quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

"Prenditus est Portugale ab Vimarani Petri"

Não estranhem os meus caros leitores o título desta postagem. Os mais atentos verão que o mesmo se refere à presúria do Portucale por parte de Vimara Peres - que terá ocorrido no ano de 868 – para não mais sair de mãos cristãs. É pois pelos já longínquos séculos da alta idade média que pretendo levar-vos, mas fiquem descansados: não será uma viagem massuda pois as referências a ele se restringem a nem uma mão cheia delas.

Iniciemos então esta curta cronologia:

1. Em 715 ou 716 a cidade de Portucale foi conquistada por Abdelaziz, seguindo-se um período de cerca de 20 anos de efetiva ocupação muçulmana[1].

2. Logo em 742, Alfonso I (rei de um incipiente renascer “visigótico” acantonado no extremo norte da Galiza e Astúrias e Cantábria) recupera a cidade, matando todos os seus ocupantes ismaelitas. Esta ação foi supostamente facilitada nesta e noutras localidades pelo facto de a guarnição berbere que aqui estava ser pouco numerosa pois o grosso dela havia sido chamada para conter uma revolta a sul.

Segundo uma corrente historiográfica agora completamente caída em desuso, este rei teria deixado propositadamente ermo um vasto território que englobava todo o futuro Portugal a norte do Douro. Ninguém portanto teria sido deixado para trás pois o rei havia levado todos os cristãos "à pátria"[2].

Atualmente leva-se em consideração que de facto isso não ocorreu, contudo toda esta zona terá funcionado de forma mais ou menos autónoma, entregue a si mesma em "auto-gestão"; numa terra de ninguém entre o Califado Omíada (substituído em 756 pelo Califado de Córdova) e o reino Asturiano. Mas na realidade, por falta de documentos históricos contemporâneos, nunca saberemos como era viver por aqui nesses tempos e quais eram os verdadeiros senhores, se os havia. A população, mais ou menos entregue a si própria, sem dúvida se terá organizado localmente para sobreviver.

Em 868 dá-se a famosa presúria que referi acima, embora creia não a podermos ver como uma conquista (ainda que entre 866 e 868, aproveitando-se dos problemas dentro do reino asturiano os mouros tenham novamente chegado ao vale do Douro). Em contrapartida, este ato de força perante a população autóctone visou consolidar a influência do reino asturiano na área, bem como outros atos semelhantes se estenderam em várias outras regiões[3].

Era o início daquilo que se chama reconquista, e que só agora, no reinado de Alfonso III, começava a ter uma visão mais ampla de recuperação de território aos ismaelitas. Ainda assim, durante vários séculos mais, a península ibérica foi um palco de lutas entre estados e não somente entre religiões, havendo incluso lutas dentro dos próprios pequenos reinos islâmicos que depois se formaram, e os reinos cristãos que vieram a surgir da desmembração do reino asturo-leonês.

Voltando ao Porto, pessoalmente discordo que a cidade que hoje existe tenha nascido no século IX com Vimara Peres. Na verdade é após a entrega do burgo ao bispo D. Hugo em 1120 pela rainha D. Teresa (mãe de Afonso Henriques), acrescido do foral por este bispo outorgado em 1123; que o Porto moderno surge e a cidade não mais pára de crescer.

A própria precaridade da posição do Porto durante pelo menos o século X está no facto de ter sido no Douro que Almançor reuniu a sua frota vinda de Alcácer do Sal, com o seu exército que provinha de Viseu (e que incluía cristãos nas suas hostes), com o objetivo de atacar Santiago de Compostela.

Ainda incipiente no início, mas lentamente expandindo-se para fora das suas muralhas primordiais, com o desaparecimento dos ataques normandos numa primeira fase, a ameaça muçulmana por terra e mar mais tarde e o reforço das trocas comerciais sobretudo com a Ingraterra e a Frandres, a cidade chegará ao meados do século XV já como a segunda do reino para não mais perder esse título.

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Recentemente, num arruamento desativado desde o século XVIII que circundava exteriormente a muralha antiga da cidade pelo oeste indo terminar junto da porta de Santa Ana, foi recolocado à vista um pequeno troço de muralha de aparelho construtivo aparentemente pré-românico.

A se confirmar, estas pedras serão as mais antigas que se encontram expostas. Mais antigas (embora sejam da mesma muralha) do que o cubelo que temos nas costas da rua de D. Hugo e seguramente mais antigas que a torre do Barredo que é a casa mais antiga que terá subsistido até aos dias de hoje na cidade. A foto não é bonita, vale apenas por aquilo que representa para os amantes da história da cidade.

Antiga Viela de S. Lourenço, hoje traseiras das casas da rua dos Mercadores e rua de Santana (acesso pelos lavadouros da Sé).


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[1] Abdelaziz cepit Olixbonam pacifice, deripuit Colimbriam, et totam regionem, quam tradidit Mahamet Alhamar Ibentarif. deinde Portucale, Bracham, Tudim, Luccum, Auriam vero depopulavis isque ad solum.
( in Cronica Albeldense )


[2] Qui cum fratre Froilane sepius exercitu mobens multas ciuitates bellando cepit, id est, Lucum, Tudem, Portucalem, Anegiam, Bracaram metropolitanam, Uiseo, Flauias, Letesma, Salamantica, Numantia qui nunc uocitatur Zamora, Abela, Astorica, Legionem, Septemmanca, Saldania, Amaia, Secobia, Oxoma, Septempuplica, Arganza, Clunia, Mabe, Auca, Miranda, Reuendeca, Carbonarica, Abeica, Cinasaria et Alesanzo seu castris cum uillis et uiculis suis, omnes quoque Arabes gladio interficiens, Xpianos autem secum ad patriam ducens. 
( in Cronica Rotense )



[3] Era dccccxi prenditus est Portugale ad Vimarani Petri.
( in Cronicão Laurbanense )

4 comentários:

  1. Bom post Nuno!
    São estas as pedras mais antigas que se podem ver no Porto que me falaste certo?
    Gosto muito do período da reconquista (também sou suspeito como entendes) e fiquei a saber mais como era o Porto então.
    Contínua! Espero que esteja tudo bem
    Abraço!

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    1. Olá! é bom "ouvir-te" de novo!

      Exatamente, estas são das pedras mais antigas que subsistem na cidade. Não estão é num lugar muito bonito... penso que a SRU queria reabilitar esta viela mas não sei se se vai concretizar algum dia.

      Um abraço!

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  2. Em breve combina-se algo!

    Esperemos que sim, apesar de só se verem algumas pedras, é um bocado de história único. Está acessível a qualquer pessoa que deseja lá ir?

    Abraço!

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    1. Não. A entrada é pela rua de Santana, pelo acesso aos lavadouros onde aí é acessível mas creio que só a dias da semana até a meio tarde creio eu.

      O local em sim está bloqueado por um chapeamento, contudo consegue-se observar o local, como a imagem comprova.

      Abraço.

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