sábado, 2 de abril de 2016

Do convento de São Domingos

Poderão os leitores mais atentos deste blogue lembrar uma ou outra referência por mim feita anteriormente em relação a um trabalho que espero vir a concretizar sobre o primeiro convento dominicano do Porto. Porque na minha pesquisa deparei - do meu ponto de vista - com autênticas pérolas, decidi criar este post de modo a o ilustrar de uma forma diferente da que estamos habituados a ver, com as mesmas imagens recorrentemente usadas.

O convento de São Domingos foi fundado no ano 1238 por iniciativa de um bispo do Porto envolto numa conjuntura beligerante com os franciscanos que se haviam instalado um pouco mais abaixo no sopé do belo monte. Durante a sua longa vida de 594 anos passou por vicissitudes várias que não vamos aqui explorar.

Após este parêntesis, entremos no assunto da iconografia respeitante a este convento onde iremos constatar que na realidade existem apenas um punhado de vistas da cidade que o mostram com maior ou menor rigor. Começamos pela mais antiga:

1) 1669
1) Nesta imagem observa-se o dormitório (B), sempre ocupando o lado sul do complexo conventual, e ao lado esquerdo o que parece ser a famosa casa do patim (A); vislumbram-se também o topo da torre sineira e a testada sul do transepto(?) da igreja Além disso, também à esquerda parece existir uma torre no local onde se situava a portaria do convento, ainda que no desenho ela surja ambiguamente como prolongamento do próprio dormitório, pelo que esta minha afirmação é feita com muita reserva...

Segue-se uma vista da primeira metade do século XVIII:

2) 1736
2) Comum a todas as imagens é a quase impossibilidade de "espreitar" para trás do dormitório. Sendo esta vista a que mais se aproxima e ainda assim não é clara o suficiente. Contudo podemos ver casa do patim (B), situada ao início da rua Comércio do Porto (A). Podemos também ver as traseiras da capela da Ordem Terceira de S. Domingos (C), cujo chão foi recentemente escavada no passeio oriental da rua Ferreira Borges. O dormitório, omnipresente, lá está (D) e da torre sineira também se consegue vislumbrar o pináculo (F). Com a letra E marquei as estruturas que creio serão relacionados com o convento mas impossíveis de identificar. Ainda assim naquela área situava-se o refeitório e cozinha do cenóbio...

Segue-se aquela que, a meu ver, é a melhor imagem representativa da cidade antiga, que apesar de se tratar um desenho leva-nos quase que de um modo fotográfico a admirar o edificado:

3 ) 1791
3) Este debuxo permite-nos observar e identificar várias estruturas do convento com algum rigor e fiabilidade. Temos assim a igreja dos terceiros (A), que por esta altura era já a igreja conventual; o B mais uma vez indica o dormitório; com a letra C assinala-se a horta dos frades, rodeada de um lado do muro limitador da cerca e do outro um arco que dava acesso à horta; o D assinala uma estrutura em que há 50% de hipótese de acerto: ou se trata da igreja antiga (edifício de origem medieval e há época chamada de armazém da igreja velha), ou estamos na presença das traseiras do dormitório novo (em linguagem de hoje Palácio das Artes); com a letra E assinala-se a torre sineira; F é a capela-mor barroca construída em 1734 que substituiu a abside medieval muito semelhante à franciscana; e finalmente a G assinala, à sua esquerda, a antiga sacristia (naquela época já armazém da sacristia velha) também de origem medieval.


Infelizmente são muito pobres as referências fotográficas ao convento de S. Domingos, pois este foi demolido entre Abril e Junho de 1865, quando a fotografia começava a dar os seus primeiros passos... Ainda assim, fruto de alguma investigação (e sorte!) consegui obter um punhado de imagens absolutamente preciosas e que em parte aqui hoje partilho, para que os portuenses interessados nestas coisas possam (pela primeira vez?) VER o convento de Nossa Senhora dos Fieis de Deus do Porto, vulgo convento de S. Domingos.

