terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Nota de rodapé n.º 1 - A Porta das Mentiras

"A 16 de Abril de 1788, António José Simões Pereira, escrivão do registo do Juízo Eclesiástico, (...) pediu à Câmara a demolição do postigo, pois este «se achava ameassando evidente prigo por ter em sima do arco uma parede muito arruinada, e parte de outra do lado nascente ainda mais, sendo a passagem de degraus muito violentos, e alguns desses se tinhão demolido e com a próxima invernada se arruinarão mais o que tudo concorria para fazer muito violenta aquella serventia que he muito frequentada». O escrivao e os seus vizinhos ofereciam-se para custear a demolição do arco e substituir os degraus por uma rampa; assim, as liteiras e as cadeirinhas poderiam descer com toda a segurança para o Codeçal e Ribeira."[1]

Início da descida para o Barredo através das Escadas das Verdades, na atualidade [foto A PORTA NOBRE)
Creio que esta porta ou postigo foi no século XI e XII a chamada porta da traição, comum a outras muralhas coevas, que em algumas localidades ainda subsistem por não terem sofrido a pressão modernizadora a que o Porto sempre esteve sujeito (Ajudou-me a chegar a este pensamento o artigo do Dr. Ferrão Afonso publicado em 2004 na revista O Tripeiro, sobre o muro velho: Às voltas com a cerca. Este postigo constituiria assim, na fase original da cerca românica, a única entrada para o burgo a par com a muito mais importante Porta da Vandoma. As portas de São Sebastião e de Santana serão portanto posteriores a elas. O próprio nome inicial desta porta - Porta das Mentiras - talvez se relacione diretamente com a expressão porta da traição.

Local onde existiu o arco da Porta das Verdades, último nome da anteriormente chamada Porta das Mentiras (foto A PORTA NOBRE)

Logo depois de passarmos esta porta, o caminho flete para a esquerda, onde mais abaixo se cruza com um outro arco que ainda hoje é muitas vezes denominado Arco das Verdades. Na realidade trata-se apenas de um arco do aqueduto que levava água canalizada ao colégio jesuíta situado na plataforma das Aldas.

O "Arco das Verdades" visto do local onde se situou a verdadeira Porta das Verdades. Veja-se que do antigo aqueduto subsiste um outro arco também visível na foto; bem como um outro completo e outro pela metade, visíveis no paredão que continua para nascente mas não visíveis aqui. (foto A PORTA NOBRE)

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1- Da pág. 7 do livro electrónico Morro da Sé - De Porta a Porta, editado pela PORTO VIVO, tendo a mesma provindo do trabalho de António Jorge Inácio Fernandes com o título A Rua dos Cónegos: um espaço socio-arquitectónico no Porto setecentista: tese de mestrado apresentada em 2006.

* Postagem reformada em 24-07-2017 *

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