domingo, 23 de dezembro de 2012

O Armazém do Sr. Forrester

(30 de Agosto de 1854)
Sabendo que o Sr. Forrester tinha estabelecido no seu armazém da Ermida em Vila Nova de Gaia um caminho-de-ferro por onde girava um carro acelerado construído convenientemente para o serviço das vasilhas, levado pela curiosidade que nos promovera objecto tão novo, fomos à morada do Sr. Forrester; e seguro da dignidade que caracteriza este cavalheiro solicitamos de S.Sª o mostrar-nos o seu armazém e a permitir-nos presenciar o trabalho pelo seu novo sistema.

Não tinhamos a honra de contar-nos na tratabilidade do Sr. Forrester, e o nosso título de apresentação não passava do desejo, que assistia a uma pessoa, quase desconhecida deste patriótico comerciante. Faltavamos a um rigoroso dever se deixassemos de patentear como foramos recebidos pelo Sr. Forrester, e pelo seu digno filho, da maneira que mais podia lisonjearnos. Ss.Sª tiveram a nobre franqueza de mostrar-nos todo o seu estabelecimento, dando-nos civilizada e agradavelmente as necessárias explicações tendo nós a ocasião de ver que o novo mecanismo, que o Sr. Forrester apropriara ao seu armazém, aponta a passagem para o progresso naquela qualidade de trabalho.

O armazém  de um comprimento de perto de 500 palmos, é cortado no centro por uma linha férrea das dimensões usadas nos caminhos de ferro ordinários. Por esta linha, que separa os seis rumos, que comporta a capacidade do armazém, percorre o carro acelerado pelo impulso, que pode dar-lhe a força de um ou mais homens conforme a necessidade o exija. Este carro mandado construir de propósito na Inglaterra debaixo da inspecão do Sr. James, filho do Sr. Forrester, compoem-se de dois corpos, estando num deles colocado um guindaste, que levanta as pipas ou para o 2º ou 3º corpo, a fim de serem transportadas para o ponto que se queira ou para a altura do lote, a que seja necessário elevalas. O serviço assim feito substitui o trabalho pelo menos de três quartas partes dos homens, que se empregavam e empregam no sistema antigo. As lotações e os benifícios fazem-se com tal celeridade que a grande a conveniencia do carro e do guindaste se torna evidentemente palpável. Para quem nos outros armzéns presencia a fadiga dos trabalhadores para fazer rolar as pipas levando-as a qualquer ponto determinado através do custoso impulso das mãos, vendo-as rojar pelo pavimento térreo com manifesta deteriorção de todos os elementos, que as compõem, além dos grandes balaços, que o líquido sofre dentro da vasilha, estorvando a sua pronta depuração, não pode deixar de maravilhar-se que o Sr. Forrester achasse o segredo de acabar com estes inconvenientes tornando o serviço mais suave e reconhecidamente mais proveitoso para as vasilhas e líquidos armazenados. Para mais satisfazermos nossa curiosidade quisemos experimentar a impressão do movimento do carro através do carril de ferro, e com os nossos companheiros fizemos a carreira de toda a linha e foramos perfeitamente surpreendidos, podendo fazer ideia, se bem que aproximada, do trânsito das locomotivas nas vias férreas, de que só temos visto a descrição. (1)

Seria bem para desejar que os comerciantes de vinhos seguissem o exemplo do Sr. Forrester, aproveitando os grandes resultados, que a ciência da máquina oferece ao trabalho, dando assim uma prova de que os adiantamentos daquela ciência não passam infrutíferos para nós.

Além da inovação do caminho-de-ferro, e do carro, que por ele percorre, que não pode alcançar todo o serviço a fazer no armazém, o Sr. Forrester introduziu no trabalho, que dirige, pequenos carros de mão adquados aos misteres. Os hoptrucks servem especialmente para transportas os cascos vazios, demandando apenas a pequena força de um rapaz. Uns de quatro rodas baixas, que se empregam na condução das pipas cheias para qualquer dos pontos dos terceiros rumos pelas diferentes coxias do armazém: e outros mais pequenos, que servem unicamente no trânsito ao vinho engarrafado, tendo a vantagem, além de se moverem com facilidade, serem construidos de modo tal, que a quebrar-se alguma das garrafas o vinho é recebido num depósito e aproveitado.

Não há só a notar no armazém do Sr. Forrester  as inovações, que deixamos mencionadas: além delas, a regularidade na colocação de todos os objectos para que apareçam de pronto quando necessários, concorre também muito para a singularidade do estabelecimento. As ferramentas e demais utensílios são todos no possível esmero do trabalho, não podendo deixar de promover um vantajoso resultado nas operações. Os utensílios, que se destinam à depuração das borras, são tão engenhosamente concebidos que produzem uma notável disparidade, comparados com os do sistema nos outros armazens seguido.

Os armazéns de Vila Nova não sendo de construção subterrânea, como o são em outros paises para ministrar aos líquidos a frescura de que necessitam, precisam de ser contínuamente refrescados com água. Para esse refresco mandou o Sr. Forrester vir e emprega no seu armazém a bomba chamada force-pump, que o refresca e ao mesmo tempo as vasilhas que nele se acham, servindo também para bomba de incêndio.

