quinta-feira, 16 de junho de 2016

Visita ao Porto (3)

Depois da pequena interrupção imposta pelo distinto Barão de Forrester, vamos então prosseguir com a visita ao Porto que temos vindo a transcrever, desta feita a sua terceira parte que não é assim tão suave como a anterior:

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Os nossos primeiros monumentos, os primeiros monumentos de toda a Cristandade - costumam ser os templos; esboçarei pois o que há de notável a tal respeito na cidade do Porto - não gastarei muito tempo, porque há pouco a admirar.

Quis começar pela Sé - esse histórico solio dos bispos semi-reis. Ainda outra vez me lembrarei do Snr. Garret, e pedi que me guiassem à Catedral pelo arco de Sanct-Anna; fizeram-me a vontade, dirigiram-me por um enlameado beco, - disseram-se - Era aqui... mas o arco já não o encontrei, havia-lhe passado por cima o nível da civilização. - Vi, porém, aquelas duas janelinhas de que fala o poeta - pareceu-me que distinguia a Aninhas e a Gertrudinhas, atando o fio da conversação no ponto em que o autor as abandonara. Poder do Génio, que dá vida a uma sombra! O que eu senti naquele lugar - poucos o compreendem... nem isso é preciso.

Colocada em um pequeno largo, cercada de becos, mal se pode gozar a sua perspectiva, a tosca mas proveta fachada do castelo episcopal. O interior está bastante danificado, há porém aí dois objetos dignos de notar-se.

A capela de prata, obra custosa pela matéria e mais ainda pelo lavor - cujo fundador ninguém me soube indicar, mas que me pareceu não ser anterior ao século XVI - e um quadro da Virgem, que os cónegos me asseguraram ser original de Rafael: - não suponho tal, com quanto o rosto da Senhora tenha desses divinos traços que caracterizam as Madônas daquele sublime pintor. É talvez apenas uma cópia.

Também disseram que o duque de Wellington oferecera por ele dois contos de réis; e que mais recentemente o duque de Palmela, oferecera o mesmo preço e uma cópia para ficar em seu lugar. Não faço mais do que repetir o que me contaram diante de testemunhas.

Ao lado da catedral está o Paço do Bispo - gigantesco edifício incompleto, e arruinado pelas bombas do tempo do cerco: não entraremos lá, limitar-nos-emos a ver a escada.

Oh! a escada do Bispo é o orgulho dos portuenses. Apenas chegardes à cidade Eterna, encontrareis cem pessoas a perguntar-vos - Já foi ver a escada do Bispo? - E é necessário ir lá depressa, para salvar os ouvidos de repetidas e minuciosas descrições. Que me desculpem desta ferroada os senhores portuenses - bastante mel lhes tenho dado pelos lábios - e, o que é mais, simpatizo com eles deveras.

Ora a escada é grande, espaçosa, clara, e coberta por um tecto elevado e elegante: foi renovada pelo actual bispo D. Jerónimo, - mas não tem nada que encante: ao contrário no vestíbulo tem quatro objetos colocados simetricamente que desencantam....

Continuemos a revista aos templos. O de S. Francisco contíguo ao convento incendiado pelos miguelistas, passa por ser um dos melhores da cidade, - mas não o pude ver, estava fechado; o exterior posto que irregular, fixa a atenção por alguns momentos.

O da Trindade está em reparos, é porém coroado por uma torre piramidal, que - depois da torre dos Clérigos - e o vulto que mais sobressai no horizonte do Porto. Cedofeita e S. Bento, também estão de posse de uma grande nomeada, - porém eu é que não tenho tempo nem paciência para entrar em miudezas. Espaçosos são também S. Ildefonso, e S. António; visitado por antigo o S. Pedro de Miragaia, - nada todavia prendeu nesses lugares santos a atenção do viajante - a não ser a lembrança de Deus.

No convento de S. Bento das Freiras em que eu me demorei algumas horas, porque casualmente entrei ali na ocasião em que se tratava da eleição da Abadessa. Foi uma cena nova para mim: o beija-mão dado pela Eleita, as saudações e vivas da comunidade e das leigas - os eclesiásticos assistindo ao processo eleitoral - tudo aquilo semelhava tanto um quadro de política, que - confesso - pareceu-me uma profanação na Casa do Senhor!... Loucura minha!

Quanto à arquitetura, nenhuma  frontaria me pareceu tão bela, como a do convento do Carmo.

Concluiremos esta resenha na Lapa. Ahi está o coração de D. Pedro, - posto que o sarcófago não seja condigno ao objeto que encerra, - é impossível levantar dele os olhos!

