terça-feira, 25 de abril de 2017

Nota de rodapé n.º 8 - pormenores fotográficos

No já longínquo ano de 1948 a revista O Tripeiro exibiu na sua capa a imagem que abaixo se reproduz (via AHMP). É uma bonita imagem do mosteiro de S. Bento de Ave-Maria (substituído pela Estação de S. Bento no início do século XX), mostrando o lado voltado à Rua do Loureiro. Aqui ficava a igreja do cenóbio ao qual, como em todos os conventos e mosteiros femininos, se acedia por uma porta lateral.

Esta imagem já foi provavelmente vista por muitos, se não todos, os meus leitores. Mas as fotografias dos monumentos antigos muitas das vezes escondem história... e se não tivermos a sorte de alguém o registar ou divulgar perdem-se, como tanta coisa que se perdeu por se crer de nenhuma importância.

Atente-se então no retângulo na foto e seu pormenor que extraí, seguido do comentário à mesma, que um certo A.E.C. fez na secção Ainda se lembra da revista O Tripeiro de Junho de 1949:
Para além do pormenor referido pelo autor das linhas abaixo, pode-se também ver nesta foto o que parece ser um engraxador abrigado do sol ardente esperando cliente, e na fonte, embora o tempo de exposição da chapa fosse tão longo que apenas nos permita ver "fantasmas" de pessoas em movimento, se depreende que a fonte teria mais movimento do que aparenta.

«Vi, acompanhando o seu número de Maio [de 1948], a bonita gravura do mosteiro das freiras beneditinas, um dos mais interessantes e típicos monumentos da arquitectura monástica portuguesa, que não pôde resistir ao camartelo modernizador.

Atrairam a minha atenção nessa estampa dois pormenores, que provàvelmente a maioria da população actual da cidade não terá conseguido interpretar.

À direita, no alto dos dois lanços da escadaria do adro da igreja, divisam-se duas coisas que fazem lembrar enormes piornas, ou então jarras bojudas.
...
Muitos julgarão serem ornamentos fazendo parte do conjunto arquitectónico do edifício, mas não era assim. Eram torcedores constituidos por um jogo de rodas diferenciais, movidas à mão por uma manivela, com que os serigueiros cochavam os cordões das suas passamanarias. Esse trabalho fazia-se muito frequentemente, esticando os cordões ao longo (sentido Este-Oeste) do adro ou grande pátio lageado da igreja do convento, o qual marginava a rua do Loureiro, torcendo-os depois - serviço assás barulhento - com os discos que o quadro mostra.»

Como vê o caro leitor, se as imagens falassem quantos pequenos fragmentos históricos teriam para nos contar?...

sexta-feira, 21 de abril de 2017

O correio no Porto - apontamentos para a sua história

Embora o estabelecimento de serviços postais em Portugal venha já de alguns séculos atrás, a sua generalização, ou massificação, é em alguma medida consequência do fontismo (termo generalista usado como sinónimo do Progresso que o país materialmente experimentou) a partir da chegada de Fontes Pereira de Melo ao poder. No caso dos correios, foi nessa altura que se fez uma reforma estrutural dos serviços onde por exemplo se generalizou a distribuição porta a porta nos centros urbanos e também a diferenciação dos preços a pagar através dos agora tão comuns selos.

No Porto, a administração dos Correios passou por diversos locais, mas para a época que nos interessa, inícios do século XIX, este serviço albergava-se num edifício localizado entre as atuais ruas de Cândido dos Reis e Conde de Vizela, com fachada virada para a rua das Carmelitas[1].
Segundo li em artigo de O Tripeiro, apenas em 1836 passou para o extinto convento das Carmelitas, agora totalmente desaparecido mas que na altura centralizava várias repartições do Estado; contudo como vamos ler abaixo, essa mudança fez-se provavelmente uns anos antes...
Estas duas fotos provenientes de postais antigos mostram-nos a Rua das Carmelitas nos inícios de novecentos: 1- Edifício onde esteve sediada a Administração do Correio[1]; 2- Igreja dos Clérigos; 3 - Antigo convento das Carmelitas, onde largos anos esteve também sediado a Administração do Correio; 4 - Mercado do Anjo, construído em 1837.

Os curiosos apontamentos que abaixo apresento foram retiradas de periódicos portuenses:

1. A Junta Provisória Encarregada de Manter a Legítima Autoridade de El Rei o Sr. D. Pedro IV mandou em junto de 1828 que o administrador do correio do Porto fizesse estabelecer dous ou tres pontos nesta cidade, onde julgar mais proveitosos, caixas para receção de cartas, encarregando a sua guarda e vigilância a pessoas de probidade; isto para facilitar ao público comodidades para a remessa das correspondências particulares. Com a ressalva de que: para não retardar a regular partida dos correios para as diferentes partes do reino, tomará Vm. as medidas necessárias, em relação às distâncias em que estiverem colocadas as caixas, para mandar recolher a essa administração as que se acharem dentro delas.

Era uma modernidade!: três caixas de correio espalhadas pela cidade, dando descanso aos pés dos interessados, obstando-os de um longo caminho até à casa da administração! Se de facto a situação prevaleceu no tempo ou não é algo que desconheço, pois poucos meses depois o país "absolutismou" com D. Miguel usurpando o poder e os partidários de D. Pedro fugindo para Inglaterra![2].

Notícia mais interessante foi a que encontrei remontando a 1834, quase um ano depois do fim do cerco à cidade (1832-1833), nos derradeiros meses da guerra civil (1828-1834):

«Somos authorizados a annunciar, que para utilidade pública dos Habitantes desta Cidade se achão deffinitivamente collocadas em differentes paragens,  - Caixas para recepção das Cartas – a fim de se evitar a demora em remessas á Administração do Correio, aonde até agora havia unicamente a Caixa geral.
Os sitios onde se achão as Caixas, são os seguintes:
- Na Porta Nobre, da parte de fóra.
- Na Esquina, entre a rua dos Inglezes, e a rua de S. João.
- Na Feira de S. Bento das Freiras.
- No Largo da Batalha, junto á Capella.
- Na Rua direita, defronte da travessa dos Capuchos.
- Na Esquina, entre a rua do Bomjardim, e a rua do Estevão.
- Na Rua d’Almada, ao cimo.
- Na Esquina entre a rua de Cedofeita, e a rua dos Bragas.
- Em Villa Nova, no Cabeçudo.
- E nas Costeiras.
Os moradores proximos destes sitios podem informar-se das horas a que da Administração do Correio se mandão tirar as Cartas, conforme está escripto em cada huma, para ficarem certos de que todas as Cartas deitadas antes das horas fixadas são expedidas na competente partida regular, - e que deitadas depois sómente são enviadas no turno seguinte.
A utilidade deste estabelecimento, que na Capital se acha em via há muitos annos, mas que a estupida crença dos Sectarios de D. Miguel julgou innovação perigosa para o Porto, quando em 1828 o Absolutismo reassumiu o sceptro de ferro, depois de alguns dias de uso, - he evidentemente proveitosa porque assim vimos a ter ramificada em diversos 11 pontos a recepção de todas as Cartas para o Correio, com a mesma regularidade, com que até agora se usava na que se acha á porta da Administração, no extincto Convento das Carmelitas.»

Ou seja, estamos a falar dos primeiros marcos de correio que foram realmente estabelecidos na cidade! Mas o artigo vai mais longe:

«Da mesma fórma, se tem tomado medidas para pouco e pouco se ir estabelecendo a Posta pequena, que he encarregada de entregar as Cartas em casa de que para isso der ordem, logo que cheguem os Correios, pagando sómente 5 reis em cada carta, a maior, do preço da Lei para o Correio Geral. As Pessoas que desejarem receber assim as suas Cartas, queirão avisar a Administração do Correio nesta Cidade; ou por Carta lançada em qualquer das Caixas, ou no mesmo local da Distribuição.»

Como os meus caros leitores compreenderão, a posta pequena é nada mais, nada menos do que a entrega ao domicílio da correspondência; coisa tão banal nos dias que correm... Mas prossigamos com a leitura do artigo que é de veras interessante:

«He preciso desarreigar varios prejuizos, e de certo he hum dos que temos mais inveterados, o uso de julgarmos por melhor o escreverem-se os nomes de quem tem Cartas a receber, em Listas públicas á porta do Correio, habilitando assim quem quizer a hir tirar as Cartas que lhe parecer, sem responsabilidade de quem as entrega, porque não he obrigado a conhecer todo o mundo nem a saber se esta ou aquella pessoa vai mandado pelo dono da Carta &c. Presentemente, não he possivel pôr em pratica com regular distribuição a entrega geral pelas diferentes casas, porque não tendo ainda voltado a suas habituaes residencias os moradores dos diversos Bairros, pela mudança forçada em rasão dos projecteis do inimigo, composição d’antigas habitações &c, em vez de se acreditar o novo arranjo, acharia nos tropêços desta confusão de moradias, hum estorvo terrivel. Mas pouco e pouco he necessario hir acostumando, até por que pouco e pouco se vai habitualmente regulando o exercicio dos Entregadores etc. Porque ao principio se acham embaraçados em qualquer forma, querer logo que se diga que a innovação he má, parece desairoso na bocca de quem confessa a todos os respeitos, que he preciso sahir da velha rotina de abusos. Queixe-se quem julgar irregularidades, e se depois as não vir remediadas, embora grite, que a opinião geral fará justiça, porque ás vezes he o frenezi do genio que falla, e não a justêza do raciocinio do Cidadão impaciente, e desarrazoado. Em as cousas tomando o habito antigo das moradas certas e regulares, há de fazer-se no Porto, o que se faz já em Lisboa, e nos Paizes civilisados, que a experiencia d’abusos teve a felicidade de corrigir por fortuna delles, primeiro que nos tocasse a nossa vez.
Vamos por tantou pouco e pouco, que vamos melhor, e as Pessoas interessadas em que nos mostremos dignos de reformas, e não bisonhos e faltos de instrucção para as receber, principiem a dar o exemplo: estabeleça-se a Posta pequena para se nos entregar a correspondencia, mandando nossos nomes para isso ao Correio, pois que as Pessoas de menos raciocinio, vendo o exemplo desenvolvido pela prática, convencem-se e seguem a marcha dos outros.»[3]

