sexta-feira, 30 de junho de 2017

A nova casa d' A Porta Nobre é aqui: 




domingo, 18 de junho de 2017

D. Manuel de Santa Inês - um bispo proscrito (2)

A postagem anterior foi interrompida aquando de tomada a decisão de trazer os restos mortais de D. Manuel de Santa Inês para o cemitério da Lapa, pelo que prossigo com o que expõe o periódico de onde colhi estas linhas, na mesma notícia:

«A irmandade da Lapa, mandou à pressa armar de preto os altares, da sua ampla, e majestosa igreja. O concurso foi imenso à porta da Sé, e ruas contiguas; e apesar de estar uma noite escura, e chuvosa, o acompanhamento, e concurso das ruas do trânsito, era grande.

Seriam 8 horas quando chegou à Lapa o carro da morte, puxado a duas parelhas.

O caixão foi recebido à porta da igreja, aonde se lhe entoou um responso, cantando a oração o Ilmo. Sr. Cónego Luís de Santa Rita Araújo, especial amigo de sua Ex.ª.
- Depositado o caixão na capela mor, e cantado o responso a musica, foi o cadáver conduzido para o jazigo dos mesarios, e aí se lhe fez a embalsemação, para se transportar, a seu tempo, ao mausoléu, que se lhe destina fazer.

Toda a real capela da Lapa estava iluminada, e o número de assistentes com tochas era prodigioso. Uma força de artilharia de linha, em grande uniforme, um esquadrão de cavalaria, e uma pequena força do 1º batalhão da G. N. com a sua música acompanharam, com imenso povo, o carro da morte.

Desde o meio da tarde, os sinos da Sé, e à noute todos os da cidade com seus acentos tristes, anunciavam o ato religioso, que à noute teve lugar.

Assim findou este ato, que tantos motivos deu para elogios, e para censuras.

Em toda a cidade é a conversa do dia os procedimentos do Ilmo. Cabido, a quem censuram por mais de um motivo.

Censuram-se os membros do Ilmo. Cabido, que não acompanharam o Sagrado Viático, censuram-no também por não assistir ao ofício, em corpo de cabido, por se ter colocado a eça, no corpo da igreja, como se sua Exa. fosse um sacerdote ordinário. Argumenta o público que tendo todas as autoridades civis, e militares, tributado ao vigoroso vigário capitular, todas as honras de bispo, rem recearem, que o governo os censure, ou lhes tome conta da pólvora, que se gastou, o Ilmo. Cabido, não devia ter tantos escrúpulos, nem ser tão exato nos seus rituais. (...)»

«//»

Uns dias mais tarde, acharam por bem alguns membros do cabido explicar as suas ações e enviaram uma comunicação para os jornais:

O Cabido da Sé da Invicta Cidade do Porto para conhecimento do Público.
Tendo o Cabido da Sé Catedral desta invicta cidade observado com a maior dor, e mais profundo sentimento; como as cerimónias do funeral feito a S. Exa. o Sr. bispo eleito da diocese D. Manuel de Santa Inês em 25 do corrente foram interrompidas por desentoados alaridos quasi no momento de chegarem à campa os restos mortais daquele virtuoso varão; e vindo no conhecimento, que talvez pessoas mal informadas das Leis Eclesiásticas da liturgia própria do ato, e até da posição do Cabido com relação àquele funeral tem querido lançar o odioso sobre o mesmo Cabido ou alguns dos seus membros; desejando estes que a verdade e só a verdade apareça em objeto tão importante, faltariam aos deveres da caridade cristã, e à sua própria honra se se conservassem silenciosos sobre negócios de tanta gravidade.

A corporação do Cabido não teve ingerência alguma sobre a determinação, e arranjo do funeral; e menos sobre a designação da sepultura. Esta foi da escolha de S. Exa. segundo a declaração da respeitável pessoa que lhe recebeu sua última vontade. O Cabido nem neste ponto, nem noutro relativo ao funeral mostrou a mais pequena repugnância em ordem a honrar os restos mortais do bispo eleito - Em corporação assestiu ao ofício de honras celebrando o chantre do Cabido, e oficiando os mais cónegos segundo o ritual. E em corpo seguia em porcissão o cadáver à sepultura, quando um barulho, e motim veio profanar a santidade e conclusão do ato - ficando tudo na mais completa desordem!!!

Debalde o Reverendo Santa Rita, cónego que havia assistido aos últimos suspiros de S. Exa. declarou qual era a sua vontade, e que conforme ela ia ser sepultado... Esta vontade era esquecida, então mesmo que se inculcava fiscalizar sua glória e que se deviam honrar virtudes, que ninguém desconhecia ... Uns pertendiam que fosse levado o cadáver do Ile. varão ao jazigo dos bispos, e por esta falta quer-se acusar o Cabido - sem se advertir, que o Cabido não tem nada com o jazigo dos bispos, que pertence aos bens da Mitra; que se alguma providência houvesse a dar, pertenceria a sua Exa. o Sr. Administrador Geral (...); e sem enfim se advertir que pedir tal era solicitar a infração do decreto de 21 de setembro de 1835 visto que o jazigo é na capela mor.

Pertendiam outros, no excesso do seu zelo representar de menos decente a sepultura destinada, sem se reparar que aquele local é o próprio cemitério dos cónegos; aquele em que há pouco foi sepultado o Ilmo. e virtuoso conselheiro João Pedro Ribeiro; aquele enfim, que S. Exa. tinha escolhido, ou por humildade de caráter ou pela consideração para com um Cabido, que sempre tinha feito a verdadeira justiça às suas virtudes e com quem sempre vivera em harmonia ainda que pelo Conc. de Terent. Sess. 24 de Reform. C. 12 e Cerimon. Episc. L. 1.C. 8 e L.2.C.8. não pudesse, enquanto não sagrado, acompanha-lo na celebração dos ofícios divinos.

Finalmente lembraram outros o cemitério da Lapa - a vozes tumultuosas de - Lapa, Lapa - sem se saber como ou porque razão dadas!... Esta lembrança; talvez a mais contrária à vontade de S. Exa. prevaleceu, sendo secundada pela autoridade.

O Cabido respeita a ordem, que sancionou aquela voz, cujo fundamento nem mesmo quer investigar; mas não pode consentir, que se menoscabe seu procedimento envolvendo-o numa censura, de que com verdade se não achará causa razoável. Ele fez o que devia, e o que podia sem se afastar uma linha do preceito, e do costume: como é fácil de conhecer pela simples exposição do facto: pertender mais era querer a desordem e eis aqui porque o seu coração tão puro, como suas ações prevê com bem sólido fundamento, que os homens que sabem profundar os objetos, e meditar nas suas relações hão-de fazer-lhe a justiça, que merece... O Cabido tanto tem querido acertar com o verdadeiro caminho que logo que faleceu S. Exa. expediu um próprio a Lisboa a pedir as necessárias instruções sobre nomeação do vigário Capitular para que não deslocando o seu proceder do sistema sensato do governo em matérias religiosas não viesse de alguma sorte a comprometer o andamento das negociações com a Corte de Roma - e a consciência dos povos. Quem assim procede, não teme ser julgado

Esta comunicação vinha assinada pelo Chantre Tomás da Rocha Pinto, pelo Tesoureiro mor José da Rocha Pinto, pelo Arcediago de Oliveira Ricardo VanZeller e pelo Acipreste Alexandre da Cunha Vale. Antes dela vem a análise feita pela Vedeta da Liberdade que não transcrevo para não alongar uma já longa postagem.

Aspeto atual do mausoléu de D. Manuel de Santa Inês no cemitério da Lapa. De acordo com o Cabido este local da inumação contrariou a última vontade do defunto. (foto do autor)
O que se passou posteriormente, desconheço (para já...). Certo é que, em 31 de janeiro, Costa Cabral, por lhe ter chegado notícias que «o sossego público da cidade do Porto estivera por momentos a ser seriamente alterado» por alturas do funeral do bispo, e como «não podendo dos papeis, em que este facto é relatado, inferir-se com certeza quem dera a ele motivo, por isso que todos se contradizem entre si»; o Governo manda o Conselheiro Presidente da Relação do Porto que o informe muito brevemente «do modo porque teve lugar aquela desagradável ocorrência; declarando se ela foi puramente fortuita, ou se foi provocada, por quem, com que motivos, e para que fins prováveis».

Polémicas funerárias à parte, para a eternidade ficaram gravadas estas palavras no túmulo de D.Manoel de Sancta Ignez, ainda hoje patente no cemitério da Lapa:

À MEMORIA DE D. MANOEL DE SANCTA IGNÊZ ERIGIRAÕ OS HABITANTES DESTA CIDADE INVICTA ESTE MONUMENTO QUE ENCERRA OS DESPOJOS MORTAIS DO INCLYTO PRELADO TRASLADADOS AQUI A INSTANCIAS DOS CIDADAÕS QUE CONCORRERAÕ ÀS SUAS EXEQUIAS NA CATEDRAL
1840

*
NASCÊO EM 2 DE DEZEMBRO DE 1762, FOI NOMEADO BISPO POR S.M.I. O DUQUE DE BRAGANÇA EM 1833, ANNO DO MEMORAVEL CERCO DO PORTO, FALECÉO EM 24 DE JANEIRO DE 1840
*
A MITRA NAÕ CINGIO A SUA FRONTE; MAS FALTE A MITRA EMBORA: DESSA FALTA NADA SEU GRANDE NOME SE RESENTE ADORNADO, COMO ELLE, DE VIRTUDES QUANDO NAÕ EXISTIO, QUE ASSIM CUMPRISSE DO SACRO MINISTERIO AS FUNCÇÕENS TODAS.



