domingo, 22 de janeiro de 2017

A capela do Calvário Novo e duas fotos intrigantes...

A capela do Senhor do Calvário erguia-se no local onde hoje se encontra a entrada do parque de estacionamento privado do Palácio da Justiça. Praticamente adjacente a ela encontrava-se a casa da Roda dos Expostos - triste reflexo de uma expressão social felizmente erradicada - e ao lado desta esteve o Mercado do Peixe no local onde se haviam já erguido outrora os celeiros da cidade. Confuso o leitor? Nada que as fotos não resolvam!

Local onde esteve a capela do Calvário Novo (foto SIPA). À esq. temos a íngreme rua Dr. António de Sousa Macedo (Ex-Travessa do Calvário) e a rua do Dr. Barbosa de Castro (Ex-Rua do Calvário).

Pormenor de uma panorâmica anterior, pelo menos, a 1864. 1- Celeiros da cidade onde mais tarde existirá o Mercado do Peixe também já desaparecido; 2 Roda dos Expostos (antigo Hospício dos Capuchos); 3 - Capela do Calvário; 4 - Reitoria da Univ. do Porto (em construção); 5 - Paredão das Virtudes; 6 - Igreja da Graça e Colégio dos Meninos Orfãos que viriam a ser demolidos para dar lugar a grande parte do edifício da Reitoria.
Neste pormenor de uma panorâmica dos anos 20 ou 30 do séc. XX vemos quase os mesmos edifícios (mantive a numeração), contudo o n.º 1 é agora o Mercado do Peixe, demolido nos anos 50 do séc. XX.

Neste extracto de uma planta do AHMP, vemos os edifícios que tenho vindo a referir com a indicação para melhor localização do local, da capela das Taipas (a) e o hospital de St. António (b).

Outro extrato de uma planta, desta feita a de Telles Ferreira de 1892, onde se vêm os edifícios em questão.
Mas, centrando a vossa atenção na capela, pude consultar a obra de 1972 de Bernardo Xavier Coutinho (História documental da Ordem da Trindade) onde consta um documento curioso para a história desta capela e sua confraria. Diz assim:

«ORIGEM DA CAPPELA E CONFRARIA DO CALVARIO NOVO
Teve principio a capella e confraria do Senhor do Calvario Novo com o titulo do Bom Jesus de Bouças pela via sacra que principiava na Senhora da Esperança - o Calvario Velho foi onde hoje se acha a Igreja e Convento das Carmelitas  [lado sul da Praça Guilherme Gomes Fernandes] - havia huma simples cruz de pedra quadrada antiguissima e nella uma imagem de Christo pintada junto a huma cerca de terra dizima a Deos. Consta do Prazo que fez à Camara João Baptista Ferreira, em 1683 haver já a Capellinha do Senhor, como se vê das confrontações, crescia em augmento esta Confraria de sorte que, no anno de 1700, fizerão huns Estatutos confirmados e sugeitos ao Ordinario. Tendo grande devoção, Magdalena da Cruz Campobello, da Villa de Guimarães com o Senhor, fez o contracto de doação à Confraria, em 1703, com a obrigação de lhe fazerem huma Caza junto à Capella que julgo ser a terra da cerquinha da dita Magdalena da Cruz, para a dita viver .... Consistia a Capella naquelle tempo ser pequena, baixa, com hum alpendre de fora e huma Caza ao pé da Fabrica e Ermitão...

Em o anno de 1703 emprazarão os Mordomos à Camera a terra para reedificarem o corpo da Capella com o alpendre por Prazo fateuzim ... acabarão o corpo da Capella em 1705 e continuarão a obras de 1737 ... Em 1734 forão inquietados pelos Religiozos vezinhoos capuchos, alem das demandas, em pedirem a Capella ao Rey o Senhor D. João Quinto. Em 1737 fizerão os assentos ao redor da Capella e outras obras, tudo á custa da Confraria, como se vê de huma pedra nella esculpida que diz: Esta obra assim cazas como pateo e assentos se mandou fazer à custa das do Calvario Novo anno 1737.

A capela e adjacências nos inícios do século XVIII.
Em 1739 para 1740, se tirou a cruz de pedra e se pôz na Sachristia; se colocarão as Imagens que tinhão mandado fazer em vulto do Senhor Crucificado, e morto.

Não se descuidarão os Capuchos em verem de que modo havião de uzurpar a Capella, de sorte que começarão a miná-la pela parte de traz que confina com a sua Cerca, e movendo-se pleitos sobre isto se fez vistoria que se julgou por sentença ... e de que dipois rezultou fazer-se o paredão. Da parte da Viella intentou o Galvão fazer humas Cazas terreas encostado ao muro do paceio e Logradouro da dita Capella e fazendo-se vistoria, se julgou ser a terra do Publico ....