Aqui estão uns simples parágrafos, caro leitor, que nos abre uma janela para o Porto de oitocentos e nos mostra alguns pormenores dele que não fazem parte da história, pois a maioria destes pormenores ficaram perdidos no tempo, envoltos em generalidades necessárias para efeitos de concisão, repetidas sobre esse mesmo quotidiano ou simplesmente esquecidos no tempo...
Seriam os marcos de 1834 semelhantes a este do final de oitocentos, em baixo à esquerda neste postal antigo? (cruzamento da Avenida Rodrigues de Freitas com a Rua de D. João IV; o marco está em frente a um dos portões do jardim de S. Lázaro, não visível na foto). 
Para terminar, e do mesmo jornal, extraio aquela que é talvez a primeira reclamação sobre as caixas do correio[4]:

«Ninguem poderá negar a utilidade desta innovação; mas quizera eu perguntar ao Sr. Administrador [do correio], porque rasão havia de hir incommodar o publico para conseguir este fim, pondo sobre os passeios caixas enormes, que quasi obrigào os caminhantes a descer delles, e de noite a esbarrar-se contra ellas, como acontece no cimo da rua d’Almada? Não seria melhor que a adoptar-se a medida, se seguisse o exemplo das nações onde ella está em pratica, pondo as Caixas em diversas lojas?» o protesto continua e extende-se também à «chiadeira dos carros, e hum certo perfume, que se consente derramar a toda a hora do dia pelas ruas da Cidade»; abusos que, segundo o autor, «só huma relaxação inaudita póde ter deixado introduzir» e espera também que se tomem «as providencias necessarias para a limpeza das ruas, e outros regulamentos indispensaveis de se pôrem em pratica n’huma Cidade com tantas porpoções para ser huma das mais aceadas e commodas»[5]

Embora não tenha encontrado qualquer referência ao início da distribuição domiciliária do correio, é evidente que ela já se encontrava em curso pelo aviso que surge publicado nos finais de Setembro:

«Previnem se as Pessoas que recebem Cartas pela pequena posta nesta cidade, e que tenhão tenção de querer a continuação da entrega como até aqui - que se houverem de mudar de habitação no proximo S. Miguel - haja de previnir a Administração a tempo de não soffrerem interrupção».[6]
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1 - Esta informação não a reputo como 100% correta pois ainda não vi estudo ou documento que apresente de uma forma credível a certeza de ter sido aquela casa.
2 -  Morrendo alguns às mãos de carrascos miguelistas na Praça da Liberdade. A notícia em si, colhi-a do Diário do Porto que existiu durante os curtos meses em que se manteve a Junta.
3 - Da Chronica Constitucional da Cidade do Porto de 21 de março de 1834.
4 - Os jornais a partir deste ano começam a ser verdadeiras portais de opinião equivalentes aos nossos desabafos de hoje nas "redes sociais". Por vezes existiam mesmo lutas bastante acesas entre fulano e sicrano, bem como periódicos onde o partidismo era declarado.
5 - O artigo era assinado simplesmente por hum portuense. Lembremos que a iluminação noturna era feita à época por lampiões de azeite e que não era fiscalizada corretamente, pelo que a sua luz era em muitos locais medíocre.
[6] - O S. Miguel de Setembro é o dia 29 desse mês, dedicado ao arcanjo; o costume de se pagar foros, rendas, etc ou mudar de casa nesse dia vinha já desde os tempos medievais.

terça-feira, 18 de abril de 2017

A freguesia da Vitória (nas memórias paroquiais) - parte 3

E para acabar este exposição sobre a paróquia da Vitória nas memórias paroquiais de 1758, prosseguimos seguindo o Rev. Abade na sua dissertação:


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Tem mais esta freguezia a perenne fonte q está emcostada a o muro da cerca do convento de S. João Novo, porem naõ sei, que algua destaz agoas mencionadas, tenham algua especial qualidade, ou virtude, ainda que esta ultima da que se faz mençaõ, tem a sua origem no sitio aonde esta situada a Senhora das Virtudes, que he freguezia de S. Pedro de Miragaya extra muros desta cidade.

Nesta imagem do googlemaps tento reproduzir parte de uma planta do século XVIII, assinalando a branco os locais (aproximados) onde existiram casas que foram demolidas naquele século, as do lado de dentro da cidade; e as que ficavam do lado de fora que só o foram já em meados do seguinte. O circulo verde é o local do chafariz já descrito na 2º parte. Surge aqui também uma capela que existia diante da cadeia e onde, creio, os condenados à forca ouviam missa pela última vez; bem como o local da antiga Porta do Olival, marcada com o n.º 1. De referir, por último, que do lado sul, as últimas casas dos lotes assinalados só foram demolidas na primeira década do século atual.
... a cidade do Porto he murada e em todo o ambito de seus muros tem dezoito portas por onde se serve entre as coatro principais, q saõ Porta Nova, Porta da Ribeira, Porta de Cimo de Villa e a Porta do Olival pertencente a esta freguezia, e tomou o nome de se continuar fora della antigamente hum grade olival, he a milhor e de mayor concurso e se acha formada entre duas torres quadradas e sobre ambas tem hua atalaia e grande [1] q antigamente servio de corpo da guarda, enquanto se naõ edeficou o novo defronte do Palacio dos Marquezes de Arronches junto a Rua Cham, daqual atalaya por ser alta, e no sitio mais  alto da cidade se descobre literalmente muitas povoaçois e freguezias; como sam o Lugar de Maçarellos, Ribeira do Ouro, S. João da Foz do Douro, a sua barra, Cabedello, e huá dilatada parte do mar oceano, e desse sitio costumaõ os moradores ver a entrada e sahida das flotas[2] do Brazil, Inglezas, e mais navios estrangeiros, que pera sua segurança devem observar quando entraõ e sahem, a torre da baliza, q tambem deste sitio se vé, q vulgarmente se chama a Torre da Marca, obra q mandou fazer o bispo de Vizeu ao depois Cardeal D. Miguel da Silva...no tempo em q asistio nesta cidade no anno de 1543...
Pormenor que mostra as casas que apenas foram demolidas já no início do século XXI (por alturas do Porto 2001?). Tal como a casa do café Porta do Olival também para a elas se aceder havia que subir por uns degraus de pedra; remanescência de como era todo aquele correr no século XVIII.
As demais portas abertas no muro da cidade, q circunda esta freguezia, sam o Postigo das Virtudes, porq delle se faz tranzito pera a fonte de Nossa Senhora das Virtudes, e o Postigo de S. Joaõ Novo, e supposto tem o nome de postigos, milhor lhe convem o nome de portas depois de serem alargados pera mayor comodidade da serventia da cidade, porq ficaraõ com largura de mais de doze palmos, e de altura mais de vinte cuja obra foi feita modernamente por serem estreitos, e no seu principio foram fabricados com os muros da cidade, que teram de altura pouco mais ou menos sincoenta palmos, e de grossura mais de doze tudo de pedra de cantaria lavrada, e aSentada as fiadas, coroado tudo de ameas da mesma pedra.
A muralha nas traseiras das casas do largo de S. João Novo. o n.º 1 indica um torreão e o 2 o corpo da muralha, ficando-se com uma ideia da largura do antigo caminho de ronda.
Continha todo este muro trinta torres cubicas, q sobre sahiaõ, e se alteavam sobre os muros couza de quinze palmos, porq alguns se lhe tiraraõ, como foi na parte do muro, que circuita esta freguezia, por ordem de S. Magestade em carta firmada pella real maõ do dito senhor do primeiro de fevereiro do anno de 1752, se lhe tiraraõ duas, que estavam no dito muro abaixo da nova e insigne igreja dos clerigos pobres por fazerem prejuizo, e aSombrarem as ditas torres o frontespicio da dita igreja, e ao prezente na parte q circuita esta freguezia, se achaõ somente seis, excepto a torre da Porta do Olival ja mencionada, e aSim estas, como todaz as mais torres, que no muro se acham foraõ principiadas com o dito muro da cidade, q teve principio no anno de 1336 em que reinava D. Afonço 4º, e findou no de 1374 reinando seu neto D. Fernando, q por isso a elle se attribuiu esta grande fabrica, que todo occupa quaze tres mil passos ... de tres pes geometricos cada hum, e a parte, q circunda esta freguezia, tera coatro centos, e sincoenta passos sobreditos, e conforme a constante tradiçaõ, gastou toda a obra o espaço de quarenta annos pera se acabar, porq só no tempo de El Rey D. Pedro o 1º filho de hum e pay de outro rey se trabalhava com concluir[1] na dita obra, como se pode ver em D. Nicol de Santa Maria na Cronica dos Conegos Regrentas...
A obra dos muroz ainda que antiga, e sem aggramassa de cal, he de tal fortaleza, q rezistio ao grande, e formidavel terremoto do anno de 1755 porq lhe naõ fes brecha, ou fenda alguã de novo, e somente lhe fes cahir huã ameya entre arbores da Porta do Olival, e descompos as da atalaya que se sustenta nellas, as quaes se mandaraõ abater em lugar de se comporem, ficando a dita atalaya sem a sua prespectiva, e antigo ornato das ameas q lhe serviaõ de coroa, e que a faziaõ destinguir das mais da cidade.

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NOTA: Esta memoria foi escrita pelo abade Francisco Antonio.

quinta-feira, 13 de abril de 2017

A freguesia da Vitória (nas memórias paroquiais) - parte 2

Prossigo com o ressuscitar de velhas memórias através das memórias paroquiais de 1758, referentes à freguesia da Vitória. E conforme as vou relendo, mais vou reaprendendo... Este blogue dá por vezes algum trabalho... mas a satisfação que tiro da leitura destes velhos documentos e o prazer tirado da partilha da informação neles contida, em muito o supera!

Uma nota apenas: desta vez decidi usar títulos. Estes são meus, não provêm do documento original ,que se limita a numerar as respostas às perguntas.

