terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

A meridiana da Torre dos Clérigos

Já ouvira há tempos falar deste mecanismo que esteve instalado no topo da Torre dos Clérigos, sobretudo dos escritos arquivados por quem ainda dela se lembravam, nas antigas páginas d' O Tripeiro. Pela meridiana acertaram os portuenses, durante décadas, os seus relógios. Depois de subsistir na torre durante largos anos, esteve a engenhoca instalada na casa mais alta (qual?) da rua 31 de Janeiro, onde ainda existiu durante pouco mais de um ano.

Nos apontamentos recolhidos n' O Tripeiro não recolhiqualquer referência à data em que havia sido instalada, por isso foi com grande alegria que descobri o texto escrito pelo próprio autor do automatismo no jornal O Nacional. Este vem datado de Maio de 1846 mas surge apenas publicado em Julho. Ainda nesse mês, no dia 13, o presidente da Comissão Municipal, José Passos juntamente com  Filipe José de Almeida, Martins dos Santos e Ribeiro Pereira ali se deslocaram em vistoria.

Eis então o relato sobre o funcionamento do mecanismo, pelo punho do seu autor.


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«Snr. Redactor, - Nem tudo será eivado do phrenesi do seculo, nem tudo será politica no nosso reino. Nesse vortice immenso em que giramos, onde mais vezes se batem as paixões que os interesses do paiz, tambem alguma cousa ha-de surgir de verdadeira utilidade. O Porto acaba de fazer uma adquisição desta especie, e por fortuna minha coube-me a mim o seu desempenho. Ahi tem elle uma meridiana sonante, ahi tem ele por tanto satisfeita uma das suas grandes necessidades.

A simples meridiana é uma maquina demasiado comprehensivel e de facil obra, mas não assim se este instrumento se encarrega de transmittir a hora que marca para um ponto longinquo por meio do toque de sinos. A meridiana que hoje tem o Porto pratica isto.

Acha-se ella colocada no magnifico e a todos os respeitos muito apropriado edificio da torre dos Clerigos, e a seguinte é a descrição abreviada do seu maquinismo e effeitos.

Passando o sol pela linha norte-sul da cidade (segundo a fraze ainda hoje recebida) um de oito delgados cordões feitos de quatro fios de retroz preto, que se acha na mesma linha, se queima quando ferido pelo foco de uma lente, e immediatamente pelos espaço de quasi dous minutos, se faz ouvir um repique em muitos sinos, e a detonação de um morteiro. Isto se passa na altura de 52 metros, ou pouco mais ou menos 235 palmos acima da baze da torre, e portanto dá aviso à maior parte da cidade de quando é o seu verdadeiro meio dia, e convida a todos para que regulem os seus relogios talvez duzentas e tantas vezes por anno que tantos são os dias presumiveis em que a atmosfera do Porto deixa ver a face do sol, devendo ao mesmo tempo fazer-se uso das tabuas d’equação, que muito bom seria, snr. redactor, se um qualquer periodico nos desse a sua publicação de futuro para mais commodidade dos habitantes.

Não obstante estar a meridiana collocada fóra da torre: e distante da máquina que tange os sinos, cousa de 50 palmos [11m], e esta afastada delles uns 102 [22,44m], o que tornou um pouco dificil a communicação deste lado; tudo se venceu, e uma vez truncado o cordão que se expoz á acção dos raios solares convergidos pela lente, os sinos tocam, echôa o morteiro, e a peça que contem os 8 cordões foge da sua posição, para depois de dar tempo á deslocalisação do fóco, vir offerecer, por um outro movimento que faz sobre o seu eixo, um novo cordão que no outro dia ha-de repetir esta mesma scena. E porque são 8 os cordões, e 8 tambem os dias de corda que aquella maquina tem, só depois de sectionado o ultimo cordão, é que é preciso refaze-la de novos cordões, e de nova corda que é necessario dar-lhe.
Pormenor de uma imagem de Frederic Flower que mostra a Torre dos Clérigos na altura em que a meridiana ali se encontrava instalada.
Se alguma meridiana semelhante a esta existe na Europa ou na America, eu não tenho disso conhecimento, e se as leis da mecanica não fossem circumcriptas a certos respeitos, e por isso mais faceis de se repetirem os seus resultados do que é possível renovarem-se as figuras do Kaleidoscopo, eu não teria duvida em sustentar que de certo outra meridiana igual não ha, por isso que ella é de minha pura invenção, e execução no mais delicado de suas partes. E ainda me lisongeio, que tão feliz fui em suas combinações, que nenhuma me falhou, e não tive que perder uma unica peça, salvo as que engeitei por menos consistentes, e ainda algumas outros em consequência do novo acordo tomado para serem tangidos mais sinos, e não um só.

