quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Um pouco mais sobre o Largo de S. Roque

NESTA minha postagem me referi ao Largo de Santa Ana, também conhecida como de S. Roque ou do Souto. Hoje recupero, dentro do mesmo assunto, um artigo da Revista o Tripeiro, na sua 1ª série (1908-1911).

A p.124 do vol. 2 diz-nos um certo C. L. se refere a ela nestes moldes:

«... Ora, a escadaria era ornamentada com uns magníficos vasos de granito, muito bem trabalhados, os quais - por arte de berliques e berloques . apareceram, depois, a embelezar, exteriormente, o restaurante "Sentieiro", na rotunda da Boavista. E ainda lá estão expostos à veneração dos fiéis. É o que sei dos despojos do, para mim, saudosissimo largo do Souto.

O largo do Souto!... Parece-me que estou a vê-lo: todo lageado, com a imponente escadaria, a capelinha lá no alto e a fonte ao centro da meia laranja; era mais - em meia tigela; mas era bonitinho, lá isso era!

E a fonte? Que linda! Estou bem certo dela: era formada por uma grande concha de argamassa, que tinha dentro um fedelho de barro, montado num golfinho de pedra com uma bica de ferro na boca, por onde saía melhor água do que a que hoje se vende a dez réis o copo.

Ainda hoje se vê, formando beco, na rua do Souto, uma nesga , com cunhal, que sobejou do que foi preciso gastar, do largo, para talhar a rua do Mouzinho da Silveira.

A nesga referida acima (pertenceriam aqueles parcos degraus ao arranque da escadaria que subia para a capela?) Mesmo por baixo passa o rio da Vila que na verdade só passa por baixo do leito da rua Mouzinho da Silveira no seu percurso mais inferior, num troço antes da rua da Ponte Nova.
O que restava do largo do Souto nos meados dos anos 80 do século XIX (2). O nº 1 indica o edifício da Adega do Olho e o 3 uma casa que se projetava construir no local outrora ocupado por parte da escadaria que subia para a capela, de onde se parece ver ainda alguns restos (reparar na curvatura).
Fronteira àquele beco, está uma porta (n.º 103) com a padieira em arco, que era a entrada de um túnel, por onde se ia ter ao "Rio da Vila", e aos "Aloques da Biquinha", e por onde passou, muitas noites, o ex-traquinas que isto escreve...»
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Esta casa com a padieira em arco ainda hoje se encontra na rua do Souto, sendo uma das poucas que sobreviveu do antigo largo por ser desnecessário expropriar para alinhamento da rua Mouzinho da Silveira (ver abaixo).
Casas sobreviventes do antigo largo do Souto assinaladas de 1 a 4, a casa 2 possuí o arco referido e todas elas fazem hoje parte da rua Afonso Martins Alho.
O rio da Vila parcialmente "à vista" ainda que bastante escondido por uma rede, aquando da obra de requalificação do eixo Mouzinho-Flores. Fotografia de Abril de 2013, na rua Afonso Martins Alho, local onde este passa naquelas imediações (e não o leito da rua do Mouzinho como normalmente se refere.)
Num artigo mais extenso (que transcrevo truncado) um senhor de nome João G. Oliveira e Torres descreve-nos muito bem este largo:

«... Era a praça ou largo do Souto, pelo lado do nascente, de forma semi-circular e encostava-se perfeitamente aos rochedos que formam o alto dos Pelames em seguida ao Corpo da Guarda; e neste lado foi que a Câmara mandou edificar a capela.

O largo representado na planta para a rua do Mouzinho, a amarelo as casas que sobreviveram, a vermelho o local onde agora temos a fonte monumental. Os pontos azuis indicam o rio da Vila.
Era ela exteriormente de forma oitavada e ficava como que encravada na parte central da frontaria; era de boa perspectiva e lindo gosto, e a respeito da qual o padre Rebelo da Costa, que escrevia em 1788, se exprime assim: "... a praça de S. Roque é formada em semi-circulo, lageada de pedra larga e fina, cercada de casas regulares com três andares, de janelas todas iguais e envidraçadas, uma capela feita à romana, que lhe serve de remate; duas bem repartidas escadas com balaústres da mesma pedra fina, vão formar diante dela um largo pátio, debaixo do qual aparece um lindo génio, cavalgado sobre um golfinho, que lança borbotões de água em uma bacia de pedra lavrada em forma de concha, merece alguma estimação do público apaixonado por similhantes obras."