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MOSTEIRO DE S. BENTO DA VITORIA
…nesta freguezia há hum convento denominado Saõ Bento da Victoria, cujo patrono he o patriarca Saõ Bento, e naõ tem padroeiro secular, o qual foi fundado no anno de 1598 e está situado em hum ameno sitio da cidade, e muito a enobreSe, ainda q a descripçaõ delle pode ver nos doutores chronistas desta sagrada, e antiga religião. He tam egregio e magnifico, que serviria de illustre ornamento a qual quer outra cidade, porq he quadrado com eminente e aprazivel vista do caudaloso rio Douro, de formoza architectura, e abobedas de pedra lavrada, com as mais officinas correspondentes que depois de visto concilia a admiraçaõ da arte. He este o mais famozo naõ só da cidade, mas da provincia interamense, e nelle se veneraõ as milhores imagens do do desterro de Jezus, Maria, e Joze quando voltaraõ do Egyto…


CONVENTO DE S. JOÃO NOVO
Tem mais esta freguezia o convento dos religiozos eremitas de S. Agostinho… o qual he de igual grandeza, e perfeiçaõ de arte, ao de S. Bento aSima referido, e em milhor sitio, e vista do rio Douro, por estar sobre suas margens. Neste convento se venera com grande devoçaõ a imagem de Nossa Senhora da Guia por se avaliar ser a mais bem acabada daquellas, que ha nesta cidade, a qual foi feita pello insigne [1] Manuel de Almeyda natural da mesma cidade…


HOSPITAL DOS TERCEIROS DE S. FRANCISCO
… na rua da Ferraria de Baixo desta freguezia, ha hum Hospital, que serve de curar as infermidades dos irmaõs terceiros de S. Francisco, q adoecem e naõ tem com que curarse em suas cazas. Principou esta obra em 28 de abril de 1734; e por ser obra magnifica durou the o anno de 1743; q foi o primeiro anno em q pera o dito hospital entraraõ os doentes, o q foi no dia primeiro de septembro do dito anno de 1743. Pera esta obra muitas pessoas deixaraõ suas esmolas…


CAPELA DE NOSSA SENHORA DA SILVA
…na rua da Ferraria de Sima desta freguezia, que antigamente se chamava de Rua da Lage, está situado o hospital de S. Joaõ baptista, cujaz cazas se comunicaõ com outras da Rua de Traz da mesma Ferraria: he antigo, e da admenistraçaõ hoje dos confrades de Nossa Senhora da Silva da cathedral da Sé q sendo a mayor parte ferreiroz, quando estes morrem pobres, suas molheres viuvas saõ alimentadas no dito hospital, e unidose todos os hospitais com o que admenistra a Santa Caza da Mizericordia desta cidade, por aSim o ordenar o Senhor Rey D. Joaõ 3 pera serem admenistrados pellos irmaos da caza da Mizericordia; este por naõ ter rendas, e ser governado pella Camera da cidade, naõ entrou na dita uniaõ, e disposiçaõ…
A sua origem he muito antiga, porq conforme alguns antiguarios q trataõ desta cidade dizem, q este hospital fora de molheres recluzas ou emparedadas a quem deixou vinte libras de esmolla em seu testamento o bispo della D. Sancho Pires, q foi dez o anno de Nosso Senhor Jezu christo 1296 the o anno de 1300 e que neste sitio viviaõ, e naõ em S. Nicolau, que esta da outra banda do Douro como dis huá nota a margem do Censual do Cabido…
A este dito hospital se uniraõ o de S. Catherina e de Santiago, q estavaõ situados na Reboleira freguezia de S. Nicolau desta mesma cidade; cuja uniaõ foi em 5 de novembro de 1685, sendo que antes desta uniaõ existiraõ algum tempo no rocio de S. joaó novo, que foi des a era de 1682 the o anno de 1685 e as cauzas destas mudanças, foi em rezaõ de ser o sitio da Reboleira, em q estavaõ os dois hospitais de S. Caterina e Santiago, necessario pera se fazer a igreja parochial de S. Nicolau… [2]



CAPELA DE S. JOSE DAS TAIPAS
…esta freguezia tem duas capellas: a saber, hua de S. Joze da Rua das Taipas q foi feita por Joze Pacheco Pereira, haverá noventa annos: nella se venera como Padroeiro a imagem de S. Joze, q se julga ser huá das mais perfeitas imagens da cidade, e se acha colocada no altar mor. Tem mais dois altares colaterais: o da parte da Epistola dedicado a Nossa Senhora da Soledade e o da parte do Evangelho dedicado á Nossa Senhora com o titulo da Devina Providencia. Esta capella no seu tanto he perfeita e de prezente nella se fazem todos os ministerios e funçois parochiais e festas por estar servindo de parochia por cauza da ruina da parrochial igreja, e somente nella se naõ fazem os officios da semana santa, por naõ ter a capella o espaço necessario pera elles se fazerem com o esplendor com q sempre se fizeraõ…na igreja principal e ham de continuar, reedeficada q seja…


CAPELA DE SANTO ANTONIO
Tem mais outra cappella dedicada a S. Antonio defronte das cadeas da Rellaçaõ, e serve de se dizer missa pera os prezos ouvirem aos domingos, e dias santos e consta ser feita pello dito Joze Pacheco Pereira q tambem fes a de S. Joze aSima mencionada.

 … esta freguesia naõ tem fructos, por ser toda povoada de cazas, e naõ haver onde se cultivem.

…  a principal parte da nobreza desta florente cidade mora e aSiste nesta freguezia aonde há mais oratorios, em q se dis missa privada, do que nas mais freguezias, e por se compor dos mais altos e amenos bairros, ficarem junto da Rellaçaõ, regularmente nella vivem os ministros do Dezembargo cujos filhos tem sobido aos lugares eminemtes de letras…

… esta freguezia naõ tem feira alguá franca, ou cativa.

… esta freguezia se serve do correyo geral desta cidade, o qual chega na sesta feira de cada semana, e parte ao domingo.


CHAFARIZ DO OLIVAL
… nesta freguezia há dois chafrizes, os melhores, e mais elevados, q há em toda esta cidade. Hum sito na praça da Rua da Porta do Olival, que lança agoa perenne, he o mais elevado chafaris da cidade, deitando agoa que lhe vem da arca de Paranhos em distancia de mais de meya legoa, em beneficio dos moradores da dita rua, em tal forma que no primeiro capitel a lança por coatro bicas, q se recolhem na primeira vaze, q he de ordinaria grandeza, e deste se expelle por outras coatro bicas q cahem na segunda vaze, a qual he de extremosa grandeza, q cauza admiraçaõ a todos aquelles q bem a examinam, como podesse ser trazida aquelle sitio tam grande pedra, e desta correm coatro bicas de que se aproveitaõ os moradores e toda a mais cidade; e he em tanta abundancia o aqueducto desta agoa, que somente deste chafaris se reparte pera varias parte; como he pera os prezos da Rellaçaõ desta freguezia, e da mesma agoa se recorrem os religiozos de S. Antonio de Valle da Piedade pera o seu Hospicio sito na Cordoaria Nova, e os religiozos do mosteiro de S. Bento já mencionado, e hospital geral desta cidade, e tambem do mesmo aqueducto vem dar ao chafariz do Postigo das Virtudes, que milhor se lhe pode chamar porta pella grandeza, e largura corre este chafaris perennemente no seu elevado capitel por coatro bicas, cuja agoa recebe huã excellente e primoroza taça, e desta sahe por duaz bicas, q recebem duas taças de conxa primorozamente lavradas, e destas passa a outras da mesma perfeiçaõ, e de muito mayor grandeza, destas passa a dita agoa a comunicarsse ao povo. He (sic) de estimavel grandeza, e primoroza architetura aSim na altura, como na perfeiçam do seu lavrado por ser obra moderna, porquanto da parte do nascente se acham escriptas em conta as palavras, ou letras seguintes. = 1750 = e da parte do poente se lé a inscripçaõ seguinte=
Hanc molem extrixit, populo auxiliante, Senatus,
Una ergo ex duplici fonte perennat aqua.

A seta amarela indica a Torre dos Clérigos e a elipse verde o chafariz do Olival aqui descrito. Este seria provavelmente do mesmo tipo do que existiu em S. Domingos (compare-se com o chafariz do Terreiro, em Caminha, obra das mesmas mãos do portuense do largo de S. Domingos)
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[1] - confesso que não consigo ler o primeiro nome sem ficar com grande dúvida
[2] - Escritura de Outubro de 1684

segunda-feira, 10 de abril de 2017

A freguesia da Vitória (nas memórias paroquiais) - parte 1

As memórias paroquiais de 1758 são uma boa fonte de informação para quem quiser conhecer a organização e outras particularidades do país pouco depois do terremoto de 1755. Foram mandadas fazer pelo Marquês do Pombal, tendo os inquéritos sido enviados aos bispos para que estes os distribuíssem pelos seus párocos e posteriormente devolvessem à administração central. Não é meu propósito transcrever inteiramente as respeitantes à cidade do Porto, até porque elas estão disponíveis AQUI; limito-me a apresentar extratos delas que possam ter informação interessante para o portuense de agora a quem, como eu, apaixonam estas antiqualhas...
Deveria talvez começar pela freguesia da Sé, o núcleo mais antigo da cidade, mas permitam-me os leitores, começarei pela da Vitória.


«»

«A freguesia de Nossa Senhora da Victoria da cidade do Porto está situada dentro dos muros della pera a parte do norte, e fundada a sua parochial igreja no mais alto do monte Victoria, que lhe deu o nome, porq conforme a tradição e o constante, este foi o sitio em que os Catholicos alcansaraõ huá insigne victoria dos Mouros, quando depois da universal perda da Hespanha, em que entrou esta cidade, a restaurarão, e sendo o mayor conflicto no sitio da batalha que ainda conserva o nome, fora da porta de Cima de villa freguesia de S. Ildefonso, neste monte da Victoria a vieraõ concluir, dedicando com este nome huá capella a Nossa Senhora no lugar aonde ao dipois se fundou a igreja da freguezia, e desta victoria se conserva huá excelente pintura, q cobre a tribuna do altar mor, que mostra com delleitavel horror o destrosso dos inimigos da fé, e triunfo dos portuguezes asistidos do patrocinio da Senhora[1].
E por ameassar ruina esta igreja, não por causa do terremoto do anno de 1755, mas por a sua fabrica ser antiga e de madeira, se mudaraõ as imagens da Senhora, sanctos, e e Santissimo Sacramento por ordem do governador do bispado o Exmo. bispo de Tangere, D. João da Silva Ferreira em huá solemne procissaõ, que se fes em o Domingo 4. de mayo do dito anno, pera a capella de S. Joze da rua das Taipaz, que fica dentro da freguesia.

