terça-feira, 31 de dezembro de 2013

A Próva effectuada á ponte pensil - parte 1

 (Artigo editorial do jornal O Periodico dos Pobres no Porto, em 30 de Março de 1853)


"Agora que o fumo dos foguetes se extinguiu no ar, que os sons da musica marcial deixárão de ferir os ouvidos porque a ponte pensil resistiu á próva official d'estabilidade, entraremos na analyse dessa prova, tendo à vista o relatorio do engenheiro o Sr. Mousinho que a ella presidiu. Não o faremos com animo hostil à empreza, nem para incutir receio no público; mas para que se exclareça a questão, porque em tal assumpto o occultar-se parte da realidade, ou uma crença erronea, podem ter consequencias desastrosas. Se a imprensa, antes do naufragio do vapor Porto, tivesse analysado o pêso que merecia a voz de estar arruinada a caldeira, se tivesse provocado um exame rigorozo do barco; o resultado seria, ou a condemnação daquelle vapor, ou a persuasão do seu bom estado; e foi ao pouco que nelle confiavão que principalmente se deve aquelle sinistro; pois se os passageiros não forçassem o commandente a retroceder da Figueira receosos de que não pudesse vencer o temporal pela proa, não lastimariamos hoje tantas mortes. A discussão é pois sempre util em taes circumstancias.

Tanto mais é para desejar que a discussão esclareça este objecto, por isso que a próva primeiramente annunciada ha mais de dous mezes com grande ruido, foi protelada com o pretexto de mau tempo, tendo neste intervallo havido dias successivos seccos e d'athomsphera limpa, o que não aconteceu naquelles em que a experiencia se fez; e verificando-se a final esta quando no Porto não estava nem o Governador Civil effectivo, nem mesmo o Secretario Geral que o substitue, pessoa cuja responsabilidade o Govêrno podia tornar mais effectiva.

Annunciada por terceira ou quarta vez para os dias 17 e 18, não se fez naquelle dia, apparecendo editais de que não se annunciaria de novo, e teria logar no primeiro dia de bom tempo; e a 18, sem annúncio algum se começou, sabendo-o nesse dia poucas pessoas. Apezar de que as pipas se enchião fora da ponte, não se dava acesso ahi ao público; as pipas vertião bastante; e tudo isto incutiu em muitos desconfiança. E que da parte mesmo dos empregados havia não pequeno receio pelo resultado dapróva, deprehendeu-se por se julgar um triumpho e um atrevimento o Administrador passar a ponte, quando carregada, n'uma sege a trote.

O relatório começa por classificar a ponte pensil « uma das mais bellas obras d'arte que temos no nosso paiz, e podendo dizer-se a mais atrevida que entre nós se tem construido ».

Esta belleza não a comprehendemos bem: a belleza d'uma obra d'arte deve avaliar-se tambem pela sua solidez e por corresponder aos fins, e não so pela sua elegancia e proporções: e tanto é duvidosa a primeira condição, que, depois de ouvidas as authoridades e pessoas competentes, julgou-se necessaria nova próva, e SS. MM. forão acconselhadas a que não fizessem por ella a sua entrada no Porto. E' constante, e não somos nós que o dizemos que o não vimos, que a amarração, do norte, dos cabos de suspensão ficou de maneira escondida que não póde verificar-se o seu estado de conservação: será isto belleza? a ponte foi collocada tão distante da maior passagem entre os dous caes, e isto por economia da empreza, que dous terços dos que passão o rio preferem embarcar a irem dar a volta pela ponte: será isto belezza?  e quando houverem de andar diligencias na estrada de Lisboa, tem de abrir-se de proposito uma comunicação entre a ponte e o caminho que se talhar para ellas.

«A mais atrevida: » se o atrevido está em ser a delgadeza de seus cabos mui notavel em relação á sua extensão, como attestão pessoas que tem examinado n'outros paizes obras deste genero»; concordamos: mas não é atrevimento que louvemos. Mais atrevida seria se fosse, como a empreza primitivamente contractára, em frente da rua de S. João; mas entre duas montanhas de granito, e no mais estreito do rio, não sabemos que menos atrevida pudesse ser. Atrevida seria uma ponte de pedra que desde muito se projectára no Porto, entre a Serra do Pilar e a Casa Pia: essa sim seria atrevida, mas tornaria o Porto mais magestozo, tornaria uma so as duas povoações ao norte e sul do Douro, e facilitaria grandemente o transito para a estrada de Lisboa.

Mas vamos á próva e ao que ella vale.

« O maximo pêzo a que uma construção destas tem de resistir, suppõe-se ser o de uma multidão de gente a pé, que cubra todo o seu pavimento; este pêzo está calculado entre 195 e 200 Kilogramas (429 a 440 arrateis) por metro quadrado.»

Esta base de pêzo é exacta se calcularmos uma passagem regular em dia de concorrencia, e não uma agglomeração extraordinaria de gente: n'um quadrado de quatro palmos e meio por lado, estavão certamente mais do que 4 pessoas n'um apinhamento de povo como o que concorreu ao caes na entrada de SS. MM., ou em outras occasiões de grande affluencia.

O maximo pêzo? pois se por a ponte houvesse de passar um trem de artilharia, um regimento de cavallaria, uma sequencia de transportes carregados, esse pêzo não podia ser muito maior?

Dir-me-hão que esse caso se não dá, porque se prohibe por cautella: mas então diga-se que se fez a próva somente para pessoas a pé e não andando, e que pelo mais não respondem.

A próva foi sommente em relação á pressão de infantes immoveis. E não tem a ponte de soffrer a acção de outras forças que ataquem a sua estabilidade? Se em vez do pêzo dessas duas mil e tantas pessoas para que a ponte foi experimentada, essas pessoas caminharem; poder-se-há affirmar que a ponte resistirá? e se essas duas mil pessoas forem de tropa, que caminhem a passo certo, mais ou menos accelerado, poder-se-há assegurar que poderão passar sem risco? Não pertendeu demonstrar, se não demonstrou, um engenheiro francez, por occasião do desastre d'uma destas pontes, que não havia uma unica Ponte pensil em França, apesar de serem em geral mais fortes, que ressistisse á passagem de um batalhão a marche-marche?

A mesma experiencia triumphante do Sr. Administrador correr a trote em sege pela ponte carregada, adduz receio de pouca estabilidade, se é certo, como affirma um preambulo do J. do Povo, que fez repuxar a agoa pelos batoques das pipas a palmo ou palmo e meio d'altura. Que oscilação não era preciso produzir no estrado da ponte para se dar este effeito? E se fossem oito ou dez seges que passassem a trote, mesmo descarregada a Ponte, a que fôrça de flexão não corresponderia, e demais em sentido alternativamente contrário, a que o ferro resiste menos?

Até aqui não consideramos senão os effeitos das fôrças de flexão; e ja temos demonstrado que a próva não demonstrou que havia estabilidade para todos os casos, e menos no de movimento. Porêm se attendermos tambem ás fõrças de torsão a que os cabos e os arames verticaes podem estar sujeitos por um temporal, mesmo por um vento algum tanto rijo, a próva demonstra ppor ventura a estabilidade nesse caso?

Se attendermos pois ao pêzo, ao movimento, e a uma mesmo não grande fôrça de torção, que nos habilita uma próva usual, como a que se fez, para nos dar plena segurnaça?

Quando a ponte tinha meia carga, o augmento na flexa pareceu excessivo, e o não corresponder a esse o augmento com a carga total, fez que se attribuisse ao calor do sol parte desta dilatação, o que confirma por a comparação desse augmento em diversas horas do dia. Concedido, de barato, que a acção solar tivesse tanta influencia na experience, não era essa mais uma razão para que a próva se tivesse feito no inverno, em que, o calor solar sendo menos intenso, era a dilatação do ferro menos influida por essa causa estranha á experiencia?

Convem tambem que o público saiba bem o que vale uma próva destas, ainda quando feita com o maior escrupulo. O tempo entra por muito nas condições d'estabilidade, principalmente quando a oxidação ou outros agentes como a agoa podem operar mudança notavel nos corpos de qe depende essa estabilidade. Não vimos nós  muro da cidade sôbre o rio resisitir por seculos a cheias, a terremotos, a projectis de artilharia? que melhor próva de estabilidade do que as duas últimas cheias, principalmente a primeira, em que não so não soffreu apparentemente abalo, mostrado por fenda ou desaprumo, apesar do choque da corrente, e da tração produzida pelas amarrações de navios, as quais transmittião ao ponto de apoio no muro a fôrça com que a grande corrente os impellia? E no emtanto algumas semanas depois desta grande próva d' estabilidade, o muro desabou, sem o menor choque ou tracção, e poz em risco de desabarem algumas moradas de casas que sôbre elle se apoiavão: e se nessa occasião houvesse concorrencia de povo a elle encostado, terião havido muitas victimas.

E' este um objecto em que, para qualquer empreza, deve a boa fé estar acima de interesses mesquinhos. Diga-se o que vale a próva, o que é a próva; que, havendo cautelas em não passarem muitas pessoas junctas, e menos em passo certo; em não percorrerem junctos muitos transportes; e não se dando a circumstancia de um vendaval; a ponte podera considerar-se segura na actualidade: mas que essa segurança póde falhar por differentes causas. E sendo a oxidação um dos peores inimigos da sua duração, porque se insiste em pintar de preto e não de branco os arames, quando esta côr é acconselhada por deixar melhor conhecer a ferrugem?

O engenheiro que dirigiu a experiencia merece-nos muito conceito de amor pela sciencia para que não se dê ao trabalho de esclarecer-nos e o público sôbre estas dúvidas, a que chamamos a sua attenção, e a discussão das pessoas mais versadas nesta especialidade, ou que a professão."

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

A coalisão

Continuamos na esteira de Alberto Bessa na divulgação de alguns periódicos editados no Porto no século XIX. Sobre esta folha temos as seguintes palavras:

Assim se denominou um periodico diario, politico e noticioso, cujo primeiro numero sahiu, no Porto, a 2 de Janeiro de 1843, sahindo o ultimo a 23 de Abril de 1846. Era um jornal de quatro páginas, a trez columnas de composição, inserindo os anuncios no logar do artigo editorial e collocando este a seguir aos anuncios dos navios a sahir. Era impresso na Typographia de Faria Guimarães, rua de Santa Catarina, 427. Seguia a politica historica (patoleia), que mais tarde se fusionou com os reformistas, fusão de que sahiu o partido progressista.

In O Tripeiro, 3ª série, 1º ano, p. 210

sábado, 21 de dezembro de 2013

A Rua dos Banhos

"A mão do progresso, passando por cima das velharias clássicas, vae transformando por toda a parte em sitios arejados e limpos, becos immundos e abafadiços, que serviam de commoda habitação para nossos paes, mas onde as gerações modernas acabariam infallivelmente por asphyxiar-se.

