domingo, 16 de junho de 2013

A Ponte de Matosinhos

Transcrito abaixo está parte de um artigo d' O Tripeiro, escrito por Flávio Gonçalves, e publicado no ano de 1953, em Fevereiro.

"(...) a ponte que agora liga Matosinhos a Leça da Palmeira concretiza, realmente, uma obra que nada deve à arquitectura ante-seiscentista.

DESCRIÇÃO ARQUITECTÓNICA

Passando à descrição da ponte, começamos por dizer que é feita de granito e que tem uma série de pormenores originais.

Constituem-na dezoito arcos de volta inteira, os quais sustentam um tabuleiro várias vezes remodelado, em cujo pavimento passa a estrada. Quanto ao número dos arcos, Cerqueira Pinto escreveu na História do Bom Jesus de Bouças que eram dezanove, levando Godinho de Faria [Monografia do Concelho de Bouças, 1899] a repeti-lo e o Guia da Leixões a supor que outrora existiam, de facto, dezanove arcos, e que um havia desaparecido. Mas pode tratar-se de um erro de contagem de Cerqueira Pinto; ou então as obras de urbanização e de viação efectuadas em Leça da Palmeira ou em Matosinhos roubaram-lhe esse arco.

A curva dos arcos mostra-se perfeitamente redonda, de pleno cintro, sendo as aduelas lisas, sem almofadas e quase iguais entre si, do que resulta uma linha regular no extradorso. Diferem bastante uns dos outros os diâmetros dos arcos: - muito reduzidos nos primeiros nove arcos (começando-se a contar da margem sul), maiores nos restantes (os mais próximos da margem norte), e atingindo no décimo quarto a máxima extensão.

O tamanho dos pegões varia de modo inverso, aumentando de largura quando diminui a amplitude dos arcos. A separar os arcos mais pequenos estão, portanto, pilares e tímpanos larguíssimos, verdadeiras paredes de cantaria, onde nem sequer se vêem cortamares ou contrafortes, mas sim, no alto, alguns modilhões.

O aparelho arquitectónico é regular e médio, de sihares dispostos em fiadas horizontais, e isto tanto no intradorso dos arcos, como nos tímpanos (sem olhais), como nos cortamares. Estes últimos, que só aparecem nos pilares mais estreitos - entre os arcos maiores - têm forma prismática e secção triangular na vace voltada a juzante, e forma semi-cilíndrica e secção semi-circular na face voltada a montante. Semelhante particularidade não é vulgar na composição das pontes. Os talhamares de base triangular, quando existem, colocam-se da banda de montante, por razões de ordem práctica, lógica e até científica.

O tabuleiro da ponte desce ligeiramente de Leça para Matosinhos, em rampa mal perceptível, e perto da margem sul flecte um pouco para a direita, numa pequena curva. De um e do outro lado do pavimento levantam-se os muros das guardas, que devem provir de uma época distinta do resto da construção, já pela diferente qualidade do granito, ainda sem patine, já pelo próprio aparelhos e argmassa. Pertencem, por certo, a qualquer das obras que em 1816 e em 1883 se realizaram no monumento.

As dimensões da ponte são [em metros]:
Comprimento total: 121,50
Idem, da curva até à margem sul: 26,20
Largura junto da margem norte: 4,00
Idem, a meio da ponte: 4,22
Idem, junto da margem sul: 4,20

Cumpre analisar, finalmente, as duas meias-laranjas abertas no tabuleiro, sem dúvida os pormenores mais curiosos deste monumento. Compõem-se de dois corpos ligeiramente ovais, de fundo lageado, que apoiados cada um no seu talhamar cilíndrico, avançam fora do piso da ponte, formando varandas para o lado de montante. Tais construções distinavam-se a facilitar o cruzamento de carros, descongestionando a via. Ainda se utilizavam como miradouros ou caramanchões, para o que serviam os bancos de pedra que lhes correm a toda a volta.

A primeira meia-laranja, encontra-se mesmo na curva que o tabuleiro faz, à distância de 26,20m da margem sul (Matosinhos) e de 95,30m da margem norte (Leça da Palmeira). Adiante 25,30m fica a outra meia-laranja, a 70m da margem norte e a 51,50m da margem sul. O uso destes corpos salientes - feitos para dar passagem aos carros, cavalos, e peões que se enfrentavam na ponte - divulgou-se a partir do século XVII. Já na antiga ponte de Coimbra existia o chamado Ó da Ponte, remontante às construções nela efectuadas nos fins do século XVI e nos primeiros anos do século seguinte. Tratava-se de um redondo, colocado quase a meio da ponte, que se compunha de dois semi-círculos murados, assentes em pegões cilindricos e separados pelo pavimento da estrada. Felizmente que logo em 1669 durante a célebre viagem de Cosme de Médicis, o florentino Pier Maria Baldi fixou o aspecto dessa desaparecida ponte coimbrã, em duas aguarelas de notável precisão que as artes gráficas reproduziram e que andam bastante divulgadas no nosso país.

No século XVIII a aplicação das meias-laranjas tornou-se mais frequente, vendo-se sob um traçado circular em Ponte da Barca (1761) e em Amarante (1790), e sob um risco poligonal na ponte de Silves. Só na ponte de Matosinhos existem duas meias laranjas, ambas viradas para o mesmo lado e sem corpos simétricos na face oposta. Caso, na verdade, interessante, que merece ficar anotado de uma maneira particular, especialmente porque esta ponte sobre o rio Leça está condenada a desaparecer. Em breve será derrubada para alargamento do porto artificial de Leixões, cujas docas, febris e enfumaradas, se levantam perto. Assim, mais uma vez em nome do progresso, terminará a história de um típico monumento - típico pela sua biografia agitada e pelos valiosos elementos que fornece para o estudo da arquitectura das pontes seiscentistas."

NOTA: Ainda digitalizei com a intenção de as colocar aqui, as fotos deste artigo; contudo o blogger insiste em me rodar as fotografias, o que não quero de todo. Por isso optei por não as inserir. No blog Matosinhos Antigo existem boas fotos desta ponte e que ilustram bem a sua fábrica. Pena que não exista uma única relacionada com as tais meias laranjas de que fala o artigo atrás, e que desafortunadamente não consigo colocar em modos que se apresentem neste post.

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