...contem esta freguesia em si, quinze ruas: a saber; Rua de S. Bento, Porta do Olival, Ferraria de Sima, Viella do Ferras, Rua de Traz, Taipas, Postigo das Virtudes, Padram de Belmonte, Rua de S. João Novo, Ferraria de Baixo, Rua de S. Domingos, Rua de Sam Miguel, Rua detras da Victoria, Rua de S. Roque e Viella da Esnoga; q tomou este nome dos antigos judeus, que ahi viviaõ aRuados, e com goardas, e se permitiaõ dentro das cidades; e pello contrario os Mouros fora dellas como dis Brandaõ na 6ª parte da Monarchia Luzitana...

... o Orago da igreja he a dita Nossa Senhora da Victoria, e he de huá só nave e se compoem de coatro altares: o mayor em que está colocada a imagem nova de Nossa Senhora estofada dentro de vidrassas; dois coletraes: o da parte da Epistola dedicado a S. Paulo e o da parte do Evangelho a nosse Senhor crucificado da invocação das Almas...
Na dita igreja parochial se acha colocada a imagem milagrosa do Martir S. Sebastiaõ no altar mor da parte da Epistola ... a qual foi trasladada do Convento dos religiozos de S. Domingos desta cidade para esta igreja em 9 de abril de 1742...

... O parocho desta dita freguezia da Victoria tambem o he dos prezos da Rellaçaõ, e lhes admenistra os Sacramentos, por esta Rellaçaõ se achar dentro dos lemites da sua freguezia, e pello preceito Parochial na dita caza da Rellaçaõ, q se acha aRuinada de prezente, mas com esperanças de reforma...
Este regio tribunal da Rellaçaõ he hum dos milhores ornamentos da cidade, e se pode ver sua origem no Catalogo dos Bispos della ... aonde diz q a mudança da caza da Rellaçaõ tam dezejada e tantas vezes pedida ao senhor rei D. João 3º, e a seu neto o senhor rei D. Sebastiam, so teve execuçaõ no tempo do senhor rei D. Filipe II de Castella, mudando este tribunal pera esta cidade...[2]

He composto ao prezente este tribunal de dez dezembargadores de aggravoz, coatro corregedores de vara, dois do crime, e dois do civel: hum juiz da Coroa, hum procurador da mesma, tres ouvidores do crime, hum promotor das justiças; e outros menistros, q todos sam dezembargadores e vestem beca. Hum chanceler, q naõ havendo governador, serve como tal, e he hum dos mayores lugares de letras[?], q o nosso soberano costuma prover, e a este tribunal vem por aggravo, e appelaçaõ civel o crime as cauzas, que excedem as alçadas dos julgadores das tres provinciais do reyno Beira, Minho e Trasosmontes, com escrivaõs, meirinhos, e mais officiaes competentes para a recta admenistraçaõ da Justiça; e fica sendo esta famosa cidade com tanta concorrencia de feitos e pleitos como um dos conventos juridicos dos romanos, de q faz mençaõ Plinio e outros historiadores...
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1 - Se a lenda da batalha é verdadeira ou não ficará por apurar. Mas estas lendas do tempo dos mouros... Facto é que o monte da Vitória (nome que aliás na prática caiu em desuso) era conhecido no início da baixa idade média por mons menendi, como o atestam alguns documentos do século XIII que até nós chegaram. A igreja da Vitória atual foi erguida no século XVIII, substituindo uma outra que havia por sua vez sido ereta no terreno onde existira a sinagoga judaica.

2 - O que se deu em 1583.

terça-feira, 4 de abril de 2017

Alguns apontamentos e uma imagem inédita da fonte dos Banhos

O meu interesse pela história da cidade do Porto começou precisamente pelo desaparecido bairro dos Banhos, uma vez que a sua localização coincidiu com a rua onde fui criado. A isso ajudou as longas conversas que tive com um vizinho que me incutiu este gosto e que funcionou como que o gatilho dele, o que recordo com saudade.

É difícil atualmente termos consciência plena de como era aquele bairro, de como se dispunham as casas, vielas, passagens, etc. Dele resta-nos apenas parte da rua de S. Francisco, do Forno Velho e as Escadas do Recanto (topónimo certamente criado após a demolição dos arruamentos ali existentes). Não me irei alongar muito mais sobre esta situação, até porque já coloquei algumas postagens sobre o assunto. Mas voltando à incógnita dos nomes dos arruamentos ali existentes, transcrevo abaixo o edital da câmara referente às expropriações naquela zona para a construção da rua da Nova Alfândega. Imaginem os leitores o Barredo completamente desaparecido e parte da Ribeira e talvez fiquem com uma ideia de tudo o que realmente se perdeu.


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«TENDO de proceder-se á expropriação, por utilidade publica, de diversas casas para a abertura da rua da Nova Alfandega, são por esta forma e por deliberação da exc.ma camara municipal prevenidos os interessados, de que os predios comprehendidos na expropriação são os seguintes: - Todas as casas do lado do sul da rua de S. Francisco, desde a rua dos Inglezes até á viella de Calca Frades. - Todas as casas do lado do norte da rua de S. Nicolau, desde os n.º 1, 3 e 5 até 45 e 47 inclusivè, e a casa do lado do sul com os n.º 4 e 6. - As casas da rua da Reboleira com os n.º 63, 65 e 67. - As casas da rua dos Banhos do lado do norte desde os n.º 2, 4, 6 e 8 até 42 e 44 inclusivè, e desde os n.º 46 e 48 até 176 e 178 inclusivè. - Todas as casas do lado do sul da dita rua dos Banhos, desde os n.º 1, 3 e 5 até 83 e 85 inclusivè - Todas as casas de Cima do Muro, desde os n.º 159 a 261 inclusivè. - As casas em Calca Frades com os n.º 5, 9 e 11, e as casas de Miragaya com os n.º 1 e 2 a 23. - Todos estes predios deverão ser despejados até ao dia 31 de Março proximo, que tanto é o tempo que se julga preciso para a conclusão do processo d'expropriação.
Porto e Paços do Concelho, 9 de fevereiro de 1870.»

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A demolição em 1871, o circulo vermelho aponta o local da fonte dos Banhos, referida mais abaixo
No caso da rua dos Banhos nada ficou para contar a história. Para termos uma ideia de como seria, talvez que aquela que mais se lhe aproximará em ambiente seja por ventura a rua da Fonte Taurina. Curiosamente no edital não se fala na rua do Reguinho, topónimo mencionado pelo menos uns anos antes, quando a população daquele bairro pediu à Câmara que lhes ministrasse água potável para a fonte local.

Ora essa mesma fonte localizava-se na Travessa dos Banhos (novamente uma rua não nomeada no edital), tendo sido levada na hecatombe demolidora e da qual pouco mais se sabe para além do nome. Não lhe conhecendo eu nenhum registo fotográfico, tive contudo a felicidade de a encontrar em desenho no livro Here and there in Portugal, editado em Londres em 1856 onde o autor descreve sucintamente a rua dos Banhos:

« The coopers, for whom there is abundant occupation in Oporto, occupy a long and very narrow street, running parallel with the river, called Rua dos Banhos, whose irregular but picturesque buildings would give an artist ample occupation. The fountains are some of them quaint and curious, but the most characteristic is situated in this street. »

É muito curiosa esta observação sobre ser a fonte dos Banhos a mais característica das fontes. O autor ou alguém por ele deu-se ao "trabalho" de a registar em desenho, registo histórico único(?) para alegria do portuense do século XXI! Ei-la:

A fonte dos Banhos.
Local onde se situava a fonte no denominado bairro dos Banhos.
Local aproximado onde a fonte se encontrava, ainda que a uma cota mais baixa.

quarta-feira, 29 de março de 2017

Água canalizada ao domicílio

Embora o advento da água canalizada ao domicílio se tornasse uma realidade na cidade do Porto apenas em finais do século XIX, ela começava já a ser sonhada algumas décadas antes. É isso mesmo que comprova este pequeno texto tirado do jornal Patriota Portuense de 19 de junho de 1821.

«Introducção da agoa em todas as casas de Lisboa e Porto
De todos os inventos que observamos em nossas viagens, e de que desejariamos que os nossos concidadaõs aproveitassem, sería hum dos primeiros o conduzir a agoa a todas as casas de Lisboa e do Porto, como em Londres se pratica. Com esta obra se pouparia o que em ambas estas cidades se gasta com 5 o 6$* (sic) agoadeiros que, sendo pela maior parte Gallegos, levam anualmente para a sua terra huma avultada somma de dinheiro, que por certo ficaria entre nós, se esta obra se emprehendesse. (...)
O modo por que a agoa se conduz he encanando-a pelo meio das ruas, em canos de grossos troncos de arvores ou de ferro, daqui partem pequenos tubos de ferro ou chumbo para as differentes casas, onde se enchem duas, tres ou quatro pipas, conforme o gasto de cada qual, correndo a agoa tanto tempo quanto baste para encher as vazilhas, as quais tem cada huma sua valvula que se tapa logo que a vazilha se acha cheia; e dalli passa a agoa para outra vazilha, ou para a casa do vizinho; e, dahi a huns tantos dias, torna a vir a agoa, segundo cada hum quer. (...) Seria isto no Porto muito facil, por ter esta cidade muito declive, e por isso mui facil seria de encanar a agoa que se encontra nas alturas que lhe ficam sobranceiras; taes saõ as que se poderia tirar da Quinta do Bomjardim, de Fradellos, do Hospital novo, &c»

A fonte dos leões quase no início da sua vida. Um projeto escolhido de entre sete alternativas, a água que passava por ela seguia posteriormente para a zona baixa da cidade continuando a abastecer a rede (foto AHMP).