Para quem quiser saber mais sobre a vida deste bispo, existe um manuscrito inédito na Biblioteca Pública Municipal do Porto, pela pena de Henrique Duarte da Sousa Reis que foi seu secretário (mais conhecido por ter escrito os Apontamentos para a verdadeira história antiga e moderna da cidade do Porto).
Quanto ao bispado portuense, este só ganharia uma nova cabeça passível de ostentar a mitra episcopal três anos depois da morte deste prelado, que fora - não se pode negar - eleito pelo "regente em nome da rainha".

segunda-feira, 12 de junho de 2017

D. Manuel de Santa Inês - um bispo proscrito (1)

Nestas coisas de ver jornais velhos, vou encontrando histórias bem interessantes e surpreendentes; muitas delas dignas de figurar em livros monográficos. A história do enterramento do bispo em título é disto um exemplo.

Em 24 de janeiro de 1840 faleceu D. Manoel de Santa Ignez, governador do Porto e seu bispo desde 1832. Separava-o dos outros bispos a forma como chegara ao cargo: por escolha régia. Na verdade, este bispo nunca foi confirmado pelo papa, e claro, foi eleito por D. Pedro IV por ser um caso raro: um eclesiástico afeto à causa liberal! Data de 18 de julho a sua nomeação, assinada por José Xavier Mouzinho da SIlveira que refere: «Tendo-se verificado por inquirição de testemunhas que o bispo do Porto desertará daquele rebanho de Jesus Cristo, que tinha sido confiado ao seu ministério (...): Hei por bem, em nome da rainha, nomear para fazer as vezes de bispo, na qualidade de Governador do mesmo bispado, a Frei Manuel de Santa Inês, da Ordem dos Religiosos de Santo Agostinho Descalços (...)». Assim vem publicado na Cronica Constitucional do Porto de 19 de julho de 1832. Diga-se de passagem, que ao mesmo prelado foi entregue o arcebispado de Braga, que se encontrava em Sede Vacante pelo mesmo motivo: fuga.
Busto de D. Manuel de Santa Inês em Baguim do Monte, sua terra natal (foto WIKIPEDIA)
O bispo "ausente" era D. João de Magalhães e Avelar, que sempre se mostrara contra o liberalismo (ironia das ironias, falecido logo em 1833, a sua valiosa biblioteca pessoal veio a constituir o núcleo inicial da Biblioteca Pública Municipal do Porto, fundada por D. Pedro IV no mesmo ano!).

Mas Dom Manuel de Santa Inês parece ter sido algo "proscrito" pela Mitra e Cabido e mesmo a cronologia dos bispos do Porto disponível na internet o não inclui, talvez pela ausência da confirmação papal que de facto nunca teve (veja-se a imagem abaixo). Para saber um pouco mais sobre a vida deste prelado é só dar um salto à sua página no sítio da Junta de Freguesia de Baguim do Monte.
Excerto da Cronologia dos bispos do Porto onde D. Manuel não consta.
Contudo, esta postagem centra-se sobretudo na forma como se passaram as suas exéquias fúnebres, que reforça a minha convicção de que aquele bispo nunca foi bem aceite por todo o clero diocesano...
Mas antes de lerem o restante, caros leitores, a advertência de sempre: toda esta informação colhi-a na Vedeta da Liberdade, pelo que dada a clara "cor" dos jornais da altura (e os de hoje serão assim tão diferentes?...), representa os factos vistos unicamente por aquele periódico que não morria de amores pela Carta Constitucional...

«--»

Logo no dia 25 teve lugar na Sé «o ofício solene de defuntos, pelo repouso da alma do Exmo. bispo eleito». A missa foi cantada pelo Chantre Tomás da Rocha Pinho «e tanto este senhor como os seus companheiros, que estava no seu coro baixo, de batina e capa, só figuravam como particulares, e não como cabido

O jornal prossegue com uma pequena descrição das autoridades e militares presentes, dizendo também que o General Barão de Alcobaça «tinha mandado dar tiros de artilharia de espaço a espaço, e ele mesmo se postou à testa de toda a tropa de pret e voluntários móveis, fixos, e provisórios, tanto da cidade, como dos subúrbios, que chegava desde a porta da Sé até ao meio da rua Chã».

E prossegue: «Quando o finado bispo eleito se sacramentou, com aquela candura, e humildade cristã, que tanto o dominava, pediu ao Ilmo. cabido, que por favor sepultassem seu corpo em uma sepultura do claustro; é neste lugar, que se sepultam os cónegos[1] (...). O Illmo. cabido, ou quem quer, que domina em designar, em tais casos, as sepulturas, mandou abrir a campa, não no claustro, debaixo dos arcos, mas sim num lugar descoberto, que fica circundado pelo claustro.

Acabado o ofício quando se tirava da eça o caixão para se conduzir à sepultura, principiou um grande alarido, pedindo uns que o cadáver fosse conduzido para a real capela da Lapa, e outros, que fosse sepultado no jazigo dos Srs. bispos; crescia cada vez mais o tumulto, e o povo ameaçava os cónegos, e lhes exprobrava não fazerem as devidas honras ao bispo feito pelo Sr. D. Pedro = os que levavam o caixão, e o mais do préstito fugiram, e o caixão ficou ao desemparo no meio do chão, e só ficou abraçado no mesmo caixão o Sr. abade de S. Nicolau: nisto deu o Sr. abade um público testemunho da sua amizade, e da sua gratidão, nisto mostrou este benemérito pastor, que se não esqueceu, que ele era esse Sr. Faustino, a quem sua Excelência tanto beneficiou em vida, como já dissemos[2].

A área central do claustro da Sé portuense numa fotografia disponível na Gallica, seria este o "lugar descoberto" onde se pretendeu sepultar D. Manoel de Santa Inês?
Estando as cousas nesta desordem o Exmo. Sr. Barão de Alcobaça e o Exmo. Sr. Administrador Geral trataram de acomodar o túmulo (sic), do melhor modo possível: o Ilmo. cabido assustado já oferecia, que o cadáver fosse sepultado na capela de S. Vicente, jazigo dos Srs. bispos; um momento pareceu o povo deliberar, mas as vozes se ouviram: à Lapa à Lapa, porque podem desenterrar o corpo e leva-lo para outra parte: estas vozes foram seguidas, e o caixão tornou-se a por na eça, havendo a circunstância, que algum cuidado deu, de se queimar um bocado do bambolim, que servia de ornato à eça.

Decedido, que o cadáver fosse sepultar à Lapa, deram-se todas as providências para esse fim.»

Interrompo aqui por agora; mas continua...
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1 - ou seja, não os bispos, que estes ficavam dentro da igreja.
2 - pelo "tom" das palavras poderá haver aqui uma crítica velada...?

segunda-feira, 5 de junho de 2017

Curiosas notas do tempo da iluminação a azeite.

Sempre tive a Foz do Douro como um território algo apartado, diferente, do restante Porto; ou para ser mais concreto, do seu centro histórico. Pela sua situação e importância bem que merecia, a meu ver, o nome de Vila (um pouco à imagem de Sintra). Não no sentido de a diminuir, mas no sentido de dar enfase ao seu caráter diferente; que em certa medida ainda se faz sentir no território que hoje muito administrativamente chamamos de concelho do Porto. E quanto a opiniões, por aqui me fico.

Poucos saberão que já existiu um concelho de S. João da Foz do Douro[1], que durou a efémera vida de 3 anos. Ocorreu em 1833, na altura em que o Portugal moderno começava a nascer, após o triunfo do liberalismo, numa reorganização do território. Em 1836 uma reforma mais profunda dessa organização territorial viria a extingui-lo. Lembremo-nos que naquela época, Massarelos era um arrabalde do Porto; Porto esse que distava do mar cerca de 4 km!

Este curioso apontamento encontrei-o numa secção CORRESPONDÊNCIA da Vedeta de Liberdade em outubro 1835, o último ano completo em que tal concelho existiu.

«Sou de S. João da Foz, aonde tenho vivido toda a minha vida, passei, e corri todos os riscos que ali houveram no tempo do memorável assédio, e saindo triunfante da luta, com todos os meus concidadãos, pensei que poderia gozar em paz os frutos de um governo justo. Concorro, e sempre concorri para os encargos do Concelho, porque estou convencido que quem goza dos benefícios da sociedade, deve sofrer os seus encargos. Mas que injustiça, Sr. Redator, não é ser eu obrigado agora a pagar para a iluminação da Cidade do Porto, quando este Concelho é separado e independente!

Eu nada sei de lei, mas tenho ouvido dizer que existem leis a este respeito, que nos não mandam concorrer para similhante tributo, e que uma Portaria que existe que nos manda pagar por nos aproveitarmos daquela iluminação, não pode derrogar leis anteriores, porque o Ministro não pode legislar, e além disso é uma injustiça concorrerem os da Foz para a iluminação daquela Cidade tendo nós precisão de iluminarmos nosso município, de que também se aproveitam os Srs. daquela Cidade, devendo concorrer para a nossa, se nós houvermos concorrer para a deles.

Veja pois o Sr. Redator o seguinte ofício que a Municipalidade de S. João da Foz dirigiu ao Governador Civil, e esperamos pela sua resolução.

