domingo, 11 de janeiro de 2015

A "Praça da Constituição" à época da Revolução de 24 de Agosto de 1820

Nas primeiras décadas do século XIX, a imprensa começava a dar os seus primeiros passos e um pouco por todo o lado iam surgindo publicações periódicas, a esmagadora maioria delas de vida efémera. No Porto, um ano após a revolta de 1820 um dos jornais existentes era o Patriota Portuense.

Longe ainda do tipo de publicação que veremos surgir nos anos 40 e sobretudo 50 daquele século, nele se notam contudo já algumas notícias locais, ao invés da simples publicação de Decretos ou notícias de carácter nacional do Reino Unido (de Portugal e Brasil, entenda-se). E nele se começavam a ver também publicadas as correspondências de leitores que aproveitavam para mostrar o seu descontentamento com aspectos e modos como eram conduzidos os assuntos da cidade.

Nos dois artigos abaixo essas mesmas opiniões servem, na actualidade, como pequenas janelas para um Porto que começava, por fim, a expandir-se para fora das suas muralhas medievais, mas onde Massarelos e Cedofeita eram ainda denominados de subúrbios... 
Neste contexto, a actual Praça da Liberdade iniciava o seu processo de regularização, ainda de forma tímida, muito longe da de hoje, processo esse que só viria a estar concluído com a construção do edifício do Banco de Portugal e a demolição dos palacetes camarários do topo norte, para abertura da Avenida dos Aliados....



Mas vejamos então quais eram as "polémicas" à volta da Praça da Constituição, em 1821.
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Patriota Portuense, 24  de Novembro
«CORRESPONDENCIA de um tal Braz Cata-cego

Em 23 de Dezembro no anno proximo passado he que se publicou a Portaria da Junta Provisional do Supremo Governo do Reino para que a Praça Nova se chamasse, para o futuro, Praça da Constituição; que, no lugar mais accomodado da dita Praça, se levantasse hum Monumento, executado em pedra, com desenho que melhor possa exprimir o grande acontecimento do memorando Dia 24 d'Agosto; e para que a Praça se aformoseasse mais e tivesse extensaõ e capacidade necessaria para este objecto, se demolisse o edificio da Natividade: recommendanndo-se á Illma. Camara que puzesse em pratica tudo o que já d'antes se achava determinado a este respeito, a fim de que esta utilissima obra se naõ demorasse.

Tem decorrido quasi hum anno, e só vimos trocar-se a denominaçaõ da Praça, sem solemnidade alguma, porque o Regimen Constitucional naõ admitte ceremonias. Em quanto a Monumento e demoliçaõ do edificio, fica para a resurreiçaõ dos capuchos; pois que agora ha falta d'operarios e resurgindo aquelles haverá gente para tudo. Bemdito seja Deos, que assim se executa o que hum Governo determina!

Mas, Sr. Redactor, como a obra está embarrancada naõ se ha de perder tudo, visto que se lhe deo começo in illo tempore que a pedra, dahi tirada, dava para aquillo com que se compram os meloens: bem haja quem he dotado de astucia, que em ninharias faz dinheiro, e o tempo só está para pouquidades! Portanto lembro que se deve conservar aquela tapagem que se acha na obra (que he bem bonita!), e acabando-se de terraplanar o sitio da fonte, tem a cidade Regeneradora hum côrro para touros, cavallinhos, ursos e elefantes, com que os forasteiros nos armam ao dinheiro: desta sorte naõ nos incommodaraõ pelas ruas com os seus bicharocos e gaitas de fole, e jámais se hiraõ hospedar com elles em casas de pasto, habitaçoens improprias para tal canalha: as janellas servem para as Senhoras, como mais medrosas; e para os homens faz-se um tablado no logar da varanda: esta lembrança naõ he para desprezar, porque além da commodidade destes aventureiros da santa conveniencia, serve de chamariz para as lojas do bom e barato: e he de esperar que ella tenha a breve decisaõ que tem tido as memorias e modélos para a construçaõ do dito Monumento.

A Illma. Camara fez certamente o que devia em renovar e ornar os Paços do Concelho em quanto o cofre tinha churume: em verdade, o interior do edificio tem bellissimas pinturas, gosto delicado nos tectos estucados, magnificos reposteiros, portas com ricos entalhos, &.c; o exterior (aqui torce a porca o rabo!) he justissiamemnte como hum homem vestido á sebastianista, com hum chapéo de copa alta (á constitucional) com huma pluma em cima, que he a primorosa e excelente estatua do Porto que, na sua maõ-d'obra escusava tanta delicadeza para tanta altura. Porém, Deos perdoe a quem fez tal judiaria; que, depois de feita a tal obrinha, deo pêco no cofre da Cidade, que não anda para traz nem para diante... (...)


