sábado, 20 de dezembro de 2014

O que resta do antigo Cais dos Guindais

Em sequência de um post antigo ( o antigo cais dos guindais ) coloco em baixo uma fotografia tirada num recente fim de tarde que mostra o que resta do antigo Cais dos Guindas onde muita mercadoria que vinha para o Porto foi descarregada durante centenas de anos. Ficou este restinho que o tempo não deixará de destruir...

O ANTES

O DEPOIS

domingo, 2 de novembro de 2014

Fragmentos da cerca velha

Todos os portuenses que gostam da história da sua cidade sabem que existiu uma "muralha fernandina" da qual ainda podemos apreciar trechos mais ou menos longos nos Guindais e nas Escadas do Caminho Novo. Do que nem todos se lembram é que o burgo teve anteriormente a esta que é do século XIV (e que mais precisamente se deveria chamar gótica) uma outra cerca que a cingiu durante séculos e que foi alvo de ampliações e melhoramentos ao longo da sua vida útil.

Na imagem 3 abaixo, que está disponível no site http://gisaweb.cm-porto.pt/, vemos um dos dois panos da cerca velha ou muro velho, que foram encontrados aquando das demolições na Calçada da Vandoma nos meados do século passado.

Contudo, embora um desses panos tenha ficado exposto, constituindo ainda hoje o mais notável resquício de muralha românica e pré-românica que abarcava o pequeno burgo do século X a XIII (ver imagem 2); o outro foi soterrado em virtude dos planos urbanísticos que para aquela zona existiam, e assim permaneceu até esse mesmo arranjo ruir nos anos 50. O que fizeram posteriormente deixou-o exposto. Mas na atualidade ele encontra-se novamente escondido bem perto da estátua de Vimara Peres (o dux asturiano que em 868 colocou a cidade definitivamente em mãos cristãs).

A imagem 1 é o desenho incorporado na monumental obra coordenada por Damião Peres dedicada à história da cidade, que nos mapeia a localização destes veneráveis restos.

Outros haverão ainda escondidos pelo casario das ruas da Sé, que serão expostos, ainda que temporariamente, conforme as obras de requalificação das habitações forem decorrendo. Mesmo estes dois trechos só foram descobertos graças às obras efectuadas na Calçada da Vandoma e adjacências, que desvirtuaram completamente o local deixando (a meu ver) como único ponto positivo o trazer à luz do dia estes parcos restos da muralha que nos ensina que o Porto já foi outrora um quase insignificante burgo empoleirado no topo de um monte.

1) o A mostra-nos o local do resquício em questão, o B o cubelo e pano que ainda hoje se vê e a estrela vermelha a localização aproximada da Porta da Vandoma.
2) pequeno pano de muralha e cubelo que se encontravam escondidos atrás dos edifícios demolidos aquando do arranjo urbanístico da área, nos meados do século XX. As fiadas superiores do cubelo e as ameias são obra de reconstrução dessa mesma época em que a política de restauro dos monumentos era bem diferente da que agora temos...
3) o pano de muralha (dentro do círculo) tem em cima, à esquerda a Catedral e à direita (as pedras mais claras) a construção do muro onde agora existe o túnel que penetra no bairro da Sé pela Rua Escura.



sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Que tem o Porto que ver com a viagem de Vasco da Gama à Índia?

Foi com alguma surpresa e orgulho que há poucas semanas fiz uma "descoberta" ao ler um artigo do historiador Amândio Jorge Morais Barros disponível on line; bem pelo menos para mim foi uma descoberta...

Creio que de uma forma geral os portuenses que se interessam pela história do seu país e mais concretamente pela viagem de Vasco da Gama e seus navios na célebre viagem de 1497, sabe que eles eram 4 e que se chamavam S. Miguel, S. Rafael, Bérrio e eram acompanhados por uma naveta (pequena nau) de mantimentos. Essa terá por ventura sido a viagem de maior glória para os descobrimentos portugueses e aquela que colocou Portugal como a primeira super-potência mundial (é preciso não esquecer isso!) durante algumas décadas...


Fernão Lopes de Castanheda, cronista que escreveu a História do descobrimento e conquista da India pelos portugueses, relata-nos o seguinte:

E como quer que El-Rei Dom Manuel assi como sucedeu nos reinos a El-Rei Dom João, assi também lhe sucedeu nos desejos que tinha de descobrir a India: logo aos dous anos de seu reinado entendeu no seu descobrimento, pera que lhe aproveitou muito as instruções que lhe ficaram de El-Rei Dom João, & seus regimentos pera esta navegação: & mandou fazer dous navios da madeira que El-Rei Dom João mandara cortar. E um que era de cento & vinte toneladas houve nome São Gabriel: & outro de cento São Rafael: & comprou pera ir co estes navios hua caravela de cinquenta toneladas a um piloto chamado Birrio de que a caravela tomou o nome. (...) E por quanto nos navios da armada não podiam ir mantimentos que abastassem à gente dela até três anos, comprou El-Rei hua nau a um Aires Correa de Lisboa que era de duzentos toneis, pera que fosse carregada de mantimètos até à aguada de São Brás, & ali se despejaria & a queimarião.

Estas duas naus principais, a S. Gabriel e S. Rafael foram construídas, nada mais nada menos do que no Porto, nas taracenas de Miragaia em 1496!

E conforme mais li, mais fui realmente me apercebendo que à época este era dos melhores, quiçá o melhor estaleiro do reino. Foi nele que a frota mercante do Porto fora praticamente toda construída e fora essa frota que colocara a cidade no panorama do comércio marítimo com os portos do mediterrâneo e do norte da Europa. Tendo sido esse mesmo comércio que fez o ex-feudo episcopal que era o Porto crescer, elevando-o à condição de segunda cidade do reino.

Quanto à construção naval no areal de Miragaia, com efeito, já desde meados do século XV (diz-nos Amândio Barros no seu trabalho) que o Rei fizera encomendas de navios a estes estaleiros, sendo que, ainda no início do XVI, um veneziano que enviava um relatório à Senhoria de Veneza (algum espião uma vez que Veneza foi uma das lesadas no trato com a mercadoria da Índia?) reconhecia serem as naus dos armadores portugueses maioritariamente construídas na Flandres, Biscaia e muitas poucas se fazem cá, e essas poucas no Porto.

Só na década de vinte desse século, com o advento da Ribeira das Naus em Lisboa, o Porto se viu privado da primazia na construção naval. E mesmo o início de actividade em Lisboa contou com muitos carpinteiros "importados" daqui, por serem os mais conceituados e sem dúvida dando formação - para fazer uso da linguagem atual - e orientando o arranque dessas taracenas lisboetas, que bem representadas estão em vistas quinhentistas e seiscentistas da cidade.

Como nota final, quero apenas acrescentar que terá sido por esta altura que D. Manuel terá transformado o postigo que dava para Miragaia numa verdadeira porta (a Porta Nova depois também chamada Nobre). E isto se vê pela passagem seguinte que faz parte das contas da Câmara do Porto de 1496 relacionadas com a despesa do alargamento da porta que dava para o estaleiro, para permitir a passagem da madeira e outros materiais: (...) coregimento do Postigo de Álvaro Gonçalves da Maia (...) por boa servintia das naus que se ora fazem de El-Rei nosso Senhor.

Não me alongo mais nesta postagem e convido todos os interessados a lerem por completo o artigo de Amândio Barros, onde o autor expande este assunto, focando inclusivé outros aspectos relacionados com ele. Podem lê-lo aqui: ler.letras.up.pt/uploads/ficheiros/4803.pdf. Excelente artigo.

segunda-feira, 28 de julho de 2014

Uma curiosidade

Dado o foco de atenção que tenho no antigo convento dominicano do Porto (por motivos que não cabem neste blogue) e do qual atualmente pouco resta sendo a sua face mais visível o atual "Palácio das Artes" (também conhecido como "Edifício Douro"), não pude deixar de reparar na empena ou frontão, que fecham a sua platibanda, por cima da porta principal.

Nela surgem como que uns discos, em número de 7; decoração com certeza ali colocada pelo Banco de Portugal, como o atestam fotografias do início do século XX. Não podem ser, isso é certo, de época do convento, pois como se pode constatar através do desenho de Villa Nova, o edifício nem platibanda tinha (além de muitas outras modificações exteriores que o Banco lhe fez...)