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Cópia do Ofício

Ilmº e Exmº Sr. A esta Câmara Municipal do Concelho de S. João da Foz, é presente o ofício de V. Excª com data de 26 de mês passado, em que lhe faz constar o indeferimento, que por Sua Majestade tivera o requerimento de Manuel Felizardo de Sousa e Melo, arrematante do imposto de dous reis em cada arratel de carne, aplicados para a iluminação dessa Cidade; e pedindo abatimento no preço da arrematação, pela importância não recebida dos Concelhos circunvizinhos, por terem as Câmaras respetivas arrecadado este com outros seus rendimentos; e posto que  esta Câmara se não diga explicitamente o destino desta participação, parece todavia encaminhar-se a que ao dito arrematante esteja pertencendo direito, e ação para haver dela, o arrecadado produto do dito imposto no seu Município; porém a Câmara Municipal de S. João da Foz se julga no rigoroso dever de patentear, e expôr o seguinte: que esta Municipalidade de S. João da Foz está inteiramente separada e independente da dessa Cidade do Porto, por Leis muito expressas, e terminantes, quaes o Decreto n.º 23 de 16 de maio de 1832, e Decreto de 28 de Junho de 1833, e mapa a ele junto, que esta independência assim estabelecida pelos ditos Decretos, e corroborada no Decreto de 18 de julho de 1835, está francamente reconhecida pela Ilm.ª Câmara Municipal do Porto no seu Ofício a essa Prefeitura, em data de 15 de maio de 1834, que em consequência de ser assim independente, esta Câmara de S. João da Foz não reconhece, nem pode reconhecer na dessa Cidade, a faculdade de se intrometer na arrematação, e administração dos impostos cobráveis dentro do seu Município; anuiria a Ilustríssima Câmara dessa Cidade, que a deste Concelho da Foz se intrometesse, na administração dos seus bens, e direitos? São por ventura comunicáveis a esta Municipalidade de S. João da Foz as regalias, e favores concedidos à do Porto? Esta Câmara está constituída na mais restrita responsabilidade, e é a única, competente para administrar, e reger os bens e impostos do seu Concelho, segundo o artigo 23 do citado Decreto de 18 de julho deste ano, nesta Povoação de S. João da Foz, composta de mil e duzentos fogos, e não de 942, como se diz no mapa moderno do Distrito do Porto; contando-se alem disso trinta e duas ruas, precisa-se tanto ou mais a iluminação, como na Cidade do Porto, porque o tráfico da pesca, e serviço da Barra exige, que os seus habitantes quasi não façam diferença, entre a noite e dia, e mais se aproveitam os Portuenses ali da iluminação, nos meses próprios da banhos, do que os moradores da Foz, da iluminação das ruas do Porto; nada valendo o fundamento deduzido dos Expostos, porque mui diversa é essa repartição, nem a despeito das Leis vigentes se pode estabelecer a lembrada compensação, quando lugar tivesse.

Finalmente expõem esta Câmara que a iluminação desta Povoação, já teve princípio em 1831 a 1832; a requerimento dos Povos deste Concelho, e se contavam 12 lampiões acesos; contudo esta Câmara, se prontifica à entrega requerida, e a contribuir do mesmo modo que até aqui, uma vez que a Câmara do Porto lhe mande concluir a iluminação à sua custa, e continuar debaixo da administração desta Câmara, atenta à independência estabelecida, de jamais reconhecer-se responsável por contrato que não fez. As percas e danos, e os serviços prestados pelos Povos deste Concelho, à Rainha, e à Carta Constitucional, no tempo do terrível assédio, são assaz bem notórios. e merecem a mais séria atenção de Sua Majestade;  e se tantos serviços não merecem premio, nenhum serviço merece ser premiado: esta Câmara julga ter assim desempenhado o que lhe cumpre; e roga a V. Excelência se digne dar a esta sua franca exposição, o destino que achar justo. Deus guarde a V. Exc.ª em Câmara de 14 de outubro de 1835. - Joaquim Turíbio de Meireles, Presidente. - José António de Oliveira, Fiscal. - Francisco António de Miranda, Vereador. = Exmo.º Sr. Governador Civil do Distrito do Porto.»

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Um ofício realmente arrojado... Para esclarecimento dos meus leitores que vivem no século XIX convêm referir que naquele tempo vários impostos eram ainda cobrados ao nível dos municípios, daí a referência ao imposto sobre o arratel de carne (mas vários outros existiam) e a sua cobrança era arrematada por particulares, por períodos de tempo.

A referência aos Expostos, provêm das queixas da Câmara do Porto, que já por essa época enviara várias petições ao Governo, por exemplo para que este pagasse os empréstimos que a Câmara lhe havia feito na época do cerco, pois que a despesa só com este estabelecimento era já um abismo, faria o restante dispêndio a que se somava abertura de algumas ruas, etc...

E para finalizar, para quem teve a paciência de ler o texto até ao fim, tenho a certeza que não deu o seu tempo por perdido, e conseguiu ficar a saber um pouquinho mais sobre, sobretudo, o efémero concelho de S. João da Foz e a pouco pacífica convivência (a julgar por este ofício) com o seu vizinho tripeiro.

Se assim for, sinto-me com missão cumprida.

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1 - E já agora um outro de Campanhã.

quarta-feira, 31 de maio de 2017

O filme mais triste que conheço sobre o Porto

O título não sofre exagero; pois deu-me uma grande tristeza misturada com revolta na alma quando vi este filme.

Não é apanágio deste blogue divulgar vídeos ou fotografias per si, contudo não pude deixar de ceder ao impulso de aqui registar este video do Sr. A. S. Tavares disponível no youtube, até porque se encontra de algum modo relacionado com as duas postagens anteriores.


Este pequeno filme de 49 segundos serve, quanto mais não seja, para que nunca se esqueça este crime patrimonial. Sinto-me pessoalmente lesado por aquela geração não me ter permitido desfrutar de um edifício que seria atualmente sem sombra de dúvida um ex-libris da cidade.

sexta-feira, 26 de maio de 2017

O órgão de tubos do Palácio de Cristal (2)

Se atrás vimos como se compunha este instrumento que por perto de 80 anos teve lugar cativo lá ao fundinho da nave central do extinto Palácio de Cristal, vamos agora partir para a parte mais difícil desta jornada: o seu triste desaparecimento.

(Os apontamentos abaixo foram também eles coligidos do artigo de L. A. Esteves Pereira, mencionado na entrada anterior.)

No ano de 1935 quis a Câmara Municipal proceder à reparação do órgão. Para isso aceitou, em julho, várias propostas de afinadores e construtores nacionais e estrangeiros. A própria casa que construíra o instrumento quase cem anos antes se disponibilizara para trazer um técnico ao Porto, por forma vistoria-lo e apresentar então a sua proposta.

Não obstante todas elas terem sido avaliadas, certo é que o restauro nunca teve lugar, e assim permaneceu o instrumento mudo por mais uns bons anos.

A nave central num postal do início do século passado. Ao fundo, ainda imponente, podemos ver o órgão (foto AHMP)

Em 1947 a Câmara do Porto fez vir à cidade um técnico de uma firma lisboeta João Sampaio, Lda, com o intuito de examinar e avaliar o órgão e de seguida apresentar a sua proposta. Esta firma foi consultada por indicação do diretor do Conservatório Nacional, Dr. Ivo Cruz.

As notas que se vão ler abaixo são do sócio gerente da firma, Eng. José Ramos Sampaio, e são a constatação e uma evocação da miséria a que aquele instrumento havia chegado:

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«(...) Fomos ao Palácio. Não nos queriam deixar entrar, sendo necessário para isso mostrar a carta em que a Câmara me participava a aceitação das condições para eu fazer a dita vistoria.

Logo atrás de mim veio um outro guarda que disse depois que tinha ouvido a conversa e vinha para auxiliar em qualquer coisa.

Depois de por uma escada de madeira, restos de um escadote improvisado e termos improvisado e termos subido para o estrado do órgão, despimos os casacos e vestimos os fatos de macaco (eu e o Mário). Entramos lá dentro levando eu a pasta com os apontamentos.
O exterior do edifício também num postal do início do século passado. Quem sabe terá sido por este lado que o órgão foi sendo peça a peça subtraído? (foto AHMP)

Fiquei espantado quando vi que tinham desaparecido todos os tubos. O Mário só encontrou um minúsculo, fino como metade de um lápis e que estava caído e quase não se via, por isso escapou. Não havia mais. Nos secretos todos, (exceto nos dos Pedais) não havia um tubo de madeira no lugar. Tinham sido todos tirados do lugar para facilitar o roubo e estavam amontoados sobre os secretos. Nos secretos laterais da pedaleira tinham ficado no lugar os tubos grandes de madeira e os funis (só os funis) dos tubos de palheta (os pés de chumbo com as palhetas desapareceram).

No secreto surdina (todo dentro de uma caixa expressiva) tinham tirado várias réguas expressivas para entrarem lá dentro e fazer a mesma devastação.

Era horrível o aspeto daquilo. Restavam os tubos da fachada, receavam talvez que se visse a falta.

Não escondi a minha revolta mesmo diante do guarda que estava lá com a gente, tendo eu até chamado a sua atenção para os sítios que pisava e onde podia estragar alguma coisa.

O homem disse-me que aquilo estaria assim há muitos anos! Respondi que não pois eu mesmo lá estivera havia 12 anos e não faltavam senão poucos tubos.

Contou-me que alguns empregados que estiveram já se tinham ido embora. um até tinha ido para a Venezuela!

Os teclados e registos têm à frente umas portas envidraçadas. Estavam fechadas à chave.

No outro dia visitei o Diretor dos Serviços Culturais, na Câmara...

Voltámos [para Lisboa] no rápido da tarde.

Assim se perdeu uma bela obra e nós um possível trabalho.»

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Ou seja, o órgão estava já irremediavelmente perdido...

Assim, graças à egoísta ratonice de alguns que viram ali presa fácil para o ganho de alguns escudos; se perdeu um instrumento que ainda hoje poderia estar a fazer as delícias dos ouvidos portuenses, mesmo que não no local onde fora originalmente instalado, por também este ter sido vítima de um crime de lesa património perpetrado por quem dele deveria cuidar!

domingo, 21 de maio de 2017

O órgão de tubos do Palácio de Cristal (1)

O muito recordado Palácio de Cristal, monumento ingloriamente desaparecido, tinha no fundo da sua nave central um estrado onde se poderia instalar uma orquestra com grande número de instrumentos e no fundo deste habitava um órgão de tubos magnífico, se não no som pelo menos na monumentalidade.