A composição que mostra abaixo dão-nos vislumbres de como se encontrava o edificado nos seus derradeiros tempos quando estava quase tudo em pardieiro e a opinião pública ansiava por varrer daquela zona tão central da cidade as suas pouco edificantes ruínas:



4) Mesmo que muito mutiladas aquelas paredes transmitem ainda a ideia do que foram... Para além da legenda, podemos apontar que na imagem de baixo ainda se consegue ver o topo da igreja velha, ou seja, a igreja de arquitetura idêntica à franciscana (que felizmente ainda existe). Vê-se também o que parece ser um arco entaipado da lateral da igreja dos terceiros. Também na imagem de baixo e logo abaixo da torre sineira encontra-se a parede sul do transepto que ainda parece possuir a cruz de pedra própria destas construções no topo(!)

Este convento acabou por ser espoliado, abandonado e esquecido pela cidade que lhe virou completamente costas e não se preocupou em salvar o que quer que fosse que nele merecesse ser salvo. Agora, com estas imagens, espero que alguns portuenses mais dados a estas coisas possam fixar na retina e na memória que existiu antigamente no Porto um convento "notável pelas maravilhas da arte" como dizia a inscrição que o capital na figura do Banco de Portugal um dia decidiu obliterar da fachada do edifício do seu antigo senhorio...


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NOTA FINAL: Outras gravuras, incluindo a famosa gravura do livro do padre Agostinho Rebelo da Costa, por possuírem maior grau de fantasia foram excluídas desta mostra.

7 comentários:

  1. Sem dúvida que a terceira imagem, embora tratando-se de um desenho, melhor representa o Convento de S. Domingos.
    Parabéns pelo excelente trabalho de divulgação!

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    1. É bem verdade, até porque em 1791 o convento ainda se encontrava estruturalmente integro. A principal diferença para o tempo da fotografia é a ausência da ala poente (ocupado atualmente grosso modo pelo passeio oriental da rua Ferreira Borges) e claro a igreja dos terceiros, com aquela bonita fachada barroca desenhada por Vila Nova.

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  2. Sou o proprietário do prédio com o nº 82 da rua ferreira Borges, em plena reabilitação actualmente,
    e procuro conhecer o passado do prédio, o que me remete logo para a historia do convento de S. Domingos. Intriga-me, em particular, uma pequena capela, integralmente em granito, estilo neoclássico,com abóbada de canhão, que está implantada no r/c do prédio e foi convertida em casa forte, certamente pela cia de seguros Douro, que ali teve sede entre 1834 e 1934.

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  3. Boa tarde,

    Devo-lhe confessar que tive oportunidade de ver a estrutura que fala e que pertence ao seu prédio, creio que logo no início das obras e devidamente acompanhado pelo pessoal competente.

    Pela localização do cofre ele estará implementado no local onde existiu a portaria original do convento (que foi cedida para capela no séc. XVII. Pensava eu - muito entusiasmado - que realmente essa estrutura seria a sobrevivência da capela, contudo analisando bem o alinhamento ela está colocada dentro do edifício com as suas paredes paralelas ao mesmo. Isto é importante porque indica que a casinha da caixa-forte não respeita o alinhamento original do convento mas sim a do edifício/rua atual; pelo que acredito que tenha sido construída de raiz para a Companhia de Seguros que refere ali instalada. Além disso a portaria do convento tinha duas portas: a de entrada para quem vinha da rua a Norte e a de entrada vindo do claustro a Nascente estando a porta atual a Poente.

    Ainda assim aquela pedra com os "medalhões" que está por cima da padeira bem como o facto de a abóboda ser de canhão adensam o mistério. Só eventualmente encontrando na Câmara o projeto original da casa se poderá com mais precisão ver se houve ou não reaproveitamentos do convento. Mas pelas fontes que já consultei, a totalidade do convento foi demolido, com exceção é claro do Palácio das Artes pelo que nada deve ter ficado de pé.

    NOTA: Quase todos aqueles edifícios foram originalmente construídos para seguradoras e bancos, desempenhando a Rua Ferreira Borges durante o último meado do século XIX o papel que no século XX desempenhou a Avenida dos Aliados.. A companhia de seguros Douro foi fundada em 1835 mas não pode ter ocupado aquele local logo, pois os edifícios só foram construídos depois de 1865 quando o convento foi demolido.