Ora o título que dei a esta postagem, tem que ver com o que reparei não há muitos dias, num edifício já fora do Porto antigo, colocado no alto do monte que leva ao Marquês, na esquina com a Rua de Santa Catarina (que naquele local já teve o lindo nome de Rua Bela da Princesa), à entrada da Rua Latino Coelho, mais precisamente no edifício que pertence ao Colégio Nossa Senhora da Paz. Portanto numa zona ainda relativamente pouco urbanizada até finais do século XIX.

É que, por debaixo da varanda que o edifício apresenta (na sua parte mais antiga, à entrada da rua) existe uma pedra que suporta a mesma varanda e que exibe um padrão muito similar com o acima descrito, se bem que mais "discreto", com apenas 5 discos, faltando um para cada lado.


É curiosa a repetição do motivo, e para mim, mero leigo, apenas posso adiantar teorias... terão as duas pedras vindo da mesma oficina de pedreiro? Terá aquele símbolo um qualquer significado que desconhece o cidadão comum do nosso tempo? Terá o mestre que esculpiu a mais recente gostado do motivo e reproduzido na sua obra? Terá o edifício do Marquês pertencido algum dia ao Banco de Portugal?

Apelo aos que gostam da história do Porto e aos aficionados da história da arquitetura a esclarecerem ou transmitirem dados/opiniões que possam levar a um esclarecimento desta insignificante questão, que deixou o autor deste blogue tremendamente curioso.

sábado, 21 de junho de 2014

O velho mercado do Bolhão e a Feira dos passarinhos

Este título foi retirado de um artigo publicado n' O Tripeiro de 1 de Setembro de 1927, que aqui transcrevo não na integra; juntamente com duas fotos do mercado do Bolhão dessa época, retiradas do site do AHMP e disponíveis on-line.
Resta dizer que este artigo foi escrito por um senhor chamado Manuel Pedro.

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Da geração antiga, quem não se lembra do velho mercado do Bolhão?!

Todos os velhos portuenses, todos os que nesta terra se fizeram homens, criaram cabelos brancos, ainda hão-de ter na mente as agradáveis horas que lá passaram, quando novos, as frases amorosas com que mimoseavam as criaditas simpáticas que, muito risonhas, apreçavam nas barracas a aromática fruta do Douro, a hortaliça e outros géneros alimentícios.

O desejo de acompanhar o progresso e dotar a cidade Invicta com belos monumentos, novas e largas artérias, levou a vereação da Câmara Municipal do Porto a demolir velhos casarões, a fazer desaparecer ruas apertadas, inestéticas, para dar prioridade a edifícios espaventosos, de arquitectura moderna, que deixassem os nossos visitantes estrangeiros bem impressionados.

O velho mercado do Bolhão foi, portanto, vítima da condenação dos técnicos e dos homens que admiravam a Arte e a Beleza. E diga-se de passagem: ao ilustre e inteligente cidadão Elisio de Melo se deve, quando vereador, o aformoseamento duma parte da nossa terra. Foi êste homem, de largos empreendimentos, quem mais contribuiu para que o velho Pôrto se modernizasse.

Encravado no centro da cidade, o referido mercado, realmente, não oferecia aos visitantes curiosidade alguma. Sem aquela magestosidade própria da época, pouco limpo, sem espaço suficiente para o movimento que já era muito respeitável, principalmente nos dias de feira (terças, quintas e sábados), a sua modificação impunha-se.
E, volvidos alguns anos, o velho mercado, com o concurso de numerosos trabalhadores, estava arrasado e substituido pelo Palácio do Repolho - como alguem lhe chamou - incontestávelmente de superior vista, mais acomodatício e higiénico.

O que é certo, porém é que com o desaparecimento da velha praça do mercado, terminaram quási totalmente uns certos hábitos adquiridos pelos habitantes desta hospitaleira terra e que a ela estavam ligados há muitos anos.

Os portuenses comtemporâneos, não ignoram que o velho mercado estava ladeado por duas ruas que, paralelas, embora um pouco distantes, o acompanhavam em toda a sua extensão.

Na rua do lado poente (parte nova da rua Sá da Bandeira) estavam as cavalariças dos muares, que puxavam os americanos; e na rua do lado nascente (hoje Alexandre Braga) realizava-se todos os domingos uma grande feira de passarinhos, a qual era muito frequentada não só pelos apaixonados daquelas lindas avesinhas domésticas (pintassilgos, rouxinóis, canários e pombas), como por outros indivíduos que nela procuravam distrair-se.

Aquela rua tão socegada nos dias da semana, entregue simplesmente ao comércio das louceiras e das adeleiras, as suas únicas moradoras, era, no dia do descanso dominical, da parte da manhã, extraordinariamente concorrida.

Não havia portuense algum que, ao domingo, depois de tomar o seu cafésito, vestir as suas roupas domingueiras, não fôsse á velha praça do mercado dar um passeiosito e visitar os passarinhos.

Êste hábito estava tão arreigado nos portuenses de origem humilde, domingo que não tivessem dado por lá o seu passeio e matado o bicho com um copito de quatro na adega do Amaral (que, apezar de escondida no términus da rua, era muito concorrida pelos passarinheiros), ou na adega do Bolhão, não era domingo e uma contrariedade os acompanhava até ao anoitecer.

A rapaziada nova, folgazã, das freguezias mais populosas do Pôrto: Sé, Bonfim e Santo Ildefonso, que durante a semana, em consequência das distâncias que os separavam, não tinham trocado falas, lá se juntavam uns com os outros, discutiam alegremente sôbre vários assuntos e planeavam para a tarde grandes passeios e grandes pândegas. Enfim, aos domingos, o Bolhão era o centro escolhido do cavaco, onde todos os amigos, velhos e novos, se encontravam.

Realmente, aquele aspecto da passarada, das floristas, sempre solícitas para a freguezia, extremamente amáveis e delicadas ao colocarem na lapela dos casacos dos janotinhas as mais lindas e odoríficas flores, que muito caprichosamente expunham em tabuleiros á entrada da rua; a inquietação das cachopas gentis em seleccionarem naquelle jardim provisório os raminhos de mais atraente vista, convidava ir até lá.

As próprias sopeiritas, algumas formosas como a Venus de Milo, de aventais brancos, de cestos nos braços a abarrotarem de compras, todas desenvoltas como qualquer tricana da Lusa-Atenas, como qualquer morena simpática da terra dos doutores e da poesia, também procuravam a rua dos passarinhos para, em companhia dos guitas (antigos guardas municipais), de uniformes bem passados a ferro e botões reluzentes, ali passarem uma hora de felicidade e contentamento.
Todavia, o maior encanto daquela rua era a feira dos passarinhos. Prisioneiros em gaiolas, estendidas à carreira pelo chão e suspensas nos galhos de qualquer árvore mais frondosa, chilreando e saltitando de um lado para o outro, obrigavam os indivíduos menos interessados a pararem, e aguardavam que novos donos os transportassem para outra parte.

E todo aquele povo, em fraternal convívio, aos grupos, comentava, dizia da sua justiça sôbre este ou aquele canário, sôbre este ou aquele travesso.

Logo que nos propuzemos falar da velha praça do Bolhão, da feira dos passarinhos, não era justo deixarmos passar despercebido um outro entretenimento da populaça que a ela ocorria, quando necessitava.

Como é de todos sabido (claro está, dos indivíduos daquela época), o velho mercado tinha, como o actual, duas entradas principais: uma pelo lado sul (rua Formosa), outra pelo lado norte (rua Fernandes Tomás), com a diferença de que esta entrada não ficava ao nível da rua.

Por conseguinte, as criaturas que precisavam de se utilizarem da entrada para norte para darem ingresso na dita praça do mercado tinham de descer uma rampa em forma de X, que tanto comunicava com a "Rua Oriental do Bolhão", como com a rua que as galinheiras estacionavam para venderem as suas aves: galos, galinhas, perus e patos.

No meio da referida rampa, na parte mais saliente, nos dias de feira e aos domingos, os ceguinhos, encostados à grade de ferro que protegia um enorme tanque, que ficava da parte de baixo e vis-à-vis com a praça, onde o gado ia beber e as peixeiras lavavam as suas canastras, chamavam a atenção dos transeúntes para os seus fados tristes, para as suas modinhas, umas inspiradas nos crimes que de vez em quando se davam, outras, então, dedicadas mesmo às galantes costureiras e às criadas de servir.