Para estimular os sentimentos dos trabalhadores e infundir-lhes os preceitos da moralidade, que devem guiar o homem em qualquer posição, que se encontre, o Sr. Forrester mandou escrever na porta do armazém os dois preceitos que devem dirigir a conduta dos operários - O mérito será premiado - o vício será punido - Praticando estas duas saudáveis máximas, o Sr. Forrester todos os sábados recompensa monetáriamente o trabalhador ou trabalhadores, que de recompensa se tornem dignos durante a semana.

Ao lado do armazém está a tanoaria, descobrindo-se nela o mesmo sistema de regularidade. O alimento dos trabalhadores é preparado em comum a troco de uma diminuta parte do salário a qual não excede a vinte réis diários, tendo assim aqueles por uma insignificante quantia um rancho excelente, muito mais barato e abundante do que o teriam feito por conta de cada um em particular, resultando, além desta vantagem do trabalhador a do Sr. Forrester que nos disse não prejudicar-se e conseguir para o trabalho o tempo que cada trabalhador perdia com o seu arranjo particular de comida, que pelo sistema adoptado se faz convenientemente por dous aprendizes da tanoaria ou do armazém. Os aprendizes não concorrem para o rancho, que o Sr. Forrester lhes manda ministrar gratuitamente, concedendo-lhes de mais quatro horas por dia para poderem ir à escola. O Sr. Forrester leva tanto a empenho de interessar os operários no seu estabelecimento que ele próprio vigia a cozinha, procurando por todos os modos que o rancho seja tanto quanto ser possa agradável aos trabalhadores. O vinho dado de bebedagem é dado regradamente; mas na precisa abundância, não sendo negado de modo algum, quando o exige o cansaço do trabalho.
A economia na despesa é um feliz resultado de todas as combinações, em que a experiência do Sr. Forrester assentou o seu novo sistema. É assim que a boa práctica de administrar pode reunir as reciprocas vantagens do trabalhador e do dono do armazém. Parece-nos que deviamos a nossos leitores a descrição do que viramos, pois que ela não será indiferente a parte deles, que na especialidade se empregam no importante ramo do comércio do vinho.

(1) - Ainda não existia caminho-de-ferro em Portugal, em 1854...

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Planta da reedificação do Convento de S. Francisco

O Arquivo distrital do Porto é possuidor de um acervo documental imenso, como não poderia deixar de ser; mergulhando e pesquisando nele poderemos encontrar autênticas relíquias. Da minha parte já "descobri" coisas que nunca imaginaria poder um dia encontrar e sobretudo visualizar.

Esta postagem trata de uma planta com que me deparei pesquisando na versão on-line do mesmo arquivo, referente à reedificação do Convento de S. Francisco do Porto. Segundo a legenda na ficha :

Contém a planta da linha oriental da elevação do dormitório do convento reedificado e respectiva legenda. A reedificação do convento foi iniciada a 2 de Abril de 1764. A primeira pedra foi lançada a 10 de Maio do mesmo ano, sendo provincial o Pe. Frei Lourenço de Santa Teresa e guardião o Fr. Luís da Soledade Estrela e síndico Geraldo Belens. As obras foram concluídas em Junho de 1802. 

Muito pouco tempo portanto, se manteve esta estrutura na paisagem portuense.

Abaixo coloco a descrição, e mais abaixo ainda a planta com a fachada do dormitório, que corresponderá à fachada Norte, onde hoje corre a fachada do Palácio da Bolsa sobre a Rua da Bolsa.

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DECLARAÇÃO DA PLANTA
A Linha das Letras  A e A' é a linha oriental da elevação do dormitório, que é o melhor do convento. Dobrado este pela dita linha ficando em ângulo recto, mostra a figura, que faz o Dormitório, com as dispensas, e o terreno, que fica junto à cozinha ; o que tudo se expressa pelos seguintes.

NÚMEROS
1- Chaminé; 2- Cozinha; 3- Despensa; 4- Porta; 5- Terreiro aonde se desfaz a lenha; 6- Terreno da Horta; 7- Paredes; 8- Caminho que vai do convento para o Hospital; 9- Outra Parede; 10- Porta para entrar no Hospital; 11- Oito janelas do refeitório; 12- Ministra por onde passa o comer para o refeitório; 13- Porta da cozinha; 14- Janela da enfermaria; 15- Janela da Enfermaria; 16- Janela regral; e todas as mais deste feitio são janelas iguais e as pequenas são janelas das celas.; 17- Casa das privadas; 18 e 19- Dista um número do outro 50 palmos; 20 e 21- Dista um número do outro 85 palmos; 22 e 23-Dista um número do outro 17 palmos


Atente-se nestas curiosas notas:


E para não ficarem distantes as privadas novas assinadas pelos irmãos terceiros, como se mostrou no mapa, que por ordem deles se mandou fazer; que vão 25 palmos, é necessário que fique como se mostra neste. E havendo de ficar na conformidade do mapa dos terceiros, não tem mais que 17 palmos do número 22 ao número 23 e no mapa dos mesmos terceiros se mostram 25 não tendo o terreno mais que dezassete palmos. E a ver desta forma, ficam muito próximas às Dispensas do Convento e podem facilmente inficionar os víveres, legumes e tudo o mais que existir nelas. E por cima da mesma cozinha, e dispensa está um eirado com figuras aonde os religiosos tem várias flores. aonde vão recrear-se a cada passo, e tomar o fresco no tempo do Verão. E fazendo-se as privadas no sítio assinado pelos terceiros, não só causam os referidos bem atendíveis detrimentos; mas até chegam a tirar-lhe alguma vista. E não fica só aqui o detrimento; pois como em quase todo o ano sopram os ventos do Norte e Noroeste, infalivelmente hão-de introduzir péssimo e pestilento cheiro pelas janelas do refeitório, e das celas, e até na enfermaria; com grande dano e detrimento dos religiosos sãos; e com grande perigo dos religiosos enfermos que constantemente existem na enfermaria.





