terça-feira, 20 de setembro de 2016

Por onde se rasgou a Rua das Flores

A Rua das Flores, agora renascida do seu agonizante calvário de mais de vinte anos e plenamente integrada no Porto do século XXI, remonta ao início do XVI, tendo portanto aproximadamente a vetusta idade de 500 anos.

Naquele tempo, num progressivo aumento de importância do Porto que ocupava já plenamente o lugar de segunda cidade de Portugal (ultrapassando Évora e Santarém), foram rasgadas várias ruas naquilo que hoje convencionamos chamar centro histórico. A Rua Nova surge-nos ainda no final do século XIV por iniciativa de D. João I, mas a grande "febre" urbanizadora dá-se no início do século XVI, quando a cidade se expande numa malha que vem a abranger grandes áreas ainda disponíveis intramuros.

Aberta em terrenos pertencentes uns à Mitra e outros ao Cabido da Sé num local ocupado até aquela altura quase exclusivamente por hortas, o início da sua construção remonta ao ano de 1521, motivada para além do crescimento da cidade que impunha o crescer da urbanização dela, pela construção do Mosteiro de São Bento das Freiras em 1518, também ela em terrenos propriedade da igreja (que obrigou a mudar o troço final da Rua do Loureiro).

"... a qual rua era pelo meio meio dos chãos e enchidos e hortas..."
Não sendo prova disso por ser bastante anterior (1387) mas elucidando ainda assim da parca urbanização de toda aquela área, é esta passagem da Crónica de D. João I, aquando do casamento do monarca:
"...E fizeram mui à pressa ũa grão praça ante São Domingos da rua do Souto, que eram então tudo hortas, u* justavam e torneavam grandes fidalgos e cavaleiros que o bem sabiam fazer...": ou seja, era naquele local, entre o convento dominicano e a Rua do Souto que se faziam os torneios que hoje tão habituados estamos a ver recreados nas feiras medievais.

A prova de que toda a aquela área era usada para atividade lúdica está, por exemplo, no facto de ser bem ali próximo também, no local hoje ocupado por parte da Rua da Vitória, que se encontravam as chamadas Barreiras, ou seja, "... sítio das Barreiras onde os besteiros jogam a besta entre a Rua das Flores e a de S. Miguel" [1534]; ou mesmo ainda no século XIV, uma das confrontações da judiaria era "uma careira que ora vai  acima do caminho unde cragam a beesta que esta acima das almoinhas"; estas almoinhas serão provavelmente as hortas onde se rasgaria a Rua das Flores mais de cem anos depois.

Dá-nos também uma ideia do que ali existia antes da rua este excerto relativo ao aforamento de um terreno na mesma, em 1523:

...el rei nosso senhor mandara hora novamente abrir na dita cidade uma rua por nome chamada de Santa Caterina das Flores ... por ser muito necessária à dita cidade para por ela se servir e se não poder passar para serventia do Mosteiro novo [S. Bento] ... e assi para a dita cidade pelo crescimento que ela vai a Deus louvores, a qual rua era pelo meio dos chãos e enchidos e hortas que da mesa episcopal são ... os quais chãos jazem no meio quasi da dita cidade e pelos ditos chãos jazerem assi no meio da dita cidade e a disformavam por não serem feitos em edifícios ... além da necessidade que para nobrecimento da dita cidade na dita rua se fizessem casas nobres e não houvessem enxidos de hortas para que a dita cidade não estivesse assi desformada ... e a cidade cresser em povoadores e não ter tão bons lugares para edificar dentro dos muros senão nos ditos chãos ...

Nesta imagem do googlemaps assinalei: A - Largo do Chafariz de S. Domingos ou Largo de Santa Catarina das Flores (hoje Largo de S. Domingos) / B - Rua das Flores (original) / C - Rua dos Canos (hoje Rua das Flores) / D - Largo da Feira de S. Bento (atualmente Praça Almeida Garret)
Embora tecnicamente existissem duas ruas, a Rua das Flores e a Rua dos Canos, logo no início da sua existência eram elas tidas como uma só, pelo menos a julgar pela referência que faz João de Barros na sua Geografia d'entre Douro e Minho e Trás-os-Montes:
A outra rua mui nobre é a Rua de Santa Caterina das Flores, que se abriu, pouco há, onde eram hortas e jardins, a qual é mui comprida e tem no cabo o Mosteiro de S. Domingos com um fermoso chafariz de muita água, com outra fonte muito grande, e em cima os mosteiros de São Bento e de Santo Elói, com outra fonte muito grande...

À semelhança da Rua Nova também os aforadores estavam obrigados a construir casas nobres, i. é, de pedra pelo menos no rés-do-chão (o que também nos diz algo sobre as casas das restantes ruas da cidade).

A Rua das Flores foi durante bastante tempo o local de eleição preferido pelas elites para morada, em terreno que até ali servira apenas senão para semearem neles hortaliça.

Mas ainda que desde cedo confundidas, a Rua dos Canos por várias formas se distinguia da sua vizinha, que era habitada maioritariamente por indivíduos ligados aos misteres. Diferenciava-a também o facto das casas ali construidas serem regra geral de menores dimensões dado estarem compactadas entre o muro da cerca de Santo Elói (próximo da saída do parque de estacionamento das Cardosas) e o Rio da Vila (que naquele local se encontra agora por baixo das casas da Mouzinho da Silveira e não tanto sob o leito da mesma rua).

Para quem estiver interessado em conhecer a história desta rua profunda e completamente (mesmo casa a casa!) bem como uma boa apresentação da cidade dos inícios do século XVI recomendo a leitura do livro do Prof. Dr. Ferrão Afonso, A Rua das Flores no século XVI: elementos para a história urbana do Porto quinhentista; de onde vieram quase todas as notas aqui colocadas, sendo a outra fonte deste humilde post o Censual da Mitra da Sé do Porto.

Convido também a visitarem o blogue do Porto e não só onde existe mais informação sobre ela AQUI

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* português antigo para onde.

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