E o povo portuense, de grande paixão por estas coisas, rodeava os ceguinhos, acotovelava-se para de mais perto ouvir aquelas quadras hilariantes ou as glosas sentimentais, que uma voz roufenha, sem timbre, mas cheia de ternura, tinha o poder de emocionar os corações sensíveis.

Depois, um dos tocadores - o que conduzia os cegos nas ruas - vendia, ao preço de cincoenta reis, todas aquelas cantigas impressos em pequenos folhetos. E toda aquela gente pacata, que tinha escutado com a máxima atenção os pobres cegos, comprava e retirava-se satisfeita.
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sexta-feira, 6 de junho de 2014

O Jornal do Povo

Continuo aqui a publicar algumas descrições da coluna Jornais da Minha Terra, publicados por Alberto Bessa na 2ª, 3ª e 4ª séries da revista O Tripeiro. Desta vez é um outro jornal que, se bem que tendo curta vida, marcou ainda assim a época em que existiu; tendo nascido no final do romantismo e terminando já entrados os anos da Regeneração.

"Apareceu, no Porto, a 29 de Dezembro de 1848, um jornal intitulado e com o sub-titulo, devéras original, de: "Redigido gratuitamente por uma sociedade de cartistas". Sahia ás terças e sextas-feiras, dando aos sabados uma edição das provincias, bem como suplementos sempre que havia noticias interessantes a transmitir aos leitores. Publicou-se até 29 de Julho de 1854, sendo seguido pelo Lidador (...).

Era um periodico de regulares dimensões, em quatro paginas, a três columnas largas de composição, em corpo 10. O frontespicio era illustrado com uma gravura representando o Porto a apontar ao Douro o sól que vinha raiando por detrás das serranias, vendo-se na parte luminosa do fundo as palavras "Rainha e Carta". Os raios solares atravessavam os diversos signos do Zodiaco e iam perder-se nas nuvens que formavam como que a moldura da allegoria. No sólo via-se estendido o mapa de Portugal, e por traz da figura do porto havia uma oliveira. esta allegoria, embora não fosse de uma correção por ahi além, era menos mal trabalhada.

Não designava local de redacção, designando porém que se vendiam exemplares "na loja do Moraes, ás Hortas" e que a typographia era a da Revista, na rua de Santa Thereza, 3.

N'este jornal colaborou Camilo Castello Branco, que lá publicou alguns folhetins com o pseudonymo de Anastacio das Lombrigas. Um dos seus redactores foi José Athanasio Mendes, professor de latim e de francez, que Camillo affirmou ter sido "a personificação do sarcasmo" e "usar uns oculos que ao fitarem a gente queimavam como o espelho de Archimedes" (Procissão dos Mortos).

Foi n'este periodico que Camillo iniciou a sua contundente critica ao poema As commendas, de Antonio Ayres de Gouveia, critica que interrompeu na altura do terceiro canto d'esse poema, hoje rarissimo."

sexta-feira, 16 de maio de 2014

A Muralha que ainda vemos

O título para esta postagem é mais ou menos metafórico... pois que a muralha que vemos a que pretendo aludir, não é propriamente a que hoje lá se encontra. Essa sim, ainda vemos com os nossos olhos que a terra há-de comer; se bem que algumas pedritas foram lá repostas depois da derrocada ocorrida no meado do século passado.

Este vemos, refere-se a muralha que já não existe mas que teve a sorte de perdudar nos registos fotograficos pois que só após a aparição desta tecnologia lhe foi dado sumiço pelo constante modificar, evoluir (e "desevoluir"...) que uma cidade viva e pujante tem!

Não me refiro aquele troço de muralha junto ao Convento de S. Bento, com o seu cubelo a denunciar nitidiamente construção mediévica. Esse também já se foi, mas graças à presença de um convento e ao seu regime de clausura, talvez para não devassar esse mesmo regime, nunca foi permitido derruba-lo ou transforma-lo em casas de habitação e por isso chegou até à era da fotografia na sua forma original e quem sabe, tendo no troço de muralha que o acompanhava, a primitiva porta de carros ainda entaipada.... mas isto são já suposições a mais!

O troço a que me refiro seria por ventura um dos de mais intransponíveis por parte de qualquer força atacante, quando aquela importante estrutura militar foi construida. Dado preencher com silhares possantes de pedra o topo dos penedos, por forma a proporcionar mais altura a estes e fechar assim o circuito da muralha. No foto ainda se vê parte da penadia, que hoje também já não existe, como se comprova na outra foto, actual, do inestimável GoogleMaps (à falta de uma foto do autor que a substituirá em breve).
Este caminho era a fase final, para quem desce, das Escadas do Codeçal a que me referi numa outra postagem: o antigo caminho de rolda da muralha que subia até se unir à torre ainda existente, que já foi mirante das monjas clarissas. Nota-se perfeitamente a silhueta da muralha e seus pequenos torreões, embutidos nas casas de habitação com a porta para as Escadas do Codeçal. Até bem próximo da era moderna, a cidade do Porto era dali para dentro.

Hoje, o que resta do Codeçal original termina em frente ao antigo Recolhimento do Ferro. Para baixo são consequência das obras de preocupações rodoviárias que ali tiveram lugar nos anos quarenta do século XX, que obrigou que estas ficassem viradas para fora da cidade medieval (aliás, já do lado de fora, por uns metros, da cidade medieval). Além das habitações e da muralha propriamente dita, também a penedia foi completamente britada, por forma a se conseguir a uniformidade do terreno a uma cota mais baixa do que a original, iniciando-se ai acesso ao túnel para quem vem da Ponte Luíz I ou da Avenida Gustavo Eiffel.

O término da escadaria situava-se sensivelmente no local desta foto do GoogleMaps, junto á casa que ali se pode ver. A vermelho assinalei a escadaria moderna que substituíu a centenar.

sexta-feira, 18 de abril de 2014

Mercados de vida curta (adenda)

Em Junho de 2011, nesta postagem: http://aportanobre.blogspot.pt/2011/06/extintos-mercados.html , eram referidos os mercados de ferro construidos na cidade nos anos 80 do século XIX construídos na arquitectura em ferro, tão popular à época.

E ficou no ar uma interrogação sobre se seria o ferro do Mercado do Peixe em Aveiro, aquele que a Câmara do Porto vendera a Aveiro quando desmantelou os tais mercados. Na ausência de fotografias ou gravuras que os mostrem no local original no Porto, ou alguma referência que surja nos jornais Aveirenses (por exemplo), ficamos sem ter a certeza se serão estes os materiais provindos de tais mercados.

Contudo, na semana passada, passeando por Aveiro, passei pela Praça do Peixe e reparei nos pilares do tal mercado. E tal como os do Mercado Ferreira Borges aqui no Burgo, também neles estão gravadas as letras MASSARELOS - PORTO (ver fotos).

Note-se que isto apenas prova que foram construídos na Fundição de Massarelos, mas não invalida que tenha sido uma encomenda da própria Câmara de Aveiro.
Contudo, estas "provas circunstanciais" poderão já apontar para o facto que estes poderão ser realmente os materiais originais dos extintos mercados do Largo da Aguardente (actual Praça do Marquês) e do Poço das Patas (actual Campo 24 de Agosto).

Novamente apelo a um Aveirense (ou Portuense) que saiba um pouco da história destes Mercados, para deixar um comentário a esta postagem, elucidando-nos!



quinta-feira, 20 de março de 2014

A Igreja da discórdia

Nas recentes e grandes prospecções arqueológicas feitas no eixo Mouzinho-Flores, surgiu, à entrada de Ferreira Borges, grande parte do chão de uma Igreja (sensivelmente da dimensão da de S. Nicolau que fica ao fundo dessa mesma rua) demolida em 1835 por Ferreira Borges para rasgar a rua com o seu nome.

Essa igreja era, nas últimas décadas de vida do Convento Dominicano, a sua Igreja de facto mas não fora construída para eles mas sim para a sua Ordem Terceira.

Nos inícios do século XIX, já depois da revolução de 24 de Agosto no Porto surge um artigo num periódico da época, que acho curioso, e que faz referência a um tema que já se arrastava desde o tempo de D. José, passando por D. Maria e ainda vivo no reinado de D. João VI.