É confusa esta planta, que não está desenhada de uma forma moderna. De facto encontram-se aqui debuxados a fachada (elevação) e as restantes estruturas, que lhe ficavam à frente (plano), por forma a dar uma percepção das distâncias.

Notar que a fachada representada é norte e não a oriental. A linha sim, é que é a oriental; pois corre de oriente para poente! Outra forma de o comprovar é através das estruturas que vemos como referentes às latrinas, dispensa, etc. Onde se encontravam estas estruturas? Precisamente no local onde hoje temos a rua da Bolsa e parte do terreno do Hospital. Basta atentar às plantas da cidade existentes anteriores à abertura da Rua de D. Fernando (hoje Rua da Bolsa) para verificarmos o desenho de forma geometrica idêntica a elas (ver a planta de 1813 ou a de 1824 por exemplo).

Atualmente, do convento propriamente dito resta-nos ainda a portaria, virada a sul e "ensanduichada" entre a Capela dos Terceiros e a Igreja gótica; portaria essa praticamente inalterada pelas obras de adaptação ao Palácio da Bolsa e que ainda apresenta a sua Torre Sineira. Dentro do edifício atual temos ainda o magnífico claustro, se bem que bastante transformado e uma escadaria conventual de acesso aos dormitórios, etc.

O chafariz, que ainda em tempos do Palácio da Bolsa permanecía no meio do claustro, foi infortunadamente remetido ao exílio forçado no Passeio Alegre; chafariz esse todo em cantaria e pedra lavrada e que é, sem dúvida, dos mais bonitos e que o Porto possuí.

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Postagem reformada em 2016-12-22

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

A Capela do Rei Carlos Alberto (2)

Pedro de Oliveira respondeu uns dias depois, num longo comunicado que o Jornal publicou na integra ocupando quase uma página completa, isto numa altura em que os jornais tinham geralmente quatro. Apesar da extensão do mesmo, penso que terá interesse "histórico" para nos apercebermos como aquele singelo monumento foi erguido, vai para 160 anos...


"29 de Setembro de 1854
Srs. Redactores,
Um comunicado que VV. transcreveram no seu periódico de 14 do corrente, relativo à Capela que se está construindo no Largo da Torre da Marca, em memória do Rei Carlos Alberto e no qual figura o meu nome, me obriga a dar algumas explicações, a fim de repelir de mim toda a responsabilidade pela sua arquitectura o gosto adoptado para as quatro faces da Capela tanto exterior como interiormente. Principiarei narrando o que comigo se passou a tal respeito.

Logo que chegou a esta cidade a Princesa, parente do Rei Carlos Alberto, fui convidado para comparecer em casa de Sua Alteza a fim de ser ouvido e consultado relativamente à construção de uma Capela, que em memória ao mesmo Rei ela pretendia mandar fazer, e sendo apresentado pela mesma pessoa que em nome de S.A. me tinha convidado, tive a honra e satisfação de falar com a Princesa e de ouvi-la a tal respeito. Nesta ocasião mostrou-me S.A. um risco, que tinha sido feito em Lisboa, porém não o achando a seu gosto convidou-me a que eu fizesse um novo risco, dando-me para isso todas as instruções que julgou precisas, e todas aquelas que lhe exigi.

Passados alguns dias e quando me achava tratando dos riscos da capela, recebi de sua alteza uma pasta com uns riscos feitos à lápis por S.A. acompanhados de uma carta da pessoa que me havia apresentado, na qual se me pedia o orçamento da despesa da Capela, cujas dimensões eram as mesmas da que se está construindo, segundo os riscos que se me enviaram. Posto que os mesmos nada mais fossem do que uma ideia geral da frente da Capela - planta baixa, secção transversal e longitudinal, ou por outra uns esboços, nem por isso deixei de satisfazer ao que se pedia, remediando as omissões, ou falta dos ditos riscos, segundo melhor me pareceu e julguei conveniente, tendo em vista que os lados exteriores da Capela, e frente da trazeira ou costas da mesma, deviam estar em harmonia com a frente principal indicada no risco, pois que para os outros tres lados não havia risco algum. Neste sentido orcei toda a obra da Capela, excepto a da tribuna, que talvez tivesse de ser de mármore, e remeti a Sua Alteza o orçamento.

Quatro dias depois disto compareci em casa de Sua Alteza com o projecto da Capela riscado por mim na melhor forma, que entendi, e segundo as instruções que de sua Alteza tinha recebido, apresentando planta da frente principal, planta das costas da Capela, e lado, planta baixa e secção transversal e longitudinal da mesma. Nessa ocasião estava também presente o Vice-Cônsul da Sardenha o Illm.º Sr. Paulo Rodrigues Barbosa, o qual viu que a Sua Alteza não desagradou o meu projecto, e que, somente observou as maiores dimensões que ele tinha em relação ao que ela pretendia, no que respondi,- que tinha riscado a Capela como entendi, porem que se alguma coisa não agradava a Sua Alteza, que se lhe fariam as alterações que quisesse, e que quanto às maiores dimensões era isso fácil de remediar, reduzindo o projecto ao tamanho que se quisesse, no que S.A. concordou.

