quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Planta da reedificação do Convento de S. Francisco

O Arquivo distrital do Porto é possuidor de um acervo documental imenso, como não poderia deixar de ser; mergulhando e pesquisando nele poderemos encontrar autênticas relíquias. Da minha parte já "descobri" coisas que nunca imaginaria poder um dia encontrar e sobretudo visualizar.

Esta postagem trata de uma planta com que me deparei pesquisando na versão on-line do mesmo arquivo, referente à reedificação do Convento de S. Francisco do Porto. Segundo a legenda na ficha :

Contém a planta da linha oriental da elevação do dormitório do convento reedificado e respectiva legenda. A reedificação do convento foi iniciada a 2 de Abril de 1764. A primeira pedra foi lançada a 10 de Maio do mesmo ano, sendo provincial o Pe. Frei Lourenço de Santa Teresa e guardião o Fr. Luís da Soledade Estrela e síndico Geraldo Belens. As obras foram concluídas em Junho de 1802. 

Muito pouco tempo portanto, se manteve esta estrutura na paisagem portuense.

Abaixo coloco a descrição, e mais abaixo ainda a planta com a fachada do dormitório, que corresponderá à fachada Norte, onde hoje corre a fachada do Palácio da Bolsa sobre a Rua da Bolsa.

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DECLARAÇÃO DA PLANTA
A Linha das Letras  A e A' é a linha oriental da elevação do dormitório, que é o melhor do convento. Dobrado este pela dita linha ficando em ângulo recto, mostra a figura, que faz o Dormitório, com as dispensas, e o terreno, que fica junto à cozinha ; o que tudo se expressa pelos seguintes.

NÚMEROS
1- Chaminé; 2- Cozinha; 3- Despensa; 4- Porta; 5- Terreiro aonde se desfaz a lenha; 6- Terreno da Horta; 7- Paredes; 8- Caminho que vai do convento para o Hospital; 9- Outra Parede; 10- Porta para entrar no Hospital; 11- Oito janelas do refeitório; 12- Ministra por onde passa o comer para o refeitório; 13- Porta da cozinha; 14- Janela da enfermaria; 15- Janela da Enfermaria; 16- Janela regral; e todas as mais deste feitio são janelas iguais e as pequenas são janelas das celas.; 17- Casa das privadas; 18 e 19- Dista um número do outro 50 palmos; 20 e 21- Dista um número do outro 85 palmos; 22 e 23-Dista um número do outro 17 palmos


Atente-se nestas curiosas notas:


E para não ficarem distantes as privadas novas assinadas pelos irmãos terceiros, como se mostrou no mapa, que por ordem deles se mandou fazer; que vão 25 palmos, é necessário que fique como se mostra neste. E havendo de ficar na conformidade do mapa dos terceiros, não tem mais que 17 palmos do número 22 ao número 23 e no mapa dos mesmos terceiros se mostram 25 não tendo o terreno mais que dezassete palmos. E a ver desta forma, ficam muito próximas às Dispensas do Convento e podem facilmente inficionar os víveres, legumes e tudo o mais que existir nelas. E por cima da mesma cozinha, e dispensa está um eirado com figuras aonde os religiosos tem várias flores. aonde vão recrear-se a cada passo, e tomar o fresco no tempo do Verão. E fazendo-se as privadas no sítio assinado pelos terceiros, não só causam os referidos bem atendíveis detrimentos; mas até chegam a tirar-lhe alguma vista. E não fica só aqui o detrimento; pois como em quase todo o ano sopram os ventos do Norte e Noroeste, infalivelmente hão-de introduzir péssimo e pestilento cheiro pelas janelas do refeitório, e das celas, e até na enfermaria; com grande dano e detrimento dos religiosos sãos; e com grande perigo dos religiosos enfermos que constantemente existem na enfermaria.





É confusa esta planta, que não está desenhada de uma forma moderna. De facto encontram-se aqui debuxados a fachada (elevação) e as restantes estruturas, que lhe ficavam à frente (plano), por forma a dar uma percepção das distâncias.

Notar que a fachada representada é norte e não a oriental. A linha sim, é que é a oriental; pois corre de oriente para poente! Outra forma de o comprovar é através das estruturas que vemos como referentes às latrinas, dispensa, etc. Onde se encontravam estas estruturas? Precisamente no local onde hoje temos a rua da Bolsa e parte do terreno do Hospital. Basta atentar às plantas da cidade existentes anteriores à abertura da Rua de D. Fernando (hoje Rua da Bolsa) para verificarmos o desenho de forma geometrica idêntica a elas (ver a planta de 1813 ou a de 1824 por exemplo).

Atualmente, do convento propriamente dito resta-nos ainda a portaria, virada a sul e "ensanduichada" entre a Capela dos Terceiros e a Igreja gótica; portaria essa praticamente inalterada pelas obras de adaptação ao Palácio da Bolsa e que ainda apresenta a sua Torre Sineira. Dentro do edifício atual temos ainda o magnífico claustro, se bem que bastante transformado e uma escadaria conventual de acesso aos dormitórios, etc.

O chafariz, que ainda em tempos do Palácio da Bolsa permanecía no meio do claustro, foi infortunadamente remetido ao exílio forçado no Passeio Alegre; chafariz esse todo em cantaria e pedra lavrada e que é, sem dúvida, dos mais bonitos e que o Porto possuí.

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Postagem reformada em 2016-12-22

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