Notar que sobre este tema, há várias versões, e este texto leva em conta apenas uma delas. O autor era provavelmente alguém ligado à moderna Ordem da Trindade, herdeiros dos Terceiros Dominicanos. Mas ouçamos o texto:

"Patriota Portuense de Terça-feira, 20 de Dezembro de 1821

Sr. Redactor,
Li no tomo 2.º das Obras de Francisco Rodrigues Lobo a seguinte pergunta e resposta:
Perg. -  Que remedio a quem pertende Bens de que outrem goza o futuro?
Resp. - Aprender a soffrer muito, E soffrer mais do que aprende.

Em verdade, a resposta he tanto terminante, quanto arduo o soffrimento que se ha mister para executalla. O que admira he no seculo desanove encontrarem-se paciencias taõ apuradas, que igualam quasi a do Santo Job! Ainda ha gente bôa que olha a usurpaçaõ como hum mal irremediavel: e, para prova do meu dito, rogo ao Sr. Redactor que atente bem na seguinte exposiçaõ.

Nesta cidade, sendo Bispo della D. Pedro Salvador, fundou El-Rei D. Sancho II, no ano de 1283, o convento da Ordem dos Prégadores (vulgo Dominicos)[1]: no de 1671 instituio-se, por Bulla Apostolica, huma Ordem Terceira na Igreja destes Religiosos, que designaram aos Irmaõs della um altar no arco cruzeiro para alli mandarem celebrar os officios divinos; do qual se serviram por espaço de alguns annos: mas como o numero de Irmaõs se fosse augmentando, destinaram-se estes apartarem-se daquelles Religiosos, e edificarem huma Capella separada; para o que lhes emprazaram hum pouco de terreno, como consta por escritura publica de 26 de Outubro de 1683; concluindo-se a feitura do edificio no anno seguinte de 1684. Cresceram todavia os fundos da Ordem na razaõ da entrada de mais Irmaõs, pelo que resolveram tornar a Capella em Igreja, tendo já em 25 de Agosto de 1683 emprazado ao Senado da Camara a extensaõ de 85 palmos de comprido e 43 de largo, compraram depois, em 5 de Outubro de 1689, três moradas de casas ao Padre Joaõ dos Anjos, que se demoliram para dar mais ambito ao logar do edificio; e accrescentaram-lhe tambem 14 palmos de terra que Sua Magestade foi servido conceder-lhes por Provisaõ de 5 de Dezembro de 1715. Em todo este espaço de terreno edificaram a Igreja, de cuja posse estiveram desde o anno de 1740 até o 1.º de Outubro de 1755.

Tencionaram os Terceiros subtrahirem-se á dependencia dos Frades, e sujeitarem-se ao Ordinario; o que conseguiram. Os Frades, acabando-se-lhes este pingue beneficio dos Irmaõs, taes enredos e demandas moveram contra os Terceiros que, chegando ao conhecimento de SS. Magestade e Santidade, deram por extincta a Ordem Terceira; variando-lhe a denominaçaõ para Trina, e concedendo-lhe levarem seus fundos, moveis e alfaias para outro qualquer logar que escolhessem, com a condiçaõ porém que se apartariam de ao pé dos Frades, para se evitar e terminar questoens: o que consta de huma Bulla datada em 14 de Maio de 1755. Aqui temos a caridade christã devidamente desempenhada por aquelles que nos devem exemplificar por suas acçoens e virtudes! Nisto vêmos executada á risca, por aquelles que aspiram á perfeiçaõ evangelica, e de que devem ser observantes como Mestres della, a excellente maxima de JESUS CHRISTO = que decididamente lhes prohibe terem processos ou demandas: = Et ei qui velit tecum contendere, ac tunicam tuam capere, dimitte illi etiam pallium. S. Matt. cap. 5 v. 40.

Estes completos Frades, que ás avessas observam a santidade do preceito - o que naõ queres para ti, naõ o faças a outrem, - tiveram a astucia de, pelas suas hypocritas maquinaçoens, supprimirem na Secretaria de Estado a sobredita Bulla, até que no anno de 1781 a Sra. D. Maria I, de saudosa memoria, a fez publicar.

Neste espaçado intervallo de tempo residio a Ordem Terceira na Capella da Senhora da Batalha, desde o 1.º de Outubro de 1755 até 1786, que se mudou para a Capella do Senhor do Calvario, sita na Cordoaria velha. Destinaram fazer ahi huma Igreja; daõ começo á obra, mas logo os Frades Capuchos, que tinham hum Hospicio junto della, a embargam; pretextando que naõ queriam sua casa assombrada! Os Terceiros, enfastiados de tantos empecilhos fradescos, deliberaram-se a edificar a Igreja longe de similhantes pragas. Escolheram o sitio da Praça do Laranjal; e no anno de 1804 se transferiram para alli, onde permanecem n'huma pequena Capella, em quanto se naõ finalisa o magnifico e sumptuoso Templo em que se trabalha.

Eis apontadas as voltas, alternativas e revezes que a Ordem Trinitara tem experimentado; e igualmente acclarado que a antiga Igreja lhe pertence, porque se demonstra authenticamente a compra do terreno e a feitura do edificio á sua custa: agora indagaremos a causa por que os Frades a possuem.

Houve na Igreja antiga dos Dominicos hum pequeno incendio, que as más linguas dizem fôra lançado acintamente: o que se naõ deve acreditar; pois que os Frades saõ bons homens, e naõ quereriam ter ao cachaço o que diz Larraga tom. 1.º pag. 293 = Quem incendiar huma Igreja, ou concorrer para iso, depois de a restabelecer, fará penipenitencia por 15 annos. = Fosse porém o que fosse; o certo foi arder hum pedaço do tecto della, porém logo se lhe acudio, sendo por isso de pouca monta o estrago. Aproveitando elles a occasiaõ, representaram a Sua Mag. que hum incendio lhes tinha consumido a Igreja, e que por tanto estavam impossibilitados de celebrarem officios divinos por falta de Templo; que junto ao seu Convento, intra claustros[2], se achava huma Igreja sem dono, e que tinha sido de huma Ordem Terceira, já extincta; que foi edificada em terreno delles; que Sua Magestade, como Padroeira, lhe podia conceder. Puzeram á testa desta pertençaõ o Padre Mestre Fr. José da Rocha, que, por ter valimento na Corte, e por jesuitico segredo, investio os bons Frades na posse della.

Sem ouvirem os Terceiros, legitimos donos da propriedade; sem appello nem aggravo; e finalmente sem mais cerimonias; lançaram maõ da Igreja, de quem curaram logo como sua; profanaram a antiga, e della fizeram Armazens, que, por muito rendosos, daõ muitos venha a nós. Os Terceiros estaõ ha perto de 40 annos de boca aberta, pasmados de tanta magica; e de balde perguntam quem lhes deve restituir aquillo que por todo o direito lhes pertence!! Custa a crêr que defendendo o Evangelho, áquelles que saõ Prégadores delle, o possuirem thesouros e conservarem bens temporaes (Nolite thesaurisare vobis thesauros in terra: - si vis perfectus esse, vade, vende quae habes), estejam juntando cabedaes; e, em logar de venderem o que he seu, usurpem o que he dos outros!! Que consumada moral!! Que admiraveis exemplos!

Parece conforme á justiça e á razaõ que os Dominicos devem mostrar o titulo por que se senhorearam daquillo que todos affirmam naõ lhes pertencer; mas talvez que a legalidade delle implique com esta maxima de Jurisprudencia: = He melhor naõ possuir titulo, do que possuillo vicioso: - Melius est non habere titulum quam habere vitiosum; = por isso sem duvida melhor será occultallo. Demais, a Religiaõ Catholica Apostolica Romana he, sem contradicçaõ, de todas as religioes a que exclue os Sacerdotes a litigarem no Foro Civil; pois que assim o ensina seu Divino Instituidor: = por tanto naõ nos devem importar aquelles que seguem esta doutrina, porque ella nada tem com negocios mundanos...Mas, affigura-se-me ouvir huma voz que clama: JESUS CHRISTO com efficacia tambem nos recommenda: = Dai a Cezar o que he de Cezar.

