quinta-feira, 20 de março de 2014

A Igreja da discórdia

Nas recentes e grandes prospecções arqueológicas feitas no eixo Mouzinho-Flores, surgiu, à entrada de Ferreira Borges, grande parte do chão de uma Igreja (sensivelmente da dimensão da de S. Nicolau que fica ao fundo dessa mesma rua) demolida em 1835 por Ferreira Borges para rasgar a rua com o seu nome.

Essa igreja era, nas últimas décadas de vida do Convento Dominicano, a sua Igreja de facto mas não fora construída para eles mas sim para a sua Ordem Terceira.

Nos inícios do século XIX, já depois da revolução de 24 de Agosto no Porto surge um artigo num periódico da época, que acho curioso, e que faz referência a um tema que já se arrastava desde o tempo de D. José, passando por D. Maria e ainda vivo no reinado de D. João VI.

Notar que sobre este tema, há várias versões, e este texto leva em conta apenas uma delas. O autor era provavelmente alguém ligado à moderna Ordem da Trindade, herdeiros dos Terceiros Dominicanos. Mas ouçamos o texto:

"Patriota Portuense de Terça-feira, 20 de Dezembro de 1821

Sr. Redactor,
Li no tomo 2.º das Obras de Francisco Rodrigues Lobo a seguinte pergunta e resposta:
Perg. -  Que remedio a quem pertende Bens de que outrem goza o futuro?
Resp. - Aprender a soffrer muito, E soffrer mais do que aprende.

Em verdade, a resposta he tanto terminante, quanto arduo o soffrimento que se ha mister para executalla. O que admira he no seculo desanove encontrarem-se paciencias taõ apuradas, que igualam quasi a do Santo Job! Ainda ha gente bôa que olha a usurpaçaõ como hum mal irremediavel: e, para prova do meu dito, rogo ao Sr. Redactor que atente bem na seguinte exposiçaõ.

Nesta cidade, sendo Bispo della D. Pedro Salvador, fundou El-Rei D. Sancho II, no ano de 1283, o convento da Ordem dos Prégadores (vulgo Dominicos)[1]: no de 1671 instituio-se, por Bulla Apostolica, huma Ordem Terceira na Igreja destes Religiosos, que designaram aos Irmaõs della um altar no arco cruzeiro para alli mandarem celebrar os officios divinos; do qual se serviram por espaço de alguns annos: mas como o numero de Irmaõs se fosse augmentando, destinaram-se estes apartarem-se daquelles Religiosos, e edificarem huma Capella separada; para o que lhes emprazaram hum pouco de terreno, como consta por escritura publica de 26 de Outubro de 1683; concluindo-se a feitura do edificio no anno seguinte de 1684. Cresceram todavia os fundos da Ordem na razaõ da entrada de mais Irmaõs, pelo que resolveram tornar a Capella em Igreja, tendo já em 25 de Agosto de 1683 emprazado ao Senado da Camara a extensaõ de 85 palmos de comprido e 43 de largo, compraram depois, em 5 de Outubro de 1689, três moradas de casas ao Padre Joaõ dos Anjos, que se demoliram para dar mais ambito ao logar do edificio; e accrescentaram-lhe tambem 14 palmos de terra que Sua Magestade foi servido conceder-lhes por Provisaõ de 5 de Dezembro de 1715. Em todo este espaço de terreno edificaram a Igreja, de cuja posse estiveram desde o anno de 1740 até o 1.º de Outubro de 1755.

Tencionaram os Terceiros subtrahirem-se á dependencia dos Frades, e sujeitarem-se ao Ordinario; o que conseguiram. Os Frades, acabando-se-lhes este pingue beneficio dos Irmaõs, taes enredos e demandas moveram contra os Terceiros que, chegando ao conhecimento de SS. Magestade e Santidade, deram por extincta a Ordem Terceira; variando-lhe a denominaçaõ para Trina, e concedendo-lhe levarem seus fundos, moveis e alfaias para outro qualquer logar que escolhessem, com a condiçaõ porém que se apartariam de ao pé dos Frades, para se evitar e terminar questoens: o que consta de huma Bulla datada em 14 de Maio de 1755. Aqui temos a caridade christã devidamente desempenhada por aquelles que nos devem exemplificar por suas acçoens e virtudes! Nisto vêmos executada á risca, por aquelles que aspiram á perfeiçaõ evangelica, e de que devem ser observantes como Mestres della, a excellente maxima de JESUS CHRISTO = que decididamente lhes prohibe terem processos ou demandas: = Et ei qui velit tecum contendere, ac tunicam tuam capere, dimitte illi etiam pallium. S. Matt. cap. 5 v. 40.

Estes completos Frades, que ás avessas observam a santidade do preceito - o que naõ queres para ti, naõ o faças a outrem, - tiveram a astucia de, pelas suas hypocritas maquinaçoens, supprimirem na Secretaria de Estado a sobredita Bulla, até que no anno de 1781 a Sra. D. Maria I, de saudosa memoria, a fez publicar.

Neste espaçado intervallo de tempo residio a Ordem Terceira na Capella da Senhora da Batalha, desde o 1.º de Outubro de 1755 até 1786, que se mudou para a Capella do Senhor do Calvario, sita na Cordoaria velha. Destinaram fazer ahi huma Igreja; daõ começo á obra, mas logo os Frades Capuchos, que tinham hum Hospicio junto della, a embargam; pretextando que naõ queriam sua casa assombrada! Os Terceiros, enfastiados de tantos empecilhos fradescos, deliberaram-se a edificar a Igreja longe de similhantes pragas. Escolheram o sitio da Praça do Laranjal; e no anno de 1804 se transferiram para alli, onde permanecem n'huma pequena Capella, em quanto se naõ finalisa o magnifico e sumptuoso Templo em que se trabalha.

