domingo, 7 de abril de 2013

A inauguração da Estátua de D. Pedro V

Na Praça da Batalha encontramos, desde há 147 anos para cá, a estátua do Rei D. Pedro V que faleceu bem novo após um curto reinado. Foi um Rei que não se escusava a visitar e cumprimentar os doentes e os pobres em pessoa; e talvez isso lhe tenha custado a vida... Mas também por isso ficou sempre sendo um Rei muito estimado pelos seus súbditos.

Foi em 1862 que a primeira pedra da construção desta estátua foi lançada. Mas apenas em 1866 a estátua foi finalmente colocada no seu pedestal - às 5 da manhã do dia 26 de Janeiro - onde ainda hoje se encontra, tendo o Rei D. Luiz vindo inaugurar a mesma.

No dia anterior à inauguração a Praça da Batalha foi grandemente iluminada, como que um prelúdio para o que se iria passar no dia seguinte. Esta consistia em diferentes estrelas iluminadas a gás e colocadas sobre as pilastras que sustentavam a grade que cercava o pedestal do monumento.
Também se iluminaram a Câmara Municipal e muitos edifícios públicos e particulares.
Nessa noite foi grande o concurso de povo que girava na Rua Santo António e Praça da Batalha.

No dia seguinte, 3 de Fevereiro, ao nascer do sol, as fortalezas içaram a bandeira nacional.
O préstito saiu da casa da Câmara seguindo pela rua de Santo António até à Praça da Batalha.

A Praça da Batalha achava-se vistosamente guarnecida de bandeiras, galhardetes, pirâmides de camélias, e das janelas das casas circunvizinhas pendiam cobertores de damasco de várias cores. A Rua de Santo António, Praça de D. Pedro e Calçada dos Clérigos também estavam vistosamente enfeitadas, sobretudo a Rua de Santo António, pendendo variados damascos das suas janelas. Mesmo as árvores da praça foram podadas para melhor embelezamento da mesma.

A praça onde se ergue o monumento do Sr. D. Pedro V estava circundada por filas da tropa de guarnição, comandadas pelo general Casimiro Benevento; dentro do recinto achavam-se diferentes corporações, deputações de diferentes classes da sociedade, titulares, cônsules, juízes, lentes dos estabelecimentos de instrução, vários convidados etc.

Os corpos e o destacamento de cavalaria formaram em volta da praça dando direita à rua Entre Paredes e uma guarda de honra com música formou dentro do recinto interior da praça, dando a direita ao pavilhão erguido para a cerimónia.

Eram duas horas e tanto da tarde quando sua majestade el-Rei o Sr. D. Luiz I, em carro descoberto, e acompanhado dos srs. Visconde da Praia Grande de Macau, Marques de Sousa Holstein, Sérgio de Sousa e Caula, chegou à Praça da Batalha. Nesta ocasião a tropa apresentou as armas, e as bandas militares romperam o hino de el-Rei.

Em seguida seguiu sua majestade para o pavilhão que estava armado no recinto da Praça; passados momentos o Sr. Luis José Nunes, presidente da comissão do monumento dirigiu-lhe uma alocução.

Depois sua majestade encaminhou-se para o pedestal da estátua, o Sr. Nunes entregou-lhe um cordão de seda que comunicava com duas bandeiras nacionais que cobriam a estátua, estas descerraram-se a estátua apareceu descoberta aos olhos da multidão; a tropa apresentou armas novamente; as bandas marciais romperam o hino do Sr. D. Pedro V; subiu no ar uma girândola de foguetes, e salvaram as fortalezas: na da Serra do Pilar a artilharia aí colocada salvou com 21 tiros, tendo o Castelo da Foz respondido aos mesmos com igual número.

Recolhido el-Rei novamente ao pavilhão, o sr. Luis José Nunes proferiu outra alocução, seguindo-se outra do Sr. Governador Civil, o Sr. Conselhieiro Januário Correia de Almeida. O Sr. D. Luiz, respondeu com um pequeno mas sentido discurso, em que louvava as virtudes do seu falecido irmão, e em que engrandecia o povo que as soubera apreciar.

O Sr. Governador Civil findo este discurso levantou vivas a sua magestade, Carta Constituional, Sr. D. Fernando, família real, e a esta cidade.

Da Batalha el-Rei seguiu para a Igreja de Santo António da Porta de Carros (dos Congregados) a ouvir o hino TE DEUM LAUDAMOS, composto especialmente para a ocasião por vários artistas envolvidos e executado gratuitamente; com a guarda de honra montada à porta da igreja durante a cerimónia.

Finda aqui esta breve descrição da inauguração da estátua. Remato com uma nota acerca da "pequena polémica" gerada à volta dela na imprensa da época. Tão simples quanto isto: uns queriam a estátua voltada para nascente, outros, para o Largo de Santo Ildefonso, ou seja, para o início da Rua de Santa Catarina. Correram rios de tinta nos jornais, sendo esta última vontade a que prevaleceu.


NOTA: Esta informação foi obtida n' O Nacional de Janeiro/Fevereiro de 1866. Em itálico está o texto transcrito literalmente, o restante foi modificado para se enquadrar no outro.

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