Isto me faz callar, reservando-me só para rogar ao Sr. Redactor quatro obsequios que se deduzem huns de outros: sendo o 1.º inserir esta no seu acreditado Diario; seguindo-se pois o 2.º que he, lembrar aos Dominicos os seus deveres; o que naõ succedendo, resulta o 3.º que he, convidar os Terceiros Trinitarios para delles exigirem o que he seu; concluindo por tanto com o 4.º e principal que he, naõ se denegando Vm. a esta minha rogativa, obsequiar

Este seu venerador
Lembre Deos em bem"

1) na realidade o Convento terá sido fundado a pedido de D. Pedro Salvador e não por vontade de Sancho II
2) O que é falso. A igreja tinha a porta principal virada para Norte, para a Rua de Belmonte.

domingo, 9 de março de 2014

A casa nobre demolida no Terreiro da Alfândega

Henrique Duarte de Sousa Reis é um conhecido "cronista" da cidade do seu tempo, de meados do século XIX. Quatro dos seus sete manuscritos foram já postos em livro e podem ser adquiridos na Biblioteca Publica Muicipal do Porto. Infelizmente, os restantes mantêm-se inéditos: e só tendo acesso aos reservados da Biblioteca os podemos consultar.

Num destes volumes, está a descrição da casa senhorial manuelina, que existiu na esquin da da Rua da Alfãndega com a Rua da Fonte Taurina. Essa casa foi demolida para completar o alinhamento da rua, criando assim um novo armazém para a Alfândega (enquanto a nova Alfândega ia sendo construida na praia de Miragaia).

Na foto abaixo podemos ver o novo edifício a ser construído onde são claramente visíveis as colunas de pedra que hoje sustentam o edifício e que todos que já o visitaram conhecem.


Como pormenor curioso, vemos que ao fundo da clareira formada pela rua existem casas onde actualmente temos o Jardim do Infante. É que nesta altura ainda não tinha sido aberta a Praça do Infante, chegando os muros traseiros destas habitações até sensivelmente onde está agora a estátua do Navegador. A frontaria destas casas aparecem naquela famosa estampa do Barão de Forrester sobre a Bolsa a "céu aberto" na Rua dos Ingleses (agora Rua do Infante).

Mas não nos desviemos do assunto em mãos; abaixo coloco a fotografia dessa casa.

E o mesmo local (sensivelmente...) na atualidade

Mas eis a descrição de Sousa Reis, por ele feita no século XIX:

"A casa nº 7 situada na rua d'Alfândega desta cidade à esquerda de quem desce, era talvez uma das mais antigas casas nobres do Porto, e edificada poucos anos antes daquela chamada do Patim e que estava assente logo no principio da rua da Ferraria de Baixo ao descer de S. Domingos [voltaremos a esta num outro post...], e também ao lado esquerdo, porque não quase iguais na arquitectura, tendo ambas os maineis das janelas e portas não só circulares na parte superior delas, mas todo o seu vivo rebaixado, e nele em alto relevo lavradas contas e flores. (...)


Constava a casa da Rua da Alfandega de três faces ou frontarias exteriores e visíveis, porque parte da primeira, e toda a voltada ao lado do nascente estavam encravadas no edifício da Alfandega de forma tal que daquela que olhava para o norte ou embocadura da rua logo ao descer da dos Ingleses, apenas se via cousa de 12 palmos salientes, e tantos importava, o que obstruia a referida calçada da alfandega, e foi agora demolida para facilidade do trânsito, e da outra fachada do nascente nada se alcançava pela razão acima dita, nestas faces não havia obra alguma mais que paredes lisas, o que assas prova ter estado esta parte saliente e visivel igualmente encoberta e encostada a outras casas antes da fundação da fachada da repartição da alfandega que é natural recuasse esses 12 palmos para alargar a rua do mesmo nome, que com este estabelecimento deveria ser muito concorrida, sendo até ai estreitissima como testemunha esse grande avança que essa propriedade tinha. Essa rua estreita foi em antigos tempos chamada Rua do Cunhal de S. Francisco, se não houve engano em um documento, que vi, respecctivo a esta casa que descrevemos.


Na portaria da parte do Oeste tinha praticada, mui próximo ao cunhal do norte, uma porta e a seu par uma janela engradada de ferro de grandessíssimas dimensões e tão lisamente feitas, que bem mostravam ter sido abertas assim para corresponder às janelas centrais dos dois andares da fachada principal virada ao sul, com que se diziam perfeitamente no talhe, porem em lugar de serem arcadas são direitas as padieiras, e todos os maineis com elas mostravam cortado e em muia[?] cousa saliente e filetes nas margens, os seus vivos, de forma tal, que bem poderia julgar-se foram elas obras mais modernas, se isso fora possível: desvaneios do arquitecto, ou gosto variado do dono da propriedade.


A fachada principal, como já disse era voltada para o sul, e em sua frente ficava lhe o espaço chamado o terreiro, e compunha-se de dous andares, sobre três portas baixas abertas sobre forma circular como que formando no centro um bico, e muito natural é serem dentro delas os cómodos dos creados e cavalgaduras, que os primitivos habitantes e edificadores desta propriedade, pela sua posição social carecião: eram extremamente acanhadas estas portas, correspondia-lhe logo superiores no primeiro andar três janelas de sacada com varandas de ferro, sendo a do centro mais elegante, porem singela no lavor, como a porta principal da entrada e a janela contigua, que ja descrevi, e as duas laterais sacadas, posto que mais baixas e estreitas são cobertas de florões tão salientes e tantos que topavam com as soleiras das sacadas do segundo andar que lhe ficavam por cima, igual em construção, gosto e dimensões e adornos, e só deferia em conter demais junto ao cunhal da parte do oeste ou fronteiro à capelinha do Terreiro um como mirante ou miradouro ricamente adornado e feito em tal gosto, que era o unico no seu gosto nesta cidade e por essa singularidade não me pouparei a fazer distinta discrição dele.


A coronigem que cobria este miradouro foi construida debaixo da mesma linha que a geral das três fachadas, sobre o cunhal da casa, que ficava inteiramente partido e rematido no nivel do pavimento do segundo andar, em que esta obra era montada, se levantava um peitoril de pedra para o lado da rua da alfandega, e outro para a do terreiro, e na esquina ou juntoura deles e na linha prpendicular e a forma do referido cunhal pousava uma mui delicada e bem trabalhada coluna de pedra que sustentava as duas padieiras formadas por grandes roscas e retorcidos de veias ou listões de pedra, e a coronigem acima indicada.


Estes peitoris, a parte que deitava das padieiras à coronigem, e os lados exteriores deste miradoura eram enriquecidos com tarjas de flores, folhas, pomos e arabescos fantasiados, tão bem lavrados em pedra e ainda que era antiguissimo aquele trabalho, tinha, na ocasião da demolição valor excessivo pelo seu muito merecimento. (...)

Tão memorável e rica peça foi no ano de 1855 apeada não só pelo estado ruinoso do restante edificio (...) como por estar essa parte dele estreitando o caminho tão preciso para a continua servidão da Alfandega desta segunda capital [lembremos que ainda não existia a Nova Alfândega].

Pertencia esta propriedade a Manuel Guedes da Silva da Fonseca (...) a quem [a Câmara] pagou a quantia de 1.700$000 só pela parte adiantada do alinho da casa da alfandega, mas o vendedor tal preço fazia deste miradouro que no contrato o reservou para si, todas as pedras de que se compunha foram cuidadosamente apeadas e recolhidas à sua habitação sobre a Praça da Batalha para em tempo e lugar oportuno talvez colocar este chefe de arquitectura antiga."

Abaixo vemos parte de uma planta que nos dá uma ideia da área que o edifício ocupava da rua, sobreposta à área do outro que lá agora se encontra.

Resta-nos falar da janela manuelina que esquinava no segundo andar dele, e que actualmente se encontra na Quinta da Aveleda, em Penafiel. Embaixo duas fotos de um outro blogue que a mostra o seu lado interno e externo.


A a sua descrição nesse mesmo blogue:
"A Janela da Reboleira é uma grande janela de ângulo com balcão formada por dois arcos abatidos que se apoiam numa coluna jónica, colocada ao centro. No interior da estrutura foram edificadas duas conversadeiras, e toda a estrutura exterior é decorada com motivos vegetalistas, muito comuns nos programas decorativos manuelinos, o que indica a data da sua edificação, situando-a nos primeiros anos do século XVI"


************
Fontes para esta postagem:
Manuscrito de Henrique Duarte Sousa Reis na BPMP
A Alfândega do Porto e o despacho aduaneiro
http://foiassimk.blogspot.pt/
http://mjfs.spaceblog.com.br/

quarta-feira, 5 de março de 2014

Uma foto que nunca mais se repetirá...

