terça-feira, 31 de dezembro de 2013

A Próva effectuada á ponte pensil - parte 1

 (Artigo editorial do jornal O Periodico dos Pobres no Porto, em 30 de Março de 1853)


"Agora que o fumo dos foguetes se extinguiu no ar, que os sons da musica marcial deixárão de ferir os ouvidos porque a ponte pensil resistiu á próva official d'estabilidade, entraremos na analyse dessa prova, tendo à vista o relatorio do engenheiro o Sr. Mousinho que a ella presidiu. Não o faremos com animo hostil à empreza, nem para incutir receio no público; mas para que se exclareça a questão, porque em tal assumpto o occultar-se parte da realidade, ou uma crença erronea, podem ter consequencias desastrosas. Se a imprensa, antes do naufragio do vapor Porto, tivesse analysado o pêso que merecia a voz de estar arruinada a caldeira, se tivesse provocado um exame rigorozo do barco; o resultado seria, ou a condemnação daquelle vapor, ou a persuasão do seu bom estado; e foi ao pouco que nelle confiavão que principalmente se deve aquelle sinistro; pois se os passageiros não forçassem o commandente a retroceder da Figueira receosos de que não pudesse vencer o temporal pela proa, não lastimariamos hoje tantas mortes. A discussão é pois sempre util em taes circumstancias.

Tanto mais é para desejar que a discussão esclareça este objecto, por isso que a próva primeiramente annunciada ha mais de dous mezes com grande ruido, foi protelada com o pretexto de mau tempo, tendo neste intervallo havido dias successivos seccos e d'athomsphera limpa, o que não aconteceu naquelles em que a experiencia se fez; e verificando-se a final esta quando no Porto não estava nem o Governador Civil effectivo, nem mesmo o Secretario Geral que o substitue, pessoa cuja responsabilidade o Govêrno podia tornar mais effectiva.

Annunciada por terceira ou quarta vez para os dias 17 e 18, não se fez naquelle dia, apparecendo editais de que não se annunciaria de novo, e teria logar no primeiro dia de bom tempo; e a 18, sem annúncio algum se começou, sabendo-o nesse dia poucas pessoas. Apezar de que as pipas se enchião fora da ponte, não se dava acesso ahi ao público; as pipas vertião bastante; e tudo isto incutiu em muitos desconfiança. E que da parte mesmo dos empregados havia não pequeno receio pelo resultado dapróva, deprehendeu-se por se julgar um triumpho e um atrevimento o Administrador passar a ponte, quando carregada, n'uma sege a trote.

O relatório começa por classificar a ponte pensil « uma das mais bellas obras d'arte que temos no nosso paiz, e podendo dizer-se a mais atrevida que entre nós se tem construido ».

Esta belleza não a comprehendemos bem: a belleza d'uma obra d'arte deve avaliar-se tambem pela sua solidez e por corresponder aos fins, e não so pela sua elegancia e proporções: e tanto é duvidosa a primeira condição, que, depois de ouvidas as authoridades e pessoas competentes, julgou-se necessaria nova próva, e SS. MM. forão acconselhadas a que não fizessem por ella a sua entrada no Porto. E' constante, e não somos nós que o dizemos que o não vimos, que a amarração, do norte, dos cabos de suspensão ficou de maneira escondida que não póde verificar-se o seu estado de conservação: será isto belleza? a ponte foi collocada tão distante da maior passagem entre os dous caes, e isto por economia da empreza, que dous terços dos que passão o rio preferem embarcar a irem dar a volta pela ponte: será isto belezza?  e quando houverem de andar diligencias na estrada de Lisboa, tem de abrir-se de proposito uma comunicação entre a ponte e o caminho que se talhar para ellas.

«A mais atrevida: » se o atrevido está em ser a delgadeza de seus cabos mui notavel em relação á sua extensão, como attestão pessoas que tem examinado n'outros paizes obras deste genero»; concordamos: mas não é atrevimento que louvemos. Mais atrevida seria se fosse, como a empreza primitivamente contractára, em frente da rua de S. João; mas entre duas montanhas de granito, e no mais estreito do rio, não sabemos que menos atrevida pudesse ser. Atrevida seria uma ponte de pedra que desde muito se projectára no Porto, entre a Serra do Pilar e a Casa Pia: essa sim seria atrevida, mas tornaria o Porto mais magestozo, tornaria uma so as duas povoações ao norte e sul do Douro, e facilitaria grandemente o transito para a estrada de Lisboa.

Mas vamos á próva e ao que ella vale.

« O maximo pêzo a que uma construção destas tem de resistir, suppõe-se ser o de uma multidão de gente a pé, que cubra todo o seu pavimento; este pêzo está calculado entre 195 e 200 Kilogramas (429 a 440 arrateis) por metro quadrado.»

