sábado, 9 de julho de 2016

A ponte "de Santa Clara à Serra"

Curioso título não? Mas se o caríssimo leitor pensar por dois segundos descobre logo que se fala da ponte Luiz I.... na realidade não.

O que se apresenta abaixo é um extrato de um artigo de opinião do Periódico dos Pobres no Porto de Abril de 1845 e que versa sobretudo as obras da barra do Porto. Por aqui se vê que já naquela altura se discutia a enorme perigosidade para a navegação que era a entrada no Douro e já se falava num porto de abrigo a construir nuns leixões que havia um pouco a norte... havia gente, imaginem, que até se opunha veementemente a isso! Ora como é sabido neste país muito se fala e estuda e pouco se faz: naquela altura assim o era também. Teve de se esperar mais sete anos, por um verdadeiro desastre da magnitude do "Porto" para se começar realmente no Terreiro do Paço a dar ouvidos aos apelos por um porto seguro para a segunda capital do reino (como os jornais portuenses tanto gostavam de dizer naquela época...)

No entanto o artigo de opinião refere-se também à ponte que apenas dois anos antes havia sido inaugurada e que esteve longe de um consenso entre a população... Estes pequenos apontamentos são tirados dos primeiros dias de Abril do jornal supracitado, onde inclusive o próprio Bigot, autor do projeto, parece se ter sentido ofendido e respondeu ao jornal.

São apenas os parágrafos referentes à ponte que aqui coloco.


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Artigo do redator:
"... Uma outra obra há a fazer no Porto, em virtude de uma das condições com a Empresa da Ponte e Estrada de Lisboa, que até esse bem nos trouxe a Ponte Pênsil onde a puseram, e é o abrir-se à custa do público um caminho que comunique a Ponte Pênsil coma  estrada de Lisboa: essa obra ainda não está contratada com a Companhia, mas é provável lhe venha a ser dada.

Qualquer que seja a direção que se lhe dê, esse cabeção de estrada tem de ser dispendioso por as expropriações e pelos desaterramentos, e jamais poderá ficar com inclinação assas suave para que possam por ela transitar diligências. Não serão essas somas mais bem gastas em construir a ponte de pedra há 50 anos em projeto que ligue o morro de Santa Clara à Serra? No arquivo da Câmara Municipal deve existir o plano e memória para a sua construção. Com esta ponte , ou seja, de pedra ou de ferro, a estrada de Lisboa ficaria quasi ao livel da cidade, mui pouco haveria a gastar para a comunicar, e as diligências poderiam vir ao interior da cidade; e todo o alto de Vila Nova nas proximidades da Serra viriam a ter grande valor, pois ficavam sendo por assim dizer um bairro da cidade.

Esta ponte não pode fazer-se, parece-nos, sem uma indeminização à Empresa da Ponte Pênsil; não seria esta tão desarrazoada que desprezasse uma razoável compensação, pois que pelo rio continuaria sempre a fazer-se o trânsito entre o bairro comercial da cidade e a parte baixa da vila onde se acham todos os armazéns de vinho.

Há que tanto dinheiro por aí se tem gasto tão mal gasto, faça-se ao menos uma obra que dê nome a quem a realizar, e não se vão fazer encruzilhadas de cabras para aproveitar essa mesquinha ponte que nos deram."

Dias depois, a 9 de Abril, o próprio Bigot sai em defesa da ponte por ele projetada e diz-nos no mesmo jornal:
"... Quanto ao que respeita à Ponte Suspensa, o autor do art. deveria dizer: - Esta ponte não é tão bela nem tão bem acabada como a Ponte de... (escolhida em França onde este sistema é mais adotado) isto seria mais razoável do que dizer "É uma ponte mesquinha". Eu estou perfeitamente convencido que a ponte de pedra ou de ferro de um só arco que unisse a Serra a St.ª Clara seria de uma ordem e de uma magnificência incomparável à ponte atual; seria neste género o monumento mais notável da época.

Logo a seguir a publicar o comunicado de Bigot o jornal expõe novamente as suas razões, entre as quais:
"... O Sr. Bigot ofendeu-se com a expressão que empregamos de - mesquinha ponte - falando da pênsil sobre o Douro. Não é uma nem duas vezes que temos elogiado a perícia do Sr. Bigot na sua construção, ela estabeleceu os seus créditos. Chamamos-lhe - mesquinha ponte - porque a empresa, em lugar de a fazer construir de Santa Clara à Serra, como requerera a Câmara, conservando a de barcas; quis construí-la onde lhe ficasse mais barata: chamamos-lhe - mesquinha - porque  foram colocar no mais estreito do rio, a grande distância das ruas da cidade, de sorte que apenas transita por ela uma terça parte das pessoas que transitavam pela antiga, preferindo os outros irem em barcos: - mesquinha - porque, sendo a sua mais apregoada vantagem a de dar comunicação para a margem esquerda em tempo de cheias, apenas, quando as há que cubram o cais, podem chegar a elas pessoas a pé, e algumas cavalgaduras e bestas de carga que tem de descer ou subir degrau a degrau a escadaria do Codeçal! Mas nem a carros ou carruagens isso é possível. E foi para isto que o estado perdeu por trinta anos o melhor de dez contos por ano. Quanto ao projeto da Ponte de Santa Clara à Serra, que comunique a cidade com a estrada de Lisboa, único modo de poderem entrar na cidade diligências, folgamos que o Sr. Bigot concorde connosco em que seria o monumento mais notável da época.

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