Ainda com cheirinho a idade média, a freguesia da Sé era todo o que nela ainda se encontra e um pouco mais... algumas ruas que se situavam em frente e nas imediações da Catedral foram demolidas nos anos 30, com o intuito de se formar ali um largo - o Terreiro da Sé - com vista à monumentalização da igreja, tornando-a mais visível, mais airosa, mais altaneira.


E assim foi. Em 1940, por ocasião de umas comemorações que ali tiveram lugar, foi inaugurado oficialmente este espaço que se nos apresenta hoje aos olhos, livre já das edificações, das casas antigas, algumas centenares que faziam frente à igreja e à casa do Cabido.

E já agora a triste realidade, ou se quisermos melhor, historicidade: é que se "devolveu" uma imponência a um edificio que nunca a teve! Nem passava pela cabeça das gentes medievais tal ideia.
A cidade medieval era um amontado quase totalmente desordenado de casas desalinhadas, hortas, pomares, fraguedos e terrenos baldios. Nunca este edifício esteve livre da outras edificações que se lhe avisinhavam, mais próximas ou mais afastadas; inclusive algumas a ele se adossaram, como numa simbose (a primitiva casa da camara vem-me à memória, se bem me lembro do que li).

Mas a filosofia de restauro da época vivia ligada à monumentalização dos edifícios pátrios das épocas gótica e românica, a que não foi alheio o culto da nação à maneira do Estado Novo. E por isso assim se impunha e assim se fez. Para sempre se perderam essas ruas.

Para sempre!

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Mudança de toponímia em 1835

Na sequência da Guerra Civil do qual D. Pedro IV se sagrou vencedor, derrotando e condenando ao exílio o seu irmão D. Miguel (bisavó do nosso contemporâneo D. Duarte Pio), a cidade pretendendo homenagear os "gloriosos" acontecimentos, alterou a toponímia naquela que foi, presumo, a primeira mudança de toponímia significatica. A maioria delas cairam já em desuso, mas algumas prevaleceram até à actualidade.
Mas sigamos com o que surge publicado no Periodo dos Pobres no Porto em 20 de Novembro desse ano.

"A Illm.ª Camara Municipal desta Cidade com o fim de recordar os dias, nomes, e acontecimentos notaveis da Guerra porfiosa que cubrio de Gloria esta Cidade heroica, e de guardar um como monumento desses feitos gloriosos: resolveu em Vereação de 28 de Outubro passado que as ruas, praças e campos designados na Lista seguinte houvessem d'ora ávante as denominações ahi declaradas.

>Largo do Olival ......... Largo dos Martyres da Patria
>Praça da Feira do Pão ......... Praça dos Voluntarios da Rainha
>Praça do Mirante ......... Praça do Coronel Pacheco
>Praça do Carvalhido ......... Praça do Exercito Libertador
>Campo de Santo Ovidio ......... Campo da Regeneração
>Campo da Torre da Marca ......... Campo do Duque de Bragança
>Rua de Santo Ovidio ......... Rua de dezasseis de Maio
>Rua do Reimão desde o Jardim de S. Lazaro até ao principio da Calçada que desce para Campanhã ......... Rua de vinte e nove de Setembro
>Rua da Boavista desde a rua de Cedofeita para o poente ......... Rua de vinte e cinco de Julho

>A continuação da Rua do Bolhão desde a Capella das Almas ......... Rua de Fernandes Thomás
>Desde o Largo de Carvalhido até á Fonte de Cedofeita ......... Rua nove de Julho
>Rua Direita de Santo Ildefonso desde o largo do Paço das Patas até ao de Santo Ildefonso ......... Rua de vinte e três de Julho

>O Postigo do Sol ......... Bateria do Postigo do Sol
>O Terreiro da Alfandega ......... Bateria do Terreiro da Alfandega
>Largo das Virtudes ......... Terreiro das Virtudes
>Largo da Victoria ......... Bateria da Victoria
"

domingo, 16 de fevereiro de 2014

Periodico dos Pobres no Porto

"Do jornalismo portuense de outros tempos foi esta fôlha a que mais importância logrou conquistar e a que mais influência exerceu nas lutas políticas travadas no Pôrto. Foi o órgão do partido cartista, que no Pôrto teve um dos seus mais poderosos baluartes. O fundador e proprietário do jornal foi Joaquim Torcato Álvares Ribeiro, lente da Academia Politécnica, nas cadeiras de matemática e astronomia. O número 1 apareceu a 15 de Janeiro de 1834, e de tal modo o jornal ganhou raízes na população que só terminou em Março de 1858, mantendo-se, durante todo êsse largo periodo de existência, sempre com galhardia e aparente desafôgo, vendo nascer e morrer muitas outras publicações do seu género, não poucas criadas para o combater. Apresentou diversos formatos, sendo o mais vulgar de 26x40 centímetros, impresso no papel almaço (ou antes mata-borrão) em que tôdas as impressões se faziam nessa época de manifesto atraso industrial. No seu género de político e noticioso, foi também um dos jornais mais bem feitos do seu tempo, deixando as melhores tradições no jornalismo portuense.

Simbolo d' O Periodico dos Pobres no Porto
Foi seu redactor e responsável, entre outros vários, o bacharel João Guilherme de Almeida Pinto. O folhetinista, em sentido humorístico, de crítica desapiedade aos políticos da época, foi, desde 1838, José de Sousa Bandeira, que, com o pseudónimo e Braz Tizana ali colaborou durante muitos anos, até 1851, ano em que se desligou dos compromissos que tinha neste jornal e foi fundar periódico seu, dando-lhe como título o pseudónimo de que usava (...).

A redacção e tipografia do Periodico dos Pobres eram na própria casa de Álvares Ribeiro, primitivamente na rua dos Lavadouros, 16, e mais tarde na rua Chã, 67, oficina que foi uma das mais produtoras do Pôrto, em jornais políticos, especialmente.

Entre os diversos processos que foram movidos ao Periodico dos Pobres, em harmonia com as leis de imprensa do tempo, avultou, pelo ruído que fêz, aquele a que o chamou o marechal Saldanha, quando se julgou injuriado por uma notícia ali publicada sôbre assunto de carácter particular e que, com efeito, parece não ter tido fundamento sério. Saldanha era muito querido no Pôrto, o periódico não o era menos e o processo apaixonou vivamente a opinião.

(...)

Alberto Bessa in o Tripeiro, 4º Série, Abril de 1931

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Um projecto que nunca foi avante...

No Arquivo Histórico Municipal do Porto, na casa do Infante, encontra-se armazenada preciosa documentação sobre a história e evolução da cidade, da sua urbanização, desenvolvimento, suas gentes...

A imagem abaixo mostra um projecto de Setembro de 1893, para estabelecer-se uma ligação entre a cidade alta e a cidade baixa, através do morro da Vitória, passando pela Rua de Ferreira Borges.

O projecto, guardado neste arquivo onde se apresentam várias plantas cuidadosamente desenhadas mostrando como funcionaria o mecanismo do tramway e suas partes, englobava um ascensor ao jeito do que existiu nos Guindais e também um outro vertical como o existente actualmente na Ribeira, e tem o seguinte título:

Projecto de um tram-way cabo destinado ao transporte de passageiros entre a Rua do Infante D. Henrique e o Largo de S. Domingos sobre a Rua Ferreira Borges
e
Projecto de um ascensor vertical destinado ao transporte de passageiros entre este último ponto e o Jardim da Bateria da Vitória



O projecto contudo não foi avante. Talvez motivado pelo desastre do ascensor dos Guindais, a cidade do Porto, uma das cidades que naquela época provavelmente mais utilidade acharia em semelhante meio de transporte, fechou as portas à sua existência; de vez!

Fica aqui esta imagem para recordar o que poderia ter sido, e uma outra mostrando abaixo o local onde ele iria começar e terminar.




NOTA: Para quem tiver tempo e vontade aconselho passarem no AHMP e verem esta planta e as outras associadas com mais pormenor, por forma a ficarem com uma melhor ideia de como estava este projecto desenvolvido. Além das plantas (esta por exemplo tem o tamanho de uma mesa de jantar de natal...) existe também a memória descritiva do mesmo, que abre o volume.