Mas estávamos em 1821 e era ainda muito cedo para pensar em obras de tão grande vulto mesmo que representassem um avanço civilizacional tremendo! Teria a cidade de passar por várias revoluções, duas guerras civis e entre eles anos e anos de marasmo nacional - que com certeza se repercutiram na política local - para que nos anos 80 desse mesmo século e através da Compagnie Général de Euax pour l'Étranger o Porto visse chegar finalmente a água canalizada ao domicílio através da captação no rio Sousa.

domingo, 19 de março de 2017

O Porto do século XII

Continuando a mostrar algumas descrições da cidade do Porto, a desta postagem é talvez a mais difícil (por se encontrar em latim) se bem que a mais sucinta pois quem a escreveu não estava propriamente de visita "turística" e não se desprende muito em falar no burgo, aliás parcas palavras lhe proporciona. Contudo considero-as muito importantes dado que é a primeira vez na história escrita que se fala da cidade sem ser nas fugidias notícias dos cronicões antigos asturo-leoneses (onde portucale urbe se confunde muitas vezes com a região que lhe tomou o nome) ou no foral de D. Teresa (cuja autenticidade embora aceite pelos modernos historiadores, é-o sem provas irrefutáveis) ou mesmo a sua confirmação por Afonso Henriques (este mais tendente a ser considerado falso, não obstante a importância que tem para a toponímia existente aquando da suposta falsificação).

Com efeito, esta descrição vem já desde os século XII! Foi escrita pelo célebre Osberno e está incluída na sua De expugnatione Lyxbonensi de 1147 que relata a conquista de Lisboa. A armada que transportava este nobre até à Terra Santa passou pela costa de Portugal e aportou ao Porto sem dúvida para se abastecer de mantimentos e proceder a reparações nas embarcações, se necessário.
Afonso Henriques terá enviado emissários ao Porto com uma carta para ser lida aos cruzados por forma a que estes o ajudassem na conquista daquela que é agora a nossa capital. O bispo do Porto, D. Pedro Pitões, pediu aos cruzados que subissem lá acima perto da sua igreja a ouvir missa, não perdendo a oportunidade para lhes brindar com um sermão que se traduziu para o Portugal da época como crucial. Dizia ele, mas afinal para quê irem à Terra Santa, em risco de ficar pelo caminho, quando podiam recuperar terras aos infiéis já ali, quase às portas de suas casas? O valor que Deus lhes daria seria o mesmo pois os mouros de lá não eram diferentes dos daqui! Dito e feito assim conseguiu levar Pedro Pitões a água ao moinho do nosso primeiro rei...

Capitel pré-românico em depósito no Museu de Arte Sacra do Seminário Maior do Porto. Possivelmente originário da primitiva igreja da Sé de origem asturiana (foto: Revista de Arqueologia, nº 10)

Eis o excerto referente à nossa cidade (as explicações seguem mais abaixo):

« Habet littus maris ab insula usque ad Portugalam fluvius Ovier, super quem civitas Tude; post hunc fluvius Cadivia, supra quem civitas Braccara; post hunc fluvius Ava, supra quem ecclesia Beati Tyrsi Martyris; post hunc fluvius Leticia; post hunc fluvius Doyra, supra quem Portugala, ad quam ab insula venimus circiter horam diei nonam. Dicta autem a portu Gallorum, habens jam annos reparationis suae circuiter octoginta; desolata ab introitu Maurorum, et Moabitorum. habet autem portus a meridie arenas salubres, a prima rupe in introitu usque ad aliam rupem infra, habentes in latitudine passus duodecim ab extremi recessus margine, in quibus involvuntur aegroti, donec mare superveniens eos abluat, ut sic sanentur. Ibidem vero testatus est episcopus praedecessorem suum sanatum a livore simili leprae. De hujusmodi arenis, quod sint in Hispania, in historiis Romanorum invenitur.

Cum autem pervenissemus ad portum, episcopus una cum clericis suis nobis obviam factus est (...).

His auditis, cum esset jam hora decima, usque in crastinum distulimus respondendum, ut pariter qui in navibus erant omnes mandata regis audirent, et ab episcopo absolutionem peccatorum et benedictionem susciperent. Reliqua diei pars cura rerum familiarium consumpta est. Summo mane, ex omnibus navibus in summitate montis in coemeterio episcopii, coram episcopo omnes convenimus; nam ecclesia, pro quantitate sui, omnes non caperent. Indicto ab omnibus silentio, episcopus sermonem coram omnibus lingua Latina habuit, ut per interpretes cujusque linguae sermo ejus omnibus manifestaretur (...)»

O núcleo primitivo da cidade do Porto atual, a quantidade e altura dos torreões é sem dúvida fantasiosa. A porta que se vê é a porta das Verdades que antes se chamava porta das Mentiras. Este núcleo viria posteriormente a ser conhecido como O Castelo. (foto: pormenor de uma foto da História da Cidade do Porto, Portucalense Editora).

Do discurso do bispo:
«(...) Ista enim nostra, quam cernitis, olim inter celebres, nunc ad instar parvuli reducta viculi, jam nostra memoria multoties a Mauris spoliata est. Verum enim ante hoc septennium ab eis adeo afflicta est, ut ab ecclesia Beatae Mariae Virginis cui, Dei gratia, qualiscunque deservio, signa, vestes, vasa, et omnia ecclesiae ornamenta, captis clericis aut occisis asportarent. Sed et ex civibus captivus, et ex circumquaque jacentibus territoriis, usque ad ecclesiam Beat Jacobi Apostoli, innumeros fere in patriam suam secum transtulere, non sine nobiliorum nostrorum sanguine; igne et gladio caetera consumentes omnia. (...)»

As naus com os cruzados chegaram a 16 de junho de 1147 ao Douro. O bispo logo lhes foi apresentar cumprimentos, lendo-lhes a carta de D. Afonso Henriques. Na manhã do dia seguinte subiram todos ao alto do monte da Penaventosa onde existia a igreja e o Paço Episcopal.
Notar que nesta época a igreja não era a românica que agora lá vemos e o Paço estava a séculos de ser o atual. Tratar-se-ia de uma quase ermida pré-românica (talvez do tamanho da antiga igreja de Cedofeita) sendo que, como eram muitos os cruzados, o sermão foi proferido no "cemitério do bispo", que alguns autores creem não se referir propriamente a um cemitério, mas a uma espécie de claustro onde bispo e cónegos viviam ainda que nele devessem existir os enterramentos dos prelados.

O claustro velho da Sé do Porto, local do antigo "cemitério do bispo"? (foto: Monumentos).

O cruzado não levou do Porto recordações pormenorizadas em boa parte porque não existia matéria para tal, pois o Porto do século XII era apenas um humilde burgo do tamanho de uma aldeia muralhada como muitas que ainda subsistem no nosso país. Na sua memória reteve apenas os banhos medicinais nas areias das margens do rio e do discurso de Pedro Pitões:
«Esta nossa cidade, que tendes diante dos olhos, famosa outrora e hoje reduzida a humilde lugarejo, lembramo-nos de que foi muitas vezes saqueada pelos mouros. Ainda há sete anos eles a invadiram e roubaram da igreja da Virgem Santa Maria, em que Deus me colocou, os sinos, paramentos, vasos e ornamentos sagrados, além de cativarem ou matarem os clérigos.» (in História da cidade do Porto da Portucalense Editora).

Assim verificamos que a nossa cidade, se valor tem por ser a segunda cidade do país, mais valor lhe devemos dar ainda pois subiu a pulso: de um quase apagado lugarejo transformou-se na segunda cidade mais importante do país, fruto do seu suor, que é como quem diz do comércio do trato marítimo e onde não jogava a seu favor uma barra adversa e hostil que só com a construção do porto de Leixões já quase na nossa época, deu tréguas a tanta gente, mercadoria e cascos, que foram engolidos pelo mar e pelas pedras da foz do Douro. A grandeza da cidade do Porto deve-se a ela própria, como sobressai do contraste entre o Portugala de Osberno e a cidade moderna de hoje.

domingo, 12 de março de 2017

João de Barros e a sua descrição do Porto

Creio que a maioria das pessoas desconhece a obra Geografia de Entre Douro e Minho... de João de Barros, que nos dá talvez a mais antiga descrição da cidade do Porto, muito antes de Manoel Pereira de Novaes ou Agostinho Rebelo da Costa. Esta obra sobrevive em 4 cópias manuscritas, uma das quais a original do autor que se encontra em depósito na biblioteca portuense. Bem mais sucinta do que os dois outros nomes referidos, ainda assim é uma pequena janela para o Porto do início do século XVI, numa época em que a cidade se esforçava por urbanizar o restante da sua área intra muros; fosse com novas ruas, fosse com novas construções do clero regular ou edifícios públicos.

Notar que este João de Barros foi escrivão da câmara de el rei D. João III e do seu Desembargo e não deve ser confundido com um outro João de Barros celebrado pela sua Gramatica da Língua Portuguesa e as Décadas da Ásia.

A ortografia do texto foi atualizada na sua maioria, deixei apenas como no original as divergências face à moderna que possam indicar pronúncia diferenciada da nossa (mas tendo presente que no português falado daquela época existiam bastantes diferenças que não transparecem na ortografia). Em relação às afirmações de João de Barros, embora algumas delas sejam menos exatas, quis-me imiscuir de as corrigir dado o objetivo desta postagem: dar a conhecer a um maior número de pessoas este texto.

As imagens que acompanham o texto são extraídas da gravura de Pier Maria Baldi, de época posterior mas ainda assim as mais chegadas a João de Barros.

§§

«E começo na cidade do Porto, que é cabeça da comarca, e digo que é uma cidade mui notável e das principais deste reino, pelas cousas insignes que tem, a qual está junto ao rio Douro, hua légua do mar, onde chegam todas as naus e navios que vem de toda a parte a ela. Esta cercada de muro de cantaria mui forte, que se fez em tempo de el-rei D. Fernando, deste reino, no qual há trinta torres fortes e altas e doze portas e postigo por onde se serve. Tem também, onde está a See, outro muro velho que a cerca, onde primeiro soía ser a cidade. A See foi começada pela rainha D. Tareja, mulher do Conde D. Anrique, e ali fez uma doação ou instituição em latim, onde se chama filha do glorioso Afonso, emperador das Espanhas, o qual, posto que assi se chamasse, não se fez dele eleição nem coroação. Depois, a rainha Dona Mafaldra, sua nora, mulher de el-rei Dom Afonso Anriques, acabou aquela See e lhe dotou muitas rendas, onde ela tinha singular devação, porque achara, ali, em hu silvado, hua fermosa imagem de Nossa Senhora, a que ora chamam, por esta causa, Nossa Senhora da Silva, e no tesouro da See estão muitos atavios, que esta rainha aí deixou, de sua pessoa, assim como toucados, lenços, camisas, que não são assi sumptuosos como os de agora.

