segunda-feira, 6 de junho de 2016

Visita ao Porto (2)

Abaixo apresento a parte 2 da visita ao Porto que fez Francisco Maria Bordalo em 1847.

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Eis-me aqui instalado na Rua do Almada.

Começarei por notar uma singularidade da minha habitação.

Alguém dirá que me estou pegando, como um cavalo manhoso, diante de qualquer ninharia; em vez de romper galhardamente como um brioso ginete, lançando miradas sobranceiras à cidade que percorre. Eu digo que quem assim falar, não tem razão - e provo.

A casa de que vou tratar num relance, pode daqui a duzentos anos servir a um romancista (dos que então houver - que tais serão eles?) para teatro de uma associação eleitoral, clube diretor de uma bernarda, ou outra qualquer cena dos nossos dias, - posto que tais brincos se não tenham feito nesta; o que não impede que os futuros arqueólogos façam como os atuais - que nós por aí conhecemos a inventar patranhas, e a coloca-las conscientemente nos lugares históricos.



O caso é que eu já ia fugindo de casa.

Pois bem, saberão os senhores e senhoras (isto é obra para ambos os sexos) que a casa onde me hospedei, e aonde fui tratado com o mais disvelado carinho pelos meus amigos os irmãos C. M. - tem apenas duas janelas de frente em cada pavimento, mas conta 250 vidros só no andar inferior. - Agora, pergunto eu - era isto ou não era uma circunstância digna de ser mencionada por um viajante? Não sou eu dos mais minucioso: lembra-me muito bem que A. Dumas na sua viagem em Sinay, menciona com muito espanto um convite que lhe fizeram ao sair do banho, posto que nada tenha de raro, e que no-lo façam todos os dias, tanto no Rossio de Lisboa, como na Praça Nova do Porto.

Estava em um céu aberto naquela casa da Rua do Almada. - Cria-me em um viveiro de canários, ou em uma estufa - salvo a temperatura: - isto quanto às vidraças, que em tudo mais era como as outras.

Ora pois , já viram a singularidade da casa; agora tenham a bondade de acompanhar-me, que começo a minha execução. Nous partons!

Desçamos à Praça Nova, ou mais modernamente - praça de D. Pedro. Eis-nos aqui na parte mais regular da cidade. As duas calçadas que partem deste lugar em direções opostas - a de Santo António e a dos Clérigos - são espaçosas, e orladas de muitos bons prédios: a primeira coroada pela bela paróquia de Santo Ildefonso; a segunda pela igreja e Torre dos Clérigos (que amizade com que eu fiquei a esta torre!) - A praça é quadrada; cercada de gradarias e assentos de ferro, assombrada de arvoredo em roda, e ornada com o palacete da Câmara Municipal; um chafariz; e o único café e bilhar decente do Porto, único cabeleireiro, e armazém de modas - tudo propriedade de Mr. Guichard.

Hei-de visitar todos esses edifícios - igreja, torre, municipalidade e botequim... mas é necessário começar por um deles. Qual há-de ser?

A torre dos Clérigos - isso estava claro.

Upa - galga arriba - que a ladeira é íngreme.

Esta Calçada dos Clérigos fez-me recordar o préstito fúnebre, que ela tantas vezes presenciou, quando a Alçada transferia algum desgraçado das cadeias da Relação para o patíbulo da Praça Nova!

Mas isso já la vai - o que passou, passou; - hoje queremos esquecimento total das antigas injúrias. Os supliciados dormem há muito o seu sono eterno.

Porém vivem ainda para não se olvidar, os que acompanharam alguns ao cadafalso. Um visitei eu - não havia de visitar! - Se ele é o nosso Figaro - o mais engraçado escritor em prosa e verso que esta terra tem produzido depois de Nicolau Tolentino... já se vê que falo do chistoso Barbeiro dos Pobres. Já velho e achacado, mas sempre folgazão, é o nosso homem - muito simpatizei com ele - e a quem não sucederá outro tanto?

E eu divagando - como um deputado que ilude a matéria da ordem do dia. Nada - assim não vai bom. Prometo solenemente não ter mais desvios - ao menos até o fim deste capítulo.

Vamos a subir os 229 degraus que nos hão-de levar à última plataforma da torre dos Clérigos - ai que barulho! Pois não estão tocando os sinos!...