Os apontamentos que abaixo apresento não foram originalmente compilados por mim, mas sim por L. A. Esteves Pereira, e apresentados na revista O Tripeiro de dezembro de 1972. Para aqui traslado as informações sobre a composição do instrumento, bem como informações sobre o seu desaparecimento; que aliás antecedeu vários anos a destruição do edifício e não terá ocorrido de uma assentada, por assim dizer.

Sigamos então aquele autor:

«Os seus 2750 tubos repartiam-se por quatro secções correspondentes a quatro teclados manuais e mais uma seção correspondente ao teclado da pedaleira. Os quatro teclados manuais possuíam 56 notas (dó 1 ao sol 5) e a pedaleira 32 notas (dó 1 a sol 3). O conjunto de tubos era repartido do seguinte modo:

1.º teclado - Órgão do Coro - 8 registos;
2.º teclado - Órgão do Principal - 13 registos;
3.º teclado - Órgão do Expressivo - 12 registos;
4.º teclado - Órgão do Sola - 4 registos;
Pedaleira - Órgão do Pedal - 7 registos.

Ao todo 44 registos sonoros, mais 6 registos de acoplamentos, a saber:

Acoplamento Coro/Pedal;
Acoplamento Principal/Pedal;
Acoplamento Expressivo/Pedal;
Acoplamento Solo/Pedal;
Acoplamento Expressivo/Principal;
Acoplamento Expressivo/Coro.

A nave central do edifício vendo-se (mal) ao fundo o órgão de tubos (foto AHMP)

A caixa expressiva onde estavam encerrados todos os tubos do 3.º manual (órgão expressivo) era fechada por réguas que, em dois grupos de 10, fechavam as duas janelas anteriores e que se moviam com toda a facilidade, por meio de um pedal de expressão.

A transmissão do movimento das teclas até às válvulas dos tubos era completamente mecânica, assim como o movimento dos tirantes dos registos.

O ar comprimido era fornecido por 3 foles paralelos, com um volume total aproximado de 8 m3, com bombas diagonais acionadas manualmente por alavancas.

A fachada era constituída por tubos pertencentes aos registos dos Principais de 8 a 16 pés abertos, havendo no órgão do pedal, um registo de 32 pés, tapado, em madeira. As quatro torretas da fachada eram constituídas por 5 tubos, além de um plano central de 11 tubos e dois laterais de 9, cada.»

O autor continua referindo a possível disposição que o instrumento tinha, mas que não lhe permitia tomar como definitiva umas vez que os elementos de que dispunha «já se encontravam prejudicados pelo mau estado de conservação em que o órgão se encontrava, à data em que foram colhidos». Aliás no final desta sua hipótese de disposição, o mesmo autor refere: «Entre parêntesis vão os nomes equivalentes, em inglês, que teriam sido os originais e que estavam, na sua maior, parte já ilegíveis, quando estas notas foram tomadas.» Opto por não colocar aqui a disposição aventada pelo autor, remetendo o leitor interessado para aquele número da secular revista O Tripeiro.

Apenas mencionar que o autor, aquando da sua inspeção ao instrumento verificou a existência da seguinte inscrição:

Este órgão foi reformado e afinado por técnicos da minha casa nos meses de abril e maio deste ano.
Porto 25 de maio de 1916

Memória que havia sido colocada pelo fabricante de pianos e órgãos A. Gomes de Faria, estabelecido na Rua de Regeneração, n.º 25[1].

Segundo o que escreve I. de Vilhena, Barbosa a pp. 11 do Arquivo Pitoresco de 1866: «Este soberbo órgão (...) foi fabricado em Londres por J. W. Walker, que o apresentou na exposição universal que se realizou na mesma cidade no ano de 1862, onde obteve prémio. Custou uns quatro contos à sociedade do Palácio de Cristal portuense.»

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1] Esta rua é a continuação da Rua do Almada pela lateral da Praça da República e o quartel, até ao Largo da Lapa.

terça-feira, 16 de maio de 2017

Sobre o obelisco do Mindelo

Desta vez fujo um bom bocado do propósito deste blogue, que recai sobretudo sobre o centro histórico do Porto e seus antigos arrabaldes...

Após a vitória de D. Pedro IV em 1834, aquela que será por ventura a primeira proposta para erguer um monumento na praia onde teve lugar o desembarque inicial das forças liberais é originária de 1835 e da autoria de J. J. Lopes de Lima, escrita a 31 de janeiro do ano referido. No final, e após apresentação em cortes o projeto «ficou para segunda leitura». O Diário do Porto publicou este texto em 18 de fevereiro, dias após a sua apresentação em cortes por Manuel Passos (ou Passos Manuel, como é mais conhecido desde há muito tempo para cá)

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PROJETO DE LEI

Art. 1.º - Na praia do Mindelo, no lugar aonde se efetuou no dia 8 de julho de 1832 o desembarque do Exército Libertador, comandado por sua Magestade Imperial o senhor D. Pedro, Duque de Bragança, de saudosissima memória, se elevará uma pirâmide triangular, de construção sólida e doradoura; mas de uma estrutura simples, e económica.

§ 1.º Na frente do lado do mar se lerá em grossas letras de bronze dourado - 8 de Julho de 1832 - e por baixo, em letras menores do mesmo metal, esta legenda:
Eis o dia maior da heroicidade!
Dom Pedro e os seus aqui tomaram terra:
Moveu-se ao Despotismo assídua guerra
E o Reinado nasceu da Liberdade

§ 2.º Na frente que olha para a cidade do Porto, se esculpirá uma lista dos Corpos que desembarcaram, formando a Expedição, sua força, e os nomes dos Senhores D. Pedro, dos seus ministros, dos seus generais, comandantes de Corpos etc.e por cima, em letras de bronze, esta legenda:
Sete mil e quinhentos combatentes
Triunfaram da fome, e dos pelouros;
O Porto o viu... e vos pasmai, Vindouros,
E imitai os seus feitos excelentes.

§ 3.º Na frente do lado do norte se esculpirá uma lista das forças do usurpador (cujo nome se omitirá por desprezo); e por cima, em letras de bronze, a seguinte legenda:
Em luta desigual vencer tirano
Impossível não foi, bem que pasmoso!...
Daqui aprenda o déspota orgulhoso
Quanto podem os brios Lusitanos.

Art. 2.º Para a fundição de todas as letras, e chapas de bronze da pirâmide, será aplicada a grande peça de J. P. Cordeiro, e mesmo, a ser necessário, mais algumas tomadas aos rebeldes, das que fizeram fogo sobre o Porto.

Art. 3.º A direção dos trabalhos para a construção deste monumento, será confiada por o Governo à Câmara Municipal da muito Nobre e sempre Leal Cidade do Porto; incumbindo-lhe igualmente para o futuro o vigiar sobre a sua conservação. À vista da sua proposta o Governo lhe adjudicará desde logo os fundos necessários para se levar a efeito.

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Curioso notar que este projeto prevê uma pirâmide de três faces e com letras de bronze. Mais curioso é ver o simbolismo do grande canhão que D. Manuel trouxe para o Porto ver a sua matéria prima ser utilizada na fundição das letras para este monumento. Este canhão fora arrastado de Lisboa para o Vila Nova de Gaia por várias juntas de bois durante semanas e fora alcunhado de mata malhados, tendo sido tão inútil que cedo os portuenses o elegeram como alvo de chacota.

Em relação ao monumento, este apenas veria a sua primeira pedra lançada em 1840 por iniciativa de António José de Ávila. Às custas de doações através de uma subscrição pública lá se foi lentamente erguendo na Praia da Memória junto à divisão das freguesias de Lavra e Perafita. Concluído em 1864, o concretizado um monumento muito diferente do que acima se descreve e a bem da verdade, para muito melhor a julgar pela projeto.

O monumento na atualidade (foto SIPA)

quinta-feira, 4 de maio de 2017

Como se completou o Jardim de S. Lázaro

Este texto, colhi-o no periódico de 1834 Chronica Constitucional da Cidade do Porto, mais precisamente do dia 14 de Outubro, e abre-nos uma fresta para o Porto de há poucos meses após o fim da guerra, quando as pessoas se começavam a preocupar com a sadia fruição dos seus tempos livres, agora que já não necessitavam de temer por um tiro de canhão não lhes cair dentro de casa...

O texto é longo, mas vale a pena pelo imersão no Porto daquele tempo que nos provoca...