    Atentamente,
    Nuno Cruz

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  4. Obrigado, Nuno Cruz, pelo seu precioso contributo que só agora li com atenção. Espero poder, agora que as obras de reabilitação estão em fase de conclusão, dedicar um pouco mais de tempo à decifração de alguns enigmas (ou deficiências de informação minhas) sobre o meu prédio, capela/casa forte, etc.
    Compreendo o argumento de peso que é o de a casa forte não respeitar o alinhamento do convento, mas não deixa de ser estranho que tenha sido construída de raiz, sob a forma de capela/oratório, uma casa forte para um uso tão pouco religioso. Claro que pode ter-se tratado da transplantação de uma capela/oratório existente noutra zona do convento. E esta é a hipótese preferida do casal de arquitectos responsável pelo projecto de reabilitação. Eu, para poder avançar um pouco mais na decifração do pe- queno enigma, penso que seria útil saber a que corresponde um retângulo, que aparece em algumas plantas do convento, que coincide parcialmente com o retângulo de implantação do meu prédio.
    Um bom fim de semana e re-obrigado pelo seu interesse.

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    1. Muito obrigado Sr. Carlos Gonçalves.

      Com certeza que aquela estrutura poderá ser reaproveitada ainda que deslocada do local original. Pessoalmente tenho as minhas reservas pela informação que até agora recolhi sobre o assunto, até porque o Sr. Domingos Maria de Assunção Ataíde, arrematante da demolição do convento em 1865 comprometera-se a demolir o convento por completo.

      O retângulo que menciona e que coincide com o local era a antiga portaria do convento. Dali arrancava o primeiro arco do alpendre, em frente à fachada da igreja e que a contornava indo acabar junto à capela de Nª Sr.ª das Neves. Esta portaria foi transformada em capela nos finais do século XVII mas continuou a dar passagem de entrada e saída para o convento, até se construir o edifício que atualmente se conhece como Palácio das Artes, passando a portaria a ser os três primeiros arcos do lado da rua Ferreira Borges (onde agora existe uma loja, um quiosque e a entrada do edifício com um elevador ao fundo).

      Não tenho formação específica nem em história nem história de arte, ainda assim sendo de facto estranho que aquela estrutura possua uma abóboda "de canhão" sendo um cofre, creio que ele foi construído de raiz com esse pensamento em mente. A rua Ferreira Borges e a rua Sousa Viterbo foram a "Manhattan" portuense do século XIX. Por ali abundavam bancos e seguradoras por isso seria natural que uma dessas entidades construísse um cofre dentro do seu edifício. Por exemplo, no próprio Palácio das Artes, o banco de Portugal construiu um cofre em pedra com paredes feitas de uma forma excelente e ainda hoje invioladas, e que lá se mantêm atrás da caixa do elevador; bem como no palacete da rua de Belmonte, a companhia de Caminhos de Ferro que o "habitou" também construiu um cofre, que o meu avô usava nos nos anos 60 e 70 como armazém, quando explorava uma mercearia num dos seus portais.

      Ha um outro aspeto intrigante na estrutura que está na sua casa... os medalhões lavrados na pedra... Já vi desses medalhões em outros locais ligados a dinheiro. Mesmo a sede do banco de Portugal em Lisboa e mesmo o edifício do banco de Portugal do Porto tem medalhões esculpidos na sua fachada... Será apenas a titulo decorativo de uma decoração simples? Ou um simbolismo alusivo ao dinheiro?.. Eis um ponto interessante, creio eu, a explorar.

      Desejo-lhe igualmente um bom fim-de-semana, e cá estarei para o ajudar, naquilo que me for possível. A informação que tenho sobre o convento dava um blogue... mas rapidamente maçaria os leitores pela demasia de pormenor.

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    2. Me apercebi posteriormente a ter escrito a resposta que muito do que referi nela já o havia feito anteriormente. Peço-lhe desculpa por isso.

      E também tenho de me corrigir pois que falei da sede do Banco de Portugal quando na verdade é a sede da Caixa Geral de Depósitos que tem em toda a fachada do edifício os tais "medalhões".

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