quinta-feira, 14 de julho de 2016

Visita ao Porto (5)

Finalizamos com a nossa (intermitente) visita ao Porto no já longínquo ano de 1847:


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Não me resta a visitar nenhum lugar da cidade, passei mesmo um dia no seu arrabalde - a Foz; - templos, palácio, torres, teatro, cemitérios, ruas, praças e vielas, hospícios; o rio e a sua ponte e os seus barcos; homens, mulheres, carruagens; Associações, biblioteca e museu, telégrafos, jardins, passeios, academia e prisão, - tudo procurei ver - de tudo contei um pouco, sem que todavia me passasse pela ideia o ser guia de viajantes no Porto.

Agora só me resta visitar as quatro estradas novas que partem da cidade para Braga, Guimarães, Penafiel, e Lisboa; - depois regressar à casa paterna, e recordar saudoso estes dias passados nas ribas do Douro.

Vamos - monta a cavalo - o Sr. C. Júnior é o meu guia; - trota pela rua da Rainha - eis-nos na estrada de Braga.

Lá está a casa da barreira meia derrocada - foi o povo que a destruiu porque queria ser livre, e todos sabem que as estradas são um tropeço para a liberdade; além de que nossos pais andaram sempre bem pelos antigos atalhos, tortuosos, perigosos, imundos. Devo sempre fazer aqui uma observação - os homens e mulheres do Minho não transitam senão pelas estradas novas, agora o que fazem é danifica-las quanto podem.

Cá está em baixo uma povoaçãozita, com seu templozinho humilde, - é S. Mamede de Infesta.

Avante, pararemos em Leça do Balio.

Chegamos; uma ponte pênsil, pequena mas mui bonita, lançada sobre o rio Leça, aformoseia este lugar; a povoação fica mais longe.

Não iremos adiante; retrocederemos para passar a outra estrada.

Voltamos à rua da Rainha, dobramos à esquerda para a rua de 27 Janeiro; no fim desta ainda volvemos à esquerda para a rua de Costa Cabral: ao cabo dela está o começo da estrada de Guimarães.

Galopa até à Cruz das Regateiras.

Um templo, uma cruz de pedra, algumas casas humildes - eis aí o lugar.

Sigamos a passo para desfrutar a beleza desses campos que nos cercam, miremos essas soberbas quintas que orlam o caminho, essas colónias verdejantes, e lá ao longe os severos cabeços de várias serras recortando-se no fundo azul do céu.

Passamos por Águas Santas, e antes de chegar à Maia, cortamos à direita; por estreitas devesas, perguntando a que lado fica a estrada de Valongo, vamos sair a Rio Tinto; estamos no caminho que procurávamos, e que se prolonga até Penafiel. Nós seguimos em sentido oposto, e vimos por S. Roque da Lameira entrar na cidade.

Estou fatigado da cavalgata, a tarde vai descaindo... não importa: ainda vou à estrada de Lisboa, e á Serra do Pilar.

Passamos o Douro na ponte pênsil; sopeu o cavalo sobre o abismo para lançar um olhar ao rio e ás águas margens... avante; estamos em Vila Nova de Gaia.

É preciso subir essa calçada íngreme e imunda para chegar ao histórico alto da Bandeira (aonde perdeu um braço o Sr. Visconde de Sá - para quê?) - Aí começa a estrada dos Carvalhos, que devia prolongar-se até Lisboa.

Há pois vinte e duas léguas de boa estrada; construídas nos arredores do Porto; vi meia dúzia delas, então me desenganei de que as companhias monstros não eram tanto ilusão como me tinham dito em Lisboa alguns meses depois da revolução do Minho, quando eu voltava de uma larga viagem ao sul da América.

Subimos à serra - que religioso respeito me infunde este lugar! Aqui estão as baterias, precedidas de fossos - além o convento cravejado de balas, - os ferros das janelas torcidos ou quebrados, - as pedras amassadas pelo choque dos projeteis... mas sobre a porta incólume em seu nicho esse santinho que afugentou de si as bombas!

O sol abismava-se no oceano, - era essa hora a mais solene do dia em que os objetos começam a descorar, os vultos reais a tornarem-se fantásticos. Em volta de mim reinava o silêncio e a solidão. O meu amigo C. apartara-se por alguns momentos; só restava uma sentinela à porta do convento, marchando compassadamente em um espaço determinado como um autómato bem fabricado.

E lá em baixo, do outro lado do rio, pendurava-se a cidade por suas majestosas colinas, expraiava-se pela beira do Douro, e unia a si com um cinto de madeira e ferro Vila Nova de Gaia.

Era um quadro sublime de grandeza!

A quem visitar o Porto recomendo-lhe este ponto de vista, e o das Fontainhas na outra margem: - não sei por qual me decida - ambos são maravilhosos.

À noite voltamos à cidade.

No dia seguinte embarquei no vapor para Lisboa.

Ao passar pela Foz, algumas senhoras que passeavam na praia agitaram os seus lenços a despedir-se de nós - a dar-nos a boa viagem... e Deus escutou os votos daqueles anjinhos, tivemos um tempo divino até Lisboa. Um desses Serafins conheci eu bem - tinha-me prometido vir ali despedir-se de mim, - e não olvidou a promessa. O céu te pague, mulher, o bem que me fizeste: - os desgraçados contentam-se com tão pouco!

Adeus, Porto, adeus, volto a Lisboa, e já agora não passarei sem celebrar as belezas da minha terra natal; sim, hei-de escrever um livro das minhas viagens à roda da cidade aonde nasci; porque não - quando Xavier des Maistres viajou em roda do seu quarto; o meu trabalho é muito mais amplo; vou tratar disso, e até que se publique - adeus leitor! Desculpe a maçada.

Lisboa, 22 de Novembro de 1847

Francisco Maria Bordalo
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3 comentários:

  1. Bom roteiro, dá outra perspectiva de como era então o Porto.
    Falaste nas estradas que vão para Guimarães, Braga e Penafiel, 2 dessas estradas começavam na Praça Carlos Alberto não era?
    Continua!
    Abraço!

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  2. Olá,

    Não fui eu que escrevi, foi o Sr. Bordalo em 1847 ;)

    De um modo conciso pode-se dizer que as estradas referidas começavam aí por alturas do Marquês e da Praça da República... isto na altura em que este artigo é escrito. Anteriormente tinham início logo passadas as portas da muralha baixo medieval: aí pelo teatro São João, igreja dos Congregados e Cordoaria. Isto para apenas mencionar algumas.


    Nuno Cruz

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  3. Olá!

    Sim eu sei, mas ainda bem que nos trouxeste aqui este tour ;)
    Ah ok, mais uma lição aprendida, obrigado :)

    Cumprimentos!

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