« »

Todos sabem, e era matéria afluente nas conversações acerca de diversos recreios, quando se tratava de falar em aformoseamento desta cidade, que o único passeio público que podia merecer esse nome, era a alameda e paredão das Fontainhas; passeio que infelizmente, havendo sido uma das belas projeções de Francisco de Almada, peca no defeito capital da proximidade do matadouro geral, que torna o local incómodo, se não mesmo insadio, tanto pelo cheiro, e imundice, quanto pela asquerosa concorrência dos que traficam nesse modo de vida ainda tão fora de polícia e limpeza corporal em seu manejo; pois que se em algum ramo se conhece o atraso de melhoramentos municipais em comparação com Inglaterra, França, Bélgica e Holanda, que tantos emigrados observaram, é decerto nesta parte de similhantes trabalhos no uso dos misteres necessários ao uso da vida![1]

E nem só a natureza do cheiro do assento do matadouro nas costas do passeio, e junto à mãe de água tornam este sítio insalubre e desagradável; a existência de uma fábrica de curtumes de pelicas, com os seus tanque à face de mais de metade da sua extensão, é por outro outro lado a segunda causa de intolerável persistência num sítio com tantas proporções de ser, sem estes inconvenientes, um dos mais próprios a gozar de vistas pitorescas, ou ao longo do rio para o lado de seu tráfico comercial até ao cais por baixo da eminência do antigo castelo de Gaia, ou para o lado de suas ribeiras e vales de Quebrantões, coroados pelos declives em anfiteatro dos outeiros e colinas de Oliveira do Douro e Avintes em diferentes planos e distâncias!
Planta de 1798 do AHMP. Nela se vê o campo de S. Lázaro (A) , onde veio a ser construído o jardim; o matadouro (B) e com a letra D assinalo o local do inicio da Ponte do Infante (para auxílio da percepção do local).
Nesta falta de um passeio público digno da segunda capital do reino, enquanto se não leva a efeito o tão apregoado sistema da remoção do matadouro para o Monte Pedral, e dos pelames para diverso local acomodado, era forçoso lançar mão de outro sítio onde se pudesse formar um passeio que no entanto substituísse aquela insuficiência, cuja duração não se sabe aonde poderá ter seu limite.[2]

O campo de S. Lázaro oferecia uma substituição sofrível em sua posição, como chave da aproximação de duas estradas, a de Valongo à esquerda, e a de Campanhã à direita, direções tão frequentadas aos Domingos e dias festivos para poder ser uma praça aformoseada, capaz de suprir o intento no intermédio em que as Fontainhas se melhoram, ou que um passeio público, digno deste nome, se erige.

A supressão do convento dos frades Antoninhos facilitava ũa das mais apreciáveis regalias, que nestes estabelecimentos se requerem, qual a do serviço do imenso jorro de água, que dando um ar de beleza ao seu centro em tanque majestoso, facilitasse a rega dos arbustos, plantas e flores que adornassem os tabuleiros da sua configuração.

Tentou pois uma autoridade superior desta cidade, o fazer edificar um jardim em frente da livraria pública, criada por decreto do imortal duque regente, de saudosíssima memória, assim como da Galaria de Pinturas que se fundou com a denominação de Ateneu D. Pedro; fundações estabelecidas na parte superior e inferior do edifício do referido convento de Santo António da Cidade, concedido pelo governo para obras de tão transcendente utilidade.[3]
Edifício do antigo Asilo de Mendicidade, que resulta da adaptação do do antigo Matadouro referido no texto (ver também: aqui), edifício bem visível para quem atravessa o rio pela ponte do Infante.
Deu-se pois princípio a esta obra, debaixo da direção do Sr. J. B. Ribeiro, que teve a satisfação de ver no espaço de 3 meses correr água para o espaçoso tanque que se edificou no meio da praça, de que um quarto de configuração se ultimou logo, e de que até hoje, que pouco mais ou menos se contam 7 meses de trabalho, quasi metade está completo, incluindo-se a magnifica escadaria que deve servir de entrada principal do lado da Rua de Entreparedes.

A satisfação que toda a cidade mostrou no andamento desta obra tão popular, manifestou-se desde o princípio na continuada concorrência de todas as famílias do Porto, e de seus habitantes em geral, que todas as tardes, e principalmente nos dias festivos enchem o recinto deste sítio tão aprazível e agradável.

Por outro lado se tem manifestado esta popularidade de aprovação, nos imensos presentes com que tem sido brindado o jardim, como já em outra ocasião mencionamos a respeito do Sr. L. S. de C. - modernamente temos a mencionar acerca dos Srs. M. L. C. e seu filho – J. J. de F. - J. L. - M. F. S. - A. P. d’A. - J. G. R. N. - D. J. R. G. - e do próprio jardineiro, e de outras muitas pessoas e famílias, que tem ofertado arbustos, flores, e sementes, em tal quantidade, que  sua variedade e profusão se tem feito notável e rica.

Mas tanta prosperidade do jardim, está balanceada pelas ocorrências sobre vindas, e é preciso ou acudir-lhe, ou ver perder-se no espaço de poucas semanas o fruto de tantos meses, e as esperanças da permanência deste recreativo passeio!

É alheio deste lugar a investigação das causas, e dos motivos porque os meios, que tem servido até agora, para por o jardim no estado em que se acha, pararam de repente! Consola-nos contudo a esperança, de que assim como as obra da Livraria Pública, e do Ateneu pararam, sendo natural que o governo não queira que elas venham a aumentar o anexim de que no Porto tudo fica em começo, ou fica torto – venha a olhar por isto, porque o povo necessita de instrução e recreio, e o Porto merece que tais obras principiadas tenham o seu andamento e conclusão.

Deixando porém a Livraria, e o Ateneu, como obras mais gigantescas, e que por si falarão altamente por orgão da necessidade de acudir ao edifício arruinado pelas obras em projeto, e que a não acabar-se, ameação prejuizo mais iminente – do que se imagina…

Tratemos do nosso jardim, que bem nosso lhe podemos chamar pela posse de concorrermos ali, nós todos os habitantes do Porto, que estamos no hábito da sua diária, e contínua fruição.

Se lhe não acudimos, ele perece; e o modo de lhe acudir é fácil, e acessível a todas as famílias e amadores deste recreio.

Está aberta uma subscrição puramente particular, de 480 rs. por cabeça, para costear, e beneficiar, tanto quanto seja possível, com o fundo resultante, o estado, e melhoramento do jardim.

O mesmo Sr. J. B. Ribeiro, sabemos que se presta a coadjuvar com a sua direção o progresso das obras em andamento, e no fim de cada mês se darão contas públicas por nossa intervenção, para se saber que a mesma economia se emprega neste objeto.
O jardim de S. Lázaro num conhecido postal do início do século passado. Vê-se também o antigo Recolhimento das Orfãs, já com a sua ala nascente construída bem como a Rua de S. Victor logo a seguir, que também se encontrava já alinhada desde a Praça das Flores em direção à Av. Rodrigues de Freitas.
O meio de se darem contas públicas sem se usar dos nomes de pessoas, que talvez tenham melindre de que seus nomes sejam referidos, é seguir o método usado em países estrangeiros: cada subscritor ou seja mencionado com letras iniciais, ou com o anónimo, tem o seu n.º de algarismo, e por eles assim se nota o total da receita, para que cada pessoa vendo o seu número, saiba que a sua quantia entrou legitimamente, e teve  a saída na despesa respetiva.

O Sr. J. B. Ribeiro é o próprio tesoureiro, e sabemos que as obras  já desde o principio deste mês correm por conta da subscrição particular.

É a primeira vez que entre nós se pratica este método de auxílio a obras públicas; e esperemos que ele seja tão profícuo, quanto é útil o seu fim.

« »

1 - Nas Fontainhas construíram-se, no século XVIII, a alameda e o matadouro (só terminado em 1808). Para esta zona foram também transferidos os aloques da Biquinha, ou seja, a suja indústria dos curtumes que por séculos se manteve no local onde hoje temos a  fonte monumental da Rua Mouzinho da Silveira.
2 - Esta transferência viria a ocorrer umas décadas depois, para o local onde atualmente se encontra a Direção de Ambiente da câmara, na Rua de São Dinis.
3 - Nos seus primeiros anos a biblioteca municipal ocupava apenas o andar superior do edifício onde ainda hoje se encontra, sendo que por baixo se encontrava o Ateneu, que, nada tendo que ver com a instituição que hoje dignifica este nome; levantou durante uns bons anos o estandarte de museu municipal (foi este museu que em 1838 cedeu o lavatório da sacristia do convento dominicano para o Jardim de S. Lázaro onde ainda está; obra fina feita para interior mas exposto à inclemência do tempo há quase duzentos anos!).

sábado, 29 de abril de 2017

Breves reflexões à volta de uma panorâmica com 150 anos

A foto que se vê abaixo já à coloquei aqui há uns anos e entretanto apareceu já também em outras páginas devotadas à história da cidade: encontra-se disponível no AHMP. Contudo em 2012 coloquei observações minhas que mais ou menos de uma forma geral procuravam descrever o que nela se vê. Ora, no mesmo vol. de O Tripeiro onde recolhi informação para a postagem anterior, também sobre esta foto surgem comentários produzidos por leitores da época - 1949 - que ainda chegaram a conhecer o Porto daquele tempo.
São algumas dessas observações que aqui sintetizo:

(clicar para ver as letras referidas no texto)

1- «A torre e edifício conventual é de S. Bento de Ave-Maria, onde está hoje a nossa estação central. Parece que ainda estou a ver, naquele pátio ao lado direito[A], os retrozeiros da Rua do Loureiro com as suas maquinetas a fazer torceduras e os petizes, como eu, a fazerem partidinhas inocentes...»
(João Moreira da Silva)

2- "Temos, para nascente e no primeiro plano, os prédios dos Loios, o convento de S. Bento de Ave-Maria, divisando-se aquelas janelas com seus parapeitos de grades, no andar superior ... ; a torre de tal convento[B]; a majestosa construção da porta da igreja e que se eleva logo próximo da torre[C], virada a sul; a fachada poente que em ângulo fechava o pátio de honra da igreja e que fazia quina para a rua do Loureiro; a cerca convento, que nuns três (?) dias do ano era facultada ao público e nele havia uma espécie de arraial em que entravam assadeiras de castanhas...»
(Wendel dos Reis)

3 - «Para quem não é do tempo em que fotografado foi tal local, não compreenderá aquela mancha escura [D] ... : eram os quintais das ruas de Santa Catarina e de Santo António, e onde, para poente, e portanto nas trazeiras do Ateneu Comercial, aí por 1880 e tal se construiu a fábrica de electricidade, cujo cano de tijolo para a tiragem do fumo, bastante alto, tinha, no rebordo do anel de saída, uma roldana na qual uma lâmpada eléctrica, suspensa, dava luz de noite, e por um fio era guindada quando tinha de ser substituída.
Tudo isto então, constituia um acontecimento!
...
A casa saliente que se vê oblíqua facejando as ruas de Santo Antonio e da Madeira tinha um estabelecimento de mercearia iluminado a velas de sebo sobre o balcão...» [E]
(Wendel dos Reis)

Faço aqui apenas a observação que a tal mancha escura referida é também parte da Viela da Neta, que veio posteriormente a dar lugar à Rua de Sá da Bandeira. Aí se vê o terreno compreendido sensivelmente entre o teatro Sá da Bandeira e a esquina com a Rua de Passos Manuel (a casa onde viveram os irmãos Passos ficava precisamente na Viela da Neta).
O leitor interessado em mais pormenores poderá consultar a postagem de 2012, seguindo a ligação presente no início deste texto.

terça-feira, 25 de abril de 2017

Nota de rodapé n.º 8 - pormenores fotográficos

No já longínquo ano de 1948 a revista O Tripeiro exibiu na sua capa a imagem que abaixo se reproduz (via AHMP). É uma bonita imagem do mosteiro de S. Bento de Ave-Maria (substituído pela Estação de S. Bento no início do século XX), mostrando o lado voltado à Rua do Loureiro. Aqui ficava a igreja do cenóbio ao qual, como em todos os conventos e mosteiros femininos, se acedia por uma porta lateral.

