quinta-feira, 2 de maio de 2013

Viagem ao Douro - cartas de J. J. Forrester (3)


TERCEIRA CARTA       20 de Setembro
           
A digressão de hoje foi de três léguas desde Fontelas até Porto Manso.

O vento foi favorável de tarde, e poderíamos ter feito maior jornada se não nos tivessem extasiado as belíssimas vistas por toda a extensão do rio, as quais se fossem conhecidas pelos artistas dos países do norte, chamariam metade do mundo viajante para admirar estas belezas, infelizmente ignoradas no seu próprio país. É verdade que são em muitos sítios os enormes rochedos que apresentam os primeiros planos aos quadros que desejáramos ver pintados; e como o governo de S.M.F. decretou que daqui em diante uma certa soma será aplicada para demolir estes obstáculos para a livre navegação do Douro, - se os viajantes se não apressarem a cá vir por estes primeiros meses, poderá ser que, pelo ano que vem [1855], a marcha da civilização destrua os principais objectos de gosto artístico que a mim, que os tenho admirado mais do que outros quaisquer que tenho visto, ainda me chamam como em peregrinação três vezes por ano.

Na marca actual do rio, que é talvez a mais baixa de que os práticos se lembram, até Porto Manso não há pontos nem galeiras ainda que nos pontos da Retorta, do Colo, Tojal e Escarnida não deixam de fazer sua corrente que bastante embaraço causa à navegação quando não há vento, de meia vela a favor, porque em caso contrário seria indispensável empregar gente ou bois para alar  os barcos nestes pontos. No ponto da Retorta, logo acima do Convento d’Alpendorada, havia um rochedo enorme que por mais de vinte anos era muito nosso conhecido, e tão alto era ele que os boieiros para cambarem o cabo por cima, precisavam de uma escada de 14 degraus: chamava-se o Penedo do Corvo.

Ultimamente, no ano passado foi em parte demolido; porém em 1853 o Verão foi sempre chuvoso e conservou-se muita água no rio – agora em 1854 o litoral está à vista – Que bela ocasião para os engenheiros do Governo completarem a sua obra, desfazendo mais uns cinco palmos que ainda tem o calhau, para assim facilitar a passagem dos barcos com setenta pipas com a marca do Pinhão, sem serem obrigados a desviarem-se dos restos do penedo tomando outro rumo, pelo qual correm o risco de quebrarem-se na pedra da Retorta!

Nos pontos de Valvela e Couces de Vimeiro, observei umas pedras quebradas por cima, com a evidente tenção de formar em cada um dos sítios um canal para passarem os barcos em certa marca do rio, que é das águas do Tua; porém, ficando estas obras como estão, receio que a navegação não tire muita vantagem delas.

Os povos, que hoje passamos, foram, na margem direita:

Vimeiro terra dos arrais de matriz e trasfegueiros – tem muito boas casinhas – reina grande actividade no cais – toda a gente parece ter que fazer e vivem muito bem. Este povo forma um grande contraste com todos os mais que temos visto do Porto para cá. Antigamente a Companhia da Agricultura das Vinhas do Alto-Douro tinha aqui o seu comissário e grandes armazéns; e nenhum arrais passava daquele sítio para baixo sem receber as suas ordens.

Lavadouro também é terra dos arrais, mas é um povo mui pequeno.

Pala igualmente é terra de arrais e lavradores – todos abastados, que vivem tão bem como os do Vimeiro.

Porto Manso é um povo de bastante importância e onde se encontram os arrais mais relacionados com o grande comércio de vinhos do Porto.

Há ali boas casas, boa e rica gente, e o sítio é delicioso e mui produtivo.

Na margem esquerda apenas há os pequenos povos de Souto do Rio e Porto Antigo, sítios mui pitorescos, e onde se carrega a maior parte das madeiras de castanho que vão para a cidade do Porto. Pode-se calcular, sem exageração, em 20 mil os paus, pés e pontas de castanheiros, que são carregados neste cais todos os anos.
Sou de VV. & c.

J. J. Forrester

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