Apesar do risco da frente da Capela, que eu tinha riscado, não ser um trabalho perfeito e definitivo, contudo juntou-se ao requerimento, em que S.A. pedia licença à Câmara Municipal para a construção da Capela no largo da Torre da Marca, sendo o illm.º Sr. Paulo Rodrigues Barbosa encarregado de o apresentar à Câmara para ser aprovado e ver o que a Câmara decidia a tal respeito, o que me consta logo fizera pois que neste mesmo dia era o da sessão ordinária da Câmara. Combinou-se por fim que S.A. iria, um dia ao local da Torre da Marca para ver se preferia o terreno público para a edificação da Capela, ou o terreno particular que por certa pessoa lhe fora oferecido para o mesmo fim; dizendo Sua Alteza que eu seria avisado para comparecer, quando fosse designado o dia. Nesta inteligência, e tendo concluído o fim a que fui a casa de S.A, retirei-me, esperando o aviso do dia em que havia de comparecer.

É certo que nunca recebi tal aviso, mas também é certo que alguns dias depois desta última entrevista com Sua Alteza - foi a Câmara Municipal com S.A. em vistoria ao local indicado, acompanhada, segundo me consta, de S. Exc  o Sr. Barão de Valado, Governador Civil, Cônsul francês e outras pessoas, e por essa ocasião designaram para a colocação da Capela o terreno em que a mesma se está construindo  também é certo que depois da minha última entrevista com Sua Alteza, em que se passou o que referi, foi convidado o meu amigo e colega o Sr. Joaquim da Costa Lima Júnior, para falar com sua Alteza e fazer um plano da Capela projectada. Sei que ele tratou disso e apresentou a Sua Alteza o que julgou conveniente e acertado, porem quando justamente se tratava de resolver sobre o definitivo plano da obra ou de discutir o plana do Sr. Costa Lima foi contratada a obra da Capela pelo mestre pedreiro Lopes, que a anda construindo  pela quantia que, de certo, e a estas horas o público não ignorará sobre as condições que se apresentaram e assinaram de parte a parte.

Em vista, pois, do que se passou, depois da minha última entrevista com Sua Alteza,  e não se me tendo dito mais coisa alguma a tal respeito, pelo que me constava, fiquei na persuasão,de que a Capela, que fora logo principiada, era construída segundo o risco apresentado pelo Sr. Costa Lima,e nesta ideia vivi por bastantes dias, e até às vésperas da saída de Sua Alteza para a Foz para embarcar no primeiro paquete, quando então certo de que mais não se incomodariam comigo para tal fim, recebi um recado para ir de novo falar com Sua Alteza, o que apesar de todos os pesares, não deixei de fazer. Disse-me então Sua Alteza que pretendia que eu lhe fizesse um orçamento de certas obras da Capela, que não tinham entrado no contracto feito com o mestre Lopes; como eram a tribuna, o passeio de pedra que deve circuitar a Capela, e outras mais; - ao que me prontifiquei, pedindo me fosse dada uma relação por escrito dessas obras, o que Sua Alteza fez, satisfazendo eu pela minha parte como me foi pedido. Depois de largamente conversarmos a respeito da Capela, disse-me Sua Alteza se eu teria dúvida em aceitar a fiscalização da obra da Capela pela sua parte, e surpreendendo-me tal proposta, observei a Sua Alteza que nenhuma dúvida teria, mas que era melhor encarregar disso o Sr. Costa Lima, visto ser ele o autor do plano, que se estava seguindo. S.A respondeu-me que o plano não era o dele, e que se eu não tinha dúvida em aceitar a proposta, no dia em que eu fosse entregar o orçamento que me pedia das obras, me falaria a tal respeito definitivamente. Justamente no dia em que Sua Alteza foi para a Foz, esperando ai embarcar no próximo paquete, fui entregar o orçamento pedido, e então me perguntou Sua Alteza definitivamente se eu estaria concorde em aceitar a fiscalização da obra da Capela pela sua parte; respondi que aceitava a proposta, mas que era conveniente que Sua Alteza por escrito me indicasse quais as obrigações que eu tinha a cumprir e me pusesse ao facto do contracto da obra, para poder conhecer até onde a mesma obra satisfazia ou apresentava vício ou defeito, sendo aquele o documento com o qual eu devia apresentar-me ao mestre pedreira, exigindo dele o cumprimento do que tratara.

S.A. disse que eu me devia entender com o Cônsul francês, a quem informaria de tudo, sabendo ele já que eu ficava encarregado de fiscalizar a obra, e que independentemente do papel que eu exigia e que me iria mandar, diria ao mestre pedreiro o mesmo que tinha dito ao Sr. Cônsul francês. Ora., sem querer saber se S.A. disse ou não a tal respeito alguma coisa aos indivíduos referidos (que me parece e consta que dissera), o que é certo é, que esse documento que eu exigi não o recebi. Pelo criado de S.A., que viera a minha casa entregar um livro de sua parte, lhe mandei eu dizer que estava esperando pelo documento que ficara de me mandar.

S.A. embarcou e o papel que eu exigi não apareceu; por tanto entendi que não devia ir fiscalizar a obra da Capela sem um documento passado pela devida pessoa que me autorizasse a fiscalização.

