sábado, 3 de outubro de 2015

O "Porto medieval"

Frequentemente nos referimos ao Porto como sendo uma cidade medieval, especialmente no que toca ao bairro da Sé e seus arredores. Não obstante muitas das ruas da cidade intra-muros terem origens em caminhos e azinhagas medievais, elas não são actualmente de todo povoadas por casas da mesma época. As ruas mais antigas foram em boa parte demolidas (na Sé, a Cividade, a das Congostas...) e as subsistentes realinhadas - a maioria nos meados do século XIX - para facilitar o cada vez maior tráfico de carros e depois de automóveis.

Quanto às casas, bastará ao transeunte dar uma passeata rápida pela cidade velha, mesmo nas ruas mais antigas do morro da Sé, para perceber que o edificado da habitação comum remonta, na sua maioria ao século XIX, algumas ainda ao século XVII. Serão muito poucos os resquícios dos séculos anteriores. E todas as que nos ficaram desde o século XIX para trás surgem já algo modificadas.

Não é isto de estranhar, e não é nenhuma desfeita nem desprimor para a nossa cidade! É que a esmagadora maioria das casas eram de madeira! Material que facilmente se degrada, e nós bem sabemos quão húmido é o clima portuense que se entranha nos ossos! Juntemos ao motivo passagem do tempo os incêndios (que numa cidade de madeira sempre garantia estragos de muita monta) e a simples vontade do proprietário em querer reedificar para obter melhores condições de habitabilidade, coisa que veio crescendo com os tempos.

Rua de Belmonte (foto: Porta Nobre)
É por isso, por exemplo, que já não subsistem casas com os famosos e comuns sobrados-ladrão medievais, ou as rótulas tão asseguradoras da privacidade que floresceram no século XVII e em finais do seguinte foram proibidas por facilitarem a propagação do fogo. Algumas destas características ainda podem ser admiradas em cidades como Guimarães ou Braga, onde subsistem exemplares isolados (ver foto abaixo).

À esq. Guimarães, à dir. Braga (foto: SIPA)
Restam também muito poucos resquícios das colunas ou esteios que sustentavam as habitações e no andar térreo abrigavam o mestre da intempérie, quando este descia da sua casa para trabalhar na loja ou botica. Casas que não teriam com certeza o aspecto europeu como ainda se vê em várias localidades da França, Alemanha, etc...

Na foto abaixo, de uma casa em recuperação da rua dos Mercadores, vê-se precisamente resquícios do tipo de construção usada na época medieval (e mesmo depois) e que dão o aspecto tão característico às casas daquele período que vemos na Europa central, diferente do mesmo em Portugal, pois no nosso país havia o hábito da a tapar pela argamassa, conferindo à fachada um aspecto uniforme. A casa, quando compartimentada, era-o por meio de frágeis paredes de tabique, com madeira ripada preenchida.

Método antigo de construção (fotos: SRU)
Muitas das subtilezas deste tipo de construir se perderam no tempo e são apenas conhecidas hoje por um punhado de pessoas interessadas por estes assuntos, nomeadamente algum arquiteto ou engenheiro que se interesse pelos métodos antigos da construção. Tive a oportunidade de conhecer algumas das nuances, muito interessantes por sinal, deste método de construir, junto de peças como as que se vêm na foto, mantidas pelo banco de materiais da câmara do Porto.

Os vestígios medievais que em melhores condições nos chegaram até hoje (e este condições é relativo...) são os pétreos. Precisamente aqueles que eram mais raros na época pelo seu elevado custo e que apenas se erguiam com autorização expressa e mediante determinados parâmetros. Construídas num material bem mais forte ao ponto de em algumas casas da época moderna partes das paredes ainda aproveitam lanços de muro dessas antigas edificações (como exemplo vejamos as fotos, que reportam à recuperação de duas casas na rua dos Mercadores). 

Casas da rua dos Mercadores (fotos: Porto Vivo)
Para terminar, faça o leitor comigo um pequeno exercício de imaginação, e coloque-se, no século XVI ou mesmo XVII, no areal onde agora existe o cais de Gaia, e olhe para o Porto. Verá com certeza habitações de menor altura, caiadas de branco ou já enegrecidas pela humidade... um mar de madeira povoado por ilhotas de pedra que eram as casas nobres, ou verdadeiras ilhas da mesma pedra que eram as igrejas ou conventos. Aqui e ali já se começavam a ver os primeiros solares ou palacetes. Atrás, a emoldurar o cenário, a cerca gótica com os vértices de Cimo de Vila e Olival, mais atrás o monte da Lapa ainda coberto de árvores. A este sim, ainda se poderia chamar de Porto medieval.

Contudo o Porto de agora, lindíssimo que é (a ficar cada vez melhor) de medieval apenas conservará o espírito, esse sempre vai pairar pelas ruas do Souto, Pelames, Mercadores, Bainharia... a lembrar-nos tempos passados onde cada rua, cada largo tem uma história para contar, uma lenda para conhecer.

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