terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

O relógio da Praça do Comércio do Porto

D’ O Jornal do Porto

Possui o Porto uma meridiana que da mais alta das varandas da torre dos Clérigos, lhe anuncia pelo tiro de um morteiro, a passagem do sol pelo seu meridiano, isto é, o seu verdadeiro meio dia.
Mas esta máquina, com quanto muito útil, e como necessária, por nos advertir o fenómeno que se deu – não obstante a sua exactidão, por isso que se baseia na regularidade dos movimentos do planeta que habitamos – a terra - movimentos que são conhecidos e estão calculados na tabela da equação do tempo; porque é uma só vez que diáriamente funciona, e isto quando o sol se nos deixa ver ao meio dia; porque o espaço de tempo que decorre de um a outro meio dia não é igual: e, finalmente, porque todos esses relógios que por ai há, satisfazem mal ao seu fim – nos faziam sentir a falta que o Porto tinha, de um bom relógio, que à vista e ao ouvido, nos indicasse as divisões do tempo médio, ou tempo igual.

Compenetrou-se a ilustrada direcção da Associação Comercial desta verdade, e coube-me a mim a sua concepção e execução.

Ai está colocado um tal relógio no torreão do edifício da Praça do Comercio: e ai está ele regulando com a insignificante diferença de bem poucos segundos diários, e suposto haver eu já conseguido aproximá-lo á de um segundo em 5 dias, penso, não obstante o adicionamento que depois lhe fiz de mais 9 rodas, para o movimento dos ponteiros, e algum estremecimento que sofre, quando bate os quartos os as horas, que em breve tempo, terei conseguido a aproximação que já obtive.

Não é o mencionado relógio uma maquina de complicados cálculos de movimentos de figuras ou planetas, para recrear a vista; mas também não é um relógio que muito tenha de comum com todos os outros. É uma verdadeira pêndula de precisão e astronomicaI, segundo o sistema de Graham,  como Parkinson de Londres, e Kessel de Altona, têm fabricado ultimamente, para numerosos observatórios da Europa e da América, compensada pelo mercurio, de cujo metal tem aproximadamente 60 libras – que por um cutelo se suspende em uma pedra, fazendo-se o escapamento em duas engastadas, e o giro dá quatro eixos, nelas brocadas, ao todo sete pedras finas.

As três máquinas do relógio, tem corda para 7 ½ dias. A do regulamento, que produz as oscilações da pêndula, que põe em movimento a que bate os quartos, ou que bate as horas: também indica os minutos e os segundos em mostradores internos. Para o público são indicadas as horas e os minutos, em dous mostradores de cristal de 1,2m de diâmetro ( 5 ½ palmos aproximadamente) que de dia se vêem pretos, com as letras e ponteiros brancos, mas que de noite, pela iluminação do gás, se mostram claros, com as letras e ponteiro transparentes.

Pode o relógio adiantar-se, ou atrasar-se, por mecanismo próprio, sem que se altere a uniformidade das oscilações da pêndula. Não pára quando se lhe dá a corda: e sendo indispensável empregar 16 rodas dentadas na máquina do regulamento, que move as duas sonerias(?), os quatro ponteiros, etc; tem por peso motor 4 ½ ?, 9 pendentes em uma roldana! – peso este que não posso aumentar porque as oscilações excederiam a 10 centímetros.

Os entendedores a quem convido para verem, que verifiquem, que comparem, aquele resultado, com o de outros relógios e avaliem se será fácil obter melhor efeito.

Não obstante muitas pessoas me advertirem de que os sinos se não houvem bastante, direi, que eles sendo maiores que o da Bolsa de Paris, não são tão grandes como os de outras torres, e que ambos pesam de 36,  37 arrobas, mas ainda assim, as horas são batidas com um martelo de 26 ? tendo por peso motor 6 arrobas pendentes em roldana, por corda de seda, vindo portanto a fazer mover esta máquina 3 arrobas. E a máquina que bate os quartos nos dous sinos, afinados em terceiras, tem dous martelos, um de 18, outro de 22 ?, com um peso motor de 7 @.

Finalmente, este relógio que em nada buscou as exageradas proporções ou calculo dos outros relógios públicos, tem de comprimento 65cm, largura 55 ditos, altura 26 ditos, não incluindo o da pêndula.

Porto, 21 de Setembro de 1860 – Esquina das Hortas e de D.Pedro

NOTA: os dois ? que aparecem a seguir a números de peso representam um simbolo que, infelimente, ainda não achei equivalente. Contudo, assim que o faça esta nota será removida e o símbolo colocado no seu devido lugar.

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