domingo, 5 de maio de 2013

Uma encenação de um ataque durante o cerco do Porto

No já longínquo ano de 1834, D. Pedro IV, a sua consorte e filha, futura Rainha D. Maria II, visitaram a cidade do Porto nos finais de Julho, um ano após o Rei ter finalmente conseguido com segurança deixar esta cidade rumo à capital.

Durante essa visita, a corte ficou instalada no Paço da Torre da Marca [agora museu Soares dos Reis] e visitou vários pontos da cidade, entre instituições hospitalares, bailes preparados em sua honra, o Teatro Nacional [S. João], etc. Visitou também as diversas linhas do cerco à cidade bem como a fortaleza da Serra do Pilar, tendo por palavras tentado demostrar as privações e apuros em que se virão as tropas sitiadas, a sua esposa e filha.

Mas não só a palavras se resumiu a "explicação". Como nos relata o principal jornal da época na cidade, O periódico dos pobres no Porto, houve uma encenação de Batalha para que suas Magestades com mais realismo podessem disfrutar de um vislumbre do que tinham sido aqueles tempos de angústia tão presentes ainda na população da cidade. A partir deste ponto deixo o jornal falar...

"S.M.I.tinha determinado dar a SS. MM. a Rainha, e Duquesa de Bragança alguma ideia de um dos repetidos ataques que os bravos do Exército Libertador, com tanto denodo, sempre repeliram; e para completo desempenho mandou o Quartel Mestre General do Exército colocar a Tropa da maneira seguinte:

A 3ª Brigada, comandada pelo Coronel Brito defendia a linha desda extrema direita em Campanhã até Guelas de Pau, deixando em reserva no centro da linha o 3º Batalhão da 5ª Brigada do comando do Coronel Osório. A 4ª Brigada guarnecia a trincheira desde Guelas de Pau até á Aguardente, deixando de reserva no centro da linha o 2º Batalhão da 5ª Brigada. A 1ª Brigada do comando do Coronel Meneses ocupava o reduto das Antas, e posições adjacentes, e tinha em reserva aqueles Corpos de Brigada que fossem necessários, e um esquadrão de Cavalaria nº6, estava também postado no Largo da Aguardente o esquadra de Cavalaria Nacional. O reducto do Covelo era guarnecido pelo 2º Regimento de Infantaria ligeira da Rainha.

Um tiro de canhão anunciou a chegada de SS.MM. à Bateria do Fojo, e o começo do figurado ataque. Depois de intreterem os Piquetes um pequeno tiroteio, tiveram de retirar-se, não grado o entusiasmo dos nossos soldados, que nem brincando consentia fazê-lo apressadamente. Suposta a aproximação do inimigo as Baterias de toda a linha de Reductos romperam um vivissimo fogo, a que respondiam as repetidas descargas de Infantaria, o Forte de Gaia, e mais alguns reductos da parte de além do rio.
Os bravos Oficiais, e Soldados do Exército electrisados por semelhante espetáculo mal podiam conter as faiscas do seu bem provado valor, e acreditar a ficção.
A 2ª Brigada do comando do Tenente Coronel Miranda, composta dos Corpos 1 e móvel do Porto, e Batalhão de Empregados Públicos e um esquadrão de Cavalaria nº6 sustentou o Reducto do Cavêlo [provavelmente Covelo], ocupando depois as posições adjacentes ao mesmo, e onde por fim deu-se vivas a Suas Magestades, ao Imperador Regente do Reino e à Carta, mostrando todos o maior entusiasmo.
Os espectadores estavam apinhados em todas as colinas das imediações das linhas, e todos recordavam com assombro os incalculáveis riscos que correu a vida de onde dependiam os destinos da Nação Portuguesa. SS. MM., depois de concorreram toda a linha guarnecida, voltaram ao Paço (...)"

Dois dias depois, no dia 4 de Agosto, o duque de Bragança mandou encenar novamente uma batalha, desta vez para dar imagem dos "ataques que tinham tido lugar na Serra do Pilar, e da valorosa defesa que faziam os defensores daquele ponto, às 9h30 rompeu ali um visível fogo de mosqueteria e artilharia, e o mesmo se fez na Foz. No Crasto, e nas Baterias imediatas, para recordar a forte oposição que os defensores da usurpação faziam aos desembarques das munições de guerra e boca, e por que maneira o pão de muitos meses que subditos fiéis da Rainha comeram dentro das trincheiras desta heróica cidade foi amassado com sangue e lágrimas"

Pese embora já não esteja no âmbito desta postagem no blog, transcrevo aqui parte das palavras de D. Pedro IV que apareceram no mesmo periódico, no dia em que este chegou à cidade do Porto, que demonstra o quanto o mesmo se sentia grato á cidade, e que também não nos deixa esquecer o quanto o Porto foi realmente uma voz activa no País no que toca ao seu futuro, isto pelo menos até ao final do século XIX, ou mesmo, se quisermos dilatar um pouco mais a influência, até ao golpe da Monarquia do Norte, esta já em plena República. Após o Estado Novo e mesmo na actualidade, a nossa cidade viu-se resumida, em minha opinião, a uma posição "Emérita", sem quase qualquer capacidade de intervenção, afastada por um centralismo viscerél que tudo corrói, inclusive os que, ocupando cargos de Poder, se deslocam do Porto para o poder central...
Perdoem o desabafo, não sendo este um blog de intervenção, seguem finalmente as palavras de D. Pedro IV, cujo coração do mesmo repousa na nossa cidade:

"(...) Eu não quis por mais tempo demorar a minha vinda a esta muito Nobre e muito Leal cidade, em companhia da vossa Rainha, com o fim de Me congratular pessoalmente connvosco, pela terminação honrosa da guerra civíl, cumprindo a promessa que vos fiz no dia 26 de Julho do ano próximo passado, imediato aquele em que o vencedor de Argel, experimentou o primeiro revés em Portugal. Entre vós tendes a vossa Rainha, que vos agradesse tantos esforços e sacrifícios que por ela tendes feito, e vos louva, pela heroicidade que mostrásteis, a qual poderá vir a ser imitada mas nunca excedida. Eu Me felicito a mim mesmo por Me ver no teatro da minha glória, no meio dos Meus Amigos Portuenses, daqueles a quem devo pelos auxílios que Me prestaram durante o memorável sítio, o nome que adquiri, e que, honrado, deixarei em herança a meus filhos."

D. Pedro, que começara a carta atrás parcialmente transcrita por declarar que viria proximamente fazer nova viagem para se demorar mais na cidade mas também para visitar as províncias do Norte, já não o pode fazer, pois faleceu em Setembro desse mesmo ano, sendo que efectuou esta viagem ao Porto já com a doença avançada e sempre acompanhado do seu físico.

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