Convencido como estou de que a minha obra é de inquestionavel utilidade, não quererei para mim o exclusivo dos ganhos que d’ahi possam provir; e por isso direi que o Porto a deve à Ex.ma. Camara municipal que a mandou fazer, aos seus commissionados, os Ill.mos snrs. Antonio Alves de Sousa Guimarães, e Manuel Joaquim Gomes Guimarães que comigo trataram; a s. Exc.ª o snr. bispo da diocese, aos Ill.mos mesarios da irmandade dos clerigos e seu secretario o Ill.mo snr. D. Francisco da Piedade Silveira, que prestaram o edificio, e finalmente aos meus amigos os Ill.mos. Snrs. Francisco Joaquim da Silva Natividade, João Vieira Pinto, Luiz Ferreira de Sousa Cruz, que particularmente me prestaram todo o auxilio de que careci para a levar a cabo, e outras mais pessoas que muito me obsequiaram, e que por não ser nimiamente prolixo deixo de mencionar, e a quem peço desculpa, e agradeço.

Sou, snr. redactor, de V. muito attento venerador e criado,
Verissimo Alves Pereira -  Porto 10 de Maio de 1846»

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Os Tripeiros que este aparelho conheceram e eram ainda vivos em 1908 escreveram nas páginas d' O Tripeiro várias notas das quais destaco a seguinte:

«... a tal meridiana, era um morteiro, carregado com pólvora grossa, chamada de pedreira, por ser da tal que servia para carregar os tiros abertos por meio de broca nas pedreiras, e que cheirava mal a tres kilometros de distancia, e proximo d'esse morteiro estava colocado um pequeno aparelho com uma lente cujos raios á hora do meio dia convergiam para o rastilho que estava á entrada do ouvido do morteiro, inflammavam a polvora d'elle, e zás... púm-úm-úm!

Toda a gente que trazia relogio no bolso, puchava por elle, não para saber se era meio dia, que annunciava o tal púm!, mas para vêr se os jornaes que traziam a equação do tempo, prevenindo do minuto ou segundos em que o morteiro fazia púm, antes ou depois do meio dia verdadeiro, falavam certo.

Escusado será dizer que nos dias em que não havia sol a descoberto, não havia meio dia.

Tres, quatro, ou mais dias de chuva ou de nevoa, como acontece durante o inverno, e a respeito do meio dia... nicles!

Ora como o tal púm ao meio dia fazia estremecer as pedras da tal varanda onde collocavam os taes páus com os saccos de café (salvo seja) e  ia-as desconjuntando pouco a pouco, resolveu quem d'isso tratava, supprimir o ta púm! com grave desgosto para os pedreiros e carpinteiros principalmente, que tinham grande sympathia pelos relogios de sol, que só regulavam quando havia sol, mas que elles colocavam sobre uma pedra, para quando désse o tiro na torre dos Clérigos, irem vêr se estavam certos!...»

Extraído de uma correspondência de um senhor que simplemente assinou F e que apareceu n' O Tripeiro, ano 1, p. 176.

NOTA: A observação sobre os paus e o sacos de café fica - prometo! - para o próximo post. Acreditem que é deveras interessante para sabermos mais um pouco de como se regulava o mundo do século XIX com os seus sucessivos avanços tecnológicos, mas ainda com bastantes limitações!

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