sábado, 4 de junho de 2016

Visita ao Porto (1)

Francisco Maria Bordalo
Num jornal setembrista de vida efémera denominado A Columna, com tipografia na desaparecida Rua dos Lavadouros, encontrei este interessante escrito da autoria de Francisco Maria Bordalo. Escritor e Capitão-tenente da Armada, nasceu em Lisboa em 1821 e na mesma cidade morreu em 1861. O texto foi publicado entre 29 de novembro e 2 de dezembro de 1847. Aqui publico-o dividido nas mesmas porções em que o periódico o fez.


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Vou ao Porto - decididamente!

Parece mal - ser português, ter mais de vinte e cinco anos, - e não haver visitado a segunda cidade do reino; não ter cruzado o Douro, o pátrio rio de tantos dos nossos poetas; não ter visto - ao menos de longe - o aspecto carrancudo das montanhas do Minho, contrastando singularmente com seus campos sempre esmaltados de verde.

Pois vou!

Embarco-me no vapor, deixo o meu pátrio Tejo, - vejo sumir-se a Pena, bela coroa da romântica Sintra; à noite enxergo o farol das Berlengas, confundindo a sua luz com a das estrelas; depois durmo, que é uma excelente maneira de encurtar as viagens; e ao romper do dia diviso a Foz, a sua povoação, o seu castelo, e lá por entre montanhas a erguer-se um como cipreste gigante.

- Que ponto é aquele?

- É a torre dos Clérigos.

- Pois é. Parecia-me um cipreste. Seria um pensamento do arquiteto? Talvez. - Era por ventura um romântico de outro século. Oh! Como eu desejo ver de perto a tal torre.

E foi nesse momento de entusiasmo que resolvi escrever as minhas impressões de viagem - como por aí se diz. Bem sei que muitos historiadores, geógrafos, viajantes e touristas, tem dito quanto havia a dizer da cidade Eterna, do rio que lhe banha os pés, dos campos e montanhas que a cercam; - não contarei coisa nova: mas deixarei por isso de ser lido? Não; é que aí estão os artigos de fundo dos jornais a dizer quasi sempre ao mesmo, e todavia são muitas vezes recebidos com entusiasmo. - É conforme a disposição de que está o leitor. Talvez que estes meus apontamentos ou apontoados encham as medidas a alguém. E agora, que remédio - prometi escrever - comecei a cumprir a promessa - é concluir. Saia o que sair! Deus queira, ao menos, que esta obrinha não alcance tantas antipatias da parte dos portuenses, como o folhetim intitulado O Porto, que estampou na Revolução de Setembro, o meu amigo e compatriota alfacinha - talentoso mancebo - o Sr. Lopes de Mendonça.

Também o homem não estava em si quando escreveu: exagerou a pintura, tanto nos toques do sublime como nos laivos do ridículo... nem perdoou às senhoras!... Pois a essas desde já declaro que pertendo eu agradar; todavia farei a diligência por não mentir mesmo em seu abono - confesso, porém, que tenho medo de mim - sou muito frágil!...

Silêncio! - eio!... caluda, que vamos a investir com a barra - e não é ela para graças. O Joaquim Luís e o Turíbio gritam - a bombordo - a estibordo. - E o Cabedelo está aqui agarrado a proa do barco, e o mar rebenta com fúria - parece um lençol de escuma.

Bravo! Passamos adiante - mas cá está a maldita Cruz de ferro - Deus me perdoe a heresia!... Heresia, não, porque a chamada Cruz de ferro não é mais do que uma torrezinha de pedra, que teve em outro tempo o sinal da redenção, dizem.

E com esta conversa safamos de todos os baixos, e eis-nos aqui a largar o ferro em frente a Massarelos.

Namorei-me de uma casa na margem do sul do rio - disseram-me pertencer ao Sr. Antero [que não tive a honra de conhecer] - bonita! isolada à beira do rio, assombrada de arvoredo, - é capaz de fazer poetas. Por mim declaro que se ali passasse um mês, compunha romance de trinta volumes, coisa a desbancar Sue e Dumas, - muito maior que o Judeu e que o Monte Cristo.

As construções navais que aparecem na outra margem, começam a dar ideia da vida que anima o Porto: uma corveta de guerra, várias embarcações mercantes, de belos cascos... de elegante mastreação... desenho, obra e madeiras portuguesas - são objectos que devem notar-se... E aqui podia eu fazer largo discurso sobre a decadência da nossa Marinha - falar em Vasco da Gama e Pero de Alenquer e Pero Nunes e.... nada, isso já está muito repisado, e eu trato de escrever uma obra inteiramente original, ou para me servir de uma expressão moderna - não quero vasar em nenhum molde o metal da ninha eloquência. Agora sim, que ninguém me entendeu.