Tem esta cidade preeminência e excelência que pode fazer os homens fidalgos e nobres; porque os reis passados lhe concederão previlégio que os que fossem cidadãos dela tivessem os previlégios que naquele tempo tinham  os Infanções e ricos homens, os quais, segundo a mais certa interpretação, eram senhores de terras, de conselho do rei, sem título de duques nem de condes, porque ainda naquele tempo se não costumavam tanto na Espanha.
O belo monte e o morro da Vitória: 1- a porta do Olival, 2- a porta Nova ou Nobre, 3- os conventos de S. Francisco (esq.) e S. Domingos (dir.).

Em Trás-os-montes há hu conselho que chamam Aguiar, e tem hua aldea junto ao rio Tâmega, em hu bosque, e, como quer que os reis dessem tão grandes previlégios aos que povoaram terras hermas, diz o foral daquela aldea que, quando o rico homem for ao rio fazer troviscada, que eles lhe dem hua merenda de porretas com vinagre; sem mais outro foro; assi, que rico homem he senhor das terras cujo previlégio os cidadãos do Porto tem. Outro previlégio tem esta cidade muito grande, o qual é que nenhu grande senhor possa nela viver nem menos pousar, senão três dias, do qual previlégio pesou muito aos senhores que naquelas cidades tem suas terras, porque desejaram muito viver aí em tanto que alguns clérigos fidalgos procuravam haver benefício na See para com isso poderem aí viver, os quais cidadãos, consentem enquanto bem vivem e não alvoroçam a terra. E foi esta boa consideração dos antigos conforme ao que diz Aristóteles nas Políticas, o que também el rei D. Fernando mandou em seu tempo que se guardasse em Lisboa, como se contem em sua corónica. É cidade enobrecida de muitos e mui nobres templos, assi como a See, que é de abóboda mui forte, com torres altas que a cidade tem por divisa, com Nossa Senhora no meio, porque as scripturas antigas lhe chamam de Santa Maria, tem nobres claustras e é melhor aposento para o bispo que pode haver em outra parte. Está na See o corpo do mártir São Pantaleão, que, maravilhosamente, de Grecia por mar ali aportou. Está em uma caxa de prata dourada, de muito preço, e a cabeça anda apartada para visitar os enfermos. Está também ali hu braço de São Vicente, que se trouxe de Lisboa, e assi outras muitas relíquias.

O mosteiro de S. Domingos edificou a rainha Dona Mafaldra, não a mulher del rei Dom Afonso, que edificou a See, mas hua sua filha, que se chamou também assi; e naquele tempo chamavam rainhas às filhas dos reis e não ifantes, como agora se chamam. E esta mesma fundou o mosteiro de Arouca, onde ela jaz. É este mosteiro de São Domingos de nobre templo e grandes capelas, alpendres e jardins, com tanta água que pode bastar a hua vila. Têm os frades muitas relíquias e hua parte do lenho da cruz; não tem muita rendas, mas tem muitos religiosos.
O núcleo original da cidade (morro da Penaventosa e Ribeira): 1- A Sé Catedral, 2- A porta da Ribeira.

Outro mosteiro há de Santo Eloi, que há quarenta anos que ali se fundou e tem trezentos mil reis de renda. Tem bons jardins e fonte que dentro nasse.

O mosteiro de São Francisco é hu edifício muito singular, grande, claro, aprazível, com grandes hortas e pomares, com muita água que de fora lhe vem.

Há mais, dos muros da cidade para dentro, o mosteiro de Santa Clara, de freiras, que é casa de muita relegião e grande convento de Donas de nobre gestação, ao qual vem muita água, e terá seiscentos mi reis de renda. Este mosteiro foi primeiro fundado onde chamam Entre ambos os Rios, (onde o Tâmega se mete no Douro), nos anos de mil e duzentos, seis légua do Porto, e depois as freiras, por parte de terem e conservarem melhor a relegião, se mudaram ao Porto (…).

E tornando à cidade do Porto, donde afastei o propósito, digo que tem outro mosteiro no arrabalde de Vila Nova, ou banda de além, que é de freiras da ordem de São Domingos, que não há muito que foi edificado por hua duquesa de Bargança que aí jaz. É mosteiro de muitos jardins e águas, e lugar muito fresco, salvo que lhe chega às vezes o Douro, quando vai grande.

Outro mosteiro de freiras da Ordem de São Bento se fez aí, pouco há, por mandado del rei Nosso Senhor, com autoridade do papa para se trasladarem nele quatro mosteiros da mesma Ordem que estavam pelos montes e não pareciam honestos para mulheres, scilicet Vila Cova, Tarouquela, Tuias e Rio Tinto; e este que se fez está dentro na cidade e é casa nobre e de muita água dentro e que tem muitas religiosas e muita renda.
Vila Nova, a serra do Pilar com os Guindais/Codeçal em fundo: 1- o monte onde se estabeleceu o convento da Serra, 2- Vila Nova, 3- Convento de Santa Clara no local dos Carvalhos do Monte.

No cabo do arrabalde de Miragaia [Monchique] fundou outro mosteiro de observância da Ordem de Santa Clara dona Brites de Vilhena, no aposentamento que fez com seu marido, Pero da Cunha, e certo que é hu edifício e assento que cuido que há poucos anos daquela sorte, assi na igreja e retábulo, como nas casas, jardins, pomares e muitas fontes, e tem duas claustras mui singulares e em cada hua sua fonte no meio levantada, afora outras que dentro estão. E certo que esta senhora ornou tanto este mosteiro que com isso deixou de sua grande vertude.

Outro mosteiro mandou tresladar aí, pouco há, el-rei Nosso Senhor, que é o de Grijó, que estava daí duas léguas e é isento imediato ao Papa, que tem muitas igrejas de sua representação, e, por estar mais conjunto à cidade se pôs da banda de além, para o meio dia, em hu lugar alto, de muita vista, por indústria do muito reverendo padre Dom Brás, que hora é bispo de Leiria, que fundou, redondo de arte mui nova, e em lugar donde se vê o mar e a cidade, e o reformou e fez da observância e parece muito melhor e mais próprio a serviço de Deus estar hu tão insigne mosteiro antes ali que em hua aldea, que assi deviam fazer a outros que há na comarca. Valerá a renda deste mosteiro hum conto com a dos cónigos, que são Regrantes da Ordem de Santo Agostinho.

Tem a cidade o arrabalde de Vila Nova, que já disse, cuja parróquia é Santa Marinha, e junto dela está o castelo de Gaia em hu lugar alto e mui aprazível, porque todo aquele monte ao redor é cheio de arvoredos frescos onde há muitas laranjeiras, loureiros e outras árvores que fazem aquele monte muito fermoso, com muitas águas e fontes ao redor. Este castelo é já derribado, que a cidade derribou estando nele hu alcaide que fazia agravos na terra. É tão antigo que dizem que o fundou Caio Júlio César e daí tomou o nome, e ali estavam alguas pedras com o nome de Caio César.

Há outro arrabalde a que chamam Miragaia, porque está defronte de Gaia, de que é parróquia São Pedro, onde está hu hospital do Spirito Santo, com parreiras, jardins e grande fonte.

Outro arrabalde está mais afastado, a que chamam Massarelos, cuja parróquia é o mosteiro de Cedofeita, que é de cónegos seculares da Ordem de Santo Agostinho, que é mosteiro assás deleitoso, de muitas frutas, jardins e fontes, que tem conezias, chantre, mestre-escola e prior, e terá por tudo quinhentos mil reis de renda com a dos cónigos. Haverá trezentos anos que este mosteiro é fundado.
Gaia e Miragaia: 1-uma nesga de Gaia onde no topo existiu o seu castelo, 2- A torre da Marca onde agora temos os jardins do Palácio de Cristal, 3- o arrabalde de Miragaia e bem mais ao fundo o de Massarelos.

Em todos estes arrabaldes e ao redor deles há muitos vales com jardins de laranjeiras, limoeiros e árvores desta nação, em grande número, e outros arrabaldes há menores – da Porta do Olival e de Santo Ildefonso, onde está outra parróquia.

Tem esta cidade muitos hospitais e ermidas de muita devação e terá por todo quatro mil vezinhos. Haverá nela e em os arrabaldes mais de cinquenta chafarizes e fontes e muitas delas tamanhas que hua abastara a hu grande povo.

Duas ruas tem principais – a primeira é a rua Nova, spaciosa e comprida, mais larga que a de Lisboa, e no cabo tem o mosteiro de São Francisco., e aí, logo junto, a praça. Dezia por ela el rei Dom Afonso o quinto que a rua era a sala e as casas eram as câmaras, o mosteiro era a capela e a praça o Jardim. A outra rua mui nobre é a rua nova de Santa Caterina das Flores, que se abriu, pouco há, onde eram hortas e jardins, a qual é mui comprida e tem no cabo o mosteiro de São Domingos com hu fermoso chafariz de muita água, e em cima os mosteiros de São Bento e de Santo Eloi, com outra fonte muito grande, e afora estas há pela rua e junto dela outras cinco ou seis fontes. As casas destas ruas tem todas quintais e jardins mui frescos e hortas que quasi todas tem água com que se regam, e a mor parte destas casas são boas e nobres.

Não achei qual fosse o fundador desta cidade, mas parece que é mui antiga e do tempo dos romanos, assi como disse de Gaia, que também eu vi alguas pedras nesta cidade que tem estas letras: IVLIVS.

Mas que fosse havida por cidade o não acho, salvo do tempo del rei Dom Afonso Anriques para cá.

