domingo, 3 de julho de 2016

Visita ao Porto (4)

Continuamos então a visita ao Porto que nos propusemos transcrever:


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Alvoreceu o tal domingo destinado para o passeio à Foz, mas escuro e chuvoso; assim mesmo não se desperdiçou, porque o tempo que me restava era pouco, e estava detalhado para outras visitas.

Metemo-nos - eu e o meu obsequioso amigo C. Junior - em uma carruagem, e tratamos para a Foz.

Há dous géneros de carruagens de aluguer no Porto; umas - com a que nos conduziu - convexas pela dianteira, e côncavas pela traseira, com assentos para quatro pessoas mas podendo só acomodar duas à vontade; são tiradas por dous seguros cavalos; outras igualmente côncavas por trás e por diante, e puxadas por uma ou mais juntas de bois. Tanto estas como aquelas, sobem e descem apertadas ladeiras, que parecem de impossível trânsito para um cavalo solto ou um boi.

Chegamos à Foz; tratamos de almoçar - na estalagem de um tal Silvestre, parece-me que foi.

Pedimos bifes, trazem-nos carne de vaca presa a um sofrível osso: - saborosa estava ela, na verdade, mas não me parecia o que tínhamos exigido da arte culinária de mestre Silvestre. Fiz a minha observação em termos moderados - estava enganado, chamava-se àquilo bifes. Modifiquei pois as minhas ideias a tal respeito.

Reguei o chamado bife com um copo de vinho do Porto - o melhor vinho do mundo inquestionavelmente, digam o que quiserem os cegos adoradores de Champagne, Borgonha, Xerez, e até de Madeira... estão em minoria; como ia dizendo tomei o meu copete, e a tal respeito registrarei aqui um sublime pensamento meu: quem bebe vinho ao jantar, deve igualmente chuchar a sua pinga ao almoço, porque o estômago não conhece essa diferença de horas de comida, e tanto carece em uma como em outra ocasião - ou nunca carece - do sumo da cepa.

Isto assente - vamos à praia ver banhar as senhoritas.

Infelizmente poucas encontrei entre os penedos da Foz, por causa da chuva; o que não me pareceu razoável, pois que quem ia molhar-se ao mar, pouco se lhe devia dar de ser também orvalhado em terra.

Esta minha mania de fazer reflexões a tudo, talvez comece a incomodar os leitores, se é que já os não desgosta há muito.

Sem medo ao mau tempo, subimos até ao farol da Luz, dali descortinamos no oceâno vários navios que demandavam a costa, entre eles o vapor Falcão. A barra porém estava quasi tomada, o Douro crescia com a chuva que se despenhava das montanhas, e o mar rebentava furioso sobre o Cabedelo e por entre os penedos. Assim mesmo o vapor entrou; os navios de vela não, - fora temeridade.

Era majestoso esse espetáculo!

O meu companheiro de passeio, a quem eu incomodava continuamente com perguntas, algumas delas talvez desarrasoadas, contou-me na volta para a praia uma história recente, que eu apreciei no devido valor, porque já comigo se passaram idênticos acontecimentos.

Era uma escuna inglesa que ancorara fora da barra, que perdera sucessivamente todos os seus ferros, e a quem já apenas segurava um ancorete; - não podia levar-se-lhes socorro, e os coitados esperavam a sua última hora, fazendo-se pedaços contra os cachopos.

O meu amigo disse-me que viu então prostradas por terra, de joelhos na praia, no limiar das portas e nos balcões das janelas, muitos desses anjos consoladores a que na terra se chamam mulheres, implorando a clemência do céu para aqueles desgraçados que o mar pretendia arrojar de si, e a que a terra repulsaria igualmente!

Os homens também mostravam comover-se, apesar de serem portugueses, e terem por consequência restrita obrigação de odiarem os ingleses - como diz o nosso distinto escritor, o sr. A. Herculano.

Ai! houve um grito uníssono de Misericórdia!... Era que rebentara a frágil amarra! - Depois seguiu-se um momento de silêncio mas de um respirar apressado, - sucedeu-lhe o ténue ruído de palavras incompletas - destacadas... arfar de corações e soluços entrecortados... porém ao cabo um grito de alegria - de vitória?