O Porto antigo era uma cidade de becos tortuosos, de viellas immundas. Mas o nivel da civilisação, invadindo tudo, derribou, alargou, aperfeiçoou, e dentro de poucos annos, a continuar este afan, só de nome se conhecerão as velhas ruas, sepultadas hoje sob as fileiras de elegantes edificações.

A rua dos Banhos é uma d'aquellas de que já não resta o menor traço. Pois não era das de menos importancia da cidade; era até das de maior ruido d'outros tempos. Ruido na verdadeira accepção da palavra.

Alli, a dous passos d'ella, sob a aboboda d'aquele arco, aberto na muralha da cidade, e coroado d'uma cousa que que mereceu aos nossos bisavós o nome de forte, apinhavam-se os barqueiros, que em todos os tons da escala da apoquentação humana, martyrizavam os viandantes perguntando-lhes se queriam ir para além. Os caleches, procedentes da Foz, giravam saltando por cima do mal calçado pavimento da rua, com grave incommodo para os membros dos que iam dentro e flagrante offensa dos ouvidos dos que passavam fóra. E como se isto não fosse tudo, moravam por alli uns tanoeiros, que martelavam todo o santo dia, pondo em agoa as cabeças do respeitavel publico.

Era pois uma rua de muito ruido a dos Banhos.

De dia era isto; mas de noite mudava muito de figura. Então a rua dos Banhos tomava um certo caracter poetico, que era exactamente o contrario do que se passava de dia. De dia era o afan do negocio; de noite a avidez do prazer!

O botequim do Pepino será para sempre memorável nos annaes do Porto. Muitas desordens alli houve! Muitos descantes acordaram os eccos solitarios do rio Douro! Muitos fadistas de banza debaixo do braço sahiram d'alli para o Carmo, não sem terem em antes experimentando forças com a patrulha municipal!

Aquella casa era frequentada principalmente por tripulantes dos navios inglezes, que vinham abastecer a cidade de bacalhau; e aquelles que assim tinham tanto cuidado em que não morressemos á fome, não se inquietavam por que viessemos a morrer á sede, e arrecadavam á farta nos seus impermeaveis estomagos o nosso rico Port-wine. Assim, no relogio do Pepino, cada minuto marcava uma bebedeira, que, principiando alli, ia completar-se em alguma das tabernas dos Banhos.

Eram immundissimas aquellas pocilgas da prostituição e da crapula; mas os nossos fieis alliados, depois d'aboborados os cascos, não achavam prazer acima do de dançarem algumas horas abraçados áquellas nymphas avinhadas, ou regougarem algumas modas da sua terra ao som da guitarra, tangida por ladino filho da Entruja.

Por fim de muito tumultuar, esta orgia tinha sempre dous modos de findar: Se o guitarrista dava leves indicios de ciumes, porque alguma das nymphas parecesse sympathisar com o roast-biff, a banza não tardava a voar pelos ares feita em cavacos, e ás delicias de Orpheo succediam as do socco inglez, destribuido pelos pulsos afeitos a ferrar o joanete. Então as deusas, transformadas em eumenides, de olhar irado, faces rubras e cabellos em desalinho, faziam ouvir uns gritos roufenhos, que acordavam a guarda, que, muito de proposito para prevenir dissabores, estacionava no chamado forte, que, para ser tudo, até no século passado tinha o seu commandante sem soldados naturalmente (1), e lá ia toda a sucia dormir ao Carmo. E a dormir acabava invariavelmente a funcção, porque de outro modo, quando entre os folgasãos não era perturbada a doce paz, Morpheu encarregava-se de pôr termo á festa, e dentro de poucas horas resonavam estendidos uns por cima dos outros nymphas, marujos e fadistas.

Era este o espetaculo de todas as noites, sem que o cartaz variasse sequer, de um dia para o outro, os nomes dos actores.

E muitas vezes aquelles tenebrosos sitios tornavam-se focos de tremendas conspirações contra as vidas dos filhos d'Albion, que por fim eram sempre o bode expiatorio das vistas cubiçosas dos collegas da orgia. E não raro o que principiava em simples comedia acabava em pura tragedia. Até se dizia que no Pepino se matavam inglezes, se roubavam e se arremassavam os cadaveres ao rio. Esta reputação tetrica, além do que fica dito, dava grande importância ao botequim  e ás suas irmãs gemeas, as tabernas dos Banhos.

Se o leitor já está convencido de que a rua dos Banhos era uma das de mais ruido do Porto (eu refiro-me aos leitores que não conheceram aquella rua) resta-me convidal-os a ir ao sitio em que ella se ostentou outr'ora, orgulhosa nos seus vicios, soberana na sua immundice, despotica na ralé dos seus frequentadores; convida-os a ir alli escutar os seus eccos, que já não trazem o minimo rumor de tanta vida, e dirão, passados de surpreza:
- Pois será possivel?

Era exactamente o que eu diria se não tivesse conhecido a rua dos Banhos tão bem como as minhas mãos.

Isto tem uma explicação:
É que a rua dos Banhos teve a sorte das grandes povoações, a sorte de Pompeia e Herculano, de Carthago e de Babylonia. Onde houve outr'ora uma vida activa, é hoje o nada. Por cima de uma população tão inquieta, paira agora o deserto.[2]

Até nisto foi grande a rua dos Banho!"


1- Em 19 de Janeiro de 1719 foi nomeado pela camara commandante do Forte da Porta Nova (ou Nobre) o capitão Diogo d'Andrade Gramacho. E´ histórico.

[2 - Depreendo que este "deserto" se refira a todo aquele bairro estar já sem casario mas ainda com o empedrado das ruas "à mostra", à espera de ser soterrado para criação da sapata da Rua Nova da Alfândega, aquando este texto foi escrito].

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Excerto do primeiro capítulo de um romance publicado no Archivo Popular, em 1873. Autor: António Augusto Leal.

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Uma fotografia da Porta Nobre

Já falei sobre a Porta Nobre sobretudo nos primeiros posts deste blogue. Volta ao tema para deixar aqui uma foto dessa mesma porta, sendo que é a mais "nítida" que conheço dela.

A Porta Nobre ou Nova foi a penúltima porta da muralha da cidade a ser eliminada, em 1872. Seguir-se-ia a Porta do Sol em 1875(?). Contudo este última já não apresentava o seu aspecto medieval pois fora reconstruida na época dos Almadas.

Vê-se também o fortim que ficava ao lado da porta, que terá tido como último uso o de depósito de armas(?).  Alguém poderá ajudar quanto à história deste fortim manuelino, construído aquando da transformação do postigo em porta?

domingo, 15 de dezembro de 2013

O Clamor Público

Muitos foram os periódicos publicados no Porto desde a publicação da lei da imprensa (e mesmo antes) em 1834. A esmagadora maioria deles teve vida curta. Alguns viveram décadas mas passaram já ao esquecimento como mais tarde ou mais cedo a tudo o que material neste mundo. Outros ainda existem ou existiam até há bem pouco tempo e ainda se encontram na memória de muitos.

O O Clammor Público foi um desses jornais efemeros, e o primeiro que serve de mote para repescar as informações precisosas de Alberto Bessa na sua listagem de periodicos portuenses (temáticos ou não, revistas ou folhas) que o mesmo publicou na revista O Tripeiro na sua 2ª, 3ª e 4ª série. Outros se seguirão... Mas fiquemos então com as palavras, aliás breves, de Alberto Bessa referentes a este jornal.

Era um "diário politico, litterario e commercial", cujo primeiro numero apareceu, no Porto, a 15 de Setembro de 1856, prosseguindo na publicação até 30 de Setembro do anno immediato. Era de formato regular, e rasoavelmente redigido, sendo seu redactor principal, editor, responsavel e proprietario A. B. S. Faria J. das Regras. A redação era na rua de S. João, 59 e a impressão fazia-se na Typographia de Rodrigo  J. de Oliveira Guimarães, ao tempo sita na mesma rua, 85. N'este periodico colaboraram, entre outros, Amorim Vianna, Alexandre Braga, Camilo Castello Branco, Augusto Soromenho, Coelho Louzada, Evaristo Basto, etc. A coleção do Clamor Publico constitue um grosso volume sobremodo interessante.

In O Tripeiro, 3ª série, 1º ano, p. 210

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

A Capela dos Alfaiates

A Capela dos Alfaiates, construida em 1554 situava-se originalmente em frente à porta da Sé. Contudo em 1935 foi expropriada pela Câmara, juntamente com os arruamentos adjacentes, para a construção do Terreiro da Sé.

NOTA: Todas as fotos abaixo foram todas retiradas do site da SIPA (www.monumentos.pt).


1) Local original da implementação da Capela. Actualmente tudo isto é um descampado chamado Terreiro da Sé e tudo - com a excepção da própria Sé cuja escadaria de entrada aqui vemos - desapareceu.


2) A capela no seu local original. vemos também ainda a maior parte do casario que a envolvia e que também foi demolido.


3) Duas perspectivas - lateral e frontal - da Capela já a ser preparada para a demolição. A segunda foto foi com certeza tirada da porta da Sé, pois a rua não tinha largura suficiente para dar esta perspectiva do edifício.



4) A capela no local onde se encontra desde os finais dos anos 30 do século XX, à entrada da Rua do Sol/Rua de S. Luís.

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Chafariz do Anjo

A 10 de Dezembro de 1845 (há precisamente 168 anos) era colocado no centro do Mercado do Anjo o seu chafariz, que era o que pertencera às Carmelitas. Tinha duas taças, quatro golfinhos, uma árvore e uma águia abraçada a um menino; o mesmo fora completamente lavado apresentando um aspecto de novo.

Note-se que este chafariz não é o que esteve a maior parte da vida deste mercado no seu centro. Por qualquer razão o povo não gostava dele e por isso acabou sendo substituido.

NOTA: O primeiro parágrafo é adaptado de uma notícia retirada de O Periódico dos Pobres no Porto.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

O Porto de oitocentos

Criei um novo blogue onde irei colocar alguns textos que tenho vindo a recolher dos jornais do século XIX, não tão relacionadas com a cidade de uma forma geral mas mais centrado em pequenas notícias, muitas delas perfeitamentes singelas e desimportantes para o estudo da cidade, mas que no seu todo fazem um quadro bastante interessante, e normalmente dadas de uma forma que podemos chamar literária... pretendo assim fazer uma maior destrinça dos temas globais dos pessoais.

Para mais explicações, vejam e sobretudo disfrutem - assim espero - com agrado daquele novo espaço! O link é:   http://oportodeoitocentos.blogspot.pt

domingo, 8 de dezembro de 2013

Reorganização da cidade no ano de 1860

"MAPA Nº 1
Mapa das ruas, largos, travessas e vielas, que prolongando-se com diversas denominações, ficam agora reduzidas a uma só.

