domingo, 13 de janeiro de 2013

O Castelo de Gaia

Pese embora o tema desta postagem já não se situe na área geográfica da cidade do Porto, historicamente ele é bem portuense. De facto, o Castelo de Gaia situava-se em Gaia, que por doação de D. João I foi anexada ao termo do Porto em 1384 juntamente com Vila Nova. Atualmente e desde 1834 formam o núcleo histórico do município de Vila Nova de Gaia.

Não existe grande informação sobre este castelo. Para além da Crónica de D. João I, escrita por Fernão Lopes, quase que apenas nos resta, para sua memória, a toponímia do local.

Em escavações arqueológicas efetuadas desde meados do século XX para cá, têm vindo a ser descobertos restos de construções e bem assim artefactos de várias épocas: desde a castreja à baixa idade média (precisamente a época do castelo).

É quase certo que o morro do Castelo, nos seus 76m de altura, tem uma ocupação tão antiga quanto o da Penaventosa, onde se ergue forte, altaneira e senhora do seu domínio, a Sé do Porto. A sua evolução foi, contudo, bem diferente.... ao que parece, foi a população portuense que pôs fim a este depois de lhe atear fogo, revoltada contra o seu alcaide Aires Gomes de Sá.

Até ao final da idade média, sem dúvida, lá se erguia um castelo; provavelmente com o aspecto idêntico aos muitos que ainda existem espalhados pelo nosso pais (que não tenham sido tocados pelas "reintegrações" do Estado Novo...). Ou mesmo quem sabe, com características defensivas/atacantes mais antigas, uma vez que a esmagadora maioria dos que hoje existem datam do período gótico. Foi por essa altura, aliás, que D. Dinís deu foral a Vila Nova - situada na marginal ribeirinha em frente à Ribeira do Porto; numa atitude de desafio direto com os domínios senhoriais dos bispos, que por essa época eram ainda senhores do Porto.

Em relação ao castelo, aparentemente nada sobrou, nem pedra, para perpetuar a sua memória. Para isso apenas nos ficou, como já referido, a toponímia e os parcos registos escritos. Mas..será assim? Será que durante a Guerra Civil os últimos vestígios deste foram destruídos aquando do arrasamento da bateria dos miguelistas?...

Pesquisando um pouco na internet, deparei com duas fotos curiosas no Monumentos, de uma estrutura aparentemente medieval, atrás de uns armazéns situados naquela zona (ver abaixo).





As mesmas estruturas estão representadas, em "3D" AQUI(1).

As fotos datam de 1966. Segundo nos informa o Vila Nova de Gaia on line(1): Mais recentemente, e após um desmoronamento de terras, foram descobertas as ruínas da porta sul do castelo, na rua do Rei Ramiro, junto dos armazéns "Fonseca Gimaraens".
Serão a estas fotografias que se reporta a observação? O que é certo é que atualmente, o lugar se encontra soterrado, inclusive com estruturas por cima, como se pode comprovar na imagem abaixo.





Desde que entre nós a arqueologia urbana se desenvolveu, foram efetuadas centenas de escavações e sondagens, quer a pedido de instituições quer de particulares que as são obrigadas a fazer sempre que querem mexer na estrutura das suas propriedades. Infelizmente, as mesmas nunca, ou raramente, são tornadas públicas! Bem certo que a maioria delas tem um interesse muito escasso ou mesmo nenhum, mesmo para quem, como eu, valoriza bastante a componente histórica.

Tive o privilégio de ter acesso a um desses relatórios, sobre um acompanhamento efetuado no Porto, e acreditem, havia muita mais informação (e de interesse relevante) do que aquele que estava disponibilizado no site da empresa de arqueologia que fez esse mesmo acompanhamento. Não queremos com isto, de forma alguma, acusar a empresa, uma vez que a mesma se limita a cumprir o que o cliente lhe pede e é a ele que tem de prestar contas e entregar o relatório.

Mas o cliente, esse sim, quando falamos de uma Câmara Municipal do Porto ou Gaia, Porto Vivo, GaiaUrb, etc.esses teriam o dever de divulgar, mesmo que de uma forma simplificada, as descobertas que se lhes apresentam, quando relevantes. Sobretudo quando a futura ocupação do lugar as não permita preservar.

É por essas e por outras que pouco ou nada se sabe do que se encontrou, por exemplo, do Convento dos Loios e onde foi parar o que quer que se tenha preservado (visto lá estar atualmente mais um parque de estacionamento) e me parece que vão por esse caminho as descobertas que se tem feito na revitalização do eixo Mouzinho-Flores que mexe com uma grande percentagem do centro histórico do Porto.

É também por essas e por outras que nada se sabe acerca das estruturas que eventualmente subsistem do castelo de Gaia; resta-nos ir para o parque de estacionamento da alfândega e olhando para o morro do castelo, imaginar que um dia, há muito tempo atrás, ele ali estava, também altaneiro, forte e imponente; em competição com o seu vizinho da banda do norte. Competição essa que, quiseram as gentes de trezentos, viesse a perder.

NOTA: O boletim do Gabinete de Arqueologia da CMP era um excelente meio para divulgar ao público em geral, os achados que se iam fazendo por esta cidade fora. Mas este deixou de ser publicado!

(1) - estes links infelizmente já não se encontram ativos. ___
Reformado em 22/03/2017

2 comentários:

  1. Respostas
    1. Obrigado. Aproveitei o seu comentário para corrigir alguns erros ortográficos e aprimorar a escrita que era, aqui e ali, algo confusa. Ainda assim a informação mantêm-se.

      Coisa que aliás espero conseguir, aos poucos, fazer nas postagens mais antigas do blogue por elevar a melhorar a sua qualidade.

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