quinta-feira, 14 de abril de 2016

"Arqueologia fotográfica" (2)

Antes de desenvolver o tema de S. Crispim que prometi na última postagem, trago a outra fotografia que emocionado me deixou quando a vi, pois sendo-me o tema do convento dominicano tão querido pelos motivos que os meus leitores já conhecem, que não pude conter a emoção de descobrir um pouco mais do seu aspeto antigo. Mas esta foto não trás só isso...

187?
Aqui o autor da fotografia que vimos atrás, resolveu dar um salto do monte da Vitória até ao monte da Penaventosa e fotografar a mesma paisagem, o vale do rio da Vila e mais longe mas mais alto, também na fotografia ficou o casario da Vitória, o outro monte que faz o encaixe do ribeiro citado. O que se nos aparece na fotografia assinalado com o circulo e o retângulo são aquelas que creio serem as mais significativas diferenças.
O circulo assinala a ausência da escadaria da Vitória. Um caminho que teve o seu projeto aceite em câmara apenas em 1878, pelo que esta foto terá de ser anterior a esse ano.
O retângulo assinala o tal ponto que, a meu ver, é a mais valia desta foto: a fachada oriental original do agora Palácio das Artes!
A letra A, na verdade indica apenas para uns edifícios que ainda hoje existem e que foram recuperados pela Porto Vivo, que nos ajuda de certa forma a "apontar" a foto; com a letra B assinalo a fachada da igreja da Misericórdia e finalmente com a letra C um vasto edifício, do qual confesso ainda não ter feito pesquisa sobre a sua origem e função naquela época, mas que hoje alberga a Polícia Judiciária.

200?
Na foto acima, tirada do mesmo local da sua congénere antiga, constata-se a existência dos locais assinalados com as letras A e B, estando os círculos a assinalar os locais divergentes, como agora se apresentam: vê-se a existência da escadaria e também a fachada atual do que ficou do convento dominicano (coberto pelo tapume das obras que adaptaram o Edifício Douro a Palácio das Artes).

atualidade
Nesta foto verificamos o aspeto das traseiras do edifício da Polícia Judiciária, com o último andar completamente modificado em relação à volumetria e aspeto originais, mas mais gritante, é a existência de um ar condicinado em todas as janelas! Reflexo das comodidades incontornáveis dos tempos em que vivemos.


Para o fim deixei o pormenor desta foto que mostra aquela fachada para sempre desaparecida. Como podemos verificar, a largura original do edifício era menor do que a atual, sendo provavelmente a original do famoso alpendre, cujos frades reclamaram para si em meados do século XVIII. Vemos que possuía uma janela em tudo idêntica às que ainda existem na fachada virada ao largo de S. Domingos.

Com a seta azul assinalei uma área onde se vêm dois cachorros (para assento de um telhado) e uma diferença de cor para o resto da fachada. Era o local onde estivera, em tempos mais recuados, a testada norte do transepto da igreja, mas que após a demolição da capela da Senhora das Neves foi adaptado para albergar uma casa de habitação, que na planta à esquerda ainda se pode ver (retângulo azul). Terá sido numa destas duas casas, conhecidas como casas do cantinho, que terá nascido Sousa Viterbo.

O retângulo e seta amarelas denotam um espaço, ocupado por parte da igreja velha, que foi comprado pelo Banco de Portugal para poder ampliar o seu edifício (que sendo pouco profundo atualmente, mais ainda o seria naqueles tempos!).

O que nos leva à fase final desta postagem: A rua Nova de S. Domingos (agora de Sousa Viterbo) foi iniciada apenas 1872 (7 anos após a demolição do convento). O atraso deveu-se sobretudo à lentidão do governo em mandar demolir as tais casas do cantinho, com os investidores dos prédios que se queriam construir a protestar por várias vezes nos jornais que andavam a pagar ao estado a compra de um terreno que ainda não podiam usar... É do mesmo ano a data da aprovação em câmara da nova fachada oriental para o Banco de Portugal (a do lado de Ferreira Borges já o fora em 1869). Pelo que a foto rondará o ano de 1872.

Abaixo vemos a nova fachada, que todos conhecemos, que substituiu a anterior por completo, sendo incluso trazida ao alinhamento da nova rua, coisa que a outra não respeitava.

(Nov. de 1872)

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