Em 1784 tornaram a pedir a Capella os Capuchos à Raynha a Senhora D. Maria primeira, vindo a informar responderão até o anno de 1787 por motivo de que fizerão o contracto de transacção com a Ordem [da Trindade].»
A capela no fim do século XIX ou início do XX, já reduzida a armazém.
Com efeito, a Ordem da Trindade foi erecta na capela da Batalha (também já desaparecida) em 29 de junho de 1781, transferindo-se para a do Calvário em 26 de Novembro de 1786. No processo aglutinaram a confraria do Calvário: «... por isso fizerão aquelle comtracto, com os da Comfraria do Calvario, de tomar conta, e posse da Capella e todos os mais Bens, ficando a Comfraria extinta, emtrando para Irmãos terceiros todos que erão, e possuiô a dita Comfraria ... declarando somento que no dia da Festa da Santíssima Trindade no qual costumavam Festejar o Senhor do Calvario farião comemoração do mesmo Senhor....»

Mas os vizinhos Capuchos não deixaram de azucrinar a cabeça, agora à Ordem da Trindade. E assim pediram ao Chanceler Governador Roberto Vidal da Gama que lhes dispensasse a capela para nela poderem confessar. Este acedeu ao pedido e «...forão os Padres com offeciais de Justiça com hum comfencionario para emtravar a Capella ao que acodio o Reverendo Capellão que nella se achava actualmente e a pontapés sacodio tudo pella porta fora...»

A igreja da Trindade, na verdade, poderia nunca ter sido erguida no local onde hoje se encontra, caso os Capuchos não tivesse feito de tudo para ficar com aquela capela... Pois que a Ordem, querendo construir uma igreja maior, obteve uma provisão para emprazar terreno até à face da rua e com esse espaço mais o seu terreno próprio, teria área suficiente para uma igreja de tamanho mais decente, em acordo com o número de Irmãos. No entanto logo os Capuchos armaram desordem: «... e trabalhar já a respeito de votar pedra - na testada já com o embargo sobre o tilheiro da Cal de firmar sobre a parede da parte do Caminho, e no mesmo fazendo-se o aliserse sahirão com paus nas mãos para darem em alguns trabalhadores e Bemfeitores que depois do dia andavão no alicerse a tirar emtulhos para adiantamento da obra...». Os Capuchos vieram argumentar junto da rainha que aquela igreja era desnecessária por haver muitas à volta, que seria sumptuosa e assim esvaziaria os cofres da Ordem... E a ordem saiu para «que se conservasse tudo no Estado antiguo».

E assim, querendo os da Trindade se defender, «tractouse de mostrar a verdade porem como esta he mansa e anda de Vagar» os Irmãos já não conseguiram reverter a situação.
A antiga capela nos anos 30 do séc. XX, pouco antes da demolição. Notar que já se haviam rasgado quatro portais no seu rés-do-chão, fruto de uma utilização de décadas como edifício comercial. A seu lado a Roda dos Expostos (2) e o Mercado do Peixe (1) ao lado.
Assim, o sonho de construir ali uma igreja, tão ampla como a da Trindade que agora temos, esfumou-se e após as últimas alegações dos Capuchos que diziam que na abertura dos alicerces já tinham morrido 3 homens, deu ordem para «emtupir» esses mesmos alicerces o Juíz dos Orfãos da cidade e quando a Ordem da Trindade requerer um local para arrumar a pedra lavrada, «respondeo que a metesse pella Igreja Dentro...».

NOTA: Os capuchos que se referem no texto eram os Franciscanos do Vale da Piedade, em Gaia, que resolvendo construir um estabelecimento para a cura dos seus doentes, requereram à camara faze-lo dentro da cidade. Em 1722 foi-lhes concedido um local na praça da Cordoaria, onde segundo Sousa Reis construiram «huma enfermaria ... e de tal forma a levantaraõ que veio a ser hum bom Hospicio bem assente com otimas vistas, annexando lhe dous soberbos armazens de que colhiaõ pingue alugueres». Este edifício, com a extinção das Ordens religiosas em 1734 foi escolhido para fundação da Biblioteca Pública Municipal do Porto, contudo por ser desadequado, no mesmo foi depois estabelecida a Roda dos Expostos.

Nesta foto do AHMP vemos em destaque as traseiras do Mercado do Peixe e ao seu lado, com o nº 2 o edifício da Roda dos Expostos, antigo Hospício dos Capuchos.
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Finalizo com um enigma... As duas imagens que se mostram abaixo pertencem ao AHMP e não estão identificadas quanto ao edifício que representa mas onde se pode claramente verificar que foi na sua origem religioso. Se olharmos com alguma atenção, na parede interna visível existem muitos entalhes onde se colocaram traves por forma a formar um sobrado. Ora uma igreja nunca teria um sobrado, muito menos naquele local, na aproximação à capela-mor(!) pelo que aquele edifício desempenhou no fim da sua vida outras funções...

Tenho para mim, que estas fotos representam a demolição capela do Senhor do Calvário. Ajudou-me também a pensar desta forma a ausência de edifícios por trás, bem como o desnível aparente, que se vê para o edifício que surge á esquerda com a sua claraboia, que parece ser o mesmo que se encontra do outro lado da rua na segunda imagem desta postagem..

Obviamente que nunca ou dificilmente terei certeza deste meu pensar, mas e já agora, pergunto aos meus caros leitores: Estarei a querer ver demais?



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