Rua do Almada, rua das Hortas > ficam ambas sob a denominação de Rua do Almada.
Rua de Santa Catarina, rua Bela da Princesa > rua de Santa Catarina
Rua de Cedofeita, rua da Cruz, rua 9 de Julho, até à Barreira > Rua de Cedofeita
Rua da Torrinha, rua do Priorado > Rua da Torrinha
Rua da Boavista, rua 25 de Julho > Rua da Boavista
Rua da Porta de Carros, rua do Bonjardim, rua do Bairro Alto, rua da Aguardente > Rua do Bonjardim
Rua do Laranjal, rua dos Três Reis Magos > Rua do Laranjal
Rua de D. Pedro, rua dos Três Reis Magos > R. de D. Pedro
Rua da Alegria, rua do Caramujo, rua 24 de Agosto > Rua da Alegria
Rua do Campo Alegre, rua de Santo Amaro > rua do Campo Alegre
Praça de Carlos Alberto, rua dos Ferradores > Praça de Carlos Alberto
Rua de S. Nicolau, largo da Ourivesaria > rua de S. Nicolau
Rua dos Caldeireiros, rua da Ferraria de Cima > Rua dos Caldeireiros
Rua de Costa Cabral, rua 25 de março > Rua de Costa Cabral
Praça de D. Pedro, Porta de Carros > Praça de D. Pedro
Rua dos Lóios, largo dos Lóios > Largos dos Lóios
Rua 27 de Janeiro, rua 15 de Setembro > Rua da Constituição
Praça da Batalha, largo de Santo Ildefonso > Praça da Batalha
Largo de S. Bento das Freiras, rua do Loureiro > Rua do Loureiro
Rua de S. Lázaro, rua 29 de Setembro, rua do Padrão de Campanhã > Rua de S. Lázaro
Rua Direita, rua dos Ferradores, Largo de S. Roque, Senhor do Loureiro, e Palhacinhas (Vila Nova) > Rua Direita
Sítio dos Guindais, sítio da Praia (Vila Nova) > Rua da Praia
Rua dos Marinheiros, rua de Baixo (Vila Nova) > Rua dos Marinheiros


MAPA Nº 2
Mapa das ruas, largos, travessas e vielas, cujas denominações ficam alteradas para se distinguirem de outras que as tinham idênticas.

Rua do Calvário (Massarelos) - fica sendo rua do Golgota
Rua das Flores (Massarelos) > Rua de Flora
Rua de Cimo de Vila (Foz) > Rua do Alto da Vila
Rua Formosa (Foz) > Rua Bela
Rua da Boavista (Foz) > Rua da Bela Vista
Rua da Conceição (Foz) > Rua da Mãe de Deus
Rua da Alegria (Foz) > Rua dos Prazeres
Travessa da Alegria (Foz) > Travessa dos Prazeres
Rua de S. Bento (Foz) > Rua Beneditina
Rua de S. João (Foz) > Rua de S. João da Foz
Rua da Trindade (Foz) > Rua Trinitária
Rua do Laranjal (Foz) > Rua das Laranjeiras
Travessa do Laranjal > Travessa das Laranjeiras
Rua Direita (Foz) > Rua Central
Rua do Pinheiro (Vila Nova) > Rua do Pinhal

MAPA Nº3
Mapa das ruas, largos, travessas e vielas, cujas denominações para mais simplificação e facilidade ficam alteradas.

Rua 16 de Maio fica sendo > Rua de Santo Ovídio
Rua 9 de Julho (de Barreiras para fora) > Rua da Liberdade
Rua 23 de Julho, ou Direita - Rua de Santo Ildefonso
Rua Nova de S. João > Rua de S. João
Rua Nova dos Ingleses > Rua dos Ingleses
Campo Grande > Campo do Poço das Patas
Calçada do Mirante > Rua do Mirante
Calçada dos Clérigos > Rua dos Clérigos
Travessa da Praça de D. Pedro > Travessa de D. Pedro
Beco do Arrabalde > Viela do Arabalde
Travessa da Rua Bela da Princesa > Travessa de Santa Catarina
Beco de S. Macário > Viela de S. Macário
Beco do Poço > Viela do Poço
Calçada dos Carrancas > Rua dos Carrancas
Calçada do Corpo da Guarda > Rua do Corpo da Guarda
Beco das Panelas > Viela das Panelas
Beco de S. Salvador > Viela de S. Salvador
Beco dos Cadavais > Viela dos Cadavais
Beco do Peixe Galo > Viela do Peixe Galo
Beco de S. Dionísio > Viela de S. Dionísio
Beco do Monte Belo > Viela do Monte Belo
Rua da Ferraria de Baixo > Rua da Ferraria"

Mapas elaborados pelo Governo Civil do Porto e publicados na Imprensa e em todos os lugares públicos da cidade em 20 de Abril de 1860

domingo, 24 de novembro de 2013

A rivalidade Porto - Lisboa

A rivalidade entre Porto e Lisboa não é do nosso tempo, e muito menos se limita ao futebol (uma visão algo mesquinha e ignorante da "coisa"). Não tendo pergaminhos para descorrer sobre a sua origem, causas e desenvolvimento, deixo aqui um pequeno texto que saiu em 14 de Setembro de 1855, no jornal O Comércio (primeiro nome do O Comércio do Porto) que brinca com o lisboeta que vêm em visita ao Porto. Notar que estamos a referir-no aos meados do século XIX...

"
As festas da aclamação em Lisboa prometem ser brilhantes, o que estimamos porque se não somos da capital somos portugueses. Sentimos porém que os festejos nos privem das visitas que às vezes se dignem fazer-nos os nossos compatriotas da metrópole.
É sempre para nós um prazer o ver na nossa província um lisbonense. Não se tenha medo de que o não conheçamos: denunciaom-no aqueles meneios, aquela nonchalance e ar de superioridade que constitui o capitalista ou leão de água doce. Estropia, a propósito de qualquer coisa, algumas palavras francesas que ouviu no teatro de D. Fernando, e desce a calçada de Santo António cantarolando Les filles de Marbre. Vota o mais profundo desprezo aos nossos edifícios e sente o mais santo horror pelas Fontainhas e S. Lázaro. Conta as mais romanescas aventuras da Floresta Egípcia e para mostrar até que ponto chega a nossa insipidez aponta a falta do inebriante espetáculo dos touros.
Quando não fala, nem por isso se deixa de conhecer a sua terra natal. É esta a ideia que o domina. Chamem-lhe parvo e pretencioso, mas digam que é lisbonense, que não é provinciano, e ficará satisfeito.
Ele vai à noite ao Guichard, e sente a mais viva indignação ao ver que os garçons dos cafés do Porto não tem os mesmos nomes que os do Marrare e Martinho. Admira sobremodo que o Matta não tenha uma sucursale nesta retrogada terra.
Quando passa pela Batalha, acomete-o uma saudade pungente pelas noites de S. Carlos, para falar de Alboni que lá esteve e da Grisi que nunca lá foi.
A falta da açorda que papava em Lisboa lembra-lhe a estátua equestre de que se ufana; e a seriedade dos frequentadores do Portuense trás-lhe à memória aquelas noites do Marrare tão cheias de espírito que só há ali, que é perfeitamente da capital.
O capitalista fala de tudo com a frivolidade que o caracteriza, e tudo lhe serve para comparar o atraso da província com a alta civilisação da capital, porque, seja dito entre parêntisis, raramente o Leão fala em Lisboa, mas sempre na capital. Enfim debaixo da pele do leão, que vestiu, facilmente se descortina a orelha que é sua.
O provinciano reconhece e confere ao lisbonense a superioridade... no ridículo. É por isso talvez que não tem a pretensão de imita-lo.
Vanitas, vanitatum, alfacia, alfaciarum.
"

Este texto, diga-se, surgiu no jornal uns dias depois de um outro mais curto, escrito com certeza por um capitalista, sobre o provinciano que visita Lisboa. Mas quanto a esse deixo que algum "lisbonense" que visite a Biblioteca Nacional o procure e traga a lume no seu blog sobre Lisboa...

Nota final: Não sou anti-lisboa nem coisa que se pareça. Amo a minha cidade mas não sou fundamentalista. O Porto é uma cidade soturna, granítica, cinzenta e com um nevoiro "londrino" que lhe confere um carácter agreste. E por isso acredito que não seja, mesmo para o lisbonense com coração aberto, fácil de gostar. Lisboa tem uma natureza luminosa. Gosto particularmente da imensa luz que inunda a baixa pombalina e dos edificios que a compõem. "Graças" ao terremoto a cidade pode renovar-se em grande parte e assumir um plano mais regular de ruas e praças que, sinceramente, me agrada. Esta área edificada em plano não inclinado ajuda à monumentalidade dos seus edifícios. Os bairros típicos serão por ventura, para o portuense que a visite, "o menos típico". Pois que é de ruas de sobe e desce, íngremes ou suaves, longas ou compridas, que é composto, na sua maioria, o centro histórico da invicta.
E mais poderia dizer, mas por aqui me fico.

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Casa-Torre na Rua dos Mercadores


Esta casa provavelmente já não existe. Mas salta à vista o seu carácter medieval já disfarçada pelas janelas contemporâneas...

A rua dos Mercadores era uma das mais "povoadas" por casas deste tipo no burgo, se bem que nunca exitiram muitas por cá face à aversão dos portuenses pelos nobres e o respeito que de uma forma geral os reis sempre tiveram por esse sentimento.


Extraido da primeira série d'O Tripeiro, com um pequeno arranjinho da Porta Nobre...

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Um duelo no Covelo em 1845, que acabou num repasto...

Curiosa notícia que saiu no Periódico dos Pobre no Porto, em 9 de Janeiro de 1845.

"Ontem às 8 da manhã teve lugar no sítio do reduto do Covelo, suburbios desta cidade, um duelo a tiro de pistola entre os Srs. Marquês de Chardonnay e António Augusto de Passos Pimentel, alferes de infantaria 6 (…) o n.º de espectadores seria 20 pessoas, a maior parte estrangeiros, ingleses, franceses e espanhois.
Tendo chegado ao sítio apresado as duas seges em que iam os desafiados, cada um com o seu respectivo padrinho, e apeando-se os padrinhos, e à vista dos espectadores, mostrando os cartuchos com as balas, carregaram as pistolas, as entregaram aos seus afilhados, marcaram o terreno e a 20 passos de distância os contendores descarregaram!!
Nenhum ficou ferido; a pistola do Sr. Passos errou fogo, não batendo o fósforo, e ele não quis segundar, e tendo-se anteriormente convencionado que qualquer que fosse o resultado se dariam por satisfeitos, os contendores se abraçaram e tornaram para casa da mesma forma que tinham ido, dizendo o Sr. Chardonnay - ficamos amigos, sirva-nos isto de lição a ambos.
Pouco depois o Coronel Passos almoçava com a família Chardonnay em casa desta por convite desta senhora. – o motivo desta estranha pendencia foram certas ocorrências desagradáveis que em uma das noites passadas tiveram lugar numa soirée, e na presença de algumas famílias respeitáveis que ali se achavam.
O Sr. Chardonnay aceitou o desafio que lhe propôs o sr, António Augusto, e lhe deixou a escolha de armas."
Daqui, deste nosso imberbe recanto do século XXI, estas pequenas notícias permitem-nos abrir uma acanhada vidraça colorida para aquele século que se escreve com as mesmas letras mas numa ordem diferente, o XIX. E embora não seja relevante para a história da cidade, o pitoresco dela torna-a, a meu ver, minimamente interessante.
Já agora refiro, também por curiosidade e porque o tema é o mesmo, que neste mesmo volume do periódico surge um duelo em que foi desafiado nada mais nada menos do que o futuro Barão de Forrester. Os amigos mais chegados desaconselharam-no ir para a frente com tal acto, contudo no dia combinado o obstinado inglês saiu porta fora de sua casa onde poucos passos dados foi impedido pelas autoridades de prosseguir no seu intento.