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

da Porta do Sol - 3

Nesta última postagem sobre a Porta do Sol, deixo algumas imagens sobre a evolução do lugar onde ela se implementava, comparativamente com a nossa época.

Na primeira imagem vê-se a subida para a Porta do Sol quando a rua Saraiva de Carvalho ainda não existia, e uma rua mais estreita - a de Santo António do Penedo - ligava a rua Chã à dita entrada e saída da cidade.
Assinalo a laranja, com um rectângulo o Palacete do Visconde de Azevedo (ainda existente) e com uma seta verde um outro edifício que fora de um Miguel Brandão da Silva.

O edifício que vemos à direita assinalado com a seta verde estava encostado à Capela de Santo António do Penedo, que foi também ela demolida por esses anos.


Iniciada a destruição de toda esta área em 1875 - precisamente com a demolição da Porta do Sol - em 1886 desapareceria quase tudo o resto. Motivo: criar novo e desafogado acesso ao tabuleiro superior da Ponte D. Luíz, ficando como se apresenta na actualidade na segunda imagem.


Abaixo vemos uma planta do século XIX da área aqui tratada. Com as mesmas cores são assinaladas as edificações da primeira imagem. Contudo, agora, é também assinalada a Capela do Penedo; que, note-se, não era propriedade dos mesmos donos da casa que a ela se adossava (seta verde).


A imagem de baixo mostra a localização de: a laranja o mesmo ângulo que surge na primeira imagem, a vermelho, o lugar por mim estimado (aceito rebate) da existência da Porta do Sol, o circulo verde aponta o local do edificio adossado à Capela de Santo António do Penedo e a azul o da dita capela.
Por curiosidade, marquei com a estrela rosa o local onde foi instituida a "Feira da Ladra" no Porto (à imitação da lisboeta), cujo terreno aparece delimitado por um muro na imagem da postagem anterior.


Na imagem de baixo, a Porta do Sol ficaria junto ao local onde hoje se encontra o quiosque embutido no muro.

Nas duas images abaixo temos novamente uma planta do como era a área imediatamente fora da Porta do Sol (conhecida por séculos como Carvalhos do Monte), e tal como ela se encontra agora. O local onde estavam as cavalariças é actualmente ocupado pelo términus do Eléctrico 22. Para que o leitor não se perca, assinalo a capela do antigo asilo das Desamparadas que servirá como ponto de referência para o resto.



Finalizo com a "cereja em cima do bolo", isto é, uma fotografia (a única que conheço) da Porta do Sol. Aqui se pode vislumbrar, por entre a porta, parte dos edificios mencionados acima.
Na outra foto abaixo, mais conhecida, se vê, depois de ter sido demolida a porta, a base do pilar do seu arco.


E nesta última, o local tal como se apresenta actualmente.


Fontes das imagens: livro: O Porto na época dos Almadas; Sites: Arquivo Histórico da Câmara Municipal do Porto, Googlemaps, Bingmaps e o blog Porto de Agostinho Rebelo da Costa aos nossos dias.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

da Porta do Sol - 2

Na sequência da publicação de ontem, coloco aqui um outro artigo da revista O Tripeiro; desta vez bastante truncado. Na última e final postagem vou colocar algumas gravuras, se bem que conhecidas, com algumas notas minhas mas também do Dr. Pedro Vitorino, retirada de suas publicações.

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"Queira o leitor acompanhar-me. A visita é perto e não o cansarei. Sahiremos da Praça da Batalha, enquanto não vem o carro eléctrico da linha 17, cuja chegada está para demora, passaremos ao lado do sul do theatro de S. João e pela frente do Quartel General e Casa Pia e, deixando ao nosso lado esquerdo a Rua do Sol e o Recolhimento das Meninas Desamparadas, encaminharmos-hemos para a Avenida Saraiva de Carvalho, e em frente ao Dispensário faremos alto. Terminou o passeio.

O leitor, se é leitor costumado de O Tripeiro, está farto de saber que o Porto teve duas cinturas de muralhas de defeza: A mais antiga e menor, - a do Burgo - (...) e a mais moderna, (chamada Fernandina, por se haver concluido no reinado de D. Fernando), de muito maior perimetro, porque a cidade tinha crescido em tamanho.

(...)

A Porta da Batalha era á entrada de Cima de Villa; a Porta de Carros, no largo da Feira de S. Bento; o Postigo de Santo Eloy, nos Loyos; a Porta do Olival, na Cordoaria; a Porta Nova ou Porta Nobre, proximo a Miragaia, e a Porta do Sol, no ponto onde pedi para nos determos, isto é, em frente ao Dispensário.

Repare o leitor para a gravura que acompanha estas linhas. Ao cento verá a Porta que uma Camara de conspicuos vereadores entendeu mandar deitar abaixo em 1875 para se ampliar o edificio da Casa Pia(1)

Chamava-se Porta do Sol, por que n'uma das faces do tympano tinha esculpida a figura de um sol com os raios respectivos. (...) Primeiramente chamou-se Postigo do Carvalho ou dos Carvalhos e depois de Santo Antonio do Penedo, por causa de uma ermida d'este santo que ahi se construiu.



Em 1768 achava-se em completo estado de ruina. O governador D. João de Almada e Mello fel-a demolir e mandou edificar em seu logar, uma nova, tal como a representa a gravura, ornamentada com o sol em que fallei e com esta inscripção latina:

SOL HUIC PORTAE
JOSEPHUS LUSITANO IMPERIO
JOANNES DE ALMADA E MELLO
PORTUCALENSE URBI FINITIMISQUE
PROVINCIIS AETERNUM
JUBAR GANDIUM PERCUNE

A gravura que illustra esta pagina é a reprodução de uma outra feita a lapis pelo antigo e muito considerado professor de desenho snr. Francisco José de Sousa, e copiada a crayon, para O Tripeiro, com a sua bem conhecida aptidão artistica, pelo meu querido amigo e collaborador artistico snr. José Augusto de Almeida.

Por ella poderemos muito bem ficar fazendo uma ideia da disposição do local em 1859.

(...) Do lado esquerdo, ao fundo, vê-se uma parte do Convento de Santa Clara, o qual funcciona presentemente o Dispensário; mais á frente, o mirante das freiras, que ainda lá existe, actualmente sem cobertura, e no primeiro plano um barracão baixo. Como, ao tempo, na cidade não havia quartel para cavallaria permanente, era nos barrcões do Largo da Policia que se recolhiam as praças e os solipedes dos destacamentos de cavallaria vindos, de quando em quando, de Bragança e Chaves, para augmentar a guarnição do Porto. No do lado esquerdo aquartelavam-se s praças e no da direita os animaes.

Junto á Porta do Sol, do lado direito, vê-se uma parte do edificio da Casa Pia. Separada d'elle, por uma rua, a casa para alojamento dos officiaes de cavallaria, nos baixos da qual existia um deposito de palha, e á frente as cavallariças. Um cruzeiro com a imagem do Senhor dos Afflictos, cruzeiro que, mais tarde, foi mudado para junto da capella de Santo Antonio do Penedo, completa o quadro.

Basta de massada, leitor. Quando quizer póde voltar á sua vida e ir contemplar o chavascal onde se ergueu a Capella da Batalha, se não preferir ir tirar o retrato á la minute ou tomar um copo de cerveja gelada á Cervejaria Bastos, emquanto espera pelo electrico n.º 17.

Até outro dia. Boa Viagem."

H.P. in O Tripeiro, 1926

_______________________________________
(1) "...foi um vandalismo quasi escusado, por que o edificio era bastante vasto e o monumento (que em nada estorvava o transito publico, porque o vão do arco era amplo) pela sua elegancia, adornava o sitio e era um padrão comemorativo do varão a quem o Port tanto deve". Pinho Leal, in Portugal Antigo e Moderno, vol. VIII, pag. 285.

