domingo, 24 de julho de 2016

O fortim da Porta Nobre

Já aqui coloquei várias informações sobre a Porta Nobre e o desaparecido Bairro dos Banhos, para sempre destruído. Nunca duvidei - embora para isso careça da provas documentais - que grande parte da muralha bem como parte da Porta Nobre e do fortim não foram de facto destruídos, mas ficaram como já referido, sepultados no imenso sarcófago que é a sapata da rua Nova da Alfândega e sobretudo o local onde agora existe o parque de estacionamento. Alguns destes restos acabaram por ver a luz do dia, quando se fez uma sondagem prévia naquele local sensivelmente em frente à rua Comércio do Porto, no ano de 2004. Estava em vista fazer-se ali um projeto Docas como em Lisboa, mas talvez porque de facto apareceu um grande trecho da muralha - que antigamente era a continuação do chamado muro dos bacalhoeiros mais conhecida por rua de Cima do Muro, a coisa felizmente não avançou. Nessa altura, salvo erro o presidente da Junta de Freguesia de São Nicolau, teve a meu ver o infeliz comentário que ali aparecera um ninho de ratos... Certo é que ali está muita coisa ainda escondida... e a prova é que há uns anos aquando da reabilitação de uma casa da rua Nova da Alfândega foi descoberta outra por baixo dela, a rua que lhe estava contígua (não a dos Banho) e a parede da casa que se encontrava antigamente do outro lado da rua! Mas é óbvio, para quê demolir tudo, quando no fundo o que é preciso é encher tudo com entulho? Ora, atrás escrevi que carecia de obras documentais sobre a manutenção de parte das estruturas da muralha fernandina naquela área. Contudo algumas fotografias parecem corroborar pelo menos em parte esta teoria. Essas fotografias centram-se sobretudo no fortim que ali existiu.

à esquerda a praia de Miragaia com os cobertos, à direita a rua de Cima do Muro e ao centro o fortim da Porta Nobre.
O fortim e a sua moldura: ao lado deste é possível ver os torreões que ladeavam a Porta Nobre, atrás dele a escadaria que dava acesso à desaparecida rua de Cima do Muro.
Este pequeno baluarte foi construído sensivelmente ao mesmo tempo que o de S. João da Foz e talvez já estivesse finalizado em 1578 (certo é que em 1570 estava em construção). Brás Pereira foi o vedor da sua construção. O seu objetivo era claro, como diz na carta da sua construção: "...pera aí se assentar a artelharia para varejar o rio por não haver outro lugar mais conveniente onde se possa assetar; e era muito necessário para defensão da cidade..." As linhas atrás foram retiradas do estudo de Carlos Eduardo de Resende Fernandes Jorge de 2014, que pode ser consultado on line no repositório aberto da Universidade do Porto. Contudo num estudo mais antigo publicado em dois volumes e intitulado O Porto e o seu termo, parece indicar que aquela estrutura foi erguida nos últimos anos do reinado de Filipe II, tendo sido construído no local da muralha por ventura mais vulnerável a um ataque fluvial. Para sua construção uma casa que se encostava à muralha (que pelo lado de fora e que pelo seu telhado permitia o fácil acesso ao interior da cidade) foi adquirida à proprietária por 95$000 reis e no seu local edificado o fortim onde durante meses trabalharam oficiais de construção orientados pelo mestre pedreiro Manuel Luís. De uma forma ou de outra, não será de duvidar que cedo terá ficado obsoleto há medida que a tecnologia piroblástica ia evoluindo...
O fortim ainda intocado(?) com o bairro dos banhos já demolido. Todo o troço da muralha assinalado presumivelmente ainda lá se encontra soterrado e parte dela viu de novo a luz do dia em 2004, só para ser novamente soterrada.
E ele ali ficou, usado nos seus últimos dias entre outras coisas como prisão militar à espera de desaparecer às mãos do progresso do século XIX ou ser mantido pelo seu valor histórico no século XX. Infelizmente a primeira opção "adiantou-se". Ficam para memória as imagens que felizmente chegaram até nós e onde podemos comprovar, qual cobra digerindo a sua refeição, a sua aglutinação por parte do tal progresso sob o nome de ramal da alfândega.

O fortim já quase completamente engolido nas novas construções, atrás dele ainda corre um substancial pano de muralha que também viria a desaparecer.
Uma outra perspectiva. Nota-se perfeitamente a forma arredondada do baluarte bem como a existência ainda de um grande pano de muralha.
Foto recente indicando o posicionamento do fortim. Depois da desativação das rampas para trânsito de mercadorias que ali existiram, mais área foi tomada ao rio cristalizando-se na sua forma atual.

Sem comentários:

Enviar um comentário