Esta imagem já foi provavelmente vista por muitos, se não todos, os meus leitores. Mas as fotografias dos monumentos antigos muitas das vezes escondem história... e se não tivermos a sorte de alguém o registar ou divulgar perdem-se, como tanta coisa que se perdeu por se crer de nenhuma importância.

Atente-se então no retângulo na foto e seu pormenor que extraí, seguido do comentário à mesma, que um certo A.E.C. fez na secção Ainda se lembra da revista O Tripeiro de Junho de 1949:
Para além do pormenor referido pelo autor das linhas que reproduzo (1), pode-se também ver nesta foto o que parece ser um engraxador abrigado do sol ardente esperando cliente (2); e na fonte, embora o tempo de exposição da chapa fosse tão longo que apenas nos permita ver "fantasmas" de pessoas em movimento, se depreende que havia mais movimento do que aquele que aparenta (3).

«Vi, acompanhando o seu número de Maio [de 1948], a bonita gravura do mosteiro das freiras beneditinas, um dos mais interessantes e típicos monumentos da arquitectura monástica portuguesa, que não pôde resistir ao camartelo modernizador.

Atrairam a minha atenção nessa estampa dois pormenores, que provàvelmente a maioria da população actual da cidade não terá conseguido interpretar.

À direita, no alto dos dois lanços da escadaria do adro da igreja, divisam-se duas coisas que fazem lembrar enormes piornas, ou então jarras bojudas.
...
Muitos julgarão serem ornamentos fazendo parte do conjunto arquitectónico do edifício, mas não era assim. Eram torcedores constituidos por um jogo de rodas diferenciais, movidas à mão por uma manivela, com que os serigueiros cochavam os cordões das suas passamanarias. Esse trabalho fazia-se muito frequentemente, esticando os cordões ao longo (sentido Este-Oeste) do adro ou grande pátio lageado da igreja do convento, o qual marginava a rua do Loureiro, torcendo-os depois - serviço assás barulhento - com os discos que o quadro mostra.»

Como vê o caro leitor, se as imagens falassem quantos pequenos fragmentos históricos teriam para nos contar?...

sexta-feira, 21 de abril de 2017

O correio no Porto - apontamentos para a sua história

Embora o estabelecimento de serviços postais em Portugal venha já de alguns séculos atrás, a sua generalização, ou massificação, é em alguma medida consequência do fontismo (termo generalista usado como sinónimo do Progresso que o país materialmente experimentou a partir da chegada de Fontes Pereira de Melo ao poder). No caso dos correios, foi nessa altura que se fez uma reforma estrutural dos serviços onde por exemplo se generalizou a distribuição porta a porta nos centros urbanos e também a diferenciação dos preços a pagar através dos agora tão comuns selos.

No Porto, a administração dos Correios passou por diversos locais, mas para a época que nos interessa, inícios do século XIX, este serviço albergava-se num edifício localizado entre as atuais ruas de Cândido dos Reis e Conde de Vizela, com fachada virada para a rua das Carmelitas[1].
Segundo li em artigo de O Tripeiro, apenas em 1836 passou para o extinto convento das Carmelitas, agora totalmente desaparecido mas que na altura centralizava várias repartições do Estado; contudo como vamos ler abaixo, essa mudança fez-se provavelmente uns anos antes...
Estas duas fotos provenientes de postais antigos mostram-nos a Rua das Carmelitas nos inícios de novecentos: 1- Edifício onde esteve sediada a Administração do Correio[1]; 2- Igreja dos Clérigos; 3 - Antigo convento das Carmelitas, onde largos anos esteve também sediado a Administração do Correio; 4 - Mercado do Anjo, construído em 1837.

Os curiosos apontamentos que abaixo apresento foram retiradas de periódicos portuenses:

1. A Junta Provisória Encarregada de Manter a Legítima Autoridade de El Rei o Sr. D. Pedro IV mandou em junto de 1828 que o administrador do correio do Porto fizesse estabelecer dous ou tres pontos nesta cidade, onde julgar mais proveitosos, caixas para receção de cartas, encarregando a sua guarda e vigilância a pessoas de probidade; isto para facilitar ao público comodidades para a remessa das correspondências particulares. Com a ressalva de que: para não retardar a regular partida dos correios para as diferentes partes do reino, tomará Vm. as medidas necessárias, em relação às distâncias em que estiverem colocadas as caixas, para mandar recolher a essa administração as que se acharem dentro delas.

Era uma modernidade!: três caixas de correio espalhadas pela cidade, dando descanso aos pés dos interessados, obstando-os de um longo caminho até à casa da administração! Se de facto a situação prevaleceu no tempo ou não é algo que desconheço, pois poucos meses depois o país "absolutismou" com D. Miguel usurpando o poder e os partidários de D. Pedro fugindo para Inglaterra![2].

Notícia mais interessante foi a que encontrei remontando a 1834, quase um ano depois do fim do cerco à cidade (1832-1833), nos derradeiros meses da guerra civil (1828-1834):

«Somos authorizados a annunciar, que para utilidade pública dos Habitantes desta Cidade se achão deffinitivamente collocadas em differentes paragens,  - Caixas para recepção das Cartas – a fim de se evitar a demora em remessas á Administração do Correio, aonde até agora havia unicamente a Caixa geral.
Os sitios onde se achão as Caixas, são os seguintes:
- Na Porta Nobre, da parte de fóra.
- Na Esquina, entre a rua dos Inglezes, e a rua de S. João.
- Na Feira de S. Bento das Freiras.
- No Largo da Batalha, junto á Capella.
- Na Rua direita, defronte da travessa dos Capuchos.
- Na Esquina, entre a rua do Bomjardim, e a rua do Estevão.
- Na Rua d’Almada, ao cimo.
- Na Esquina entre a rua de Cedofeita, e a rua dos Bragas.
- Em Villa Nova, no Cabeçudo.
- E nas Costeiras.
Os moradores proximos destes sitios podem informar-se das horas a que da Administração do Correio se mandão tirar as Cartas, conforme está escripto em cada huma, para ficarem certos de que todas as Cartas deitadas antes das horas fixadas são expedidas na competente partida regular, - e que deitadas depois sómente são enviadas no turno seguinte.
A utilidade deste estabelecimento, que na Capital se acha em via há muitos annos, mas que a estupida crença dos Sectarios de D. Miguel julgou innovação perigosa para o Porto, quando em 1828 o Absolutismo reassumiu o sceptro de ferro, depois de alguns dias de uso, - he evidentemente proveitosa porque assim vimos a ter ramificada em diversos 11 pontos a recepção de todas as Cartas para o Correio, com a mesma regularidade, com que até agora se usava na que se acha á porta da Administração, no extincto Convento das Carmelitas.»

Ou seja, estamos a falar dos primeiros marcos de correio que foram realmente estabelecidos na cidade! Mas o artigo vai mais longe:

«Da mesma fórma, se tem tomado medidas para pouco e pouco se ir estabelecendo a Posta pequena, que he encarregada de entregar as Cartas em casa de que para isso der ordem, logo que cheguem os Correios, pagando sómente 5 reis em cada carta, a maior, do preço da Lei para o Correio Geral. As Pessoas que desejarem receber assim as suas Cartas, queirão avisar a Administração do Correio nesta Cidade; ou por Carta lançada em qualquer das Caixas, ou no mesmo local da Distribuição.»

