domingo, 2 de outubro de 2016

Um alinhamento polémico

Algumas das plantas que se nos apresentam à disposição no site do Arquivo Histórico Municipal do Porto, embora de uma forma geral elucidativas, vêm muitas vezes descontextualizadas dos seus suportes escritos, que nos permitem melhor avaliar o projeto que se nos apresenta. Por mais de uma vez dei por mim a consultar pareceres em que as referências a essas plantas existem, mas as plantas não estão junto deles. É o caso de um texto que se refere à planta que apresento abaixo e que, creio, se não foi feito para ela, está intimamente relacionado com ela.

Planta aprovada em 1838, provavelmente datada do ano anterior.

A planta acima mostra-nos a parte final do alinhamento da Rua Ferreira Borges e que deu bastante polémica nos jornais da época aquando da sua abertura (1835-1838); nomeadamente mostra-nos a dúvida sobre como deveria ser rematada a rua no seu extremo sul em que passava por detrás de igreja de S. Francisco.

Convêm elucidar que a rua Ferreira Borges foi uma iniciativa da Associação Comercial do Porto (ACP) que a tomou a cargo desde o início e com o apoio camarário. Contudo, após a Revolução de Setembro (1836), esse apoio desvaneceu.

Já em 1837, a comissão daquela instituição encarregada de superintender a obra da rua propõe à ACP a destruição da capela-mor da igreja, para o correto alinhamento da rua. Num ato de lucidez a mesma rejeita essa proposta sendo elaborado um novo projeto que a substitui, posteriormente apresentado à Câmara. Ainda assim, convêm não esquecer que o projeto original para esta rua, aprovado em 1835, aparentemente incluía a demolição daquela parte da igreja gótica, tendo sido aprovada com a conivência da Câmara da altura (talvez neste particular se possa desabafar bendita revolução setembrista...). Isto porque em consequência da resolução (interna) de manter aquela parte da igreja, a Associação solicita-a à Câmara informando ao mesmo tempo que outra planta estava já em preparação.

A edilidade aproveita o momento para tomar um pouco as rédeas de uma obra que de todo estivera fora da sua alçada fazendo uma vistoria ao local. Ainda assim, não querendo tomar parte definitiva na resolução do problema, elabora também ela a sua proposta para o remate da rua. Explica a Câmara que se o edifício do Tribunal do Comércio não fica na frente desse alinhamento, nem por isso se peora o aformoseamento, estabelecendo dele ao pavimento da rua um paredão que forme um terraço, no qual colocada uma baranda muito concorre à boa vista que apresentará, e à perfeita segurança que ainda se torna indispensável aos alicerces daquele edifício, que no estado em que se acham, carecem indispensavelmente de alguma atenção para poder-se tirar proveito de tal edifício, podendo nesse mesmo paredão formar-se uma arcaria que poderia ter bom rendimento pela sua localidade. A Câmara exigia também que a ACP revertesse o uso da igreja para o seu original intento do culto divino e não seja usado como armazém alfandegário, e também que o alinhamento se faça pela sua planta.

Área em questão, com a visível ameaça de ruína da capela-mor, numa gravura da época.

Assim decorre durante quase todo o ano de 1837, uma polémica sobre os três alinhamentos agora propostos: o original que faz demolir a capela-mor, o alternativo da ACP e o da Câmara. A juntar a tudo isto existe também envolvido o pedido de licenciamento para um edifício naquele local, que ficaria situado à entrada da rua do seu lado poente por parte de um particular, projeto esse que aguardava a conclusão da rua e que tardava a arrancar dado o "imbróglio" que ali se apresentava.

Em outubro de 1837 o administrador geral do distrito do Porto requer à Câmara um parecer sobre a conservação da capela-mor e a sua transformação em armazém da alfândega, mandando também o arquiteto da cidade levantar a planta da Rua Ferreira Borges de modo a conservar a capela. Neste parecer, elaborado por Joaquim da Costa Sampaio Lima onde este refere que, excluída que estava a demolição da capela-mor, o alinhamento da Câmara é preferível com vantagem de com o projetado terraço exterior ao edifício, o mesmo edifício recuperaria maior solidez do que muito precisa por se achar ameaçando ruína, e bastantemente desaprumado e também que esta rua alinharia mais exatamente com a frente de S. Nicolau. Além de que o seu alinhamento destruiria em parte a agudeza do ângulo formado com a rua dos Ingleses, e o tornaria mais vizinho à linha perpendicular e claro, que se pouparia a demolição daquela parte do templo que algum respeito merece. Mas diz mais:

Como a Associação (digo) não aceita o novo projecto, e prescinde das suas respectivas vantagens, então julgo que de necessidade se deve abraçar o primeiro plano, o qual consigo arrasta a demolição da referida parte daquele templo que aliás ficaria servindo ali de um perpétuo estorvo. Não concordo porém no que propõe a Associação Comercial quanto a estorvar-se que José Ferreira dos Santos Silva, edifique na porção triangular colocada na extremidade da rua; seria sem dúvida muito mais defeituosa a porção mutilada, o alinhamento interrompido, e o número de ângulos multiplicado ... sendo claro que um ângulo agudo não é senão um defeito, e para fugir deste cairíamos no ângulo obtuso ... que se reduz a um defeito do mesmo valor mas em sentido contrário, portanto sou do parecer que por nenhum modo se estorve que as duas linhas se cruzem no vértice onde as conduz a sua primitiva inclinação e por conseguinte se permita ao mencionado proprietário de edificar no terreno ponte-agudo. (Nota: Embora uma casa ali nos possa causar atualmente estranheza, temos de ter presente que toda a Rua do Infante estava edificada, não existindo ainda o jardim.)

Arrastando-se ainda por mais uns anos, a questão apenas ficou resolvida em janeiro de 1839, quando o governo concedeu a igreja que outrora fora do convento franciscano à sua Ordem Terceira, que ainda hoje a possui. A partir desta altura pode a Associação Comercial concentrar todos os seus esforços na construção do Palácio da Bolsa. Quanto à casa particular esta nunca chegou a ser edificada.

O paredão construído para suster os alicerces da capela-mor, em meados do séc. XIX (em primeiro plano parte da cerca do convento de S. Domingos).
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Fontes:
Arquivo Histórico Municipal do Porto
Porto, 1763/1852 - a construção da cidade entre despotismo e liberalismo de Anni Günther Nonell

2 comentários:

  1. Se fosse hoje, demoliriam a capela, alcatroavam a rua à excelente típica qualidade rodoviária portuguesa, e ainda construíam um Mcdonalds no local. Bom post, de louvar uma antiga boa decisão que foi tomada, tornando actual uma questão que ainda poucos respeitam: preservação dos espaços históricos e conciliação dos mesmos com as necessidades modernas.
    Abraço Nuno!

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    1. Boas!

      Não sei se seria tanto assim, pois felizmente atualmente há algum "tino" para estas coisas... Isto porque a maneira de olhar para as vetustas construções que os antigos nos deixaram modificou bastante (para melhor) durante o século XIX. O que, diga-se, ainda assim não impediu que durante o século XX assistíssemos no Porto a grandes crimes lesa-património.

      Um forte abraço
      Nuno Cruz

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