quarta-feira, 29 de março de 2017

Água canalizada ao domicílio

Embora o advento da água canalizada ao domicílio se tornasse uma realidade na cidade do Porto apenas em finais do século XIX, ela começava já a ser sonhada algumas décadas antes. É isso mesmo que comprova este pequeno texto tirado do jornal Patriota Portuense de 19 de junho de 1821.

«Introducção da agoa em todas as casas de Lisboa e Porto
De todos os inventos que observamos em nossas viagens, e de que desejariamos que os nossos concidadaõs aproveitassem, sería hum dos primeiros o conduzir a agoa a todas as casas de Lisboa e do Porto, como em Londres se pratica. Com esta obra se pouparia o que em ambas estas cidades se gasta com 5 o 6$* (sic) agoadeiros que, sendo pela maior parte Gallegos, levam anualmente para a sua terra huma avultada somma de dinheiro, que por certo ficaria entre nós, se esta obra se emprehendesse. (...)
O modo por que a agoa se conduz he encanando-a pelo meio das ruas, em canos de grossos troncos de arvores ou de ferro, daqui partem pequenos tubos de ferro ou chumbo para as differentes casas, onde se enchem duas, tres ou quatro pipas, conforme o gasto de cada qual, correndo a agoa tanto tempo quanto baste para encher as vazilhas, as quais tem cada huma sua valvula que se tapa logo que a vazilha se acha cheia; e dalli passa a agoa para outra vazilha, ou para a casa do vizinho; e, dahi a huns tantos dias, torna a vir a agoa, segundo cada hum quer. (...) Seria isto no Porto muito facil, por ter esta cidade muito declive, e por isso mui facil seria de encanar a agoa que se encontra nas alturas que lhe ficam sobranceiras; taes saõ as que se poderia tirar da Quinta do Bomjardim, de Fradellos, do Hospital novo, &c»

A fonte dos leões quase no início da sua vida. Um projeto escolhido de entre sete alternativas, a água que passava por ela seguia posteriormente para a zona baixa da cidade continuando a abastecer a rede (foto AHMP).

Mas estávamos em 1821 e era ainda muito cedo para pensar em obras de tão grande vulto mesmo que representassem um avanço civilizacional tremendo! Teria a cidade de passar por várias revoluções, duas guerras civis e entre eles anos e anos de marasmo nacional - que com certeza se repercutiram na política local - para que nos anos 80 desse mesmo século e através da Compagnie Général de Euax pour l'Étranger o Porto visse chegar finalmente a água canalizada ao domicílio através da captação no rio Sousa.

Sem comentários:

Enviar um comentário