Tem o termo de nove léguas em comprido, desde Grijó tee cima de Arrifana de Sousa, onde há muitos julgados e coutos de diversas pessoas, e principalmente dos mosteiros. Assi como o couto de Grijó, Pedroso, Avintes, São João da Foz, Rio Tinto, Vairão, Leça, Santo Tirso, Roriz, Bostelo, Paçoo, Vilela, Ferreira, Moreira, que todos são coutos de mosteiros e tem honras de senhores, que são Lourosa, Louredo, Baltar, e tem no termo os julgados da Maia, Aguiar, Penafiel, Gondomar, Bouças e Refojos.»

segunda-feira, 6 de março de 2017

Ainda na peugada de Sousa Viterbo

Logo a seguir a ter colocado o post anterior, vim a "descobrir" no 1º volume da 5ª série de O tripeiro, um artigo do Dr. Magalhães Basto sobre Sousa Viterbo onde é feita referência ao conto Judas Vingador que em parte transcrevi.

Há ainda um outro trecho deste texto com bastante interessante, mas que numa primeira análise decidira não incluir por se tratar já da parte de ficção.
Ainda assim, sugerido pelo facto de a loja do ficcionado capitão do cantinho ser precisamente na casa onde Henrique de Sousa - o pai de Sousa Viterbo - tivera a sua loja de sirgueiro e retroseiro; e pelo pitoresco da descrição que por ventura não será completamente ficcionada... creio que vale a pena também a incluir neste blogue.

Que foi naquela casa que nasceu esta distinta personalidade não há dúvida pois isto nos diz de punho próprio em tom de gracejo numa carta escrita em 1870:
«Nasci nesta cidade do Porto, largo de S. Domingos, freguesia de S. Nicolau. Se algum dia a minha popularidade chegar a tanto que a câmara da invicta cidade queira mandar colocar uma lápide na frontaria da casa onde nasci, já não o poderá fazer, porque foi deitada abaixo, para se abrir nova rua!!»

(in Boletim Cultural da Câmara Municipal do Porto, vol. 29 p. 139)

Local onde se ergueram as casas do cantinho, encostadas ao (agora) Palácio das Artes. A fachada atual não é a original do edifício pois foi necessária reconstruí-la respeitando o alinhamento da nova rua em 1872.
De facto já não havia casa para colocar lápide. Mas a rua que Sousa Viterbo refere em 1870 ainda não estava aberta ao trânsito não obstante todas as demolições já se encontrarem efetuadas incluindo a da casa em que nasceu bem como a sua companheira do lado, que se encostavam ao edifício do Banco de Portugal e conhecidas como casas do cantinho.
Quem comprara lotes de terreno para edificar na nova rua exasperava desde 1865 com a demora do governo (o terreno era nacional pois fizera parte dos Bens Nacionais graças à extinção das ordens religiosas) Apenas em 1871 se tomaram providências nesse sentido e só em 1872 a rua foi finalmente aberta.

Mas a memória de Sousa Viterbo não saiu a perder. Mal sabia ele que em 29 de Dezembro de 1913 a Câmara Municipal, após iniciativa do Ateneu Comercial do Porto, fez descerrar a placa que dava, doravante e para o futuro, o seu nome à artéria que até ali se chamara rua Nova de São Domingos, estando presentes sua viúva e filha. Foram por isso duas as "lápides" e não uma que a Câmara colocou em sua memória.

E desta forma termino, para dar lugar ao segundo excerto do conto de Sousa Viterbo Judas Vingador, onde a loja do capitão do cantinho e seus frequentadores é descrita. Este trecho vem imediatamente na sequência já colocada no post anterior e é, também ele, delicioso de ler, e como o próprio autor diz, não foge muito à realidade do tempo, não obstante se tratar de ficção:

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«Tal é, ligeiramente esboçado, o tablado onde se vão passar algumas cenas desta nossa narrativa, que, embora singela e despida de atavios, se poderá muito bem considerar histórica e quase autêntica.

Descrevamos agora os personagens principais, a começar pelo protagonista, o Sr. Lourenço Dias, mocetão de 28 anos, robusto, sadio, mas sentindo vibrante a paixão do amor, como se o seu organismo tivesse a complexão delicada e nervosa de um pálido Antony.

Lourenço Dias era natural das proximidades de Santo Tirso, donde aos 12 anos viera para o Porto para marçano numa loja de sirgueiro de vestimentas sacras na rua das Flores. Aos 17 anos terminava o seu curso e era investido nas insígnias de caixeiro; uma farpela completa de pano preto, uma gravata e um chapéu alto. Não se imagina o delírio que este acontecimento produzia na alma do neófito, que assim via transformado o balcão na ara da sua liberdade. Por gravata ao pescoço era o mesmo que usar um símbolo de alforria. O escravo, como se ainda estivéssemos na idade média, tornava-se homem livre, como que adquiria a sua dignidade social. Quasi sempre era pelo Natal que este facto se realizava, e o novo caixeiro, despida a sua larva de marçano, lá ia à terra celebrar a sua iniciação, consoar com a família, escaldar o piolho, como vulgarmente se dizia.

Lourenço era de uma humilde família de lavradores, cuja propriedade não lhes dava para o sustento, tendo o pai de empregar-se muitas vezes, para adquirir o indispensável, no amanho da terra dos outros. Não tinham outro filho e toda a sua ambição era que ele fosse para a cidade, onde faria fortuna, onde enriqueceria como um brasileiro. Os pobres pais já não eram crianças quando o filho lhes apareceu pela primeira vez de cartola. Imagina-se facilmente a sua alegria. Eram, todavia, achacados e os rudes trabalhos tinham-nos consumido. Não duraram muitos anos e não conseguiram ver o filho subir às alturas que tanto haviam sonhado. No entanto o filho auxiliou-os quanto possível e não lhes faltou nada na doença e à hora da morte.

Aos 25 anos o Lourenço estava órfão, cheio de mocidade, de saúde e rico de esperanças. Era trabalhador, de bons modos para com todos, bemquisto, simpático. Tendo vendido os pequenos bens que possuía na terra, com algumas economias mais, resolveu estabelecer-se, tomando uma loja de sirgueiro e retrozeiro no largo de S. Domingos. Um amigo emprestara-lhe uns centos de mil reis que lhe faltavam para efetuar a transação e para o giro mercantil.

Era modesto o estabelecimento de Lourenço, e se estava um pouco decadente ao tomar conta dele, em breve lhe soube readquirir o crédito, de modo que era uma das lojas a retalho do sítio que fazia mais negócio. Lourenço ora estava à banca, como sirgueiro, ora vendendo ao mostrador.  A sua freguesia era sobretudo das aldeias circunvizinhas, num raio de duas a três léguas. Ás terças-feiras a concorrência de mulheres do campo era extraordinária, vindo muitas deixar ali em depósito as boroas de milho, que os parentes, geralmente carpinteiros e pedreiros, vinham depois buscar para consumo de toda a semana. À noite a gaveta vergava sob o peso da patacaria. O apuro não era inferior a dez moedas.
A loja do Lourenço podia servir a um curioso de folklore de interessantíssimo observatório etnográfico. Ali se viam os mais variados trajos, que em volta do Porto quasi diversificam de aldeia para aldeia. O principal fornecedor de Lourenço era um negociante do mesmo largo, de alcunha o Carinha de Santo, mas à loja vinham oferecer grande variedade de produtos das industrias caseiras, muitas das quais se extinguiram ou estão em completa decadência. As sanjoaneiras, ou habitantes da Foz e Matosinhos, traziam camisolas de algodão, luvas grosseiras e outros artefactos idênticos. De outras terras, fabricadas por homens ou mulheres, vinham linhas brancas e tingidas, fitas de linho, botões de osso, cordas de tripa ou de arame para viola, colchetes de arame batidos a martelo, etc. Podia formar-se um pitoresco museu industrial de todos estes produtos, que quasi desapareceram por completo, graças à concorrência implacável das máquinas.

Francisco Marques de Sousa Viterbo ( da Wikipedia )

A loja do Lourenço era frequentada continuadamente por três indivíduos, que se diziam seus amigos, e que efetivamente lhe eram dedicados, e que nas longas noites de inverno, faziam dali o seu club ou soalheiro. Lourenço estava à banca trabalhando, tecendo cordões ou fabricando qualquer outra obra da sua especialidade; os marçanos e o caixeiro arrumavam a loja. A cena era alumiada por velas de cebo, ou por alguns candeeiros de azeite, porque o gás só fizera a sua entrada no Porto na aclamação de D. Pedro V, e o petróleo, o gás liquido, como lhe chamavam, só se vulgarizou mais tarde. Tinha o quer que fosse de fantástico aquela comesinha e burguesa Valbruga. Um dos personagens mais salientes, pela sua figura e pela sua idade, era o Francisquinho cego, cujo apelido lhe viera de um defeito visual, que quasi lhe obscurecera completamente a vista. Victor Hugo, se o houvera conhecido pessoalmente, tomara-o para modelo de Quasimodo. Como se não lhe bastara a cegueira, manquejava de uma perna. Apoiado a um bordão, conhecia-se de longe o seu andar característico pelo bater rítmico do pau. Era alto, de uma estatura avantajada, e quando se espreguiçava e se estendia de encontro à ombreira da porta, tomava as proporções de um gigante. Dir-se-ia que era elástico. Trazia quasi sempre não mão um lenço vermelho, que sacudia de um modo peculiar. Quando o agitava com mais violência e rufava na caixa de rapé, era sinal de cólera; a tempestade estava eminente. Era empregado na alfândega, onde batia o selo e nas quartas-feiras cantava no Lausperenne dos Terceiros de S. Francisco. Um artista e um filósofo.

O outro era um carvoeiro, o Hermenegildo da rua das Congostas, tortuosa e sombria rua que desembocava, por um lado na rua dos Ingleses, e por outro entre a rua de S. João e o largo de S. Domingos. Foi nesta rua que nasceu e residiu por muitos anos o honrado e saudoso fundador do Comércio do Porto, Manoel de Souza Carqueja. Hoje, das  Congostas só resta o nome.

