domingo, 12 de fevereiro de 2017

Carro elétrico 163: a História e a Estória

No Museu do Carro Elétrico encontra-se em exposição um veículo que ostenta o número 163, tratando-se do mais antigo carro elétrico portuense preservado construído de raiz como tal. O seu restauro foi feito com o recurso, entre outros documentos, a uma belíssima fotografia de um carro do mesmo tipo puxando três atrelados no Passeio Alegre. Foi construído pela firma Campos e Moraes (também conhecida como A Constructura), fazendo parte de um lote de 24 veículos construídos entre 1904 e 1906 equipados com chassis Brill e material elétrico Siemens. Os seus bancos eram longitudinais, atravessando o veículo de uma ponta a outra e por isso chamadas de risca ao meio.
Carro elétrico modelo "A Construtora" (de Os velhos eléctricos do Porto - pormenor)
Posta esta pequena introdução vamos ao tema: por alguma razão que desconheço, criou-se o pequeno mito de que o veículo que se encontra em exposição no museu é o 163 da foto; contudo isso muito provavelmente não é verdade. Isto porque a frota de carros elétricos foi até aos anos 50 do século XX renumerada diversas vezes, não existindo registos precisos sobre os seus números anteriores ou posteriores. A ajudar a isto tudo houve um incêndio em 1928 na remise da Boavista, que destruiu bastantes carros e avariou alguns mais.

Vai ainda mais longe o pequeno mito dizendo que este carro foi o que descarrilou e caiu no Douro em Dezembro de 1911, juntamente com um atrelado, matando mais de uma dezena de passageiros. Recentemente deparei-me com um post do blogue do Museu do Carro Elétrico que nos mostra umas imagens surgidas na Illustração Portugueza e que acompanham a notícia do fatídico desastre. A imagem legendada como sendo o carro motor a ser retirado da água não é esclarecedora pois foi tirada de longe, sendo que o chassis está virado no sentido contrário: Mesmo admitindo que seja um veículo idêntico ao 163, nada nos diz (até agora) que fosse precisamente aquela unidade.
O acidente de Dezembro de 1911 no Cais das Pedras (foto Illustração Portugueza via Museu do Carro Elétrico)
A numeração inicial destes carros era 43, 44, 45, 46, 47, 48, 49, 50, 51, 52, 53, 54, 57, 58, 59, 60, 61, 62, 63, 64, 65, 66, 68, 69; ou seja nesta numeração nem figura o n.º 163 (será que 63 passou a 163 numa renumeração acrescentando a centena?). Contudo a centena deve ter sido acrescentada ainda muito cedo na vida destes veículos, uma vez que há vários exemplos em fotos e postais do início do século onde estes apresentam já o 1xx.
Um carro elétrico do mesmo modelo do "163" passando Monchique, nos anos próximos da tragédia (de O Comércio do Porto Ilustrado). Por curiosidade refira-se que, o local onde se encontra o edifício em primeiro plano era a horta das freiras.
Com o andar do tempo e com os veículos mais antigos a serem retirados e substituídos por outros novos, aos nossos dias acabaram por chegar apenas dois, já com a numeração final da STCP: o 107, que foi recuperado para o museu com o nº 163 e o 111 que foi adaptado a carro esmeril. Estes dois são os únicos sobreviventes da série original de 24, pelo que qualquer um deles pode ter sido o 163 da fotografia antiga. Contudo e como individualmente apenas existem 4,16% de hipóteses dado terem existido 24 unidades, o mais provável é não ter sido nem um nem outro.

O "163" já devidamente restaurado, à parte o lanternim e a caixa de destino (foto de https://hiveminer.com/ - pormenor).
O "163" ainda em serviço, como 107 e já muito descaracterizado do seu aspeto original (foto de https://hiveminer.com/ - pormenor).

Não é portanto taxativo que o exemplar que se encontra no museu seja quer o da foto, quer o do acidente, sendo mais provável que não seja esse o caso. Ainda assim continua a ser, para mim, um elétrico precioso pela antiguidade e por ser original.

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NOTA:
Muita desta informação colhi pessoalmente dos meus encontros com o Sr. Ernst Kers que é para mim a pessoa que melhor conhece a história da frota de carros elétricos da CCFP/STCP. Para saber mais sobre estes veículos: The trams of Porto

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