domingo, 12 de janeiro de 2014

"A Próva effectuada á ponte pensil" - parte 3

RESULTADO DA PROVA DA PONTE PENSIL SOBRE O DOURO


Esta ponte, uma das mais bellas obras d'arte que temos no nosso paiz, e pode-se dizer a mais atrevida que ente nós se tem construido, tinha constra si a opinião publica, e chegava a ponto a prevenção, que havia individuos que nella receavão passar de carruagem. Felizmente todas estas prevenções se achão destruidas hoje, com a prova que teve logar nos dias 18 e 19 do corrente; prova, com cujo resultado a ponte deu um desmentido formal a tudo quanto se dizia respeito da sua falta de estabilidade.
    Encarregado pelo ministerio das obras publicas do desempenho d'esta commissão delicada, cumpre-me informar o publico do resultado das experiencias a que procedi para verificar indubitavelmente o bom estado d'este edificio.
    A ponte pensil tem de comprimento de pavimento suspenso 156,3 m , e de largura 6,1m, o que prefaz uma área de 936,35 metros quadrados.
    O maximo pezo, a que uma construção d'estas tem de resistir, suppõe-se ser o de uma multidão de gente a pé, que cubra todo o seu pavimento; este pezo está calculado entre 195 a 200 kilogramos (429 a 440 arrateis) por metro quadrado de superficie. Partindo d'esta hypothese foi a ponte carregada com um pezo de 184780 kilogramos (406:516 arrateis) pela maneira seguinte:

    6 pipas pequenas de 17 almudes ... 3:294 k.
    10 ditas grandes de 28 almudes ... 9:020 k.
    254 ditas ordinarias de 21 almudes ... 172:466 k.
---------------------------------------------------------------
    270 pipas                Total ... 184:780 k.