Eis apontadas as voltas, alternativas e revezes que a Ordem Trinitara tem experimentado; e igualmente acclarado que a antiga Igreja lhe pertence, porque se demonstra authenticamente a compra do terreno e a feitura do edificio á sua custa: agora indagaremos a causa por que os Frades a possuem.

Houve na Igreja antiga dos Dominicos hum pequeno incendio, que as más linguas dizem fôra lançado acintamente: o que se naõ deve acreditar; pois que os Frades saõ bons homens, e naõ quereriam ter ao cachaço o que diz Larraga tom. 1.º pag. 293 = Quem incendiar huma Igreja, ou concorrer para iso, depois de a restabelecer, fará penipenitencia por 15 annos. = Fosse porém o que fosse; o certo foi arder hum pedaço do tecto della, porém logo se lhe acudio, sendo por isso de pouca monta o estrago. Aproveitando elles a occasiaõ, representaram a Sua Mag. que hum incendio lhes tinha consumido a Igreja, e que por tanto estavam impossibilitados de celebrarem officios divinos por falta de Templo; que junto ao seu Convento, intra claustros[2], se achava huma Igreja sem dono, e que tinha sido de huma Ordem Terceira, já extincta; que foi edificada em terreno delles; que Sua Magestade, como Padroeira, lhe podia conceder. Puzeram á testa desta pertençaõ o Padre Mestre Fr. José da Rocha, que, por ter valimento na Corte, e por jesuitico segredo, investio os bons Frades na posse della.

Sem ouvirem os Terceiros, legitimos donos da propriedade; sem appello nem aggravo; e finalmente sem mais cerimonias; lançaram maõ da Igreja, de quem curaram logo como sua; profanaram a antiga, e della fizeram Armazens, que, por muito rendosos, daõ muitos venha a nós. Os Terceiros estaõ ha perto de 40 annos de boca aberta, pasmados de tanta magica; e de balde perguntam quem lhes deve restituir aquillo que por todo o direito lhes pertence!! Custa a crêr que defendendo o Evangelho, áquelles que saõ Prégadores delle, o possuirem thesouros e conservarem bens temporaes (Nolite thesaurisare vobis thesauros in terra: - si vis perfectus esse, vade, vende quae habes), estejam juntando cabedaes; e, em logar de venderem o que he seu, usurpem o que he dos outros!! Que consumada moral!! Que admiraveis exemplos!

Parece conforme á justiça e á razaõ que os Dominicos devem mostrar o titulo por que se senhorearam daquillo que todos affirmam naõ lhes pertencer; mas talvez que a legalidade delle implique com esta maxima de Jurisprudencia: = He melhor naõ possuir titulo, do que possuillo vicioso: - Melius est non habere titulum quam habere vitiosum; = por isso sem duvida melhor será occultallo. Demais, a Religiaõ Catholica Apostolica Romana he, sem contradicçaõ, de todas as religioes a que exclue os Sacerdotes a litigarem no Foro Civil; pois que assim o ensina seu Divino Instituidor: = por tanto naõ nos devem importar aquelles que seguem esta doutrina, porque ella nada tem com negocios mundanos...Mas, affigura-se-me ouvir huma voz que clama: JESUS CHRISTO com efficacia tambem nos recommenda: = Dai a Cezar o que he de Cezar.

Isto me faz callar, reservando-me só para rogar ao Sr. Redactor quatro obsequios que se deduzem huns de outros: sendo o 1.º inserir esta no seu acreditado Diario; seguindo-se pois o 2.º que he, lembrar aos Dominicos os seus deveres; o que naõ succedendo, resulta o 3.º que he, convidar os Terceiros Trinitarios para delles exigirem o que he seu; concluindo por tanto com o 4.º e principal que he, naõ se denegando Vm. a esta minha rogativa, obsequiar

Este seu venerador
Lembre Deos em bem"

1) na realidade o Convento terá sido fundado a pedido de D. Pedro Salvador e não por vontade de Sancho II
2) O que é falso. A igreja tinha a porta principal virada para Norte, para a Rua de Belomonte.

6 comentários:

  1. Texto esclarecedor , como sempre. Obrigada !

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  2. Toda a história da Ordem Terceira de São Domingos no Porto, sua capela, razões e disputas judiciais e eclesiasticas pode ser lida na obra «História Documental da Ordem da Trindade», Vol. I, edição da Celestial Ordem da SS. da Trindade, 1972, Porto, da autoria de B. Xavier Coutinho

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  3. Caro Gabriel,

    Bem lembrado! As primeiras páginas desse volume referem-se precisamente ao início da ordem bem como á edificação da sua primeira capela e depois igreja (esta); e suas questões com os Frades Dominicanos.

    Um texto que resume bem a história desta Igreja!

    Já agora e como pequeno apontamento sobre a destruição da igreja e para que isso acontecesse; o Prefeito do Douro comunicou em 23 de Maio de 1835 ao Bispo do Porto para que procedesse à profanação solene da mesma, e à Comissão dos Extintos Conventos Abandonados para tomar posse dos objectos sagrados e profanos que dentro dela estivessem.

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  4. essa é interessante. Tem a referêrncia deses despachos?

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  5. Isso é interessante. Tem a referencia/fonte desses despachos?

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  6. Essas notas (bem como outras que não cheguei ainda aqui a colocar), encontram-se no Arquivo Histórico da Camara Municipal do Porto; creio que nos livros de Próprias (corrresponência). Infelizmente não guardei a referância dos livros mas não será difícil de as encontrar lá.

    Um Abraço

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