domingo, 24 de novembro de 2013

A rivalidade Porto - Lisboa

A rivalidade entre Porto e Lisboa não é do nosso tempo, e muito menos se limita ao futebol (uma visão algo mesquinha e ignorante da "coisa"). Não tendo pergaminhos para descorrer sobre a sua origem, causas e desenvolvimento, deixo aqui um pequeno texto que saiu em 14 de Setembro de 1855, no jornal O Comércio (primeiro nome do O Comércio do Porto) que brinca com o lisboeta que vêm em visita ao Porto. Notar que estamos a referir-no aos meados do século XIX...

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As festas da aclamação em Lisboa prometem ser brilhantes, o que estimamos porque se não somos da capital somos portugueses. Sentimos porém que os festejos nos privem das visitas que às vezes se dignem fazer-nos os nossos compatriotas da metrópole.
É sempre para nós um prazer o ver na nossa província um lisbonense. Não se tenha medo de que o não conheçamos: denunciaom-no aqueles meneios, aquela nonchalance e ar de superioridade que constitui o capitalista ou leão de água doce. Estropia, a propósito de qualquer coisa, algumas palavras francesas que ouviu no teatro de D. Fernando, e desce a calçada de Santo António cantarolando Les filles de Marbre. Vota o mais profundo desprezo aos nossos edifícios e sente o mais santo horror pelas Fontainhas e S. Lázaro. Conta as mais romanescas aventuras da Floresta Egípcia e para mostrar até que ponto chega a nossa insipidez aponta a falta do inebriante espetáculo dos touros.
Quando não fala, nem por isso se deixa de conhecer a sua terra natal. É esta a ideia que o domina. Chamem-lhe parvo e pretencioso, mas digam que é lisbonense, que não é provinciano, e ficará satisfeito.
Ele vai à noite ao Guichard, e sente a mais viva indignação ao ver que os garçons dos cafés do Porto não tem os mesmos nomes que os do Marrare e Martinho. Admira sobremodo que o Matta não tenha uma sucursale nesta retrogada terra.
Quando passa pela Batalha, acomete-o uma saudade pungente pelas noites de S. Carlos, para falar de Alboni que lá esteve e da Grisi que nunca lá foi.
A falta da açorda que papava em Lisboa lembra-lhe a estátua equestre de que se ufana; e a seriedade dos frequentadores do Portuense trás-lhe à memória aquelas noites do Marrare tão cheias de espírito que só há ali, que é perfeitamente da capital.
O capitalista fala de tudo com a frivolidade que o caracteriza, e tudo lhe serve para comparar o atraso da província com a alta civilisação da capital, porque, seja dito entre parêntisis, raramente o Leão fala em Lisboa, mas sempre na capital. Enfim debaixo da pele do leão, que vestiu, facilmente se descortina a orelha que é sua.
O provinciano reconhece e confere ao lisbonense a superioridade... no ridículo. É por isso talvez que não tem a pretensão de imita-lo.
Vanitas, vanitatum, alfacia, alfaciarum.
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Este texto, diga-se, surgiu no jornal uns dias depois de um outro mais curto, escrito com certeza por um capitalista, sobre o provinciano que visita Lisboa. Mas quanto a esse deixo que algum "lisbonense" que visite a Biblioteca Nacional o procure e traga a lume no seu blog sobre Lisboa...

Nota final: Não sou anti-lisboa nem coisa que se pareça. Amo a minha cidade mas não sou fundamentalista. O Porto é uma cidade soturna, granítica, cinzenta e com um nevoiro "londrino" que lhe confere um carácter agreste. E por isso acredito que não seja, mesmo para o lisbonense com coração aberto, fácil de gostar. Lisboa tem uma natureza luminosa. Gosto particularmente da imensa luz que inunda a baixa pombalina e dos edificios que a compõem. "Graças" ao terremoto a cidade pode renovar-se em grande parte e assumir um plano mais regular de ruas e praças que, sinceramente, me agrada. Esta área edificada em plano não inclinado ajuda à monumentalidade dos seus edifícios. Os bairros típicos serão por ventura, para o portuense que a visite, "o menos típico". Pois que é de ruas de sobe e desce, íngremes ou suaves, longas ou compridas, que é composto, na sua maioria, o centro histórico da invicta.
E mais poderia dizer, mas por aqui me fico.

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