Nestas circunstâncias foi correndo a obra, até que há pouco mais de um mês recebi um recado para que me dirigisse ao Sr. Cônsul francês, que tendo recebido instruções de S.A. a respeito da obra, nas mesmas se mencionava o meu nome como encarregado por S.A. da fiscalização, e que ela exigia que, procedendo o Sr. Cônsul a uma visita à obra na minha companhia, ela fosse informada circinstânciadamente do andamento e estado da obra, na persuasão de que eu, apesar da falta de autorização por escrito para fiscalizar a obra, ainda assim a fiscalizara. Por esta ocasião expus à pessoa que se dignou dirigir-me o recado o que comigo e S.A. se tinha passado nos últimos dias da sua estada aqui. Apesar de tudo, disse-me essa pessoa, que ainda assim S.A. estava certa, segundo o conteúdo das cartas que tinham vindo, de que eu fiscalizava a obra, e que por isso apesar de não ter ido à mesma obra, fosse falar com o Sr. Cônsul francês para se combinar no dia da visita. Assim o fiz, e por esta ocasião expus ao Sr. Cônsul as razões referidas, que me tinham impedido de fiscalizar a obra por parte de S.A., ao que s.sª respondeu que embora assim sucedesse devíamos fazer-lhe uma visita para informar S.A. do estado da obra da Capela, na forma de sua exigência, ao que prontamente anuí. Marcamos o dia da visita para uma sexta-feira às 6 horas da tarde, e nesse dia ai fomos, indo também o Illmo. Sr. Padre Peixoto, convidado pelo Sr. Cônsul, e o mestre pedreiro. Foi então que vi o verdadeiro estado e andamento da obra e o plano que servia de regulamento para a mesma que é, sem dúvida alguma, feito por S.A. e por ela está assinado, compondo-se só de um risco no gosto gótico, para a frente principal, planta baixa e secção transversal e longitudinal da Capela, tudo feito à lápis. É mais um esboço ou ideia geral, do que um rico definitivo para uma obra de tanta circunstância come aquela.

Encontrei a obra em quanto à frente principal feita até à altura de dez palmos com mui pequena diferença, em quanto às faces laterais, em maior altura; quanto à frente das costas da Capela, achava-se já feita a pequena porta de entrada e pequenas janelas de luz do pavimento térreo, e montados os peitoris das janelas do pavimento superiro, que ha-de ficar sobre a sacristia da mesma, e quanto ao interior achavam-se já assentes algumas bases da colunas que tem de formar as naves, e principiada a parede que deve dividir o corpo da capela da sacristia.

Nesta ocasião observei que, não havendo risco que regulasse a forma da frente das costas da capela, fora esta imaginada, ou feita ad libitum e a gosto do mestre pedreiro, assim como as frentes laterais da mesma capela, não havendo tanto entre estas como entre a frente das costas da mesma, nenhuma semelhança ou harmonia com a frente principal, e são mais um contrastre do que outra coisa; além da frente das costas da capela ser de um gosto muito ordinário e muito vulgar.

Quanto ao interior é certo também que as proporções das colunas e mais peças da obra, são da mão do mesmo mestre, que neste caso, vista a falta de esclarecimentos, obrou como quis ou entendeu.

Achando-se pois a obra neste estado, e vistas as circunstâncias expostas, entendi que a minha missão se limitava a examinar a segurança, e boa construção da obra, e quanto ao mais, como os riscos não supriam a falta de explicação no contracto nem este as omissões dos riscos, nenhuma observação fiz a tal respeito, naquela ocasião, mas nem por isso deixei de o observar a certa pessoa, que bastante interessa tem tomado neste negócio da capela, a qual à minha observação respondeu: Que isso agora era mau, que iria levantar uma grande poeira, e que melhor seria entender-me com o mestre pedreiro; eu entendi de outra forma, que foi calar-me, e nada dizer a tal respeito: porque se tal observação fizesse ao mestre pedreiro, ele decerto se oporia a demolir a obra para a fazer de outra forma, e em relação com a frente principal, dando às colunas e bases as devidas proporções, sobretudo quando o risco de uma obra o deixa variar a sua vontade, como agora acontece, e o contracto não supre alguma falta.

Instigado pelo comunicado que VV. transcreveram no seu periódico, sou obrigado, para credito meu, a mostrar que nada tenho com o bom ou mau risco da capela que se está construindo; para prova do que, faço a referida exposição singela e franca de tudo que comigo se tem passado, a tal respeito, a pedindo a VV. se serviam mandá-la transcrever no seu periódico.
 Setembro, 27 1854      Pedro d'Oliveira "

Com este comunicado, pretendia Pedro de Oliveira "Limpar" o seu bom nome de profissional de um projecto que a julgar pelo que descreve, foi mal conduzido desde o início, acabando, como por dar origem a um "patinho semi-feio". Não se entende o pedido a dois arquitectos da cidade para elaborarem o projecto da mesma e posteriormente ambos serem descartados a favor dos primitivos esboços que deveriam apenas servir de base de maturação para um traçado estruturado e capaz da mesma. Em relação à contrução desta capela, houve aqui qualquer coisa muito mal contada....

sábado, 24 de novembro de 2012

A Capela do Rei Carlos Alberto (1)

Para a história desta capela, concorrem duas notícias interessantes que surgiram  no Jornal O Commércio" (primeiro nome d'O Comércio do Porto).
Não serão bem notícias, mas sim comunicados, que pessoas enviam aos jornais na expectativa de as verem ser publicadas. Muitos destes comunicados eram acusações e contra acusações, pessoais ou não.
Mas vamos ao que interessa! Este primeiro comunicado saiu a 11 de Setembro de 1854 e não ia assinado.