D'este pezo dividido por 936, 35 metros quadrados, do pavimento suspenso da ponte, resulta uma carga de 197,3 kilogramos (434 arrateis) por metro quadrado.
    Por dous motivos podia desabar este edificio na occasião da prova; ou por fractura dos cabos de amarra, ou de suspensão (o que nunca temi) ou por desmorenamento dos poços de atracação. - Este ultimo modo de ruina dava-me bastante cuidado, e tanto mais quanto havia uns dictos vagos ácerca de uma fenda observada na primeira prova, a que a ponte foi sujeita nos poços do norte, de construção sensivelmente mais fraca que os do sul.
    Para poder verificar as alterações que a ponte soffria em consequencia da carga, estabeleci duas miras nos pontos correpondentes á flexa da curva formada pelos cabos de suspensão, uma de cada lado da ponte: estas miras, com uma outra que estabeleci em um ponto fixo em terra, me davão com o auxilio de um nivel de luneta, qualquer augmento ou diminuição na flexa; e por conseguinte todas as alterações porque passavão os cabos de suspensão. Para avaliar as dilatações dos cabos da amarra appliquei a cada uma das faces dos quatro cylindros de dobramento nos poços um ponteiro que estando para o raio sobre que os cylindros tendião a girar na razão de 11/43[?] marcavão em ponto mais sensivel qualquer movimento devido a dilatação dos cabos.
    Preparadas assim as cousas, começou a carregar-se ás 7 horas da manhã do dia 18; e quando estava em meia carga aproximadamente, fez-se a primeira observação, e notou-se o seguinte:
    Augmento da flexa ................. o,39
    Parecia-me grande este abatimento, mas reflectindo que ao peso da carga se junctava a dilatação do ferro produzida pelo calor do sol; pois esta primeira observação era feita á mei hora da tarde, fiquei mais descansado.
    Pela mesma occasião visitarão-se os cylindros, e os ponteiros nos poços do norte davão 0,008 e nos do sul 0,010. Continuou a operação da carga, e quando estava proximamente a dous terços procedi a segunda observação, erão duas horas e meia da tarde, e esta deu em resultado o seguinte:
    Augmento da flexa ................. o,43
        Ponteiros dos cylindros
    Nos poços do norte ................. 0,011
    Nos poços do sul ................. 0,015
    A flexa augmentando apenas 0,04, mostrou claramente que o primeiro augmento fôra em grande parte devida á mudança de temperatura.
    Completou-se a carga erão quatro horas da tarde, e a observação feita a essa hora deu:
    Augmento da flexa ................. o,47
        Ponteiros dos cylindros
    Nos poços do norte ................. 0,015
    Nos poços do sul ................. 0,020
    Não me admira esta differença, attendendo a que as amarras tem as do lado do sul 16,86m de cumprimento em quanto ás do norte so tem 10,82m e os poços do sul tem 14 m de altura, e os do norte 8m abaixo dos cylindros de dobramento, em que estavão fixos os ponteiros.
    Fez-se uma quarta observação ás 6 horas da tarde, a qual deu o seguinte:
    Augmento da flexa ................. o,44
    Isto é uma diminuição de 0,03 em relação á ultima observação; prova evidente de contracção produzida pela differença de temperatura no fim da tarde.
    Os ponteiros dos cylindros davão o mesmo.
    Observações feitas no dia 19.
        Ao nascer do sol
    Augmento na flexa ...... 0,10
    Tinha havido durante a noite pelo resfriamento uma contracção nos cabos de amarra que produziria uma diminuição de 0,34m na flexa. Os ponteiros dos cylindros consevárão-se inalteraveis até ao fim da prova.
        Oito horas da manhã
    Augmento na flexa .......................... 1,12
    Começarão ja os cabos a dilatar-se.
        Nove horas.
    Augmento na flexa .............................. 0,20
        Onze horas.
    Augmento na flexa .............................. 0,21
        Meio dia e meia hora.
    Augmento na flexa .............................. 0,27
        Hora e meia.
    Augmento na flexa .............................. 0,27
    E' é de notar que o dia esteve bastante mais fresco que o antecedente.
    A estas horas ja eu tinha dicto ao Sr. Coelho, delegado da empreza, que podia com toda a segurança consentir de duas até quinze pessoas passeando sobre a ponte, dando assim ao publico um meio de poder verificar que as pipas estavão perfeitamente cheias d'agoa e que a experiencia era feita com a devida boa fé.
    A's duas horas da tarde tendo pedido licença ao Sr. Governador civil interino, que se achava presente, mandei começar a descarga da ponte, que se fez por tres vezes, fazendo-se observações a cada uma dellas; e estas derão os seguintes resultados:
    Ponte com dous terços de carga.
    Augmento na flexa .............................. 0,17
        Ponteiro dos cylindros.
    Nos poços do norte ................. 0,012
    Nos poços do sul ................. 0,017
    Ponte com um terço de carga.
    Augmento na flexa .............................. 0,03
        Ponteiro dos cylindros.
    Nos poços do norte ................. 0,008
    Nos poços do sul ................. 0,007
    Ponte sem carga.
    Augmento na flexa .............................. 0,00
        Ponteiro dos cylindros.
    Nos poços do norte ................. 0,000
    Nos poços do sul ................. 0,00
    Confesso que ao ver este resultado fiquei admirado, e a não ser a certesa que tinha de ter feito as minhas observações com toda a exactidão, observações em que muito me coadjuvárão o Sr. Parada, engenheiro construtor ao serviço da direcção das obras publicas deste districto e o Sr. Oliveira, architecto da camara de Villa Nova de Gaia, repito, confesso que duvidava da exactidão dellas, pois que a ponte voltou perfeitamente ao seu estado primitivo.
    Eis a narração fiel e circunstanciada que eu julguei de meu dever apresentar ao publico. Agora so me resta agradecer ao Sr. João Coelho d'Almeida a boa vontade com que se prestou a todas as exigencias minuciosas, que o meu dever me impunha, e a que elle jamais se recusou.
                João Pereira Mousinho
Porto 20 de Março de 1853

1 comentário:

  1. Apenas agora conheci este blogue. Parabéns pela informação que ele contém, pela forma como a explica e pela cuidada apresentação estética!

    ResponderEliminar