 Corações como o desse homem - verdadeiramente Grande - não pulsam em muitos peitos!... Pudesse ele volver novamente à vida - e ainda seriamos salvos!...

Junto à igreja da Lapa, há  o cemitério particular da Irmandade, que também serve de jazigo a homens célebres. Entre avultado número de monumentos funerários, achei três lápides que recordam nomes distintos em letras, armas, e virtudes - José Ferreira Borges, coronel Pacheco, e o bispo D. Manuel de Santa Inês.

Há na cidade um grande cemitério público, que só tinha quando eu o visitei cinco monumentos; porém é ornado de uma bonita capela, um tanque e árvores adequadas. O povo tantas vezes poeta em sua linguagem singela, chama-lhe geralmente - Campo de repoiso!

Poucas cidades possuem como o Porto, tantos hospícios e em tão perfeito estado. O hospital da Misericórdia, que está em construção, se chegasse a concluir-se seria suficiente para as três províncias do norte; - o fora bastante para asilo de todos os feridos da batalha de Waterloo, ou de Moskwa.

No largo de S. Lázaro (aonde há um jardim público) está o edifício da Biblioteca, galeria de pinturas, e museu. A Biblioteca, está perfeitamente colocada, tem extensões salões, muito claros e arejados, e em muita boa ordem. Disseram-me que ao Sr. Herculano se deve em grande parte a organização daquele estabelecimento.

Outra recordação de D. Pedro se encontra no Museu - é o óculo e o chapéu de que usou durante o cerco.

O campo de Santo Ovídio, chamado hoje da Regeneração, é uma bela praça assombrada de arvoredo, aonde se vê a fachada de um imenso quartel de tropa, que fecha uma quadra de quase igual tamanho; - fica-lhe perto o Passeio da Lapa, donde se goza uma bela vista - principalmente para a parte do oceano; - e mais acima um telégrafo - excelente ponto de observação.

Há na cidade duas assembleias de recreio - a Portuense - e a Filarmónica.

E uma comercial.

O corpo mercantil do Porto é perfeitamente unido, e por isso mesmo muito respeitado; tem-se dedicado a mais sérios trabalhos do que o de Lisboa. A última prova desta asserção e bem saliente, é o majestoso edifício da praça nova do comércio que à sua custa está levantando.

Há também no Porto um Banco Comercial, e Caixas Filiais do de Lisboa - ou seja de Portugal, - e da União Comercial.

Agora o que é espantoso, é que em uma cidade de tanto tráfego mercantil como o Porto - esteja a alfândega colocada em armazéns particulares... mas isso não é culpa dos comerciantes, é do Governo.

- O que me resta ver na cidade?

- O largo da Cordoaria - a Politécnica - a Relação.

- Vamos lá... oh! cá estamos, não é difícil adivinhar que chegamos à Cordoaria, vendo tantos cordoeiros a trabalhar em volta da praça.

O edifício da Escola Politécnica é grandioso, mas falta concluí-lo - como quasi tudo nosso.

E a Relação... sempre ouvi dizer que é um palácio magnífico. - Quê! pois é aquela massa de pedras enegrecidas meio oculta por esse barracão de madeira? Acerquemo-nos.

Com efeito estava própria para uma jaula de feras, a tal Cadeia da Relação, - mas para detenção de homens, e de homens não condenados... é horrível. Creio que morreria se me obrigassem a transpor os umbrais dessa porta... e todavia, homens colocados muito acima de mim na escala do mundo, aí jazeram encerrados meses, anos, - alguns, só daí saíram para o patíbulo!

O edifício é triangular como uma forca - talvez fosse um pensamento emblemático do arquiteto, ou de quem lhe encomendou a obra.

Fujamos deste lugar de ominosa recordação.

- Vamos à Foz?

- Hoje não - amanhã, que é Domingo - e adeus.

Enquanto eu tomo alento descansado, por tornar ao trabalho mais folgado.


continua
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2 comentários:

  1. Bom tour, está interessante! Fiquei curioso com um pormenor, desculpa a minha ignorância, pois não conheço a obra do Garret, qual era a história por detrás do Arco de Sanct-Anna? (não precisas de minuciosos detalhes, apenas gostava de saber)
    Contínua! Abraço.

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  2. O Arco de Santana era uma porta da muralha mais antiga da cidade que foi foi "personagem" de um romance de ALmeida Garret.

    Resumidamente era uma porta da época gótica construída numa muralha de origem românica (mais antiga, portanto).

    Ainda podes visitar o local onde ela esteve porque parte da muralha ainda lá está; vale bem a visita e é de borla.

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