Esta base de pêzo é exacta se calcularmos uma passagem regular em dia de concorrencia, e não uma agglomeração extraordinaria de gente: n'um quadrado de quatro palmos e meio por lado, estavão certamente mais do que 4 pessoas n'um apinhamento de povo como o que concorreu ao caes na entrada de SS. MM., ou em outras occasiões de grande affluencia.

O maximo pêzo? pois se por a ponte houvesse de passar um trem de artilharia, um regimento de cavallaria, uma sequencia de transportes carregados, esse pêzo não podia ser muito maior?

Dir-me-hão que esse caso se não dá, porque se prohibe por cautella: mas então diga-se que se fez a próva somente para pessoas a pé e não andando, e que pelo mais não respondem.

A próva foi sommente em relação á pressão de infantes immoveis. E não tem a ponte de soffrer a acção de outras forças que ataquem a sua estabilidade? Se em vez do pêzo dessas duas mil e tantas pessoas para que a ponte foi experimentada, essas pessoas caminharem; poder-se-há affirmar que a ponte resistirá? e se essas duas mil pessoas forem de tropa, que caminhem a passo certo, mais ou menos accelerado, poder-se-há assegurar que poderão passar sem risco? Não pertendeu demonstrar, se não demonstrou, um engenheiro francez, por occasião do desastre d'uma destas pontes, que não havia uma unica Ponte pensil em França, apesar de serem em geral mais fortes, que ressistisse á passagem de um batalhão a marche-marche?

A mesma experiencia triumphante do Sr. Administrador correr a trote em sege pela ponte carregada, adduz receio de pouca estabilidade, se é certo, como affirma um preambulo do J. do Povo, que fez repuxar a agoa pelos batoques das pipas a palmo ou palmo e meio d'altura. Que oscilação não era preciso produzir no estrado da ponte para se dar este effeito? E se fossem oito ou dez seges que passassem a trote, mesmo descarregada a Ponte, a que fôrça de flexão não corresponderia, e demais em sentido alternativamente contrário, a que o ferro resiste menos?

Até aqui não consideramos senão os effeitos das fôrças de flexão; e ja temos demonstrado que a próva não demonstrou que havia estabilidade para todos os casos, e menos no de movimento. Porêm se attendermos tambem ás fõrças de torsão a que os cabos e os arames verticaes podem estar sujeitos por um temporal, mesmo por um vento algum tanto rijo, a próva demonstra ppor ventura a estabilidade nesse caso?

Se attendermos pois ao pêzo, ao movimento, e a uma mesmo não grande fôrça de torção, que nos habilita uma próva usual, como a que se fez, para nos dar plena segurnaça?

Quando a ponte tinha meia carga, o augmento na flexa pareceu excessivo, e o não corresponder a esse o augmento com a carga total, fez que se attribuisse ao calor do sol parte desta dilatação, o que confirma por a comparação desse augmento em diversas horas do dia. Concedido, de barato, que a acção solar tivesse tanta influencia na experience, não era essa mais uma razão para que a próva se tivesse feito no inverno, em que, o calor solar sendo menos intenso, era a dilatação do ferro menos influida por essa causa estranha á experiencia?

Convem tambem que o público saiba bem o que vale uma próva destas, ainda quando feita com o maior escrupulo. O tempo entra por muito nas condições d'estabilidade, principalmente quando a oxidação ou outros agentes como a agoa podem operar mudança notavel nos corpos de qe depende essa estabilidade. Não vimos nós  muro da cidade sôbre o rio resisitir por seculos a cheias, a terremotos, a projectis de artilharia? que melhor próva de estabilidade do que as duas últimas cheias, principalmente a primeira, em que não so não soffreu apparentemente abalo, mostrado por fenda ou desaprumo, apesar do choque da corrente, e da tração produzida pelas amarrações de navios, as quais transmittião ao ponto de apoio no muro a fôrça com que a grande corrente os impellia? E no emtanto algumas semanas depois desta grande próva d' estabilidade, o muro desabou, sem o menor choque ou tracção, e poz em risco de desabarem algumas moradas de casas que sôbre elle se apoiavão: e se nessa occasião houvesse concorrencia de povo a elle encostado, terião havido muitas victimas.

E' este um objecto em que, para qualquer empreza, deve a boa fé estar acima de interesses mesquinhos. Diga-se o que vale a próva, o que é a próva; que, havendo cautelas em não passarem muitas pessoas junctas, e menos em passo certo; em não percorrerem junctos muitos transportes; e não se dando a circumstancia de um vendaval; a ponte podera considerar-se segura na actualidade: mas que essa segurança póde falhar por differentes causas. E sendo a oxidação um dos peores inimigos da sua duração, porque se insiste em pintar de preto e não de branco os arames, quando esta côr é acconselhada por deixar melhor conhecer a ferrugem?

O engenheiro que dirigiu a experiencia merece-nos muito conceito de amor pela sciencia para que não se dê ao trabalho de esclarecer-nos e o público sôbre estas dúvidas, a que chamamos a sua attenção, e a discussão das pessoas mais versadas nesta especialidade, ou que a professão."

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