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Reliquias do Convento de S.Bento de Ave-Maria (2)

No sábado anterior a este, num breve passeio pelo Porto aproveitei para atravessar a ponte D. Luis I e captar uma imagem mais de perto dos arcos que pertenceram ao demolido Convento de S. Bento de Avé-Maria, no local onde está agora a estação de S. Bento. Contudo ainda não me tinha disposto a coloca-la aqui pois que queria mostrar esta juntamente com uma fotografia antigas em que os arcos se vêm muito bem.

Visitando, como diariamente faço, o facebook do Porto Desaparecido, constato que a foto que queria aproveitar está ai inserta! Ora bem, pensei eu... facilita-me o trabalho e dá-me o impulso que precisava para colocar então aqui a minha foto para que possam comparar com a do local original daquelas estruturas!

Que pena que tantas outras pedras não tenham tido este fim....




domingo, 27 de outubro de 2013

Condições para o concurso da iluminação a gás no Porto (1853)

"1ª  O Empresário ou Companhia de iluminação a gás é obrigado a estabelecer o aparelho de destilação, condensadores, depuradores e gasómetros fora de barreiras, em lugar não povoado, e só lhe será permitido o colocar dentro da cidade gasómetros para depósito de gás, precedendo para isso autorização da Câmara, e ouvindo o Delegado de Saúde.

2ª A Câmara oferece gratuitamente para este efeito o terreno, que for demarcado da denominada Quinta do Prado do Bispo, próximo do cemitério público, na margem direita do rio Douro, podendo o Empresário ou Companhia utilizar-se dele durante o tempo do seu contrato, findo o qual ficará outra vez prtencendo ao município.

3ª Outro qualquer terreno, que nos termos do artigo 1º melhor possa convir ao Empresário ou Companhia, será por ele obtido e pago à sua custa, precedendo aprovação da Câmara e ouvido o Delagado de Saúde.

4 O número dos candeeiros a gás não será inferior ao da actual iluminação a azeite.

5ª Quando convir à Câmara aumentar o número de candeeiros, marcado na condição 4ª não pagará por cada um maior preço, do que estipula pelo presente contrato para cada um dos outros.

6ª A colocação e destribuição dos candeeiros de gás será feita com aprovação prévia da Câmara.
§ único - Se a Câmara a todo o tempo julgar necessário alterar a colocação de alguns candeeiros essa mudança será feita à custa da Câmara.

7ª Os candeeiros serão de chapa de cobre assentado sobre braços ou candelabros de ferro fundido, e todos numerados.
§1 - Nas praças e ruas largas que a Câmara designar, os candeeiros serão colocados em pedestais.
§2 - O modelo dos candeeiros, braços, pedestais e bicos de que trata a condição 10ª será da aprovação da Câmara, e depositado nos Paços do Concelho, para servir de padrão.
§3 - Os candeeiros, braços ou pedestais serão pintados a óleo pelo menos de dous em dous anos.

8ª A condução do gás será feita por tubos de ferro fundido de suficiente capacidade, e solidez, e devidamente experimentados perante um Delagado da Câmara.
§ único - Os canos parciais da condução do gás para os edifícios públicos ou particulares serão de chumbo feitos com segurança.

9ª A Empresa ou Companhia abrirá à sua custa as vias de canalisação pelas ruas ou praças restituíndo as mesmas ao seu antigo estado.

10ª O sistema de iluminação a gás será de leque como se acha estabelecido nas principais cidades da Europa. A chama não será menor de quatro polegadas de altura, de luz clara, brilhante, e sem o menor traço de fumo.

11ª A iluminação dos edifícios públicos ou particulares será feita a avença das partes, e nunca o seu preço excederá a dous reis por pé cúbico de gás: este será completamente purificado, mas o sistema da luz será a avença das partes, e a colocação dos tubos condutores, lustres, candeeiros, ou bicos luminosos, não será da obrigação do Empresário ou Companhia.

12ª Os candeeiros de gás estaram acessos ao anoitecer, e serão apagados ao amanhcer. Nas noites de luar claro, desde o nascer até ao desaparecer da lua, se dará à chama a altura de duas e meia a três polegadas.

13ª Quando aconteça que uma ou mais luzes não tenham a altura e mais requisitos marcados nas condições 10ª e 12ª, será dscontada ao Empresário ou Companhia, a quantia de duzentos e quarenta réis por cada luz e em cada uma das noites em que ocorrerem essas faltas.
§ único - Essa falta será participada à Câmara pelo Inspector de Iluminação, e sendo verificada, o preço da multa ou multas a que se refere este artigo será descontado no primeiro pagamento que se houver de fazer à Empresa ou Companhia.

14ª A Câmara cede gratuitamente ao Empresário ou Companhia os candeeiros e objectos relativos da actual iluminação, os quais lhe serão entregues à medida que forem substituidos pelos de gás.
§ único - Os primeiros cem candeeiros que vagarem são exceptuados desta disposição, e ficarão pertencendo á Câmara como prorpiedade municipal, sedo depositados nos Paços do Concelho, para em caso de incidente imprevisto poderem substituir temporariamente e parcialmente a iluminação de gás pela de azeite: e para aumento da mesma iluminação a azeite nos locais onde se julgue necessária.

15ª Antes que o Empresário ou Companhia principíe a iluminar a gás, todas as obras e aparelhos deverão ser examinados e aprovados pela Câmara, e só procedendo a esta aprovação é que a Câmara ficará obrigada aos pagamentos respectivos do presente contrato.

16ª Para os processos de distilação, purificação, canalisação e mais particularidades relativas à iluminação a gás, o Empresário deverá empregar todos os meios conhecidos, tendentes a precaver todo o perigo na segurança ou detrimento na salubridade pública, e para esse fim fica obrigado à observância dos Decretos de 10 de Março de 1847, e 10 de Outubro de 1848, e bem assim das instruções do Prefeito de Paris de 31 de Maio de 1842.

17ª Todas as obras de iluminação por meio de gás deverão estar concluidas no prazo de trinta meses, no de quinze meses as da cidade baixa e mais frequentada, e nos outros quinze, as do resto da cidade e ruas contíguas das freguesias suburbanas.

18ª Logo que o Empresário ou Companhia tiver realisado a iluminação de quinhentos candeeiros a gás, terá princípio o tempo de duração do presente contrato, estipulado na condição 24ª e será obrigado a tomar a seu cargo a iluminação provisória de azeite no resto da cidade e das freguesias suburbanas.
§ único - O preço da iluminação a azeite será calculado para cada candeeiro pelo termo medio do custo da mesma aos últimos cinco anos.

19ª - Todas as despesas na prontificação das obras, reparos, limpesa neessária, e costeamento da iluminação são da competência do Empresário ou Companhia, e a Câmara somente fica obrigada ao pagamento trimestral do preço porque foi contratada a iluminação.

20ª Todo o incidente imprevisto que obrigar a interromper a iluminação a gás, e a substitui-la pela de azeite em algum ponto da cidade, deve ser participado à Câmara, e perante ela justificado no prazo de vinte e quatro horas.
§1 - As despesas de substituição serão á custa do empresário ou Companhia. A Câmara somente se obriga a emprestar-lhe os candeeiros que conservar em depósito, se ainda os não houver empregado.
§2 - O preço da iluminação a azeite, por cada candeeiro desta substituição será calculado, e pago ao Empresário ou Companhia em conformidade com o estipulado na condição 18ª § único.

21ª Até à conclusão completa de todas as obras para a iluminação a gás, o Empresário ou Companhia será obrigado a prestar uma fiança a aprazamento da Câmara, pela quantia de dez contos de reis, e perderá além dessa quantia todas as obras que tiver feito, se não levar a cabo as condições do contrato.

22ª Todas as perdas ou danos causados a particulares, ou ao público, pelo Empresário ou Companhia, resultantes das obras, ou processo de iluminação serão por ele indemnizaados.
§ único - Para este fim prestará fiança no acto de se efectuar o contrato, por meio de Escritura Pública.

23ª Os actuais empregados da iluminação da cidade serão prferidos, em igualdade de circunstâncias para o serviço da Empresa, e da mesma forma serão preferidos sempre que seja possível operários nacionais a estrangeiros.

24ª A duração do presente contrato é pelo prazo de vinte anos, contando desde a época marcada na condição 18ª.

25ª As fábricas, aparelhos, utensílios, e quaisquer outros materiais, ou obras que a Empresa adquirir, ou fizer para levar a efeito a iluminação a gás, serão no fim do contrato cedidos à Câmara, e por ela pagos à mesma Empresa, precedendo avaliação por peritos.
§ único - O Empresário ou Companhia perderá as fábricas, aparelhos, utensílios, e quaisquer outros materiais, ou obras que a Empresa adquirir ou fizer para levar a efeito a iluminação a gás, e ficarão sendo propriedade municipal se durante os vinte anos abandonar a iluminação sem que ele possa exigir indemnização alguma.

26ª Um ano antes de finalizar a duração do contrato quando tenha de se abrir novo concurso, o Empresário ou Companhia que tiver existido será preferido em igualdade de circunstâncias.

27ª Em caso de dúvida, constestação, ou divergência, entre o Empresário ou Companhia, e a Câmara será ess dúvida, constestação, ou divergência, decidida por Árbitros da forma seguinte:
§1 - A Câmara nomeará dous vogais, e um suplente, e a Companhia ou Empresário nomeará igualmente outros dous vogais, e um suplente.
§2 - Estes vogais e suplentes não serão empregados da Câmara, nem da Empresa.
§3 - Os quatro vogais reunidos resolverão a dúvida contestação, divergência, e no caso de empate um dos suplentes tirado à sorte, decidirá.

28ª O Empresário ou Companhia, se for estrangeiro, desistirá de todos os privilégios que nessa qualidade lhe possam peretencer, e fará essa desistência no acto de celebrar o presente contrato.

29ª Quando a Câmara julgar necessária a fiscalização ou exame da densidade, pureza do gás, e de todo o mais que diz respeito à policia de iluminação, a Empresa será obrigada a facilitar todos os meios para isso necessários, e quando isso não cumpra, a mesma Empresa perderá da prestação que a Câmara é obrigada a pagar-lhe a parte correspondente ao tempo que durar a repugnância.