Como os meus caros leitores compreenderão, a posta pequena é nada mais, nada menos do que a entrega ao domicílio da correspondência; coisa tão banal nos dias que correm... Mas prossigamos com a leitura do artigo que é deveras interessante:

«He preciso desarreigar varios prejuizos, e de certo he hum dos que temos mais inveterados, o uso de julgarmos por melhor o escreverem-se os nomes de quem tem Cartas a receber, em Listas públicas á porta do Correio, habilitando assim quem quizer a hir tirar as Cartas que lhe parecer, sem responsabilidade de quem as entrega, porque não he obrigado a conhecer todo o mundo nem a saber se esta ou aquella pessoa vai mandado pelo dono da Carta &c. Presentemente, não he possivel pôr em pratica com regular distribuição a entrega geral pelas diferentes casas, porque não tendo ainda voltado a suas habituaes residencias os moradores dos diversos Bairros, pela mudança forçada em rasão dos projecteis do inimigo, composição d’antigas habitações &c, em vez de se acreditar o novo arranjo, acharia nos tropêços desta confusão de moradias, hum estorvo terrivel. Mas pouco e pouco he necessario hir acostumando, até por que pouco e pouco se vai habitualmente regulando o exercicio dos Entregadores etc. Porque ao principio se acham embaraçados em qualquer forma, querer logo que se diga que a innovação he má, parece desairoso na bocca de quem confessa a todos os respeitos, que he preciso sahir da velha rotina de abusos. Queixe-se quem julgar irregularidades, e se depois as não vir remediadas, embora grite, que a opinião geral fará justiça, porque ás vezes he o frenezi do genio que falla, e não a justêza do raciocinio do Cidadão impaciente, e desarrazoado. Em as cousas tomando o habito antigo das moradas certas e regulares, há de fazer-se no Porto, o que se faz já em Lisboa, e nos Paizes civilisados, que a experiencia d’abusos teve a felicidade de corrigir por fortuna delles, primeiro que nos tocasse a nossa vez.
Vamos por tantou pouco e pouco, que vamos melhor, e as Pessoas interessadas em que nos mostremos dignos de reformas, e não bisonhos e faltos de instrucção para as receber, principiem a dar o exemplo: estabeleça-se a Posta pequena para se nos entregar a correspondencia, mandando nossos nomes para isso ao Correio, pois que as Pessoas de menos raciocinio, vendo o exemplo desenvolvido pela prática, convencem-se e seguem a marcha dos outros.»[3]

Aqui estão uns simples parágrafos, caro leitor, que nos abre uma janela para o Porto de oitocentos e nos mostra alguns pormenores dele que não fazem parte da história, pois a maioria destes pormenores ficaram perdidos no tempo, envoltos em generalidades necessárias para efeitos de concisão, repetidas sobre esse mesmo quotidiano ou simplesmente esquecidos no tempo...
Seriam os marcos de 1834 semelhantes a este do final de oitocentos, em baixo à esquerda neste postal antigo? (cruzamento da Avenida Rodrigues de Freitas com a Rua de D. João IV; o marco está em frente a um dos portões do jardim de S. Lázaro, não visível na foto). 
Para terminar, e do mesmo jornal, extraio aquela que é talvez a primeira reclamação sobre as caixas do correio[4]:

«Ninguem poderá negar a utilidade desta innovação; mas quizera eu perguntar ao Sr. Administrador [do correio], porque rasão havia de hir incommodar o publico para conseguir este fim, pondo sobre os passeios caixas enormes, que quasi obrigào os caminhantes a descer delles, e de noite a esbarrar-se contra ellas, como acontece no cimo da rua d’Almada? Não seria melhor que a adoptar-se a medida, se seguisse o exemplo das nações onde ella está em pratica, pondo as Caixas em diversas lojas?» o protesto continua e extende-se também à «chiadeira dos carros, e hum certo perfume, que se consente derramar a toda a hora do dia pelas ruas da Cidade»; abusos que, segundo o autor, «só huma relaxação inaudita póde ter deixado introduzir» e espera também que se tomem «as providencias necessarias para a limpeza das ruas, e outros regulamentos indispensaveis de se pôrem em pratica n’huma Cidade com tantas porpoções para ser huma das mais aceadas e commodas»[5]

Embora não tenha encontrado qualquer referência ao início da distribuição domiciliária do correio, é evidente que ela já se encontrava em curso pelo aviso que surge publicado nos finais de Setembro:

«Previnem se as Pessoas que recebem Cartas pela pequena posta nesta cidade, e que tenhão tenção de querer a continuação da entrega como até aqui - que se houverem de mudar de habitação no proximo S. Miguel - haja de previnir a Administração a tempo de não soffrerem interrupção».[6]
_______________________
1 - Esta informação não a reputo como 100% correta pois ainda não vi estudo ou documento que apresente de uma forma credível a certeza de ter sido aquela casa.
2 -  Morrendo alguns às mãos de carrascos miguelistas na Praça da Liberdade. A notícia em si, colhi-a do Diário do Porto que existiu durante os curtos meses em que se manteve a Junta.
3 - Da Chronica Constitucional da Cidade do Porto de 21 de março de 1834.
4 - Os jornais a partir deste ano começam a ser verdadeiras portais de opinião equivalentes aos nossos desabafos de hoje nas "redes sociais". Por vezes existiam mesmo lutas bastante acesas entre fulano e sicrano, bem como periódicos onde o partidismo era declarado.
5 - O artigo era assinado simplesmente por hum portuense. Lembremos que a iluminação noturna era feita à época por lampiões de azeite e que não era fiscalizada corretamente, pelo que a sua luz era em muitos locais medíocre.
[6] - O S. Miguel de Setembro é o dia 29 desse mês, dedicado ao arcanjo; o costume de se pagar foros, rendas, etc ou mudar de casa nesse dia vinha já desde os tempos medievais.

terça-feira, 18 de abril de 2017

A freguesia da Vitória (nas memórias paroquiais) - parte 3

E para acabar este exposição sobre a paróquia da Vitória nas memórias paroquiais de 1758, prosseguimos seguindo o Rev. Abade na sua dissertação:


//

Tem mais esta freguezia a perenne fonte q está emcostada a o muro da cerca do convento de S. João Novo, porem naõ sei, que algua destaz agoas mencionadas, tenham algua especial qualidade, ou virtude, ainda que esta ultima da que se faz mençaõ, tem a sua origem no sitio aonde esta situada a Senhora das Virtudes, que he freguezia de S. Pedro de Miragaya extra muros desta cidade.

Nesta imagem do googlemaps tento reproduzir parte de uma planta do século XVIII, assinalando a branco os locais (aproximados) onde existiram casas que foram demolidas naquele século, as do lado de dentro da cidade; e as que ficavam do lado de fora que só o foram já em meados do seguinte. O circulo verde é o local do chafariz já descrito na 2º parte. Surge aqui também uma capela que existia diante da cadeia e onde, creio, os condenados à forca ouviam missa pela última vez; bem como o local da antiga Porta do Olival, marcada com o n.º 1. De referir, por último, que do lado sul, as últimas casas dos lotes assinalados só foram demolidas na primeira década do século atual.
... a cidade do Porto he murada e em todo o ambito de seus muros tem dezoito portas por onde se serve entre as coatro principais, q saõ Porta Nova, Porta da Ribeira, Porta de Cimo de Villa e a Porta do Olival pertencente a esta freguezia, e tomou o nome de se continuar fora della antigamente hum grade olival, he a milhor e de mayor concurso e se acha formada entre duas torres quadradas e sobre ambas tem hua atalaia e grande [1] q antigamente servio de corpo da guarda, enquanto se naõ edeficou o novo defronte do Palacio dos Marquezes de Arronches junto a Rua Cham, daqual atalaya por ser alta, e no sitio mais  alto da cidade se descobre literalmente muitas povoaçois e freguezias; como sam o Lugar de Maçarellos, Ribeira do Ouro, S. João da Foz do Douro, a sua barra, Cabedello, e huá dilatada parte do mar oceano, e desse sitio costumaõ os moradores ver a entrada e sahida das flotas[2] do Brazil, Inglezas, e mais navios estrangeiros, que pera sua segurança devem observar quando entraõ e sahem, a torre da baliza, q tambem deste sitio se vé, q vulgarmente se chama a Torre da Marca, obra q mandou fazer o bispo de Vizeu ao depois Cardeal D. Miguel da Silva...no tempo em q asistio nesta cidade no anno de 1543...
Pormenor que mostra as casas que apenas foram demolidas já no início do século XXI (por alturas do Porto 2001?). Tal como a casa do café Porta do Olival também para a elas se aceder havia que subir por uns degraus de pedra; remanescência de como era todo aquele correr no século XVIII.
As demais portas abertas no muro da cidade, q circunda esta freguezia, sam o Postigo das Virtudes, porq delle se faz tranzito pera a fonte de Nossa Senhora das Virtudes, e o Postigo de S. Joaõ Novo, e supposto tem o nome de postigos, milhor lhe convem o nome de portas depois de serem alargados pera mayor comodidade da serventia da cidade, porq ficaraõ com largura de mais de doze palmos, e de altura mais de vinte cuja obra foi feita modernamente por serem estreitos, e no seu principio foram fabricados com os muros da cidade, que teram de altura pouco mais ou menos sincoenta palmos, e de grossura mais de doze tudo de pedra de cantaria lavrada, e aSentada as fiadas, coroado tudo de ameas da mesma pedra.
A muralha nas traseiras das casas do largo de S. João Novo. o n.º 1 indica um torreão e o 2 o corpo da muralha, ficando-se com uma ideia da largura do antigo caminho de ronda.
Continha todo este muro trinta torres cubicas, q sobre sahiaõ, e se alteavam sobre os muros couza de quinze palmos, porq alguns se lhe tiraraõ, como foi na parte do muro, que circuita esta freguezia, por ordem de S. Magestade em carta firmada pella real maõ do dito senhor do primeiro de fevereiro do anno de 1752, se lhe tiraraõ duas, que estavam no dito muro abaixo da nova e insigne igreja dos clerigos pobres por fazerem prejuizo, e aSombrarem as ditas torres o frontespicio da dita igreja, e ao prezente na parte q circuita esta freguezia, se achaõ somente seis, excepto a torre da Porta do Olival ja mencionada, e aSim estas, como todaz as mais torres, que no muro se acham foraõ principiadas com o dito muro da cidade, q teve principio no anno de 1336 em que reinava D. Afonço 4º, e findou no de 1374 reinando seu neto D. Fernando, q por isso a elle se attribuiu esta grande fabrica, que todo occupa quaze tres mil passos ... de tres pes geometricos cada hum, e a parte, q circunda esta freguezia, tera coatro centos, e sincoenta passos sobreditos, e conforme a constante tradiçaõ, gastou toda a obra o espaço de quarenta annos pera se acabar, porq só no tempo de El Rey D. Pedro o 1º filho de hum e pay de outro rey se trabalhava com concluir[1] na dita obra, como se pode ver em D. Nicol de Santa Maria na Cronica dos Conegos Regrentas...
A obra dos muroz ainda que antiga, e sem aggramassa de cal, he de tal fortaleza, q rezistio ao grande, e formidavel terremoto do anno de 1755 porq lhe naõ fes brecha, ou fenda alguã de novo, e somente lhe fes cahir huã ameya entre arbores da Porta do Olival, e descompos as da atalaya que se sustenta nellas, as quaes se mandaraõ abater em lugar de se comporem, ficando a dita atalaya sem a sua prespectiva, e antigo ornato das ameas q lhe serviaõ de coroa, e que a faziaõ destinguir das mais da cidade.