O carvoeiro havia servido no exército de D. Pedro e fora condecorado, pela sua intrepidez, com a Torre e Espada. Era corneteiro e gabava-se de ter concorrido para se ganhar a vitória da Lixa. Ferido, não desanimava e continuava a tocar a avançar, incitando os seus companheiros. Era outro corneteiro de Badajoz, de mais lendária que autêntica memória.

O terceiro, finalmente, era um tamanqueiro, o S. Gens, que morava aos Caldeireiros e viera estabelecer-se na rua de S. João. Não sabia ler nem escrever, mas recitava de cor as profecias do Bandarra, as do pretinho do Japão e toda a literatura messiânica portuguesa. Era um crente, um fanático, que esperava com entusiasmo a vinda de D. Sebastião, e que não perdia a fé, apesar das manhãs de nevoeiro se sucederem sem lhe trazerem o desejado Encoberto. Os motejadores troçavam-no, mas perdiam o seu tempo, porque ele respondia-lhes triunfante, com a interpretação genuína das tesouras e outras figuras não menos simbólicas e convincentes do profeta de Trancoso.

As conversas versavam quasi sempre sobre episódios da guerra do cerco e da patuleia, contados pelo carvoeiro, que o Francisquinho escutava com prazer intenso, porque era constitucional exaltado, não podendo ouvir falar em miguelistas – esses burros, como ele, no seu intransigente ódio político os qualificava sempre.

Às vezes o terceto transformava-se em quarteto quando aparecia um alfaiate da rua de Belomonte, muito devoto, que andava sempre pelas igrejas e que tinha um filho de dez anos, a quem pegou a monomania religiosa, sendo todo o seu empenho fazê-lo padre, o que pode conseguir finalmente. O pequeno já pregava sermões e quando vinha com o pai, lá impingia o seu panegírico a Santo António, cuja imagem se ostentava num pequenino oratório ao fundo da loja. Servia de púlpito, um banco de madeira, em que se empoleirava aquele Vieira em miniatura.

Naquele tempo poucos eram os lojistas que não reverenciavam o taumaturgo português, acendendo-lhe todas as noites a sua lamparina. No dia 13 de junho era de ver qual deles ostentava mais vistoso trono, coberto com a mais rica toalha, cheios de degraus de castiçais de prata e de jarras de porcelana. As leiteiras e as lavadeiras do Candal, de Oliveira, e de outras povoações dos arredores contribuíam com molhos de cravos e ramos de outras flores.

Lourenço também era devoto do Santo; em mais de uma ocasião crítica, nos transes difíceis da sua paixão amorosa, se apegou a ele, mas como não fizesse o milagre que desejava, nunca mais lhe acendeu a lamparina nem tornou a fazer festa. Pouco faltou para o atirar ao poço!»

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Estou ciente de que se tornou um post bem longo; mas digam lá meus caros leitores se não valeu a pena esta agradável viagem a Porto dos meados de XIX, pela pena de um seu filho quase esquecido na atualidade?

terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

O Largo de S. Domingos (quase) inédito

Foi com alegre surpresa que encontrei no O Comércio do Porto Ilustrado um conto de Sousa Viterbo de 1899, onde o mesmo refere a sua cidade berço e mais especificamente o seu lugar berço, o largo de S. Domingos. Francisco Marques de Sousa Viterbo foi um portuense ilustre mas que viveu a maior parte da sua vida na capital. Tendo nascido em 1845 na freguesia de São Nicolau, veio a falecer em 1910 em Lisboa e aí se encontra sepultado no Cemitério dos Prazeres. Mesmo quando a partir 1879 foi perdendo progressivamente a visão, nem por isso deixou de ser um trabalhador incansável legando-nos várias obras de elevada qualidade e erudição (algumas podem ser lidas aqui).

Este singelo conto que nos legou nas páginas da revista do jornal O Comércio do Porto creio que não se encontra editado em mais lado algum. O interesse especial que ele encerra, a um nível pessoal, é a descrição maravilhosa que o autor faz do local da cidade que mais profundamente tenho estudado.

Abaixo transcrevo a parte inicial desta obra, precisamente aquela que nos pinta o quadro do palco onde se desenrola grande parte da ação e que por conseguinte precede a parte ficcionada. Grande parte da ortografia foi atualizada. Incluo também alguns comentários em rodapé, sobre pormenores que encontre pertinentes.

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JUDAS VINGADOR
(Quadro de costumes portuenses)

« O largo de S. Domingos era, há 50 anos um dos mais íngremes e tortuosos da cidade da Virgem. Era e é, porque, apesar de todas as modificações que tem sofrido, ainda hoje é irregularíssimo, cheio de esquinas e de cantos, de modo que bem se lhe poderá aplicar o ditado – quem torto nasce, tarde ou nunca se endireita(1).

Ao centro ornava-o um chafariz, que foi demolido, construindo-se, em seu lugar, uma fonte ao lado, em arco, sob umas casas do Sr. Araújo, que tem loja de papel, o mais antigo estabelecimento deste local. Na casa que confina com esta, ao canto, havia uma loja de droguista, de que era proprietário um sujeitinho magro, bom homem, Manoel António Figueira, apaixonado amador de livros, que competia com os mais afamados bibliófilos portuenses, o Souza Guimarães, o Vieira Pinto, o Carlos Lopes e o visconde de Azevedo, que morreu com mais um grau no seu título.

Uma das imagens que ilustra este conto e que mostra o chafariz ainda no largo (que hoje se encontra atrás da Câmara Municipal). É pouco provável que o chafariz tenha co-existido com o edifício à esquerda.

Contíguo com o extinto convento dos frades, que deram o nome ao largo, havia uns prédios que foram demolidos para abertura de uma rua e que formavam um dos mais afamados recantos do sítio. Era ali a loja do capitão do cantinho(2). Ás vezes, à porta, em manhãs estivas, sentava-se a tomar o refresco o Lobo da Reboleira, um dos mais curiosos e excêntricos tipos de ricaço portuense. Rico e avaro. Era todavia dotado de certa ilustração e perspicácia natural. Contam-se dele, até anedotas e ditos engraçados, mais do que engraçados, de uma ironia mordente. Uma ocasião, indo ele da praça com uma pescada, encontrou-se com um titular de fresca data que lhe disse:

- Ó Sr. Lobo, então não tinha quem lhe servisse de moço?
- Que quer V. Exa.? Desde que os moços de esquina se fizeram fidalgos, não temos outro remédio senão servir-nos a nós próprios!(3)

Defronte, à direita, quem vinha da rua de S. João, havia um renque de casarias de madeira, que foram deitadas a terra e substituídas por outras de pedra, de boa aparência.

Àquele tempo, o largo de S. Domingos quasi se poderia dizer o coração da cidade, porque nele vinham desembocar as duas artérias de mais movimento: a rua das Flores e a rua de S. João(4). Em dias de mercado, sobretudo às terças-feiras, a animação ali era extraordinária, de um pitoresco indescritível, de um ruído insurdescente, de um aparato deslumbrante, pela mistura e confusão dos ruídos, das vozes, dos pregões, dos costumes, dos animais e dos homens. Poucos animatógrafos apresentariam um quadro de mais sensacional impressão.

O largo de S. Domingos, se era um dos focos mais ativos do comércio portuense, era também o ponto obrigado de todas as grandes cerimónias. Os cortejos reais, nas entradas da cidade, as cavalgadas carnavalescas, as procissões mais solenes, tudo desfilava por ali. Pelo tempo das romarias nada mais curioso que ver passar os ranchos dos devotos campesinos, com os seus trajos peculiares, variadíssimos segundo as localidades. Os ricaços, a cavalo nas suas mulas, levando as mulheres ao peito ostentosas tabuletas de ourives; os monstruosos corações de filigrana e os crucifixos de ouro, pendentes de grilhões. Os pobres, a pé, numa alegria doudejante, bailando sempre, ao som das violas, das rebecas e dos clarinetes, levando às vezes, no centro do grupo, uma extensa vara, no extremo da qual um bonifrate fazia os seus exercícios acrobáticos. A filarmónica acompanhava-se então de um coro de gargalhadas, soltado pelo rapazio que acudia ao espetáculo.

Antigamente o largo era calçado por enormes lajeas (sic) de granito como lapides sepulcrais de túmulos de gigantes. Um dia de madrugada, os moradores acordaram com um ruído estranho e com uma visão sinistra. Era o batalhão dos grilhetas, isto é, dos encarcerados da Relação, que vinham levantar o lajeado, brita-lo, e reduzir o piso ao novo sistema de macadam. Então eram os condenados que trabalhavam nas obras públicas, de onde lhe vinha o nome vulgar de calcetas. Se no dia de hoje presenciássemos outra vez aquelas cenas repugnantes, se víssemos chegar o grupo dos miseráveis, algemados de pés e mãos, evocados como números e não como homens, tratados como animais inferiores, que nunca tivessem tido a noção de dignidade, por certo que soltaríamos um brado de indignação ou uma frase de tédio pelo menos, e não trautearíamos saudosamente, na melopeia da tristeza, na melancolia das cousas santas, a chanson du bon vieux temps! »


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(1) - A irregular regularidade que agora tem foi obtida em 1845 após a demolição do murinho de S. Domingos e a remoção do chafariz de S. Domingos. Algumas das pedras do murinho foram usadas na construção de uma fonte na rua do Bonjardim, esquina com a de Sá da Bandeira (agora Sampaio Bruno).

(2) - Eram duas casas conhecidas como casas do cantinho pois que estavam ali como que aconchegadas à parede do edifício do Banco de Portugal (antigo convento dominicano) e ligeiramente mais recuadas que as restantes. Essas casas encontravam-se no local onde existira o lado norte do transepto da igreja dominicana e também a sacristia de uma antiga capela da mesma igreja bem como a capela de Nossa Senhora das Neves. A rua a que Sousa Viterbo se refere é a rua agora com o seu nome que até 1913 se chamou rua Nova de São Domingos, que atravessa solo anteriormente ocupado pela igreja velha, a sacristia velha, o claustro e outras dependências do convento dominicano.

(3) - Nas séries mais antigas de O Tripeiro encontram-se outras versões desta história, bem como outras relacionadas com o mesmo personagem.

(4) - Mouzinho da Silveira só foi rasgada entre 1875-1877.