terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

A praça de Santa Ana

Em 1756 a capela de S. Roque que se encontrava em frente da galilé da Sé Catedral foi demolida em consequência do terremoto de 1755, tendo sido provavelmente o edifício mais afetado no Porto por esse sismo.

Por essa altura, e já na vigência da Junta das Obras Públicas (dirigida pelo "homólogo" de Sebastião José de Carvalho e Melo no Porto, seu primo direito João de Almada e Melo) se pensava em erradicar os pelames do Souto do centro da cidade. Com efeito, essa tão poluente indústria fora sempre, desde a época medieval, relegada para o limite das povoações, não sendo isso no Porto exceção. Contudo, o que na idade média era um local relativamente afastado, ou pelo menos isolado da maioria dos vizinhos, tornara-se no século XVIII absolutamente central e era agora impensável numa cidade que se queria moderna e higienizada, manter esta situação.

Assim, foi a indústria dos pelames obrigada a transferir-se para as Fontainhas (à época lugar praticamente ermo) e os aloques que por séculos haviam curtido peles e couros para a cidade, desativados e destruídos. No seu lugar foi construída uma bonita, ainda que pequena, praça denominada Praça de Santa Ana ou Largo de S. Roque e mais tarde, já no século XIX, Largo do Souto.

E o que tem a capela de S. Roque a ver com isto, perguntará o leitor? Bem, uma vez que a capela original havia sido demolida pelo seu estado de ruína, foi a nova capela de S. Roque edificada ao centro desta bonita praça.

O traçado da praça e o desenho da capela deve-se a Francisco Pinheiro do Cunha, tendo os trabalhos tido início em 1767, prolongando-se até 1773.

O desenho de Villa Nova (em baixo) que a mostra é sobejamente conhecido. E felizmente restam-nos um par de fotografias, ainda que de má qualidade, do lado norte da praça.


Contudo, e mesmo com a ajuda das plantas, não fica tão explicito assim onde se situava esta praça, porque nada dela resta. E ao contrário do que já vi escrito por aí, o paredão à entrada da rampa que soube para a rua do Souto não é o que resta desta praça. Não me apoio em documentos para afirmar isto tão categoricamente; mas apenas na comparação das plantas do antes e depois. Na realidade ele está, relativamente a esta imagem, no seu canto direito e quanto muito poderia ser a parede traseira das casas da escadaria desse mesmo lado.

Ainda assim nem tudo o que na imagem se vê desapareceu... Ainda algo nela existe que nos pode ajudar a situa-la. A rua dos Pelames ainda lá se encontra; estando a atual fonte monumental (localizada onde por séculos num penedo ali existente persistiu a tal indústria nauseabunda de curtumes) a sustentar essa mesma rua e umas casas que desde algum tempo se me afiguraram "suspeitas".

Mas creio que não há que enganar. Elas ajudam, sem recorrer a plantas e à nossa imaginação, a situar aquela pequena mas bela praça, que um dia (1877) cedeu o seu espaço para que o progresso chamado Mouzinho da Silveira chegasse em toda a força. Peço que confiram as imagens abaixo e convido o leitor, concordante ou discordante, a deixar a sua opinião.


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