Patriota Portuense, 29 novembro
CORRESPONDENCIA de resposta ao tal Braz Cata-cego

Estranhei que no N.º 279 do seu Diario o Correspondente Braz se apellidasse Cata-cego, quando ele tem olhos taõ espreiteiros! Porém se todavia elle he pesquisador, ainda lhe escapulio da lembrança advertir o seguinte:

Ha mezes affixou-se hum Edital para derrubar as barracas da Feira no tempo peremptorio de oito dias; mas o tempo determinado foi-se, e apôs elle decorreram mezes, servindo o Edital só para opprimir esquinas!

Pode ser que estorvasse esta providencia alguma medida politico-lucratoria que as descaradas Regateiras arranjassem com seus embustes, pois que para isso saõ amestradas; porém dado que assim fosse saõ ellas diabolicas feiticeiras, capazes até de virar o mundo com o debaixo para riba! Eu as esconjuro; porque temo mais seus feitiços do que suas pragas, baldoens e bravatas. Mas, Sr. Redactor, pela chibança das Regateirinhas ha de valer hum cominho o Edital dos Srs. Juizes Almotaçés, e o seu conteúdo ter o privilégio do caranguejo? e nós se quizermos transitar naquele sitio, havemos de vêr-nos abarbados com encontroens, e alcançarmos indulgencia plenaria para sahir delle!

Eu conheço que as taes barracas servem de embelezzar a nossa Cidade, pois que nos apresentam hum retalho das ruas de Constantinopla; mas o Brigadeiro N. Trant, naõ lhe importando belezzas, pespegou com ellas em terra a despeito das mesinas, caramunhas, e feitiços das guapas Regateiras. Elle tudo podia; porque além de pouco se lhe dar que galrassem, nao temia feitiços, por nelles naõ crêr como Protestante e naõ Catholico: assim, fazia sempre o que premeditava. Ora, eu naõ quizera desmanchar prazeres: mas se os taes casebres de madeira, são proprios só para os Turcos, mandem-se-lhes para lá os donos dos de cá, e a Justiça que os consente; assim ficariamos livres dos taes empecilhos, e naõ se embespenharia e nausearia o publico contra a falta de execuçaõ do celebrado Edital!

(...) Bem lembrado catará de quando todos os Vendedores e Vendedeiras dos mercados andaram em bolandas; ei-los já para aqui, ei-los já para alli, ei-los outra vez para cá, ei-los outra vez para lá; até que por fim todos tiveram o seu paradeiro.

Na Praça de Santa Tereza ficaram os padeiros de paõ de milho (vulgo brôa): tanto huns como outros foram despedidos da Praça da Constituiçaõ, para aquele lugar ficar amplo, não só por ser de muito transito, mas para se fazer a parada, render-se a guarda principal, &.c: muito boa providencia, esclamaram todos; porém muitos dias naõ eram passados, quando atraz do tanque desta Praça se viram encouchadas algumas padeiras do paõ de brôa; e como ahi se demorassem algum tempo, sem que a justiça dos Almotacés s enxergasse (pois que todos andam cegos com estas cousas), foram-se plantar com toda a cachimonia no sitio donde tinham sahido as padeiras do paõ molete; e lá se conservam muito empertigadas nas suas tripeças. As vendedeiras da sardinha, do bacalháo podre, das quentinhas, e algumas de molete, como lhes naõ fizessem bom gazalhado onde estavam, mui arteiras se fincaram ao pé das outras; e ahi temos a entrada da Praça entulhada com hum mercado de mixtiforios! Como alli hajam filhos de muitas mãis, chovem por conseguinte os improperios, pulhas, chufas, pragas e tudo o que he contrario á decencia e bons costumes: e isto no centro da Cidade onde continuamente passam familias e pessoas honestas!

(...) A Camara (composta de Fidalgos!!) está quasi a expirar-lhe o prazo de sua governança; veremos agora se, com estas Viravoltas Constitucionaes, temos Camara Constitucional (...); então veremos, executando-se o que hum Governo Constitucional determinou, derrubar-se o encantado edificio da Natividade, e alevantar-se o esquecido Monumento Constitucional; veremos tambem publicar-se as contas do cofre da Cidade, porque, se elle lhe pertence, he inconstitucional occultar-se sua receita e despesa (...).»

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