domingo, 9 de março de 2014

A casa nobre demolida no Terreiro da Alfândega

Henrique Duarte de Sousa Reis é um conhecido "cronista" da cidade do seu tempo, de meados do século XIX. Quatro dos seus sete manuscritos foram já postos em livro e podem ser adquiridos na Biblioteca Publica Muicipal do Porto. Infelizmente, os restantes mantêm-se inéditos: e só tendo acesso aos reservados da Biblioteca os podemos consultar.

Num destes volumes, está a descrição da casa senhorial manuelina, que existiu na esquin da da Rua da Alfãndega com a Rua da Fonte Taurina. Essa casa foi demolida para completar o alinhamento da rua, criando assim um novo armazém para a Alfândega (enquanto a nova Alfândega ia sendo construida na praia de Miragaia).

Na foto abaixo podemos ver o novo edifício a ser construído onde são claramente visíveis as colunas de pedra que hoje sustentam o edifício e que todos que já o visitaram conhecem.


Como pormenor curioso, vemos que ao fundo da clareira formada pela rua existem casas onde actualmente temos o Jardim do Infante. É que nesta altura ainda não tinha sido aberta a Praça do Infante, chegando os muros traseiros destas habitações até sensivelmente onde está agora a estátua do Navegador. A frontaria destas casas aparecem naquela famosa estampa do Barão de Forrester sobre a Bolsa a "céu aberto" na Rua dos Ingleses (agora Rua do Infante).

Mas não nos desviemos do assunto em mãos; abaixo coloco a fotografia dessa casa.

E o mesmo local (sensivelmente...) na atualidade

Mas eis a descrição de Sousa Reis, por ele feita no século XIX:

"A casa nº 7 situada na rua d'Alfândega desta cidade à esquerda de quem desce, era talvez uma das mais antigas casas nobres do Porto, e edificada poucos anos antes daquela chamada do Patim e que estava assente logo no principio da rua da Ferraria de Baixo ao descer de S. Domingos [voltaremos a esta num outro post...], e também ao lado esquerdo, porque não quase iguais na arquitectura, tendo ambas os maineis das janelas e portas não só circulares na parte superior delas, mas todo o seu vivo rebaixado, e nele em alto relevo lavradas contas e flores. (...)


Constava a casa da Rua da Alfandega de três faces ou frontarias exteriores e visíveis, porque parte da primeira, e toda a voltada ao lado do nascente estavam encravadas no edifício da Alfandega de forma tal que daquela que olhava para o norte ou embocadura da rua logo ao descer da dos Ingleses, apenas se via cousa de 12 palmos salientes, e tantos importava, o que obstruia a referida calçada da alfandega, e foi agora demolida para facilidade do trânsito, e da outra fachada do nascente nada se alcançava pela razão acima dita, nestas faces não havia obra alguma mais que paredes lisas, o que assas prova ter estado esta parte saliente e visivel igualmente encoberta e encostada a outras casas antes da fundação da fachada da repartição da alfandega que é natural recuasse esses 12 palmos para alargar a rua do mesmo nome, que com este estabelecimento deveria ser muito concorrida, sendo até ai estreitissima como testemunha esse grande avança que essa propriedade tinha. Essa rua estreita foi em antigos tempos chamada Rua do Cunhal de S. Francisco, se não houve engano em um documento, que vi, respecctivo a esta casa que descrevemos.


Na portaria da parte do Oeste tinha praticada, mui próximo ao cunhal do norte, uma porta e a seu par uma janela engradada de ferro de grandessíssimas dimensões e tão lisamente feitas, que bem mostravam ter sido abertas assim para corresponder às janelas centrais dos dois andares da fachada principal virada ao sul, com que se diziam perfeitamente no talhe, porem em lugar de serem arcadas são direitas as padieiras, e todos os maineis com elas mostravam cortado e em muia[?] cousa saliente e filetes nas margens, os seus vivos, de forma tal, que bem poderia julgar-se foram elas obras mais modernas, se isso fora possível: desvaneios do arquitecto, ou gosto variado do dono da propriedade.