O edifício era todo de pedra lavrada e tinha, por assim dizer, dos corpos: no primeiro sobrepujava-o uma cornija que corria pelas oito faces, e sobre este, mas mais dentro, assentava outro corpo de pouca elevação, que rematava em abóbada, sobre a qual se elevava um formoso zimbório por onde se coava a luz.
...
Ao lado do sul e pegado à capela existia uma pequena sacristia, onde o eclesiástico se paramentava, e em um armário com gavetões se guardavam os poucos paramentos e objetos do culto que possuía, e que pertencia a uma confraria a qual estava a cargo o culto e festividade de S. Gonçalo, confraria composta, na maior parte, de latoeiros que por aquelas proximidades moravam.

Além desta festa, também alguns anos ali se festejou ruidosamente a imagem de S. Vicente Mártir.
(...)
No largo havia feira às terças e sábados, de linho e seus derivados, como: estopa, tomentos e cobertas ás riscas.

Quando dali saiu o mercado os feirantes opuseram-se, e só em presença da guarda municipal é que submeteram a ir para o Bolhão, lugar que a Câmara lhe designou e onde atualmente se conserva.

O largo do Souto antes da hecatombe. A "micro" rua Afonso Martins Alho surgirá do desmembramento da rua do Souto, após o desaparecimento do largo.
Se nos últimos tempos o padroeiro S. Roque teve festa, não sei; o que sei é que as imagens que lá conheci eram: S. Roque, S. Gonçalo, S. Vicente e a Virgem das Dores.
(...)
Falemos agora do edifício.

A pedra, que era de boa esquadria, as escadas e o tanque, tudo foi empregado nas obras da nova rua Mouzinho da Silveira.

Os balaustres foram aformosear a parte superior do arco da fonte da mesma rua, e a água que caía no tanque, dizem ser agora a de uma das suas duas bicas.

A figura de granito que cavalgava o golfinho, e por muitos anos fora o enlevo dos rapazes e talvez o cismar das raparigas, essa dei-me ao trabalho de a procurar, e por fim encontrei-a.

Pouco depois da demolição da capela, era voz pública que aquela estátua fora, por ordem da Câmara, recolhida ao seu edifício, visto que ela era a proprietária de todo aquele monumento; mas passados alguns anos, mandaram-na para um recinto que há junto da casa da Desinfeção Municipal.

Aí me dirigi; mas já a tinham removido para as traseiras das obras em construção, lado norte da Biblioteca Municipal. Entre ruínas de arquitetura e destroços de escultura fui encontra-la; mas em que estado? como diria o poeta: nem sei como de nojo o conte! Estava mutilada, sem cabeça, sem um braço, sem um pé, servindo de calçar um pequeno muro, como coisa de nenhum valor!

A monte, talvez por se julgarem nulidades, ali encontrei brasões mutilados, cruzes lascadas, taças de fontes incompletas, capitéis partidos, e outras muitas peças truncadas que davam o aspeto de um grande cataclismo

A capela e a sua pequena sacristia ao lado. Abaixo da capela o tanque que dava de beber às pessoas às bestas e aos solípedes que por ali passavam (parece um desenho mas trata-se, creio eu, de uma foto).
Houve ideia de se aproveitar a capela e coloca-la em outro lugar; nesse sentido se empenhou uma comissão de influentes religiosos e políticos, com a Câmara para lhe permitir reconstrui-la na rua da Bainharia, lado do sul, no lugar onde depois se construíram dois prédios que naquela rua têm os n.º 40 a 52; mas o terreno tinha de ir à praça, e por essa razão a Câmara não o podia ceder, embora cedesse de boa vontade os materiais da demolição e lhe prestasse todo o auxilio em outro lugar que se escolhesse. Os influentes em vista disto, desistiram do seu propósito.

E assim desapareceu a capela, espalharam-se as imagens, mutilou-se a estátua, tudo se desfez, e deste naufrágio apenas escapou a devoção de S. Gonçalo cuja imagem, colocada na igreja dos frades franciscanos, é um símbolo de fé, uma memória de piedosa crença dos portuenses.»

(1) Como o escultor não tivesse o santo pronto no dia da festa, faltando ao prometido, arranjaram uma outra imagem e modificaram-na, pondo-lhe outra cabeça à semelhança da de S. Vicente!!!)

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