quarta-feira, 3 de agosto de 2016

A Rua da Almea, artéria esquecida da cidade

Há ruas agora extintas que pela sua importância no passado ou pelo seu relativamente recente desaparecimento ficaram melhor vincadas na memória da cidade do que outras. Basta lembrar por exemplo a Rua das Congostas (que para mim ainda existe, mas isso seriam outros "quinhentos"...).

A enorme mortandade de ruas que ocorreu com o quase completo arrasamento do chamado Bairro dos Banhos obliterou-as da memória da cidade, ao ponto de alguns historiadores amadores de hoje - onde humildemente me insiro - falarem por exemplo na Rua da Minhota localizada naquele bairro, como se essa designação fosse a de oitocentos; misturando designações mais recentes com antigas. Sem levarem em consideração que essa designação desapareceu bem antes da rua em si, tal como por exemplo no mesmo bairro o nome Rua da Ourivesaria deu lugar à Rua de S. Nicolau (e parte dela ainda existe!). Este cuidado urge para que não se misturem épocas de vida da cidade por vezes separados por séculos.

Então e a Rua da Almea? Pois já alguém ouviu falar dela? Na verdade dificilmente os interessados por estas coisas terão tido essa oportunidade, pois que a rua desapareceu por completo e de uma assentada no início do século XVII. Os responsáveis foram os Eremitas de Santo Agostinho que no seu local construíram o Convento de S. João Novo, agora transformado em tribunal.

Pelo ano 1602 foi entregue a esta religião a igreja paroquial de Belomonte após extinção daquela paróquia (que acabou retalhada entre S. Nicolau e Vitória). A igreja estava ainda inacabada, sem capela-mor: mas os frades optaram por demoli-la e construir um novo templo naquele espaço. Juntamente com ele foram também construídas as restantes dependências conventuais, que em última análise ditaram o fim da Rua da Boa Vista, nome pelo qual naquela altura era conhecida a Rua da Almea. Assim, foram compradas vinte e uma casas com quintais e outros cinco quintais separados para se poder dar início às fundações da casa monacal. Daqui se vê a razia que resultou pois a rua foi completamente obliterada do mapa da cidade, quase ao ponto, arriscamos escrever, de também desaparecer da memória dela.

A rua e sua vizinhança a sul (AHMP)
Esta artéria correria na direção Norte-Sul sensivelmente paralela à muralha fernandina, desde a Porta Nova (ou Nobre) até ao pequeno rossio formado junto ao Postigo da Cordoaria, i, é, a porta da muralha que abria para o início da atual Rua Tomás Gonzaga (antes Calçada da Esperança). Unia-se ao bairro dos banhos pela Minhota (ou Munhota), a julgar por estas descrições de casas que os dominicanos possuíam nas redondezas no século XVI e que dizia "esta rua é abaixo de Belmonte entre a porta nova e o postigo de S. Pedro, perto do muro...", mais à frente: "rua detrás da minhota ou almea" ou ainda: "rua da porta nova (Rua dos Banho) ... da banda do norte, pegada com a escada que vai da porta nova para cima para a rua da almeia ao longo do muro".

Localização conjetural da rua (bingmaps)
São tão poucas as referências a esta rua que ela não aparece nos mapas sobre estudos da cidade, nem mesmo na maqueta medieval do Porto (podendo contudo ainda não existir nesta época...). O que não será totalmente estranho, pelo facto de a maioria das ruas e vielas desta área terem cessado de existir em 1871 e 1872 e também pelo facto de este local se encontrar em plano secundário em relação à restante cidade histórica. Ainda assim, aqui fica um apontamento sobre a existência dela e que o seu desaparecimento se deu para ali se erguer o Convento de S. João Novo.

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Fontes: Cartório do convento dominicano do Porto e A imagem tem de saltar da Autoria de José Ferrão Afonso

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