sábado, 13 de fevereiro de 2016

O que resta da casa Barroso Pereira?

Estupidamente demolido nos anos 60 do século passado, este edifício pertenceu a uma família de magistrados inseridos na pequena nobreza que lhe deu o nome e terá sido construído nos meados do século XVIII.

Há quem atribua a sua traça a Nasoni, não sei se com algum fundamento ou bastante liberdade, uma vez que muita coisa lhe é atribuída que provavelmente não é de sua autoria. Sobre o portal da entrada encontrava-se a sua pedra de armas: "um escudo partido de Pereiras e Barrosos, com o seu elmo e seu timbre".


Esta família acabou por alienar o edifício em 21 de Maio de 1874, sendo que nas últimas décadas da sua existência esteve o mesmo subdividido em escritórios e lojas de comércio, ainda que sem perder "ao menos exteriormente, na fachada principal, o seu ar de nobreza setecentista".

As palavras que atrás escrevi são quase todas elas parafraseadas do pequeno artigo que Eugénio de Andrêa da Cunha e Freitas escreveu n' O tripeiro de Dezembro de 1962 a pp. 364. Deixo abaixo as últimas linhas desse artigo:

"Diz-se que vai brevemente desaparecer, para nos seus chãos se edificar um desses grandes, horríveis, rendosos galinheiros, que estão manchando e desvirtuando o carácter portuense, da arquitectura da cidade.
Esperamos que as entidades responsáveis pelo nosso património artístico, já tão escasso, não deixem cometer mais esse feio pecado. Pecado feio e inútil... salvo para os que se propoem usufruir dos correlativos benefícios financeiros".

Pois é, mas a demolição foi mesmo avante e no seu local nasceu um desses monstros de betão, feios desde o dia da sua inauguração e garantidamente uma menos valia para a cidade. Do palacete nada ficou, ou quase nada... encostado ao vizinho prédio oitocentista, está ainda um seu pilar que quem sabe serviu para escorar aquele, enquanto se construía o mamarracho. E sirva ele para recordar os senhores vereadores do urbanismo que crimes daqueles simplesmente não valem a pena pois não ajudam a escrever o seu nome na memória da cidade.


3 comentários:

  1. Bom artigo, basta passear cerca de meia hora pelas ruas da Constituição, Faria Guimarães, enfim, baixa do Porto, para ver a mancha que estes prédios dos anos 60\70 são para o Porto.
    Resta um ponto positivo: ao lado, no vizinho oitocentista, existe uma farmácia...ajuda às pessoas que tenham uma crise de azia ou de nervos a se acalmarem.
    Cumprimentos, continua! (Almeida)

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  2. Ainda conheci o antigo edifício, na altura ocupado por alguns consultórios médicos, se mão me engano. Era triste e sombrio mas não merecia o fim que teve.
    Hoje o quarteirão está votado à desertificação. Os habitantes não resistiram aos comércios efémeros e nocturnos que lá se instalam. O centro da cidade necessita cada vez mais de pessoas. Uma cidade sem habitantes é como a carcaça de um navio abandonado. Ainda há muita coisa que me magoa nesta cidade ...

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    1. Nem mais. Neste edifício em especial, nas traseiras, já vi muita gente a utilizar o local como mictório... para depois ir beber mais umas cervejas e abandonar as garrafas na rua. Mas isso é que é moderno....

      Num outro ponto: realmente o turismo é excelente e uma fonte de riqueza para a cidade. Mas é preciso ter cuidado pois me parece que cada vez mais temos um centro histórico vazio de habitantes e com os turistas a fotografarem-se uns aos outros.

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