Vamos, largo do Ouro [o sítio dos estaleiros] - rema avante; aguenta contra a corrente, que quero ir desembarcar à Ribeira.

Gosto mais do Douro, do que do meu pátrio Tejo. Não tem a majestade deste - é verdade - não pode acomodar a um cantinho toas as naus da Inglaterra, da França, da Rússia e da Turquia - é o mesmo; quem quer ver mar largo - bem largo - vai viajar no oceano - e eu que já o estou farto de o ver! - O Douro é estreito - bem sei - mas por isso é que eu gosto dele; tortuoso, assim é que me agrada, apraz-me o subir a qualquer eminência das suas ribas, e ver como se enrosca por entre as montanhas que lhe talharam o leito; como esbraveja às vezes contra essas margens alcantiladas... Tenho pena de não ter nascido à beira do Douro!

Que caras de vender saúde tem os barqueiros - comparai-os com os infesados do Cais do Sodré e da Ribeira Nova. Pois as mulheres de Valongo e Avintes, com aqueles elegantes tamanquinhos - sim senhor elegantes... - Ai que toquei na tecla - isto é tentação - abre nuntio!

A minha catraia vai passando em frente de Miragaia. Lembrou-me o romance do Sr. Garret - eu tenho queda para a poesia! - perguntei aonde era o castelo de Gaia, e mostraram-me na riba oposta umas ruínas - olhei com entusiasmo para elas! Depois espraiando de novo a vista pela extensão de Miragaia, dizia comigo mesmo: - Por aqui devia de ir passando a cavalgada de moiros, quando a bela Gaia mirou pela última vez ao seu Real amante. - E fiquei sério ao contemplar alternadamente as duas margens do rio, recordando-me também do Espetro, belo poema-romance do Sr. José Maria da Costa e Silva.

Não tardei porém em ser distraído. Mostraram-me a Serra do Pilar, que parecia fechar uma pequena baía, olhando da posição em que eu estava; porque o Douro torce-se aqui e acolá, como um avaro que procura esconder os seus tesouros. As ideias mudaram logo de norte; veio-me à lembrança o cerco, aquela memorável defesa; - e D. Pedro, e o General Torres, e os Polacos da Serra passaram em continência diante da minha imaginação; - porque tem isso consigo os poetas e mesmo os prosadores, vêm ante si cada vez que querem os grandes homens de todos os tempos; dos pequenos não fazem eles caso.

Não fatigarei aqui o leitor com reflexões politicas morais e filosóficas; deixo isso a quem de direito pertence.

Já cá vou costeando o lugar de Cima de Muro; - lá está a ponte pênsil... deixa-la, outro dia a verei que tenho tempo. Estou farto de teimar na catraia contra a corrente do rio - desembarquemos aqui, ao pé da Porta Nobre.

Porta Nobre! diz o letreiro que coroa um arco que dá entrada para a mais imunda rua; deverá de ser assim aquela aonde o Dante leu o imortal verso: Lasciate ogni speranza o voi ché notrate!

Antes porém de saltar em terra, façamos uma observação a respeito das catraias. Se tivessem a proa armada de um esporão, arremedariam sofrivelmente as gondolas de Veneza.

Ainda assim as casinholas que ocupam o centro do barco são pintadas de cores variegas e não de negro - como as de Veneza, que parecem recordar ainda a polícia da Inquisição do Estado - de ominosa memória.

Atraca - Aqui está uma de seis. - Passe muito bem - Viva - Estou na cidade do Porto!

Pois amanhã falaremos, que hoje é noite; vou procurar poisada.

Lancemos ainda um olhar ao Douro que está daguerreotipando as estrelas, e os muitos lampiões da cidade e de Vila Nova. - Parece que estamos em um lago da Suíça, não se enxerga nenhuma saída do rio. A bela iluminação das suas ribas fez escrever a um parvo de um estrangeiro que por ali andou, que eram tão maus os mareantes do Douro, que tinham de acender-se aquelas luzes para lhe servirem de faróis. E assim escrevem das nossas cousas todos eles!

Aqui faço ponto, e estou no gosto do modernismo: não dizer nada ao primeiro capítulo para aguçar a curiosidade do leitor. Passe este como introdução, posto que tal título lhe não pusesse no cabeçalho - que no mesmo caso estão certas as leis que dizem - valerá como carta passada pela Chancelaria, posto que por ela não há-de passar.

continua
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