Fonte da imagem: O Tripeiro, 3ª Série

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

da Porta do Sol - 1

O artigo aqui transcrito, fui busca-lo ao segundo ano da primeira série da revista O Tripeiro (1909-1910). Num outro post a colocar posteriormente transcreverei um segundo artigo, ainda que apenas parcialmente, da mesma revista e versando o mesmo tema.
Vamos então ao dito artigo que o próprio Tripeiro repescou da revista Porto Illustrado de 1863, portanto numa altura em que a Porta do Sol ainda existia:

"A ANTIGA PORTA DO SOL

Da muralha que circundou o Porto, construida durante os reinados de D. Affonso IV, D. Pedro e D. Fernando, poucos vestigios existem hoje, dignos de especial menção. O unico, talvez, é a Porta do Sol. Porém, a Porta do Sol, elegante construcção que ella é, e que bem se mostra despida do caracter d'essa antiguidade, a que pertence a muralha; tal como ella existe e como se vê na nossa gravura, não é comtemporanea da grande obra que occupou, diz-se, os reinados dos tres soberanos.

Além das portas  que costumavam ter todas as muralhas das terras afortalezadas, que eram as portas principaes para o serviço publico, havia também outras portas mais pequenas, de somenos construcção e pequeno concurso, a que baptisaram com o modesto nome de postigos, como o dos Banhos e do Pereira, que ainda se vêem de pé, estes com saída para o rio. Pela parte da terra havia outros, e um d'estes era o do Sol.

Porém, sobre o velho postigo do Sol, por se achar extremamente arruinado, se levantou em 1768 o arco actual, que custou a quantia de 960$306 réis, sendo feito por ordem do general e governador das justiças que então era João d'Almeida [sic] e Mello, pae do grande Francisco d'Almada. Os mestres pedreiros Caetano Pereira e José Francisco foram os que arremataram e levaram a cabo esta obra, que ficou concluida no mez d'agosto do dito anno de 1768; mas só a 28 de fevereiro do anno seguinte é que foram embolsados da sua importancia.



Eis aqui a conta, conforme se vê no livro competente, que se acha no cartorio da camara d'esta cidade:

Liquidação do que importa a obra da Porta do Sol feita por ordem do ill.mº e ex.mº snr. General e Governador das Justiças.

.4982 palmos de esquadria lavrada de escada de socco, que corre em volta por baixo de toda a obra, superficie das pilastras, e na superficie da imposta, architrave e frizo, em rustico, e superficie do arco, tudo feito e acabado, posto em seu logar conforme arrematação e plano - a preço de 79 réis
... 393$578

.2475 palmos de moldura nas bazes das pilastras, capiteis e frizo, comprehendendo tudo em volta e seus membros particulares, como tambem o coronamento do timpano, tanto pela parte interior como exterior, e acabado conforme a arrematação, o palmo pelo preço de 130 rés
... 321$750

.70 braças e mais 22 palmos no interior da porta no cheio de alvenaria argamaçada, a braça de 200 palmos, conforme arrematação, pelo preço cada uma de 2$280
... 159$765

.1140 palmos de lagedo no pavimento da empena, o palmo a preço de 18 réis
... 20$220

.3 braças e mais 175 palmos de alvenaria na parte que uniu o muro á porta da parte do Convento, a preço cada braça de 1$400 réis
... 4$997

.42 braças e mais 250 palmos no muro que fizeram no sitio onde foi a torre, cada braça a preço de 1$400 réis
... 59$716,6/9

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960$306/9

Somma a conta toda a quantia de novecentos e sessenta mil trezentos e seis réis, mais seis nonos de real, que tanto se deve aos mestres.
Porto, 29 de agosto de 1768

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Isto dizia o Porto Illustrado, de junho de 1863; mas o camartello do progresso, de então até hoje, encarregou-se de supprimir estas reliquias do velho Porto. Qual mal fazia á cidade a conservação do arco do postigo do Sol?"

Fonte da Imagem: O Tripeiro, 1ª Série

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

O Commercio do Porto

Mantendo hoje o decanáto da imprensa do Porto [1926], é, incontestavelmente, em formato, em methodo e norma de vida, e em importancia, o primeiro diario da cidade invicta, que n'elle tem o mais o mais denodado e audaz palatino dos seus interesses, seja qual for a acepção em que a palavra interesse possa ser tomada dentro dos limites do confessavel. Apenas com o titulo O Commercio, apareceu o seu primeiro numero em 4 de Junho de 1854, n'um formato pequeno, de 46X33 centimetros, como que a mêdo de tentar a vida, que no futuro havia de desabrochar em continuos triumphos e em completo successo. Foram seus fundadores Manuel de Sousa Carqueja, dr. Henrique Carlos de Miranda e Xavier Pacheco, e destinava-se a sahir á luz apenas trêz vezes por semana - ás segundas, quartas e sextas-feiras, com informações que interessassem á Praça do Porto, então, como hoje, o centro commercial das provincias do norte do paiz. Atravessou varias crises, que puzeram, por vezes, em perigo a sua existencia, mas teve sempre a amparal-o a energica actividade e a confiada previsão do seu fundador Manuel de Sousa Carqueja, que nunca abandonou aquele fillho, certo de que elle havia de vir a honrar-lhe a memoria. Manuel Carqueja e Henrique de Miranda foram os unicos de todos os accionistas da empreza primitiva, que não se deixaram levar do desanimo que a todos os restantes avassalára e os fizera retirar.

O seu primitivo titulo era apenas O Commercio, como já dissemos, mas logo a 2 de Janeiro de 1856 passou a adoptar o titulo que ainda hoje mantém [1926], augmentando de formato, como que para demonstrar aos que o supunham moribundo, que se sentia com forças e com vontade de avançar pela vida fóra. E tanto progrediu e tanto avançou, que ahi o vemos hoje, com os seus setenta e dois annos de existencia, com a sizudes e a severidade que um tal numero de annos justifica, mas modernisado, com a vivacidade e a compostura de um rapaz bem educado, filho de boa familia, que o era, com effeito, a que lhe deu o ser. O Commercio do Porto, mantendo a dignidade da profissão jornalistica, pela escrupulosa correção dos seus processos de trabalho, é hoje, sob a intelligentissima direcção do snr. dr. Bento Carqueja, uma verdadeira potencia, não honrando apenas a cidade do Porto, mas simultaneamente toda a imprensa do Portugal. Têem sido seus collaboradores, entre muitos outros, Camilo Castello Branco, visconde de Benalcanfor, José Joaquim Rodrigues de Freitas, Arnaldo Gama, I. de Vilhena Barbosa, José da Silva Mendes Leal, Manuel Pinheiro Chagas, Antonio de Serpa, José Luciano de Castro, Rangel de Lima, etc.

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Alberto Bessa, in O Tripeiro, 3ª série, 1º ano.

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Ainda o Botequim do Pepino

Sobre este célebre - por fracas razões - botequim, dei de caras no Tripeiro com umas preciosas notas na volume correspondente ao seu primeiro ano (1908), na secção das "perguntas e respostas". Tencionava verter para aqui a informação que lá surge com a descrição que Arnaldo Gama lhe faz; contudo opto por não o fazer dado que iria repetir a informação já difundida no Porto, de Agostinho R. da Costa aos nossos dias, em http://portoarc.blogspot.pt/2013/11/divertimentos-dos-portuenses-xxii.htm (aliás um excelente blogue que vale bem ser seguido).

Apenas apenso a essa informação a seguinte, com carácter já secundário, mas que está também na tal secção de perguntas e respostas:

"O Botequim do Pepino, em Cima do Muro, era muito concorrido da marinhagem estrangeira e de mulheres de má nota do Forno Velho e immediações. As desordens alli eram frequentes. O predio, juntamente com os demais do mesmo lanço do muro, foi demolido, quando se construiu a rua que segue da dos Inglesez para a Alfandega. O botequim transferiu-se para o Forno Velho. Não sei se ainda lá existe ou algum seu descendente. O Rodrigues Sampaio, o Sampaio da Revolução, era accusado pela imprensa adversaria por ter sido freguez do mesmo cafe, quando era guarda da Alfandega ou coisa que o valha. Cito este facto de memória mas creio não estar em erro.
Um tripeiro da gêmma, baptisado em S. Nicolau"

Em relação ao dono deste estabelecimento, conheço biograficamente uma data, a do seu casamento! Isto porque, no Periodico dos Pobres no Porto de 18 de Outubro de 1845, me deparei com esta escavação: "Anteontem de tarde atravessava a todo o trote a Praça de S. Lázaro um cabriolé a quatro, carregado de pessoas do sexo feminino em grande luxo, e acompanhado de cavaleiros. Era o botequineiro Pepino de Cima do Muro que tinha ido casar, e que se recolhia a casa em grande estado."