CONDIÇÕES TRANSITÓRIAS
1ª O concurso para a iluminação a gás estará aberto por espaço de quarenta dias; o preço máximo será de dezasseis mil e quinhentos reis anuais por cada candeeiro; a Empresa será cedida a quem por menos preço a tomar com as condições referidas.

2ª Os concorrentes deverão fazer depósito no Banco Comercial desta cidade, ou na Caia Filial do Banco de Portugal da quantia de dez contos de réis em dinheiro de metal. Este depósito será restituido logo que a Empresa seja cedida e adjudicada. O Empresário preferido só receberá o depósito, depois de ter satisfeito as condições 21ª e 22ª.

Está conforme. Porto e Paços do Concelho de Fevereiro de 1853
O Escrivão da Câmara, Domingos José Alves de Sousa"

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

O estado de ruína da Igreja da Graça em 1872

A 31 de Janeiro de 1872, na reunião camarária havida, dá-se indicação do estado de ruína da Igreja da Graça que pertencia ao Colégio dos meninos orfãos, fundado pelo Padre Baltasar Guedes, em que se lhe refere a ata nestes termos:

"(...) o sr, presidente informou os srs vereadores de que assistira, bem como o arquitecto da camara, o sr. Gustavo, a um exame a que, pela direcção das obras públicas se procedera na igreja da Graça, e pelo resultado dele se verificará que aquele templo, se achava em estado de ruina, como melhor poderia informar o sr. Gustavo. Chamado este senhor, relatou que tanto a frente da igreja como a parede do sul e parte da do norte ameaçam ruina, achando-se as paredes desapromadas, e com grandes fendas. Que o coro principalmente oferecia mais eminente perigo de ruina e que finalmete toda a igreja estava em mau estado de segurança, como ele próprio verificara bem como os outros peritos que tinham assistido ao exame. O sr. presidente, continuando, disse que, ouvida a informação dada pelo sr. Gustavo, era de necessidade representar-se o mais breve possível ao governo sobre este assunto, atendendo a que as obras que ouvessem de fazer-se para reparar o templo seriam muito dispediosas e nada aproveitariam em consequência do referido templo ter mais tarde de ser demolido para a continuação das obras da Academia.
Vista do lado da Praça de Parada Leitão em 1833. atualmente atrás do desenhista estaria o "Piolho".

Propunha, portanto, que se representasse ao governo no sentido de que em primeiro lugar ordene desde já que os exercicios religiosos da corporação dos meninos orfãos se faça na igreja dos Terceiros do Carmo, fechando-se a da Graça, pelo estado de ruina em que se acha, e em segundo lugar para que o governo destine outro edifício para onde se mude o colégio dos orfãos, visto a casa em que actualmente está achar-se também muito arruinada e não ter as condições precisas.

Foi aprovada a proposta do sr. presidente, devendo a representação ser acompanhada do auto que os peritos terão de lavrar em resultado do exame, bem como da informação do arquitecto da camara. (...)"
Vista do lado da Praça de Gomes Teixeira em 1833, atualmente atrás do desenhista estaria a fonte dos Leões.

A "Academia" aqui referida é a atual reitoria na Praça dos Leões. A frontaria da Igreja da Graça estava virada para poente, para a atual Praça de Parada Leitão (quase em linha recta com o conhecido "Piolho", atrás de onde agora se encontra a parede poente da reitoria.

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[Desenhos de Joaquim C. Vilanova, fonte BPMP.]

Post reformado em 21/10/2016

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Antes da Avenida

Não posso dizer que esta postagem seja totalmente original. Ou por outra, ele é-o, mas a ideia, embora pensada desta cabeça, adveio de certas dúvidas que os seguidores do PORTO DESAPARECIDO no facebook tiveram, aquando da visualização de uma fotografia antiga da R. de D. Pedro (nome pelo qual ficou mais conhecida, embora já na república se denominasse Rua de Elias Garcia).

Esta artéria citadina rasgada na zona do antigo bairro do Laranjal desapareceu, como quase todo ele, na segunda década do século XX para dar lugar à Avenida dos Aliados, aliás, Avenida das Nações Aliadas (da primeira guerra mundial).

Abaixo reproduzo a imagem retirada directamente da página do facebook atrás mencionada, e mais abaixo uma fotografia minha tirada no local onde estava, mais metro menos metro, o fotografo que tirou a outra à cem anos atrás.

É difícil de acreditar mas é o mesmo lugar!

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Aparecimento de um quadro

"Em uma casa da Porta Nobre que se anda demolindo para alargamento naquele sítio da rua Nova da Alfândega apareceu ontem metido na parede de um quarto que dava para a rua Arménia um grande quadro de madeira com figuras em relevo, tendo 1 metro e 62 centimetros de alto sobre 1,53 de largo. O quadro compoem-se de sete figuras dispostas do seguinte modo: no centro, de pé, vê-se uma que pelo vestuário e pela coroa representa um rei, sustentando em cada mão um ceptro; pende-lhe do pescoço um colar formado de conchas, terminando na frente por uma cruz, e parece pertencer a alguma ordem de peregrinos de Jerusalem: no manto vê-se algumas flores de lis, distintivo da realeza de França.

Levantam o manto à altura dos ombros dous anjos, e debaixo dele, ajoelhadas, estão três figuras de cada lado, representando duas delas dous reis e as quatro restantes acham-se cobertas com coroas que se assemelham alguma cousa às ducais; da cintura de todos pendem cordões franciscanos. A figura principal mede 1,51m , e tanto esta como todas as outras estão pintadas e douradas; a pintura e os dourados estão bastante sujos, mas a escultura acha-se bem conservada.

O quadro tem uma moldura em redor e achava-se metido na parede, parecendo que fora ali colocado quando se construiu o prédio. O merecimento da escultura está só na antiguidade, pois que não se recomenda como obra de arte de grande valor. Segundo nos consta, a Câmara tenciona manda-lo limpar para o colocar no Ateneu Portuense."

de O Commércio do Porto de Março de 1872

Alguém poderá indicar que quadro é hoje e onde se encontrará?

sábado, 10 de agosto de 2013

O início do transporte público no Porto

O chamado carro americano, foi o primordial meio de transporte público em quase todas as grandes cidades de todos os continentes, que prometia um transporte asseado, cómodo e rápido entre dois pontos; contrariando a esmagadora maioria dos seus desconfortáveis, ronceiros e muitas vezes sem qualquer previsão de horários quer de partida quer de chegada (pese embora alguns deles o tivessem tabelados) concorrentes.

Foi com certeza um choque para a população da altura, não faltando os seus detratores que se manifestavam de forma mais ou menos ruidosa na imprensa da época.

No Porto, este serviço teve início em Março de 1872, os veículo faziam a viagem da porta da Alfândega Nova até ao Castelo da Foz (o primeiro troço inaugurado) em cerca de 15 minutos. O que em 1872 é praticamente como ir a jacto...

Aqui fica o anúncio da abertura dessa linha saida no Comércio do Porto.


terça-feira, 6 de agosto de 2013

O Recolhimento do Anjo

Aquele pequeno triângulo de terreno colocado entre a Reitoria, a Igreja dos Clérigos e Bairro das Carmelitas, e que em tão triste abandono andou recentemente, parece agora renascer das cinzas da sua vida interior, a adaptar-se ao século XXI. Se o seu futuro é promissor nos seus moldes actuais, só o futuro o dirá. Por mim aguardo com expectativa a abertura da sua parte superior em que as árvores ali plantadas oferecem um potencial efeito cénico bastante engraçado.. mas paremos de falar do futuro pois que este blog fala do passado!

E num passado particular: mais precisamente desde finais do século XVII até bem andados os inícios do de XIX, onde nesse terreno se erguia o Recolhimento do Anjo.
O edifício foi demolido em Outubro de 1837 para dar lugar a um mercado - projectado em Fevereiro de 1834 - do qual alguns dos leitores (eu não feliz ou infelizmente) se lembrarão já na sua fase decrépita dos fins do século XX.

Não existem fotografias desse edifício, apenas pelo que vislumbramos em algumas gravuras litografias focando a Torre dos Clérigos, se pode ajuizar um pouco de como seria a sua fachada exterior.

Mas para percebermos melhor como era aquela área e edifício e como ele funcionava, sigamos as palavras de Carlos de Passos (truncadas) na sua bela obra publicada em 1919, Lembraças da Terra:

"Mui além da área do Mercado ia a do Recolhimento com sua capela e cerca, pois ocupava a rua São Filipe Nery, então estreita viela de passagem, e parte das ruas das Carmelitas e da Academia (local do Colégio dos Orfãos), também apertadas ruelas. O edifício era de um andar único, paredes lisas, modesta arquitectura. A meio da fachada três arcos ajeitavam o átrio de entrada assentando sobre eles o coro com três janelas correspondentes aos arcos. Adentro da portaria corriam as coisas à moda dos conventos - rodas, locutórios gradeados - porque, como essas casas, fora construido o Recolhimento e como elas gozava dos mesmos privilégios, embora não houvesse profissão para as recolhidas. A fachada dos dormitórios era bem monástica com suas janelinhas gradeadas, quase postigos. No interior quebrava em quadrado o claustro com chafariz ao meio, na qual a água repuxava em uma taça de pedra; a cerca descia até à viela de S. Filipe.

Ora, para sabermos como corria a vida interna do Recolhimento, vamos ver as mais frisantes passagens do novo [1688] Estatuto.

O Rei nomeia o administrador [pese embora existisse um regente que nos seus primeiros tempos foi a fundadora, Dª Helena Pereira] que será pessoa eclisiástica de autoridade cabendo-lhe visitar o recolhimento, averiguar a conduta das recolhidas, sindicar das queixas, regular os castigos pelas culpas e nomear o pessoal administrativo.

As recolhidas não passarão de vinte e uma [contudo nos últimos tempos chegou-se a contar setenta e duas recolhidas com criadas e porcionistas] para se não destruir a observância crescendo o número, devem ser naturais do Porto ou do Bispado e nobres por ascendência, donzelas, pobres e mansas de condição. As orfãs de pai e mãe preferem quaisquer outras. O mínimo de admissão é de doze anos e só até aos quarenta anos devem receber asilo. Ás porcionistas exigir-se-ão iguais requisitos. Poderão admitir-se mulheres casadas com maridos ausentes e viúvas honestas até aos quarenta anos, pagando 20$000 reis anuais adiantadamente para seu sustento.