O meu cicceroni - sineiro em chefe - manda dar tréguas aquele quebra-cabeças; e eis-me com os meus amigos C. M. gozando a vista daquele magnífico panorama.

O Príncipe de Lichnwoski que viajou em Portugal em 1842 - e que de suas recordações nesta terra escreveu um livro - muito criticado por alguém, é verdade, - descreve, a meu ver, com bastante tino e elegância o painel natural que descortina o observador colocado no cimo desta torre: como não quero cingir-me à sua obra, nem à de nenhum outro autor (pois já disse que este opúsculo havia de ser inteiramente original) limitar-me-hei a dizer que me causou séria impressão o seguir com a vista a longa curva que ocupavam as linhas de defesa - notar aqui Monte Pedra, ali as Antas, acolá Bonfim, algures o Cubelo, e tantos outros lugares históricos, onde se obraram façanhas que começam a esquecer. Não me meto a descrever os horizontes que abrangia a vista, porque nada posso acrescentar ao que o diz o Príncipe alemão - apesar de muito censurado. Bem sei eu porquê!

Esboçarei o sineiro antes de deixar a torre. Era um homem de meia-idade, asqueroso no último ponto, e sem chiste nenhum para ciceroni - pelo demais parecia um bom homem - que são as palavras com que quasi sempre termina uma descompostura a um cristão. Declarou ser sineiro depois de vinte e cinco anos. Perguntado se pegara em armas no tempo do cerco, respondeu que não, porém que subia continuamente à torre para tocar a rebate; e que durante o governo da Junta, exercera sempre o mesmo ofício, mas com menos trabalho. Perguntando mais pela altura da torre, declarou ter sessenta e três braças e meia desde a peanha da bolta até o chão (são palavras dele - que eu gosto de elucidar com textos as minhas obras) - e nada mais disse que mereça mencionar-se.

A fachada da igreja dos Clérigos pobres - ou de S. Pedro de Alcântara - também prende a atenção como a torre, e como ela pertence a um género de arquitetura inclassificável.

Baixemos à calçada, e vamos à Câmara Municipal; é necessário não perder tempo.

O palacete é pintado de azul; a gradaria das janelas doirada. No topo tem um guerreiro que sustenta as armas da cidade, e empunha uma lança.

Entremos o portão; no vestíbulo há uma fonte que refresca aquele ambiente. - Subamos a escadaria, penetremos na sala das sessões - lá está a espada de D. Pedro adornando uma das paredes - ao lado do retrato de sua filha.

Confesso que me comoveu aquela vista - aquele largo sabre de bainha de ferro que guiou à vitória os 7500 bravos de Arnósa!... Aí temos outra recordação intempestiva - esquecimento é que se quer.

Passamos à secretária, e ao arquivo da Municipalidade: o curioso de antiguidades tem aí com que se entreter. Mostrar-lhe-ão um livro em que estão pregadas algumas folhas de papel de algodão, meio dilaceradas porém cobertas de carateres antiquíssimos - é o primeiro auto de Vereação - século XIII ou XIV. O foral da cidade e o de vários lugares do distrito, adornados de belas iluminuras, aonde se conserva o brilhantismo das cores, fruto de uma arte perdida para nós; são obra do tempo de el-rei D. Manuel; e outras preciosidades. Antes de abandonar o palácio da Câmara vede a pequenina capela, e gostareis por certo dos seus adornos, posto que sejam de madeira.

Agora convido os leitores a virem comigo tomar café ao Guichard, um copo de marasquino e um charuto (este detestável, como são em geral os do nosso Contrato do Tavaco.) - Talvez vos incomode estar na mesma sala em que se cortam cabelos, - pois bem, passemos ao bilhar; mas, pelo amor de Deus, não desçais à casa do jogo do Loto [ou Quino como lá lhe chamam] morrereis asfixiado, e com a cabeça aturdida pelo bradar do marcador.

Está tudo pago; saia-mos - Vamos a Santo Ildefonso.

Não. Tratarei deste templo quando me ocupar dos mais que adornam a cidade Eterna. Por agora descansemos, mesmo porque é preciso dar mate a este capítulo, que já se vai alargando muito.

Continua
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Digam lá os meus leitores se mesmo não sendo um Camilo, não são interessantes os apontamentos se colhem das descrições deste viajante?!

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