domingo, 21 de abril de 2013

Viagem ao Douro - cartas de J. J. Forrester (1)


11  de Setembro de 1854 – do Jornal O Commercio

COMEÇAMOS HOJE A PUBLICAÇÃO DE UMA SÉRIE DE CARTAS SOBRE O DOURO, QUE JULGAMOS INTERESSANTES E DEVEMOS À BONDADE DE UM CAVALHEIRO TÃO HABILITADO PARA ESCREVER SOBRE ESTE OBJECTO, COMO O ILLMª SR. FORRESTER.
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PRIMEIRA CARTA

Quem quer seguir viagem do Porto pelo rio Douro acima, deve lembrar-se que até Pé de Moura quase nunca no Verão os barcos carregados poderão passar sem maré, e ainda que a nossa barquinha não levava o que se pudesse chamar carga, contudo os arranjos de camas, baús e mais utensílios próprios ou necessários para uma longa viagem, bem como a tolda, os armários, beliches, mantimentos, etc. pesavam, pelo menos, metade da lotação do barco que era de nove pipas – escolhemos por conseguinte a hora da maré, que deitava das 3 para as 4 horas da tarde para a nossa saída de hoje.
Também ainda que não somos astrólogos nem sabemos calcular bem as mudanças do tempo temos tal ou qual fé nas diferentes fases da Lua – e como há 15 dias a esta parte sempre tivemos vento Leste fortíssimo, entendemos que este quarto de Lua crescente nos poderia favorecer, e com efeito assim aconteceu porque não somente podemos aproveitar a maré mas tivemos vento pela popa.
Chegamos às 8 horas e meia a Carvoeiro, 3 léguas e meia da cidade, andando à razão de 3 quartos de légua por hora.
O leito do rio Douro até este ponto é uma pouca de areia – o canal para a navegação é estreitíssimo e actualmente na maré baixa apenas trás de 2 a 3 palmos de água. Estas areias depositam-se todos os anos com as enchentes do rio, e as marés de Verão concorrem para a sua conservação. Assim tem acontecido desde que os Fenícios se estabeleceram em Portugal – e pelo que se vê, a arte, a ciência, e o mecanismo não poderam remediar o mal! – ao menos pelo que vemos, não parece ter havido tentativa alguma para este fim.
Pela margem esquerda notamos as pequenas povoações de Quebrantões – Oliveira – Espinhaça de Avintes – Arnelas – Crestuma e Carvoeiro, e pelo lado direito Campanhã, Valbom, Gramido, Atães, Sousa, Gibreiro, Esposar, Lixa e Pombal.
Quebrantões é notável por ser o sítio onde na guerra peninsular, os exércitos luso-britanicos passaram, quando os franceses evacuaram o Porto. Agora é neste sítio a barreira por onde nenhum barco, por pequeno que seja, pode passar sem ser examinado.
Defronte são as ruinas do grande Seminário que foi arruinado durante o cerco do Porto e logo ao pé, também se vêem algumas paredes do palácio desmantelado do Bispo: tanto as belas árvores desta quinta como as do Convento da Serra foram cortadas em 1833.
Oliveira, sempre tem sido célebre pelo seu antigo convento e por ser a  sua cerca um recreio para os habitantes do Porto.
Avintes, é a terra das padeiras que abastecem a cidade do Porto com excelente pão.
Arnelas, notável por suas madeiras e lenha e pela sua feira de S. Miguel, em que as nozes abundam.
Crestuma, pela abundância de águas e lenhas suficientes para fazer trabalhar imensas fábricas – porém onde por ora ainda não há nenhuma. Aqui no tempo da antiga Companhia havia o registo de todos os barcos com vinho que iam para o Porto.
Carvoeiro, pela quantidade de lenhas e madeiras que manda para o Porto.
Campanhã, pelas fábricas de curtume e pelo isolado palácio arruinado do Freixo, que tem as armas dos Lencastres sobre a porta.
Valbom, por ser a terra dos pescadores, que nas suas belíssimas lanchas vão ao mar.
Gramido, sítio onde o Sr. D. Miguel em 1833 estabeleceu uma ponte de barcos e onde em 1846 se fez a convenção entre as forças luso-espanholas e a Junta do Porto.
Os povos desde Atães até Pombal sustentam-se do produto das suas terras mandando apenas de vez em quando algumas melancias, melões e hortaliças para o Porto.
É para notar que em toda esta extensão do rio, em quanto que os homens se ocupam na agricultura, as mulheres conduzem os seus barcos com géneros ou passageiros para o Porto. Estas mulheres são muito hábeis na sua ocupação; a maneira como elas cantam suas modinhas, que geralmente são originais, faz crer com especialidade ao estrangeiro, que são as criaturas mais felizes do mundo e que ignoram inteiramente o que é a fome e a miséria.
São muitos os dias que nem dois patacos ganham – porém continuam a cantar e parecem contentíssimas com a sua sorte.
Chegados ao nosso ancoradouro, tratamos de fazer os arranjos necessários para ai passarmos a noite.
Sou de VV. & c.
J. J. Forrester

1 comentário:

  1. Arnelas nunca foi conhecida pelas suas madeiras e lenha, mas sim por ter sido um importante entreposto comercial desde o sec. XVI, "na guerra comercial" que moveu ao Porto nessa altura. Mais tarde foi a localidade onde se implantou uma das primeiras fábricas de cerveja do país. Ficou bem conhecida devido ao sável e à lampreia. É um lugar maravilhoso, não fosse a minha terra. (desculpem a modéstia!)

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