Guardar-se-há igual clausura à dos mosteiros e por isso fora de pais, mães, avós e irmãos não deve a regente permitir conversas no locutório; mas se a parentes do 2º grau der licença assistirá então de parte que os ouça e veja. Ao ouvirem missa deverão as recolhidas correr a cortina da grade do coro, de forma a que não possam ser vistas de fora. Quando para exercitarem os seus ofícios, tiverem de entrar, o confessor, o capelão, o sangrador, o cirurgião e o hortelão os acompanhará a regente e outra recolhida a tocar à frente uma campainha para se saber que entra um dos ditos e possam, por isso, as recolhidas tomar suas celas ou comporem-se.

(...) vestir-se-ão as recolhidas de cor parda e tocar-se-ão decentemente sem nenhum género de jóias, adereços, fitas ou outros enfeitos de vaidade, usaram sapatas e chinelas negras. Como ornatos nas celas somente poderão usar um painel ou um crucifixo. As porcionistas vestirão de igual modo e excendendo-se alguma seja censurada pela regente e persistindo seja expulsa pelo administrador.

Toda a gente da casa se levantará às 5 horas desde o dia da Páscoa ao da exaltação da cruz (14 de Setembro) e desde este dia ao outro, às 6 horas. Cada semana sua recolhida tangerá a tais horas a campainha e ao depois irá pelos dormitórios despertando a todas batendo-lhes na porta e dizendo-lhes - Bendito e louvado seja o S. Sacramento e a Puríssima Conceição da Virgem Maria Nossa Senhora concebida sem mácula do pecado original - ao que lhe será respondido - Para sempre, Amen - treplicando a outra - Levante-se irmã, vamos louvar a Deus nosso senhor. A seguir acenderá a luz no coro, no qual entrarão as recolhidas em forma de comunidade ajoelhando em seus lugares por ordem de antiguidade. Ai ouvirão uma meditação dum livro espiritual, entoarão a antifona Veni Sancte Spiritus, farão oração mental por meia hora entoado depois a Salve Rainha e a gratiam tuam, a reza dos Terceiros e por fim ouvirão missa. Após estas obrigações espirituais podem recolher às celas ou ficar no coro se o desejarem até ás 8 horas no inverno e 7 no verão, porque a essas horas devem passar à casa dos lavores até ás 10 de verão e 11 de inverno. Então, entrarão no refeitório havendo lição espiritual ou agiológica durante as refeições. Acabada a mesa cabe ir ao coro dar graças a Deus. À uma hora voltam aos lavores até ás 5 volvendo ao coro a ouvir nova lição espiritual com meia hora de oração mental. Às 6 no inverno e às 8 no verão se tangerá para segunda mesa devendo-se graças a Deus, ao depois, no coro. E por fim a ele voltarão para um quarto de hora de exame de consciência às 8 de inverno e 9 de verão. E acabando-o se recolhem às celas devendo-se guardar inviolável silêncio desde esse momento até a missa do dia seguinte.

Não de dirá, pois, que fosse uma vida agradável ou deleitosa.


Quebrar o silêncio, faltar à hora do coro e culpas semelhantes, implicam suave e particular admoestação da regente à primeira vez, diante da comunidade; jejum de pão e água e a penitência do Rosário da Senhora à segunda vez. As duplas reincidências castigá-las-há o administrador consoante o seu entender. As culpas graves, desobediência, palavras injuriosas e descompostas, intrigas e discórdias, casamento tratado sem ordem do administrador, escrever e receber cartas de amor, falar de dia ou de noite das janelas ou de outros lugares com qualquer homem, violar a clausura subindo a muros ou paredes, implicavam a pena de expulsão.

Afim da regente tomar conhecimento das diversas culpas elegerá ela particularmente duas recolhidas de mais virtude, prudência e capacidade para zelarem os excessos que virem e souberem, comunicando-lhos ao depois.

O dinheiro das rendas da casa se lançará em uma arca de três chaves diferentes, guardando-as, cada uma sua, a regente, a provisora e a sacristã, devendo assistir as três a qualquer abertura. (...)"

Aquando do cerco do Porto, em 1833-34, viram-se as ocupantes forçadas a procurar asilo no Convento de Avé Maria e por isso o recolhimento ficou abandonado. Posteriormete, com a poeira da Guerra Civil já assente, D. Pedro cede o terreno do Recolhimento do Anjo à Camara que nele instalou o Mercado do Anjo após dois anos de adaptação do terreno e construção das novas estruturas.

Para sempre desapareceu aquela instituição, nascida e criada em um outro tempo, tempo esse que no Porto de meados de oitocentos se queria esquecer pois que os ventos sopravam de progresso!

Por mim, ficarei contente se algum dos meus caros leitores se sentar numa das esplanadas que por ali agora se encontram e imaginar, ainda que por breves instantes, o que foi e como foi aquele lugar durante um periodo de cerca de 150 anos.

domingo, 14 de julho de 2013

Viagem ao Douro - cartas de J. J. Forrester (12)

Assim como até aqui me tenho entretido como que de uma vida irregular, escrevendo acerca das pedras do Douro, acomodações de estalagens, &c, &c, assim também passarei agora a dizer uma ou duas palavras sobre um objecto que grave impressão me tem causado pelas terras onde por onde tenho passado: refiro-me a certas casas, geralmente muito mal construidas, mas sempre em lugares mais públicos, e com as janelas au rez de chaussès, junto das quais geralmente se vê bastante gente, congregada, falando e divertindo-se como romeiros em dia de festa. Estas casas, Sr. Redactor, são as cadeias, para onde, de certo, não vai gente que tenha praticado boas acções; contudo, se o objecto de uma prisão é castigar os culpados, e o do castigo é corrigi-los, parecem-me muito fora de razão que sejam dados aos povos, semilhantes maus exemplos como estes a que me refiro; porque, em muitos sítios, longe de ser castigo, os presos vivem, só com a diferena de não terem a sua liberdade, melhor e em maior abundância que jamais conheceram, simplesmente porque pertencem a alguem destes povos de aldeia, como parentes ou compadres que também têm os seus; de sorte que uma espécie de maçonaria ou fraternidade existem entre eles, e a confraria é quem os sustenta.

Dizem, - mas eu como viajante não posso dizer se é verdade, - que estes estabelecimentos são só privilégio dos pobres; e que até, por muitos e sucessivos anos, gozam deste mesmo previlégio, ou por esquecimento, ou porque nenhuma despesa fazem ao Estado; mas, ainda assim, frequentes vezes acontece que no meio do seu regozijo e repentinamente aparece uma ordem não de soltura, mas para que, ligados uns aos outros, vão seguindo caminho do Porto ou Lisboa, para cumprirem o degredo, expiarem as últimas penas.

Eu não me acho com forças, nem a ocasião é própria, para entrar deveras neste assunto; contudo, na cadeia da Relação a cidade do Porto, acontece quase o mesmo, e em muito maior escala, quanto ao edifício, mas não quanto aos confortos em razão da ausência dos parentes. Aqui consta que há também inquilinos de muitos anos, que ocupam, segundo os anos de serviço, diversas graduações; e que  seu chairman (descculpe o termo inglês por não saber o termo técnico) tem muita autoridade, e os seus decretos tem força de lei; e de certo, são rigorosamente cumpridos, e com maior prestesa, que costumam os empregados legais. Não digo isto para ofender repartição pública alguma; porque é bem sabido que nenhuma tem a obrigação de trabalhar dia e noite, como pratica a clientela do dito chairman.

Haverá quem diga que eu sou um estrangeiro muito perverso, e que agora abuso da hospitalidade dos dignos portugueses, fazendo estas minhas críticas, da mesma forma que, quando me atacaram na época em que falei nos vinhos do Porto; e quando mereci o lisonjeiro epíteto de ser uma "ave estranha num país estrangeiro". Porém, Sr. Redactor, já estou muito velho e à prova de bomba; não me intimidam quando eu trato de fazer bem ao país que amo como meu. Vou contar-lhe uma história que tem seus visos de romance; mas nem por isso deixa de ser menos verdadeira.

Quando habitei a casa na Ramada Alta actualmente ocupada pelo patriótico e filantropo (termo de que me sirvo-em lugar de ill.mo e exc.mo) visconde da Trindade, tinha um relógio de mesa muito lindo, de três e meio palmos de altura, sendo o assunto um preto segurando um cavalo bravo e fogoso. Quando saía da minha casa pela manhã, e voltava à noite, costumava sempre conferir o meu relógio de algiberia com aquele; mas aconteceu-me um dia, que, voltando a casa, dei pela falta do relógio, manga de vidro, preto, e cavalo branco, e até a própria chave. Em vão, pergunto a minha mulher, filhos e criados, pela falta; mas ninguem me podia esclarecer o negócio; porém tendo motivos de suspeitar de algumas pessoas, relacionadas com os criados, paguei a cada um deles um mês adiantado, e mostrei-lhes a porta. Foi justamente, Sr. Redactor, nesta ocasião que alguem me falou na bela organização do corpo dos ladrões na cidade do Porto, debaixo da autoridade do ladrão-mór a que acima me referi.

Mandei falar a este potentado por eu não ter a honra de o conhecer pessoalmente, remetendo-lhe os sinais do objecto roubado, e contando-lhe todas as circunstâncias do roubo. Recebi logo um recado verbal mui atencioso, já se sabe, no estilo de - "fulano faz os seus cumprimentos a sicrano, &c; e logo que possa, dará conta da sua missão": Com efeito - na mesma noite uma pessoa mui bem trajada, com hábito de Cristo ao peito, me procurou em casa; e tal era a sua presença de respeitabilidade, que o meu novo criado sem hesitação alguma o encaminhou à minha sala de visitas, pondo as competentes velas de cera; e apresentando-lhe uma cadeira, convidou-o a assentar-se em quanto que vinha ao meu gabinete chamar-me. Póde bem imaginar-se a minha surpresa, quando entrei na sala, e depois da devida troca de cumprimentos, o cavaleiro hóspede participou-me que era o embaixador do ill.mo ladrão-mór da cadeia; e que vinha, da sua parte, para assegurar-me que o roubador não tinha sido nenhum membro da honrada profissão a que ele presidia, aliás com muito gosto me teria sido já restituido o relógio.

Agradeci, como era de supor, a finesa do cavaleiro e lhe retribui os cumprimentos da personagem que ele vinha representar. Confesso, porém, que enquanto o meu criado o acompanhava até à porta, passei um golpe de vista por toda a sala para verificar se, com efeito, mais alguma outra redoma me faltava.

Publiquei anúncios nas gazetas, ofereçendo alviçaras de 6 moedas a quem me desse notícias do meu pobre cavalo branco, e seu condutor africano. Em seguida veio um adeleiro convidar-me para ir ver um relógio muito bonito que ele - que não tinha visto os anúncios - julgava poder servir-me, dando ao mesmo tempo uma descrição exactissima do objecto.

Acompanhado por um amigo, segui o adeleiro até uma casa na rua de....... na cidade baixa; entrei numa loja onde estava a conversar uma mulher de mantilha com o dono: não reparei muito neste mulher no momento da entrada; mas vi sobre o mostrador 3 montes a 2 moedas em que ela pegou sem as contar, metendo-as num lenço, e saindo precipitadamente. A quantia do dinheiro por ser aquele que eu tinha oferecido de alviçaras, fez que eu, ainda que tarde, lançasse os olhos após a mulher; e não pude deixar de pensar que eu a tinha visto em diferentes ocasiões, falando com os meus criados.

