu aos cruzados que subissem lá acima perto da sua igreja a ouvir missa, não perdendo a oportunidade para lhes brindar com um sermão que se traduziu para o Portugal da época como crucial. Dizia ele, mas afinal para quê irem à Terra Santa, em risco de ficar pelo caminho, quando podiam recuperar terras aos infiéis já ali, quase às portas de suas casas? O valor que Deus lhes daria seria o mesmo pois os mouros de lá não eram diferentes dos daqui! Dito e feito assim conseguiu levar Pedro Pitões a água ao moinho do nosso primeiro rei...

Capitel pré-românico em depósito no Museu de Arte Sacra do Seminário Maior do Porto. Possivelmente originário da primitiva igreja da Sé de origem asturiana (foto: Revista de Arqueologia, nº 10)

Eis o excerto referente à nossa cidade (as explicações seguem mais abaixo):

« Habet littus maris ab insula usque ad Portugalam fluvius Ovier, super quem civitas Tude; post hunc fluvius Cadivia, supra quem civitas Braccara; post hunc fluvius Ava, supra quem ecclesia Beati Tyrsi Martyris; post hunc fluvius Leticia; post hunc fluvius Doyra, supra quem Portugala, ad quam ab insula venimus circiter horam diei nonam. Dicta autem a portu Gallorum, habens jam annos reparationis suae circuiter octoginta; desolata ab introitu Maurorum, et Moabitorum. habet autem portus a meridie arenas salubres, a prima rupe in introitu usque ad aliam rupem infra, habentes in latitudine passus duodecim ab extremi recessus margine, in quibus involvuntur aegroti, donec mare superveniens eos abluat, ut sic sanentur. Ibidem vero testatus est episcopus praedecessorem suum sanatum a livore simili leprae. De hujusmodi arenis, quod sint in Hispania, in historiis Romanorum invenitur.

Cum autem pervenissemus ad portum, episcopus una cum clericis suis nobis obviam factus est (...).

His auditis, cum esset jam hora decima, usque in crastinum distulimus respondendum, ut pariter qui in navibus erant omnes mandata regis audirent, et ab episcopo absolutionem peccatorum et benedictionem susciperent. Reliqua diei pars cura rerum familiarium consumpta est. Summo mane, ex omnibus navibus in summitate montis in coemeterio episcopii, coram episcopo omnes convenimus; nam ecclesia, pro quantitate sui, omnes non caperent. Indicto ab omnibus silentio, episcopus sermonem coram omnibus lingua Latina habuit, ut per interpretes cujusque linguae sermo ejus omnibus manifestaretur (...)»

O núcleo primitivo da cidade do Porto atual, a quantidade e altura dos torreões é sem dúvida fantasiosa. A porta que se vê é a porta das Verdades que antes se chamava porta das Mentiras. Este núcleo viria posteriormente a ser conhecido como O Castelo. (foto: pormenor de uma foto da História da Cidade do Porto, Portucalense Editora).

Do discurso do bispo:
«(...) Ista enim nostra, quam cernitis, olim inter celebres, nunc ad instar parvuli reducta viculi, jam nostra memoria multoties a Mauris spoliata est. Verum enim ante hoc septennium ab eis adeo afflicta est, ut ab ecclesia Beatae Mariae Virginis cui, Dei gratia, qualiscunque deservio, signa, vestes, vasa, et omnia ecclesiae ornamenta, captis clericis aut occisis asportarent. Sed et ex civibus captivus, et ex circumquaque jacentibus territoriis, usque ad ecclesiam Beat Jacobi Apostoli, innumeros fere in patriam suam secum transtulere, non sine nobiliorum nostrorum sanguine; igne et gladio caetera consumentes omnia. (...)»

As naus com os cruzados chegaram a 16 de junho de 1147 ao Douro. O bispo logo lhes foi apresentar cumprimentos, lendo-lhes a carta de D. Afonso Henriques. Na manhã do dia seguinte subiram todos ao alto do monte da Penaventosa onde existia a igreja e o Paço Episcopal.
Notar que nesta época a igreja não era a românica que agora lá vemos e o Paço estava a séculos de ser o atual. Tratar-se-ia de uma quase ermida pré-românica (talvez do tamanho da antiga igreja de Cedofeita) sendo que, como eram muitos os cruzados, o sermão foi proferido no "cemitério do bispo", que alguns autores creem não se referir propriamente a um cemitério, mas a uma espécie de claustro onde bispo e cónegos viviam ainda que nele devessem existir os enterramentos dos prelados.

O claustro velho da Sé do Porto, local do antigo "cemitério do bispo"? (foto: Monumentos).

O cruzado não levou do Porto recordações pormenorizadas em boa parte porque não existia matéria para tal, pois o Porto do século XII era apenas um humilde burgo do tamanho de uma aldeia muralhada como muitas que ainda subsistem no nosso país. Na sua memória reteve apenas os banhos medicinais nas areias das margens do rio e do discurso de Pedro Pitões:
«Esta nossa cidade, que tendes diante dos olhos, famosa outrora e hoje reduzida a humilde lugarejo, lembramo-nos de que foi muitas vezes saqueada pelos mouros. Ainda há sete anos eles a invadiram e roubaram da igreja da Virgem Santa Maria, em que Deus me colocou, os sinos, paramentos, vasos e ornamentos sagrados, além de cativarem ou matarem os clérigos.» (in História da cidade do Porto da Portucalense Editora).

Assim verificamos que a nossa cidade, se valor tem por ser a segunda cidade do país, mais valor lhe devemos dar ainda pois subiu a pulso: de um quase apagado lugarejo transformou-se na segunda cidade mais importante do país, fruto do seu suor, que é como quem diz do comércio do trato marítimo e onde não jogava a seu favor uma barra adversa e hostil que só com a construção do porto de Leixões já quase na nossa época, deu tréguas a tanta gente, mercadoria e cascos, que foram engolidos pelo mar e pelas pedras da foz do Douro. A grandeza da cidade do Porto deve-se a ela própria, como sobressai do contraste entre o Portugala de Osberno e a cidade moderna de hoje.

1 comentário:

  1. Mais um excelente post Nuno!
    Já não vinha aqui à algum tempo, mas sendo este um post da época medieval chamou-me mais à atenção. Em suma, sublinhas-te uma ideia que já tinha em mente: O espírito humilde, lutador e patriota das gentes do Porto é o maior e mais antigo património desta cidade, que ainda perdura bem vivo. Somos o melhor exemplo de como fomos e somos capazes de fazer "omeletes sem ovos"...aliás, de como fizemos das tripas do porco um prato típico!

    Abraço!

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