sábado, 21 de dezembro de 2013

A Rua dos Banhos

"A mão do progresso, passando por cima das velharias clássicas, vae transformando por toda a parte em sitios arejados e limpos, becos immundos e abafadiços, que serviam de commoda habitação para nossos paes, mas onde as gerações modernas acabariam infallivelmente por asphyxiar-se.

O Porto antigo era uma cidade de becos tortuosos, de viellas immundas. Mas o nivel da civilisação, invadindo tudo, derribou, alargou, aperfeiçoou, e dentro de poucos annos, a continuar este afan, só de nome se conhecerão as velhas ruas, sepultadas hoje sob as fileiras de elegantes edificações.

A rua dos Banhos é uma d'aquellas de que já não resta o menor traço. Pois não era das de menos importancia da cidade; era até das de maior ruido d'outros tempos. Ruido na verdadeira accepção da palavra.

Alli, a dous passos d'ella, sob a aboboda d'aquele arco, aberto na muralha da cidade, e coroado d'uma cousa que que mereceu aos nossos bisavós o nome de forte, apinhavam-se os barqueiros, que em todos os tons da escala da apoquentação humana, martyrizavam os viandantes perguntando-lhes se queriam ir para além. Os caleches, procedentes da Foz, giravam saltando por cima do mal calçado pavimento da rua, com grave incommodo para os membros dos que iam dentro e flagrante offensa dos ouvidos dos que passavam fóra. E como se isto não fosse tudo, moravam por alli uns tanoeiros, que martelavam todo o santo dia, pondo em agoa as cabeças do respeitavel publico.

Era pois uma rua de muito ruido a dos Banhos.

De dia era isto; mas de noite mudava muito de figura. Então a rua dos Banhos tomava um certo caracter poetico, que era exactamente o contrario do que se passava de dia. De dia era o afan do negocio; de noite a avidez do prazer!

O botequim do Pepino será para sempre memorável nos annaes do Porto. Muitas desordens alli houve! Muitos descantes acordaram os eccos solitarios do rio Douro! Muitos fadistas de banza debaixo do braço sahiram d'alli para o Carmo, não sem terem em antes experimentando forças com a patrulha municipal!

Aquella casa era frequentada principalmente por tripulantes dos navios inglezes, que vinham abastecer a cidade de bacalhau; e aquelles que assim tinham tanto cuidado em que não morressemos á fome, não se inquietavam por que viessemos a morrer á sede, e arrecadavam á farta nos seus impermeaveis estomagos o nosso rico Port-wine. Assim, no relogio do Pepino, cada minuto marcava uma bebedeira, que, principiando alli, ia completar-se em alguma das tabernas dos Banhos.

Eram immundissimas aquellas pocilgas da prostituição e da crapula; mas os nossos fieis alliados, depois d'aboborados os cascos, não achavam prazer acima do de dançarem algumas horas abraçados áquellas nymphas avinhadas, ou regougarem algumas modas da sua terra ao som da guitarra, tangida por ladino filho da Entruja.

Por fim de muito tumultuar, esta orgia tinha sempre dous modos de findar: Se o guitarrista dava leves indicios de ciumes, porque alguma das nymphas parecesse sympathisar com o roast-biff, a banza não tardava a voar pelos ares feita em cavacos, e ás delicias de Orpheo succediam as do socco inglez, destribuido pelos pulsos afeitos a ferrar o joanete. Então as deusas, transformadas em eumenides, de olhar irado, faces rubras e cabellos em desalinho, faziam ouvir uns gritos roufenhos, que acordavam a guarda, que, muito de proposito para prevenir dissabores, estacionava no chamado forte, que, para ser tudo, até no século passado tinha o seu commandante sem soldados naturalmente (1), e lá ia toda a sucia dormir ao Carmo. E a dormir acabava invariavelmente a funcção, porque de outro modo, quando entre os folgasãos não era perturbada a doce paz, Morpheu encarregava-se de pôr termo á festa, e dentro de poucas horas resonavam estendidos uns por cima dos outros nymphas, marujos e fadistas.

Era este o espetaculo de todas as noites, sem que o cartaz variasse sequer, de um dia para o outro, os nomes dos actores.

E muitas vezes aquelles tenebrosos sitios tornavam-se focos de tremendas conspirações contra as vidas dos filhos d'Albion, que por fim eram sempre o bode expiatorio das vistas cubiçosas dos collegas da orgia. E não raro o que principiava em simples comedia acabava em pura tragedia. Até se dizia que no Pepino se matavam inglezes, se roubavam e se arremassavam os cadaveres ao rio. Esta reputação tetrica, além do que fica dito, dava grande importância ao botequim  e ás suas irmãs gemeas, as tabernas dos Banhos.

Se o leitor já está convencido de que a rua dos Banhos era uma das de mais ruido do Porto (eu refiro-me aos leitores que não conheceram aquella rua) resta-me convidal-os a ir ao sitio em que ella se ostentou outr'ora, orgulhosa nos seus vicios, soberana na sua immundice, despotica na ralé dos seus frequentadores; convida-os a ir alli escutar os seus eccos, que já não trazem o minimo rumor de tanta vida, e dirão, passados de surpreza:
- Pois será possivel?

Era exactamente o que eu diria se não tivesse conhecido a rua dos Banhos tão bem como as minhas mãos.

Isto tem uma explicação:
É que a rua dos Banhos teve a sorte das grandes povoações, a sorte de Pompeia e Herculano, de Carthago e de Babylonia. Onde houve outr'ora uma vida activa, é hoje o nada. Por cima de uma população tão inquieta, paira agora o deserto.[2]

Até nisto foi grande a rua dos Banho!"


1- Em 19 de Janeiro de 1719 foi nomeado pela camara commandante do Forte da Porta Nova (ou Nobre) o capitão Diogo d'Andrade Gramacho. E´ histórico.

[2 - Depreendo que este "deserto" se refira a todo aquele bairro estar já sem casario mas ainda com o empedrado das ruas "à mostra", à espera de ser soterrado para criação da sapata da Rua Nova da Alfândega, aquando este texto foi escrito].

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Excerto do primeiro capítulo de um romance publicado no Archivo Popular, em 1873. Autor: António Augusto Leal.

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