O logista não me conhecia; e eu também nada lhe disse do fim da minha visita. O adeleiro disse-lhe que eu era muito tentado com objectos de gosto, e queria ver a sua coleção. Levou-nos para uma sala no 1º andar; e logo que entrei, vi numa prateleira entre ricos vasos de porcelana e outros objectos, o meu cavalinho com todos os mais aprestes. O bom do homem abriu as suas gavetas, e caixa-forte; em poucos momentos cobriu a mesa de pulseiras, cordões de ouro, alfinetes de peito, tiáras e anés de brilhantes, e um sem número de condecorações. E em várias outras partes da sala apontou toda a qualidade de roupa feita, e alguns lenços de seda pendurados sobre uma corda que comunicava com uma campainha fora da porta.

Logo conheci que eu estava no atélier de um ladrão de profissão; cuhos discípulos eram ensaidos neste recinto, praticando a gíria de furtar lenços sem serem pressentidos, sendo o grau de perfeição na arte o poder tirar um destes lenços da corda solta sem tocar a campainha.

Nestas alturas tirei da algibeira o Periodico dos Pobres, e mostrei o meu anúncio ao professor da arte ligeira. Ele mudou de cor, e deu um passo para a porta; porém interceptei-lhe a retirada, e em poucas palavras, mas com muita firmesa, reclamei o que me pertencia. Pranteou, - suplicou perdão, - protestou a sua inocência, dizendo que não lhe era possível saber de onde vinham os objectos que lhe ofereciam à venda, ou em penhor; - que não conhecia quem lhe tinha trazido o relógio; e que muito sentia não ter visto o anúncio, porque no momento da minha entrada na sua loja, a mulher que dias antes havia trazido o objecto roubado, estava neste acto levando as 6 moedas, preço que lhe tinha custado. Continuou a jurar que nada sabia do furto, mas acrescentando que, visto que o objecto era meu - conhecia ser da sua obrigação entregar-mo; o que com efeito fez dentro de meia hora.

Como vi que não era possível descobrir o modo engenhoso, com que o relógio tinha sido roubado de minha casa, forçoso foi que me contentasse com a sua restituição, sem ulterior procedimento; mas - quando cheguei a casa, e principiei a dar corda ao relógio reparei que a fábrica tinha sido atada com um bocadinho de retroz de seda verde, que havia sido tirada da pequena mesa de costura que estava no outro lado da sala - operação esta que decerto não foi feita no momento, e que tinha por fim evitar que o relógio desse horas durante a mudança. Este facto deixou suspeitas sobre mais de um indivíduo; e será força de imaginação, mas é facto, que quando eu passo por certa rua muito estreita que conduz ao postigo do Sol, uma mulher, que julgo ser a mesma que eu tinha visto recebendo o dinheiro na loja de que já falei, - logo que me avista, retira-se para dentro de casa.

Tenha paciência, Sr. redactor, com esta massada - mas estas reflexões são consequênia da prisão voluntária a que me votei na minha barquinha, e da minha imaginação precisar de distração. Porém o remédio está na sua mão e não gostando do que tenho escrito, remédio será queimar esta carta.

Agora falemos sério. Sentirei, Sr. Redactor, se eu nesta narração entrar em seara alheia; por isso que sei que o meu amigo Sr. José Frutuoso Aires Gouveia Osório, doutor pela universidade de Coimbra, e Edimburgo, nas suas viagens à Inglaterra, França, Bélgica, e países do norte, estudou teorica e praticamente a organisação das prisões. Desejava muito perguntar a este meu amigo, porque mutivo não tem ainda publicado as suas observações áquele respeito. Será, por acaso, que ele, também* como eu, tenha pedido estatísticas, sobre o assunto a algum ministro de estado, e as não tenha recebido, depois de lhas prometerem? Quem sabe!

Sou de VV.
J. J. Forrester

* no original tãobem

terça-feira, 9 de julho de 2013

Viagem ao Douro - cartas de J. J. Forrester (11)

Tendo os meus finados e muito respeitados amigos os Srs. António Bernardo Ferreira, e José Bernardo Ferreira sido os maiores empreendedores no país do Douro, hábeis lavradores, proprietários ilustrados, e cavalheiros estimados por todos os que tiveram a fortuna de possuir a sua amizade, julgo bem descrever as principais propriedades outrora destes fidalgos, e agora pertencentes à Exmª Sr.ª Dª Antónia Adelaide Ferreira.

Na margem direita do rio Douro, a um quarto de légua ao norte da Régua, sobre uma colina e no lugar de Travassos, está situada a casa e quinta do Sr. José Bernardo Ferreira, sem dúvida a mais fértil, e mais rica de todas as propriedades que se encontram nas duas margens deste rio, em todo o país, a que ele dá o seu nome.

O génio empreendedor e franco de seu dono à custa de grossos cabedais, e de penoso trabalho, fez que se tornasse um terreno, que era escabroso, pela maior parte inculto, cheio de rochedos, e rodeado de pricipícios, em vinhas, campos, olivais, pomares, jardins, armazéns, lagares, e uma bela e apalaçada morada de casas.

Vai um soberbo muro circuitando a mesma quinta e casa, que tendo de altura 18 palmos, e pintado de branco, numa situação elevada, é visto na distância de 5 léguas.

Desde Travassos até Paredes se elevam nesta quinta um sem número de sucalcos, lançados em forma de grandes degraus. estes sucalcos feitos em ordem a sustentar horizontalmente o terreno que os separa, não são feitos de alvenaria como nas outras quintas: são grandes e grossos paredões de pedra faceada, e de espaço a espaço com um largo lanço de escadas, que os comunica.

Do alto desta quinta se goza um golpe de vista, que sempre se apetece e se deseja: dali se vê o pitoresco, o belo , e o terrível; ali se apresenta tudo em perspectiva: lá se vê o Marão elevando ás nuvens seus escabrosos penhascos cobertos de neves sempre constantes... Vila Real, Cumieira, Santa Marta, Sanhoane, Lobrigos, Peso, Régua, Jugueiros e todas as povoações, até ao Moledo, dali se observam!...

De lá se vê o Douro desde a Varosa até ao Carvalho. Canelas, Presegueda, Fonte do Peso, toda a estrada desde o rio até Lamego, e todas as eminências até à serra de Santa Helena, que fica 8 léguas de distância, dai se descobrem...

Há mais abaixo um tanque que recebe 40 pipas de água, despejada por uma fonte que abrange o volume de uma telha; esta água tem a sua origem de uma extensa mina, que se abriu através dos rochedos, para se lhe encontrar o manancial. O seu aqueduto é feito com asseio, segurança e grandesa; daqui até o pomar de espinho é vinha, grangeada de tal modo que um arbusto não teria mais zelosa cultura; o que faz que toda a vinha tenha uma aparência ajardinada.

O pomar de espinho consiste em dois grandes tbuleiros, guarnecidos de altas paredes, vestidas de limeiras, limoeiros, bergamotas, cidreiras, &c.; quatro ordens de frondosas laranjeiras estão ao longo de cada tabuleiro: no primeiro há um grande tanque, que recebe duas bicas de abundante água, do qual se despejam para regarem as árvores.

Segue-se um jardim plantado a buxo: nele se vêem vários arbustos, flores em volta de uma taça com seu repuxo. Para o nascente inclinado ao sul tem uma varanda de pedra de cantaria em todo o comprimento do jardim, que tendo no centro um semi-círculo saliente, guarnecido de bancos, é terminada nos dous extremos por duas portarias. As quatro partes do mundo e as quatro estações representadas em estátuas, ali existem levantadas em pilares ao longo da varanda.

Saindo do jardim, vai-se entrar em uma longa carreira, com pavimento de cantaria, guarnecida de uma asseada varanda de ferro que sustenta em grossos esteios de ferro, uma elegante gradaria de madeira lavrada, formando uma ramada de diferentes e escolhidas qualidades de uvas, e que se termina em uma casa de fresco feita também de grade de ferro, e tudo pintado de verde. Esta carreira é sobranceira a dois grandes quarteirões cada um dos quais é igualmente guarnecido de varanda de ferro: o primeiro tem uma bem ordenada cascata; o segundo, um tanque com duas bicas de água, e ambos estão plantados em horta ajardinada com as melhores qualidades de hortaliça.

À direita há um pomar de diversas qualidades de fruta de pevide e caroço. À esquerda fica a principal entrada da casa e quinta, fechada por um portão de ferro: e do outro lado da casa havia, há 7 anos, uma enorme pedreira; mas já não existe essa rocha; já desfeita, sucumbiu à força da indústria, existem em seu lugar um espaçoso terreiro, gaurnecido de alto muro; essa enorme e grande pedreira tornou-se numa bem desenhada escadaria em um jardim: ergue-se à direita dela uma parede com portas que dão entrada para a vinha, e á esquerda é o corrimão de grade de ferro; vai terminar esta escadaria em um jardim guarnecido de gradaria de ferro, e que dá entrada para a casa pelo último andaime.

No fundo da quinta está a casa, levanta-se em dois andaimes, cada um de 11 janelas de frente, e na arquitectura é regular, porém no interior aparece o bom gosto e o asseio.

A capela está ao lado esquerdo da casa, é bem construída, e bem ornada e nada lhe falta para a decência do culto divino.

No primeiro andaime da casa, pela parte de trás das salas de respeito, estão três lagares de grandes dimensões em pedra de cantaria com os seus competentes pesos, fusos e balanças, e por canais praticados através do pavimento corre o vinho par dez toneis de trinta pipas cada um, arcados de ferro, e que estão no armazém, que ocupa toda a extensão da casa, ao nível da rua. Em distância curta deste, há outro armazem no sítio chamado a urtigueira dentro da quinta; dá-lhe entrada um portão de ferro seguido por uma larga rua, onde estão 600 pipas de vinho generoso, e de diferentes qualidades, e idades, divididas em lotes.

O rendimento actual desta grande propriedade é de 150 pipas de vinho da melhor qualidade entrando neste número de 48 a 50 pipas de vinho de uva bastardo; virá a ter 4 pipas de azeite, produzindo todas as oliveiras que estão levantadas, para cima.

É todavia forçoso advertir que todos os vinhos que produz esta quint, são feitos com a maior escolha e rigoroso escrúpulo no tempo da vindima: nos lagares são escolhidas as uvas mais bem sazonadas para primeira qualidade, das menos se faz a segunda, e das menos ainda a terceira &c. e assim se tornam sempre os vinhos de maior crédito e de invariável existência; e por isso se torna a sua cultura e colheita a mais dispendiosa.