"A importância da cidade do Porto é toda comercial e a cidade mesmo em si, não encerra monumentos grandiosos, fontes elegantes ou estátuas que imprimem um cunho de grandeza a um centro de população e fazem admirar a estrangeiros.
Está-se contruindo agora no Largo da Torre da Marca, uma capela em memória do herói italiano, o Rei Carlos Alberto, mandada fazer pela Princesa, sua parente, que há pouco aqui esteve. Consta-nos que quando ela tratou mandar construir a capela, chamara vários arquitectos para lhe darem planos mas parece que afinal dera um esboço da obra, ao mestre pedreiro, encarregado da fiscalização dela, o arquitecto Sr. Pedro d'Oliveira.
Custa-nos a crer que se deixe um mestre pedreiro presidir aquela edificação, sem plano algum regular e conveniente; por isso lá vemos nas traseiras da capela que nos dizem gótica, duas janelas de feitio das de qualquer casebre moderno! As paredes laterais em lugar de pedra lavrada vão ser rebocadas exteriormente com cal, o que denota pobreza e mau gosto.
Pedimos por tanto à Ex. Câmara, como zeladora do afromoseamento da cidade, que dê a este negócio a devida atenção, se não quiser ver no largo da Torre de Marca um edifício sem beleza regular, nem harmonia, em fim um outro drop, mas de pedra.
Não somos mestre pedreiro, e pouco nos importa que quem justou a obra, ganhe muito ou pouco, falamos porque hoje em dia é preciso falar e porque estamos cansados de ver obras tristes e azangadas."

Esta estória não acabou aqui, e uns dias depois, o arquitecto Pedro d'Oliveira respondeu, no mesmo jornal, num longo artigo que ilustra muito bem o modo como esta capela foi idealisada e construida...





domingo, 4 de novembro de 2012

Traquitanas para ir a banhos à Foz...

Vasculhando um velho jornal do já longínquo ano de 1854, apareceu esta curiosa notícia, a qual transcrevo aqui pela "caricatura".
A polícia deveria intervir para que na época dos banhos, na estrada da Foz, os trens mais rococos não transitassem assim livremente, dando aos estrangeiros uma fraca ideia do progresso em Portugal. Têm-se mesmo ultimamente construido veículos indecentes e extravagantes; - há dias vimos um destes carros, que não era mais que o fundo de um carroção e cuja forma lembrava o barco Salva-vidas; há outro que parece uma tina, e o viandante ali metido parece que vai aproveitando o tempo tomando o seu banho.
Ainda se vêm por ai bolieiros de chapéu desabado e mal trajados, A polícia pode muito bem obrigar os donos das carruagens de praça a fazer uma reforma completa do material e no pessoal em harmonia com a decência e bom gosto que devem caracterizar uma cidade civilizada. in O Commércio de 9 de Agosto de 1854

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Pelo Codeçal acima sobe o muro...

"Pelo Codeçal acima sobe o muro na direcção do Nascente, e no alto desse monte pedregoso lá se vê ainda uma torre quadrada alta e forte, servindo hoje de mirante às religiosas do convento de Santa Clara..."
Henrique Duarte Sousa Reis

A foto aqui apresentada é um pormenor de uma outra, com o propósito de mostrar a parte das escadas do codeçal que foi à muito demolida. Esta escadaria ingreme era na época medieval o "caminho de rolda" da muralha fernandina.

Dentro; o abrigo dos seus fortes muros; fora o perigo da exposição ao inimigo. Em baixo um pormenor de uma conhecida e relativamente fiável vista do Porto de finais de setecentos, onde podemos ver o Postigo da Areia, última abertura na muralha antes desta subir a escarpa.
Este postigo, creio, estaria já demolido ou entulhado nos finais do século XIX (data aproximada da foto acima).


A origem do nome Codeçal estará no facto de aquela escarpa ser povoada por imensos codessos. Estes são um arbusto do família das leguminosas de planta de cor amarela e que crescem espontâneamente na Europa (noutros locais do mundo são por vezes cultivadas como plantas ornamentais).