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NOTA: Esta memoria foi escrita pelo abade Francisco Antonio.

quinta-feira, 13 de abril de 2017

A freguesia da Vitória (nas memórias paroquiais) - parte 2

Prossigo com o ressuscitar de velhas memórias através das memórias paroquiais de 1758, referentes à freguesia da Vitória. E conforme as vou relendo, mais vou reaprendendo... Este blogue dá por vezes algum trabalho... mas a satisfação que tiro da leitura destes velhos documentos e o prazer tirado da partilha da informação neles contida, em muito o supera!

Uma nota apenas: desta vez decidi usar títulos. Estes são meus, não provêm do documento original ,que se limita a numerar as respostas às perguntas.

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MOSTEIRO DE S. BENTO DA VITORIA
…nesta freguezia há hum convento denominado Saõ Bento da Victoria, cujo patrono he o patriarca Saõ Bento, e naõ tem padroeiro secular, o qual foi fundado no anno de 1598 e está situado em hum ameno sitio da cidade, e muito a enobreSe, ainda q a descripçaõ delle pode ver nos doutores chronistas desta sagrada, e antiga religião. He tam egregio e magnifico, que serviria de illustre ornamento a qual quer outra cidade, porq he quadrado com eminente e aprazivel vista do caudaloso rio Douro, de formoza architectura, e abobedas de pedra lavrada, com as mais officinas correspondentes que depois de visto concilia a admiraçaõ da arte. He este o mais famozo naõ só da cidade, mas da provincia interamense, e nelle se veneraõ as milhores imagens do do desterro de Jezus, Maria, e Joze quando voltaraõ do Egyto…


CONVENTO DE S. JOÃO NOVO
Tem mais esta freguezia o convento dos religiozos eremitas de S. Agostinho… o qual he de igual grandeza, e perfeiçaõ de arte, ao de S. Bento aSima referido, e em milhor sitio, e vista do rio Douro, por estar sobre suas margens. Neste convento se venera com grande devoçaõ a imagem de Nossa Senhora da Guia por se avaliar ser a mais bem acabada daquellas, que ha nesta cidade, a qual foi feita pello insigne [1] Manuel de Almeyda natural da mesma cidade…


HOSPITAL DOS TERCEIROS DE S. FRANCISCO
… na rua da Ferraria de Baixo desta freguezia, ha hum Hospital, que serve de curar as infermidades dos irmaõs terceiros de S. Francisco, q adoecem e naõ tem com que curarse em suas cazas. Principou esta obra em 28 de abril de 1734; e por ser obra magnifica durou the o anno de 1743; q foi o primeiro anno em q pera o dito hospital entraraõ os doentes, o q foi no dia primeiro de septembro do dito anno de 1743. Pera esta obra muitas pessoas deixaraõ suas esmolas…


CAPELA DE NOSSA SENHORA DA SILVA
…na rua da Ferraria de Sima desta freguezia, que antigamente se chamava de Rua da Lage, está situado o hospital de S. Joaõ baptista, cujaz cazas se comunicaõ com outras da Rua de Traz da mesma Ferraria: he antigo, e da admenistraçaõ hoje dos confrades de Nossa Senhora da Silva da cathedral da Sé q sendo a mayor parte ferreiroz, quando estes morrem pobres, suas molheres viuvas saõ alimentadas no dito hospital, e unidose todos os hospitais com o que admenistra a Santa Caza da Mizericordia desta cidade, por aSim o ordenar o Senhor Rey D. Joaõ 3 pera serem admenistrados pellos irmaos da caza da Mizericordia; este por naõ ter rendas, e ser governado pella Camera da cidade, naõ entrou na dita uniaõ, e disposiçaõ…
A sua origem he muito antiga, porq conforme alguns antiguarios q trataõ desta cidade dizem, q este hospital fora de molheres recluzas ou emparedadas a quem deixou vinte libras de esmolla em seu testamento o bispo della D. Sancho Pires, q foi dez o anno de Nosso Senhor Jezu christo 1296 the o anno de 1300 e que neste sitio viviaõ, e naõ em S. Nicolau, que esta da outra banda do Douro como dis huá nota a margem do Censual do Cabido…
A este dito hospital se uniraõ o de S. Catherina e de Santiago, q estavaõ situados na Reboleira freguezia de S. Nicolau desta mesma cidade; cuja uniaõ foi em 5 de novembro de 1685, sendo que antes desta uniaõ existiraõ algum tempo no rocio de S. joaó novo, que foi des a era de 1682 the o anno de 1685 e as cauzas destas mudanças, foi em rezaõ de ser o sitio da Reboleira, em q estavaõ os dois hospitais de S. Caterina e Santiago, necessario pera se fazer a igreja parochial de S. Nicolau… [2]



CAPELA DE S. JOSE DAS TAIPAS
…esta freguezia tem duas capellas: a saber, hua de S. Joze da Rua das Taipas q foi feita por Joze Pacheco Pereira, haverá noventa annos: nella se venera como Padroeiro a imagem de S. Joze, q se julga ser huá das mais perfeitas imagens da cidade, e se acha colocada no altar mor. Tem mais dois altares colaterais: o da parte da Epistola dedicado a Nossa Senhora da Soledade e o da parte do Evangelho dedicado á Nossa Senhora com o titulo da Devina Providencia. Esta capella no seu tanto he perfeita e de prezente nella se fazem todos os ministerios e funçois parochiais e festas por estar servindo de parochia por cauza da ruina da parrochial igreja, e somente nella se naõ fazem os officios da semana santa, por naõ ter a capella o espaço necessario pera elles se fazerem com o esplendor com q sempre se fizeraõ…na igreja principal e ham de continuar, reedeficada q seja…


CAPELA DE SANTO ANTONIO
Tem mais outra cappella dedicada a S. Antonio defronte das cadeas da Rellaçaõ, e serve de se dizer missa pera os prezos ouvirem aos domingos, e dias santos e consta ser feita pello dito Joze Pacheco Pereira q tambem fes a de S. Joze aSima mencionada.

 … esta freguesia naõ tem fructos, por ser toda povoada de cazas, e naõ haver onde se cultivem.

…  a principal parte da nobreza desta florente cidade mora e aSiste nesta freguezia aonde há mais oratorios, em q se dis missa privada, do que nas mais freguezias, e por se compor dos mais altos e amenos bairros, ficarem junto da Rellaçaõ, regularmente nella vivem os ministros do Dezembargo cujos filhos tem sobido aos lugares eminemtes de letras…

… esta freguezia naõ tem feira alguá franca, ou cativa.

… esta freguezia se serve do correyo geral desta cidade, o qual chega na sesta feira de cada semana, e parte ao domingo.


CHAFARIZ DO OLIVAL
… nesta freguezia há dois chafrizes, os melhores, e mais elevados, q há em toda esta cidade. Hum sito na praça da Rua da Porta do Olival, que lança agoa perenne, he o mais elevado chafaris da cidade, deitando agoa que lhe vem da arca de Paranhos em distancia de mais de meya legoa, em beneficio dos moradores da dita rua, em tal forma que no primeiro capitel a lança por coatro bicas, q se recolhem na primeira vaze, q he de ordinaria grandeza, e deste se expelle por outras coatro bicas q cahem na segunda vaze, a qual he de extremosa grandeza, q cauza admiraçaõ a todos aquelles q bem a examinam, como podesse ser trazida aquelle sitio tam grande pedra, e desta correm coatro bicas de que se aproveitaõ os moradores e toda a mais cidade; e he em tanta abundancia o aqueducto desta agoa, que somente deste chafaris se reparte pera varias parte; como he pera os prezos da Rellaçaõ desta freguezia, e da mesma agoa se recorrem os religiozos de S. Antonio de Valle da Piedade pera o seu Hospicio sito na Cordoaria Nova, e os religiozos do mosteiro de S. Bento já mencionado, e hospital geral desta cidade, e tambem do mesmo aqueducto vem dar ao chafariz do Postigo das Virtudes, que milhor se lhe pode chamar porta pella grandeza, e largura corre este chafaris perennemente no seu elevado capitel por coatro bicas, cuja agoa recebe huã excellente e primoroza taça, e desta sahe por duaz bicas, q recebem duas taças de conxa primorozamente lavradas, e destas passa a outras da mesma perfeiçaõ, e de muito mayor grandeza, destas passa a dita agoa a comunicarsse ao povo. He (sic) de estimavel grandeza, e primoroza architetura aSim na altura, como na perfeiçam do seu lavrado por ser obra moderna, porquanto da parte do nascente se acham escriptas em conta as palavras, ou letras seguintes. = 1750 = e da parte do poente se lé a inscripçaõ seguinte=
Hanc molem extrixit, populo auxiliante, Senatus,
Una ergo ex duplici fonte perennat aqua.

A seta amarela indica a Torre dos Clérigos e a elipse verde o chafariz do Olival aqui descrito. Este seria provavelmente do mesmo tipo do que existiu em S. Domingos (compare-se com o chafariz do Terreiro, em Caminha, obra das mesmas mãos do portuense do largo de S. Domingos)
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[1] - confesso que não consigo ler o primeiro nome sem ficar com grande dúvida
[2] - Escritura de Outubro de 1684