A fachada principal, como já disse era voltada para o sul, e em sua frente ficava lhe o espaço chamado o terreiro, e compunha-se de dous andares, sobre três portas baixas abertas sobre forma circular como que formando no centro um bico, e muito natural é serem dentro delas os cómodos dos creados e cavalgaduras, que os primitivos habitantes e edificadores desta propriedade, pela sua posição social carecião: eram extremamente acanhadas estas portas, correspondia-lhe logo superiores no primeiro andar três janelas de sacada com varandas de ferro, sendo a do centro mais elegante, porem singela no lavor, como a porta principal da entrada e a janela contigua, que ja descrevi, e as duas laterais sacadas, posto que mais baixas e estreitas são cobertas de florões tão salientes e tantos que topavam com as soleiras das sacadas do segundo andar que lhe ficavam por cima, igual em construção, gosto e dimensões e adornos, e só deferia em conter demais junto ao cunhal da parte do oeste ou fronteiro à capelinha do Terreiro um como mirante ou miradouro ricamente adornado e feito em tal gosto, que era o unico no seu gosto nesta cidade e por essa singularidade não me pouparei a fazer distinta discrição dele.


A coronigem que cobria este miradouro foi construida debaixo da mesma linha que a geral das três fachadas, sobre o cunhal da casa, que ficava inteiramente partido e rematido no nivel do pavimento do segundo andar, em que esta obra era montada, se levantava um peitoril de pedra para o lado da rua da alfandega, e outro para a do terreiro, e na esquina ou juntoura deles e na linha prpendicular e a forma do referido cunhal pousava uma mui delicada e bem trabalhada coluna de pedra que sustentava as duas padieiras formadas por grandes roscas e retorcidos de veias ou listões de pedra, e a coronigem acima indicada.


Estes peitoris, a parte que deitava das padieiras à coronigem, e os lados exteriores deste miradoura eram enriquecidos com tarjas de flores, folhas, pomos e arabescos fantasiados, tão bem lavrados em pedra e ainda que era antiguissimo aquele trabalho, tinha, na ocasião da demolição valor excessivo pelo seu muito merecimento. (...)

Tão memorável e rica peça foi no ano de 1855 apeada não só pelo estado ruinoso do restante edificio (...) como por estar essa parte dele estreitando o caminho tão preciso para a continua servidão da Alfandega desta segunda capital [lembremos que ainda não existia a Nova Alfândega].

Pertencia esta propriedade a Manuel Guedes da Silva da Fonseca (...) a quem [a Câmara] pagou a quantia de 1.700$000 só pela parte adiantada do alinho da casa da alfandega, mas o vendedor tal preço fazia deste miradouro que no contrato o reservou para si, todas as pedras de que se compunha foram cuidadosamente apeadas e recolhidas à sua habitação sobre a Praça da Batalha para em tempo e lugar oportuno talvez colocar este chefe de arquitectura antiga."

Abaixo vemos parte de uma planta que nos dá uma ideia da área que o edifício ocupava da rua, sobreposta à área do outro que lá agora se encontra.

Resta-nos falar da janela manuelina que esquinava no segundo andar dele, e que actualmente se encontra na Quinta da Aveleda, em Penafiel. Embaixo duas fotos de um outro blogue que a mostra o seu lado interno e externo.


A a sua descrição nesse mesmo blogue:
"A Janela da Reboleira é uma grande janela de ângulo com balcão formada por dois arcos abatidos que se apoiam numa coluna jónica, colocada ao centro. No interior da estrutura foram edificadas duas conversadeiras, e toda a estrutura exterior é decorada com motivos vegetalistas, muito comuns nos programas decorativos manuelinos, o que indica a data da sua edificação, situando-a nos primeiros anos do século XVI"


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Fontes para esta postagem:
Manuscrito de Henrique Duarte Sousa Reis na BPMP
A Alfândega do Porto e o despacho aduaneiro
http://foiassimk.blogspot.pt/
http://mjfs.spaceblog.com.br/

1 comentário:

  1. Bom dia,

    gostei do texto muito elucidativo da casa nobre , não fazia ideia que tinha um passado tão rico, a nível arquitetónico. Pena a janela não estar sequer , em poder da cidade.
    Obrigada.

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