domingo, 7 de outubro de 2012

Uma vista da Torre dos Clérigos com 150 anos

A imagem abaixo é uma panorâmica tirada da Torre dos Clérigos o mais tardar ai por 1870 e poucos... Vemos no primeiro plano a Rua dos Clérigos que senão na totalidade, se encontra practicamente na totalidade como a conhecemos ainda hoje.
Atrás temos a lateral Sul da Praça de D. Pedro com o passeio dos Lóios do outro lado da rua (naquela altura jocosamente denominado de "O Pasmatório dos Lóios").
Na parte nscente dessa mesma praça o edifício que se lá vê é ainda o do Convento transformado em diversas casas de habitação. O claustro que estava por detrás da Igreja é que provavelmente já não existia ao tempo em que esta foto foi tirada.
No segundo plano e à esquerda, vemos que a Rua de Sá da Bandeira ainda não existe, pois no seu local temos parte do terreno transformado em hortas e locais de lavoura (a foto não abarca a viela da Neta mas ela seria localizada um pouco mais à esquerda) e acima as traseiras das casas da Rua de Santa Catarina.
No entanto, a Rua de Sampaio Bruno já existe mas ainda com o nome original de Sá da Bandeira e terminava pouco depois do entrocamento com a do Bonjardim.
Bonjardim esse que só vinha acabar nos Congregados e que também ela fazia um cotovelo como a moderna que a substituiu e que a alargou antes de mudar o nome pelo qual é hoje conhecida de Sá da Bandeira.
No início da Rua 31 de Janeiro temos ainda uma modesta casa pois ainda não existe o desnível com a passagem subterrânea - hoje vedada - nem o prédio que a substituiu e que agora faz já parte cristalizada da paisagem da cidade >br> A Rua da Madeira ali está delimitada a sul pela muralha fernandina! São bem visíveis as ameias que a coroam.
E esse vetusto e medieval muro ampara ruas e casas no seu exterior, já pelo lado de dentro delimita a horta das Freiras de S. Bento, cujo Convento com a sua belíssima Igreja só viria a ser derribado décadas mais tarde.
Não há aqui ainda nem estação nem túnel nem comboios fumegantes, apenas a ilusão de se estar no campo criada pelo permanente chilrear dos pássaros, o murmúrio das águas que correm pelo chafariz e os passos suaves das irmãs no seu atarefado dia-a-dia em companhia do silêncio.

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Reliquias do Convento de S.Bento de Ave-Maria

Na igreja de Cedofeita - a nova - mesmo à entrada, encontram-se duas relíquias que para ali foram levadas no final do século passado para serem incluidas na construção da nova igreja de Cedofeita. Isso nunca chegou a acontecer, e dentro das instalações da Igreja encontram-se dispersas algumas das pedras desse malfadado convento, destruido para dar lugar à estação de S. Bento.
Este remate não consegui ainda identificar de que parte do convento veio.
Este fogareu encontrava-se a rematar a entrada principal do convento, virada para a Rua do Loureiro. Há lá mais, e algumas dessas pedras estarão porventura "escondidas" das vistas. Para ver algumas imagens deste Convento e admirar a sua lindíssima fachada barroca virada para a rua do Loureiro clique aqui


terça-feira, 14 de agosto de 2012

Palavras para quê...

Retirado de um O Jornal do Porto de Agosto de 1871.

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Igreja Gótica de S. Domingos do Porto (2)

Segue-se a planta do corpo da igreja (ver abaixo), onde apenas se vê esta indicação lançada ao lado da escala: Petipé do Corpo da Igreja.

Mostra-nos os pilares divisórios das naves, de secção quadrada, com chanfros e colunas embebidas, em número de oito, formando quatro tramos por banda. O traçado indica-nos as sepulturas e o lageado do pavimento..

Registarei as indicações do Sr. Dr.Cunha e Freitas: "A igreja era de três naves que formam 4 arcos de cada parte de volta de ponto agudo sobre 4 pilares distante cada um do outro 26 palmos, sem base, lisos até aos capitéis, e media, fora o cruzeiro, 124 palmos de comprimento por 75 de largura". Estas medidas conferem com as que nos dão a planta, com pequena diferença quanto à largura, no desenho apresentada para menos.

"O pavimento, estava outrora coberto de sepulturas, quase todas com seus letreiros, e algumas com seus escudos de armas entre os quais haviam algumas de mármores finos, dispostas sem ordem alguma. Depois de 1734, ficaram só 116 - 66 na nave central e 50 em cada uma das laterais." A planta de Fr. Pedro indica fiadas de sepulturas, dispostas com regularidade geométrica, que cobrem inteiramente as naves, acusando número diferente.

Outro desenho, apresenta-nos o segmento inferior de um pilar da igreja. Viu-se anteriormente que, consoante a descrição do Sr. Dr. Cunha e Freitas, os pilares eram "sem base, lisos até aos capitéis". A forma condiz com a secção deles que no dá a planta do corpo da igreja, quadrados, com chanfros, e meia coluna em cada face; as medidas deles nos dois desenhos (planta e alçado) são concordes: 6 palmos de lado. Na reforma radical de 1734 houve desejo de os modificar nas bases, ao jeito clássico; para isso, o carmelita arquitecto delineou três projectos diferentes, um deles com sacrifício parcial de colunelos para lançamento de uma escada de púlpito; sob o projecto apresentado em primeiro lugar - o mais simples deles - anotou o arquitecto este he o melhor, e de menor preço. É de crer que tivesse sido o escolhido.

Dois dos desenhos do grupo representam alçados: um deles é o corte e parede fundeira da capela-mor, coberta de abóboda de berço, de tijolo, com 64 palmos de alto,sobre espessos muros onde se abrem duas tribunas iluminadas pelo exterior,rematando a empena por uma cruz, com pirâmides muito ornadas nos extremos, de concepção barroca; o outro mostra uma capela com o seu arco de meio ponto, elevando a 49 palmos, o entablamento flanqueado de pirâmides singelas terminadas por bolas tendo superiormente uma janelam ladeada de ornatos barrôcos em S; esta capela, pelo aspecto geral e dimensões, devia, possivelmente, pertencer ao cruzeiro.
Os restantes três desenhos são de menor interesse; um, em planta, com aguadas,diz respeito a um altar e respectiva tribuna, os outros, em alçado, ao côro e presbitérios.
Pena é não se encontrar neste grupo de desenhos a frontaria do templo, que na reforma de 1734 sofreu grande transformação.