O capitão fora corajoso - a mal extremo, remédio extremo! - Perdido aquele último recurso, largou o velacho, aproou à barra, - e Deus permitiu que por sobre novelões de vagas irritadas, ora roçando o abismo com a quilha, ora tocando nas pontas dos penhascos - o mesquinho baixel entrasse a salvamento no Douro.

E as mulheres, de joelhos ainda, agradeciam com lágrimas de alegria ao Senhor Deus dos aflitos o milagre que obrara, e criam com fé viva que o Ser Supremo escutara comovido as suas vozes!

Ai, pobre de mim, que me meti a romântico!

Voltemos ao estilo antigo, que não é pequeno defeito uma tal falta de unidade.

E aqui lembro eu às minhas senhoras portuenses o que contou um dos redactores da Carta, não há muito tempo, mas que por ventura já terão olvidado. Foi o caso; uma lisbonense (faço ideia que seria minha patrícia) escreveu àquele redator, participando-lhe que estava tecendo um cordão do seu próprio cabelo (não diz se loiro, negro ou castanho) para lho oferecer como prémio de dizer tanto bem das senhoras na sua crónica semanal. O redator promete retribuir com um soneto.

Ora eu não me quero explicar mais... porém lembro que também tenho meu tanto ou quanto de poeta; e se alguma senhora portuense se parecer com a minha compatriota, não hei-de ficar atrás do meu colega.

E já que falei de senhoras, cumpre-me declarar aqui o muito que me penhoraram algumas - ou quasi todas - as portuenses, a quem tive o gosto de ser apresentado. Naquele mesmo sítio da Foz, estive - só por momentos... ainda mal! - em muito agradável companhia - em conversação deleitável... não dessas banalidades que por aí se usam.

E na cidade - seria bastante para tornar deliciosa a minha residência ali, a sociedade das exma.as snr.as de C. - tão amáveis, quanto instruídas.

A respeito do trajo, notei que a mantilha, costume meio espanhol, cai caindo em descrédito como o capote e lenço em Lisboa - não tanto como as notas do Banco! - Um e outro uso vão desaparecendo da toilete da classe média.

As mulheres da última classe trabalham tanto ou mais do que os homens - não se dedicam a pedir esmola como na Capital; . de tamancos ou descalças cruzam a cidade em todas as direções; vão á fonte buscar água ou carregam qualquer fardo à cabeça; enfim é uma raça laboriosa como os homens de todo o Minho.

Voltemos à cidade, que são horas de jantar; não devemos fazer esperar o nosso amigo G*** e a sua interessante família.

Rasteando o Douro pelos sítios da Cantareira, Massarelos e Miragaia, viemos recordar o sublime painel que devem apresentar estes lugares, por ocasião de uma cheia; quando o rio transborda do seu leito e alaga as praias de uma e outra margem; que as catraias servem para comunicar de uma para outra casa, e que os navios descançam a quilha nos cais!

Como César que chegou, viu e venceu; nós chegamos, comemos, e partimos para o teatro.

O largo da Batalha é um dos belos sítios da cidade: está aí o edifício da Casa Pia, ocupado pelas repartições militares, e não sei se por alguma civil também; e separado por uma estreita rua do teatro de S. João. Este, menor, mas pelo mesmo risco do S. Carlos de Lisboa; vê-se e ouve-se ali - o que não acontece em o nosso rico salão do Rossio, e está pintado e doirado com gosto. O exterior é que é ridículo - e nem ao menos tem um vestíbulo.

Representava-se nessa noite um drama, cujo título por si só já era repulsante; mas a execução foi muito além! - Externamente me lembrei de um João Baptista, amante dos gelos polares! Mas também não olvidarei os deliciosos momentos que passei em um camarote analisando a peça e os atores, e ouvindo chistosas reflexões de uma senhora espirituosa - encantadora!

Saímos do teatro - é necessário dormir algumas horas. Adeus, caríssimos leitores - asta mañana.



continua
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