Esta narração em nada é exagerada, e a público não a rogo, mas sim com autoridade dos donos da propriedade, como terei muito gosto em descrever muitas outras quintas importantes em ambas as margens do Douro, no caso que seja a vontade dos seus possuidores.

As quintas da Boavista em Vila Maior do Valado e de Vargielas são, todas, quintas da família Ferreira, e produzem de 120 até 150 pipas de vinho cada uma, boa fruta de espinho, e algum azeite. São todas muito bem grangeadas: os lagares são cómodos e excelentes, e o vinho é feito com todo o esmero, tendo sempre comprador certo. - Mas a quinta das quintas - uma das maravilhas do mundo, outrora parte de uma cordilheira de montanhas incultas, agora servindo de monumentodo quanto podem vencer a inteligência, preserverança, e o génio empreendedor do homem, é o VESÚVIO, ou QUINTA DAS FIGUEIRINHAS.

Na nossa descrição geológica do litoral do rio já falamos nesta grande propriedade. É situada sobre a margem esquerda do rio, na freguesia de Numão, concelho de Freixo de Numão, 2 1/2 léguas acima do ponto do Cachão. É quase inacessível por terra, exceto a cavalo, pela falta de estradas; mas quem a visitar pelos caminhos actuais, depois de terem andado umas poucas de horas em um deserto, entra no que bem se pode chamar paraiso. Um portão grande dá entrada para esta quinta; e magníficas e largas ruas conduzem por toda a extensão da propriedade, e com especialidade até á margem do rio, onde há uma boa casa de residência, excelente adega, e lagares espaçosos, armazéns, casas próprias para recolher os trabalhadores;  e como a quinta é muito longe de qualquer povoação ou vila, há também lojas de peso, de carpinteiro, pedreiro &c. para o serviço da quinta e para suprir a numerosa gente que forçosamente aqui se emprega por todo o ano.

Esta belíssima fazenda é cercada de um bom muro, e pode ser plantada para produzir acima de 700 pipas de excelente vinho maduro e encorpado, que também tem comprador certo, apesar de, como já dissemos, sr no cais da Baleira onde acaba a demarcação dos vinhos e embarque.

Também a quinta pode produzir de 80 a 100 pipas de azeite, 70 a 80 arrobas de amêndoa, e algum milho e centeio.

Enquanto que nos achamo nestes sitios, com estas belas vinhas em nossa frente, e com íntimo conhecimento da belíssima qualidade dos vinhos que produzem - qualidade que poderá ser igualada, mas não excedida em parte alguma da demarcação legal - gritaremos, como temos feito acerca das pedras no rio: Vergonha é que o governo, que se chama progressista, continue a marchar no trilho do retrocesso, e no obscurantismo dos tempos remotos. Em nome da razão, porque não há-de o governo actual ter coragem, sem mais pequena demora e neste momento crítico em que os habitantes do Douro se acham ameaçados com a ruina tota das suas vinhas, e o país com a perca da jóia mais brilhante da sua coroa, para decretar que haja plena liberdade para cultivar a videira livremente em toda a parte, para que o vinho possa ser embarcado sem mais alcavalas, provas, e peias, que por um século tem arrasado o país, maneatado os lavradores, fazendo até criminosa toda e qualquer inovação que se encaminhe a progresso?

Há 10 anos que pela primeira vez levantei a minha débil voz neste mesmo sentido. O Commercio do Porto se lembrará da oposição que me foi feita, e que só em campo era eu o único estrangeiro a pregar esta doutrina - que aqueles, que tinham bem mais interesse que eu, para que os monopólios cessassem, e as leis bárbaras se derrogassem -, tanto contrariaram e impugnaram. Mas toda a sua oposição - toda a sua perversidade - todas as suas asserções a meu respeito alegando que o que eu tinha avançado, fora "vago, infundado, e falso" não me farão sair do meu campo: há 10 anos que tomei a minha posição, tenho podido sempre fazer frente á posição daqueles que me cercavam, e esta posição estou eu resolvido a sustentá-la, até que venha, ainda que tarde, a justiça e a liberdade que eu reclamo e que tenho direito a reclamar entre os mais proprietários do Douro.

Pois, Sr. Redactor, não se chamava a lei da imprensa a "lei das rolhas"? O governo mais direito tinha a mandar fechar a imprensa, do que tem para dizer-me a mim, e a milhares de outros - que só em certo terreno havemos de plantar couves, e em outro, semear feijão; ou, o que vem mais para o caso, - que em certo sítio de entre muros ou demarcações havemos de cultivar esta ou aquela qualidade de Vinho, o bem para as tavernas, e o ruim para o embarque.

já tenho dito que esta não é a primeira vez que tenho expendido estas ideias; mas quem tiver a curiosidade de ver o que eu escrevi sobre - Free Trade - sobre o estado actual de Portugal, e também sobre as belas esperanças que anunciei naquela época (Julho de 1853), podem referir-se a páginas nº 135 até 437 do meu "Ensaio premiado sobre Portugal" - esperanças que, como já disse, têm sido ate agora malogradas.

Sou de VV.
J. J. Forrester

quinta-feira, 4 de julho de 2013

Viagem ao Douro - cartas de J.J. Forrester (10)

O cachão da Baleira é o sítio mais romântico e importante de todo o rio Douro.

Até 1791 um enorme rochedo que aqui fazia cachão, impossibilitava a navegação direita por toda a extensão do rio. Então, Tua era um lugar importante por ser o cais onde se descarregavam os géneros que tinham de ir por terra para cima do Cachão, ou se carrregavam os que vinham da raia e embarcavam para baixo. O rio está actualmente tão seco que nas raízes deste, outrora formidável rochedo, se vêem a meio palmo abaixo de água os buracos das brocas, dos trabalhos do século passado, quando a dez palmos mais acima e outros tantos mais abaixo, o poço tem de 40 a 50 palmos de profundidade. No fragão à esquerda, por baixo de uma coroa imperial, vê-se a inscrição seguinte:

"Imperando Dona Maria I já se demoliu o famoso rochedo que fazendo aqui um cachão inacessível, impossibilitava a navegação desde o princípio à séculos, Durou a obra desde mil setecentos e oitenta até mil setecentos e noventa e um"

Ainda há poucos anos desapareceram uma espada e bandeira que aqui existiam. O insigne geólogo português, Dr. J. Pinto Rebello, (que teve de se expatriar, por não achar meios no seu país) descreve este sítio do Douro nos seguintes termos:

"É precisamente neste ponto, onde outrora existiu a cataracta que se opunha à navegação superior do rio, que termina o país vinhateiro propriamente dito. - É pois a quinta da Valeira, que ultima a demarcação da Companhia Geral, encostada ao grande penhasco de granito por onde o Douro se precipita numa longa e estreita fenda."

O canal do cachão propriamente chamado, tem de comprimento 400 braças, contando do ribeiro de Campeires até ao cais da Baleira. As margens são rocha viva, que não tem menos de 1500 palmos de altura. Abundam aqui pombos bravos e as corujas fazem entoar o seu grito melancólico por todo o sítio.

Na margem esquerda sobre o ponto mais elevado do pinhasco citado, existe a Ermida de S. Salvador do Mundo e Senhora da Penha com todas as suas capelas e passos do Senhor, que não podem ser comparados em importância e extensão com o Bom Jesus de Braga; contudo belíssima que é a vista do senhor do Monte não iguala em magestade e aspecto sublime, a perspectiva que de S. Salvador se descobre. Que sítio este para o artista, para o homem de gosto, admirador da natureza inculta, para o geologista, arqueólogo ou naturalista! Daqui do lado do nascente os castelos de Numão e Anciães, situados em elevados terrenos de granito, conquistam um e outro a uma légua de distância objectos que tornaremos a referir quando concluirmos a nossa viagem pelo rio. Nota-se mui distintamente logo meia légua adiante que acabam os granitos e principiam os xistos e com eles a célebre Quinta do Vesúvio do qual nos ocuparemos quando aqui chegarmos. Pelo lado do norte descobre-se uma grande extensão de terreno montanhoso coroado pelo notável alto da Senhora da Cunha, pelo sul os vales de S. Xisto e Caçarelhes, cobertos de ricos olivais, e na encostada do mesmo monte de S. Salvador vêem-se sítios que serviam de túmulos aos Romanos e mais acima entre as vinhas de terreno de lousa e granito encontram-se provas irrefragáveis de ter aqui havido em outras eras erupções vulcânicas: finalmente, voltando-se o expectador para o poente, logo se admira vendo correr o Douro no primeiro plano entre vinhas, no segundo entre granitos e no terceiro outra vez nos xistos.


Não sendo esta a primeira nem mesmo a vigésima primeira vez que tenho visitado estes sítios não me esqueci que uma pinga do meu bom vinho do Duque do Porto, do Marquês do Pombal, ou antes de D. Maria I (por ela ser a senhora do Cachão) misturado com a deliciosa água da bela fonte que nasce na casinha da - Ermida - acompanhada com um petisco tendo para sobremesa as belas vistas naturais, havia de saber bem; aqui descansei num gozo perfeito, esquecendo-me de amigos e inimigos, dos filhos, parentes, negócios e cuidados; entregue ao novo mundo criado na minha imaginação, à admiração da natureza e dela ao Creador de tudo.

Ah! que satisfação não teria metade dos habitantes dese país se podessem também gozar destas delícias; porém não há estradas, ainda que em S. João da Pesqueira que dista um quarto de légua, se vêem palácios e edifícios magníficos não há comodidades para os viajantes.

Eu digo isto por experiência: passei as últimas duas pontes em uma intitulada estalagem na qual não tivemos luxo, a não ser que a abundância de percevejos à noute e o importe da nossa conta pela manhã, possam assim ser considerados. Quando pedi contas, a resposta do estalajadeiro foi muito galante - fumando o seu cigarro e dando uma cospidela formidável para o meio do chão, disse-me que quanto a contas não se lembrava para as dar por miudo, porém o que tinha a receber que eram dous osberunos.

Perguntei-lhe de que terra ele era - respondeu-me: "Sou de Vila Nova de Foz Côa - A vossa senhoria parece lhe que a conta é grande? Eu também tenho andado pelo país e não me parece muito o que tenho levado!"

Há anos, encontramos no monte de S. Salvador, vestígios de um acampamento e vários tijolos romanos - bem como algumas moedas - pedras de moer pão, ou de pisar terras metálica - porém, Sr. redactor, vamos continuando com as pedras do rio, deixando o monte de S. Salvador para quando tivermos mais vagar.

A descida desta posição elevada até ao cais da Baleira levou-nos um bom quarto de hora. Quando entramos na barquinha tivemos ocasião de gozar as escabrosas margens do poço da Caçarelhos até à Ripança e dai até S. Xisto onde intervêm os xistos e continuam até Arnozelo - aqui tornam a atravessar os granitos pela distância de um quarto de légua - ou até à quinta do Vesúvio, ou das Figueiras, em cujo cais paramos.

Sou de VV.
J. J. Forrester