quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

da Porta do Sol - 2

Na sequência da publicação de ontem, coloco aqui um outro artigo da revista O Tripeiro; desta vez bastante truncado. Na última e final postagem vou colocar algumas gravuras, se bem que conhecidas, com algumas notas minhas mas também do Dr. Pedro Vitorino, retirada de suas publicações.

==================

"Queira o leitor acompanhar-me. A visita é perto e não o cansarei. Sahiremos da Praça da Batalha, enquanto não vem o carro eléctrico da linha 17, cuja chegada está para demora, passaremos ao lado do sul do theatro de S. João e pela frente do Quartel General e Casa Pia e, deixando ao nosso lado esquerdo a Rua do Sol e o Recolhimento das Meninas Desamparadas, encaminharmos-hemos para a Avenida Saraiva de Carvalho, e em frente ao Dispensário faremos alto. Terminou o passeio.

O leitor, se é leitor costumado de O Tripeiro, está farto de saber que o Porto teve duas cinturas de muralhas de defeza: A mais antiga e menor, - a do Burgo - (...) e a mais moderna, (chamada Fernandina, por se haver concluido no reinado de D. Fernando), de muito maior perimetro, porque a cidade tinha crescido em tamanho.

(...)

A Porta da Batalha era á entrada de Cima de Villa; a Porta de Carros, no largo da Feira de S. Bento; o Postigo de Santo Eloy, nos Loyos; a Porta do Olival, na Cordoaria; a Porta Nova ou Porta Nobre, proximo a Miragaia, e a Porta do Sol, no ponto onde pedi para nos determos, isto é, em frente ao Dispensário.

Repare o leitor para a gravura que acompanha estas linhas. Ao cento verá a Porta que uma Camara de conspicuos vereadores entendeu mandar deitar abaixo em 1875 para se ampliar o edificio da Casa Pia(1)

Chamava-se Porta do Sol, por que n'uma das faces do tympano tinha esculpida a figura de um sol com os raios respectivos. (...) Primeiramente chamou-se Postigo do Carvalho ou dos Carvalhos e depois de Santo Antonio do Penedo, por causa de uma ermida d'este santo que ahi se construiu.



Em 1768 achava-se em completo estado de ruina. O governador D. João de Almada e Mello fel-a demolir e mandou edificar em seu logar, uma nova, tal como a representa a gravura, ornamentada com o sol em que fallei e com esta inscripção latina:

SOL HUIC PORTAE
JOSEPHUS LUSITANO IMPERIO
JOANNES DE ALMADA E MELLO
PORTUCALENSE URBI FINITIMISQUE
PROVINCIIS AETERNUM
JUBAR GANDIUM PERCUNE

A gravura que illustra esta pagina é a reprodução de uma outra feita a lapis pelo antigo e muito considerado professor de desenho snr. Francisco José de Sousa, e copiada a crayon, para O Tripeiro, com a sua bem conhecida aptidão artistica, pelo meu querido amigo e collaborador artistico snr. José Augusto de Almeida.

Por ella poderemos muito bem ficar fazendo uma ideia da disposição do local em 1859.

(...) Do lado esquerdo, ao fundo, vê-se uma parte do Convento de Santa Clara, o qual funcciona presentemente o Dispensário; mais á frente, o mirante das freiras, que ainda lá existe, actualmente sem cobertura, e no primeiro plano um barracão baixo. Como, ao tempo, na cidade não havia quartel para cavallaria permanente, era nos barrcões do Largo da Policia que se recolhiam as praças e os solipedes dos destacamentos de cavallaria vindos, de quando em quando, de Bragança e Chaves, para augmentar a guarnição do Porto. No do lado esquerdo aquartelavam-se s praças e no da direita os animaes.

Junto á Porta do Sol, do lado direito, vê-se uma parte do edificio da Casa Pia. Separada d'elle, por uma rua, a casa para alojamento dos officiaes de cavallaria, nos baixos da qual existia um deposito de palha, e á frente as cavallariças. Um cruzeiro com a imagem do Senhor dos Afflictos, cruzeiro que, mais tarde, foi mudado para junto da capella de Santo Antonio do Penedo, completa o quadro.

Basta de massada, leitor. Quando quizer póde voltar á sua vida e ir contemplar o chavascal onde se ergueu a Capella da Batalha, se não preferir ir tirar o retrato á la minute ou tomar um copo de cerveja gelada á Cervejaria Bastos, emquanto espera pelo electrico n.º 17.

Até outro dia. Boa Viagem."

H.P. in O Tripeiro, 1926

_______________________________________
(1) "...foi um vandalismo quasi escusado, por que o edificio era bastante vasto e o monumento (que em nada estorvava o transito publico, porque o vão do arco era amplo) pela sua elegancia, adornava o sitio e era um padrão comemorativo do varão a quem o Port tanto deve". Pinho Leal, in Portugal Antigo e Moderno, vol. VIII, pag. 285.

Fonte da imagem: O Tripeiro, 3ª Série

Sem comentários:

Enviar um comentário