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

A Cancela Velha

Esta foto de 1962 publicada n' O TRIPEIRO mostra o local onde actualmente está o grande edifício dos correios. Para dar lugar ao mesmo, foi demolido, entre outros, o edifício que pertenceu ao Ferreirinha, que ocupava grande parte do terreno que vemos nesta foto ainda desocupado.
À esquerda conseguimos ver uma parte do cruzeiro da Igreja da Trindade bem como, mesmo no canto esquerdo, uma nesga do edifício dos Paços do Concelho. Abaixo coloco a legenda da mesma foto, tal como publicada à época.

Recanto da actual Praça do Município, e entrada da Rua António Sardinha, onde, à direita, se localiza a antiga Cancela Velha, por trás do tapamento que encobre o futuro Palácio dos Correios.

domingo, 5 de agosto de 2012

Igreja gótica de S. Domingos do Porto (1)

A mais que esquecida igreja de S. Domingos, demolida sem glória no já longínquo ano de 1865 (depois de 30 anos em pardieiro), não tem quase qualquer iconografia "de verdade". Apenas as imagens de Villa Nova (e a Igreja que lá se vê era originalmente a dos terceiros dominicanos) e duas ou três fotografias mais antigas de panorâmicas do Porto onde só olhando com olhos de ver se descobre que, onde deveria estar o Mercado Ferreira Borges, se encontra as paredes nuas de um casarão em ruína pertencentes aos dormitórios.

É por isso que, as descobertas do Dr. Pedro Vitorino (por acaso num alfarrabista, tal como eu descobri este opúsculo), são de enorme importância para um melhor conhecimento deste convento, e para ajudar à visualização de como o mesmo seria na fase final da sua existência. Reduzo a transcrição à comparação que o autor faz dos seus achados com a descrição do convento escrita no século XVIII e publicada pelo Dr. Andrea Cunha e Freitas.

"Da capela-mor encontram-se, justamente, os principais elementos: a planta e o alçado da reforma setecentista. Subscreve-os um monge-arquitecto pertencente à Ordem Carmelitana: Frei Pedro da Conceição. É nome desconhecido na nossa história da arte, e certamente autor de outros trabalhos da época sem paternidade averiguada. O Desenho da planta (ver abaixo) tem esta indicação exacta, de obstrusa ortografia, lançada pelo punho do autor:Planta Do emligimtº Da Capella mor e trebuna da igr.ª De S. Dominguos Da Cidade Do Porto e mostra tambem as 2 capellas colaterais e o mais que nella se ve feita oje 6 Dez.bro De 1733 Annos. Fr. Pedro Da Conceipção Carm.ta. O desenho colorido a castanho, azul, vermelho e amarelo, está feito em vulgar folha de papel almaço e ocupa metade dela. Apresenta as indicações das dependências, Capella-Mor, Caza junto A Sanchristia, Côro, etc e tem a escala em palmos. Nada indica da parte antiga que teve se ser demolida (capela axial e colaterais), - o que pena é -, representando unicamente a obra reconstrutiva.
Esta planta de elegimento tem como complementar outra, respeitante à parte baixa da tribuna, com esta legenda: Planta Da loge Da trebuna e tambem mostra o Chôro e o Começo Da escada Da trebuna.
A planta da nova obra evidencia bem a amplidão da capela-mor, aumentada especialmente em profundidade, e o sacrifício quase total das capelas laterais reduzidas a espaços restritamente necessários para os altares.
A cabeceira da igreja de S. Domingos, dotada de capela axial e absidiolos, era de semelhanças arquitectónicas com a do templo dos franciscanos, sendo bem de lamentar a reforma radical de 1734, no gosto insulso da época, da qual nos ficou a planta, hoje trazida a lume, do arquitecto carmelita Fr. Pedro da Conceição.


Num outro desenho (ver abaixo) está delineada a elevação dos arcos da cabeceira. A altura das capelas laterais foi reduzida na reforma afectuada, pois que orçando os primitivos arcos ogivais por 40 palmos, ficaram tão somente, depois, com 27,5. As dimensões da largura foram também alteradas, passando de 20 palmos que cada capela, antes, tinha, para 14. Dá-nos o estudo do Sr. Dr. Cunha e Freitas para altura do arco cruzeiro, depois das obras de reforma, 55 palmos, porém o citado desenho, pela escala, indica 48; os arcos laterias nivelam pelas impostas do arco central, o qual se eleva sobre estas, com volta perfeita, 15 palmos. Ao mesmo tipo de volta obdeciam os arcos das capelas laterais. O estilo era o barroco, jesuitico, destituido de decoração pomposa.Esse desenho tem, lançada pela mão do autor, a seguinte legenda:Planta De Perfil que mostra o Arcuo Da Capella mor Da Igr.ª De S. Domingos Da Cidade Do Porto. E mostra tambem os 2 Dos Colaterais Com os seus Altares e Banquetas, feita oie 27 de 7.bro De 1733 A.s por Fr. Pedro Da Conceipção, Carmelita.


segunda-feira, 16 de julho de 2012

O primeiro jornal portuense

"A primeira gazeta que se publicou no Porto, foi a 6 de Janeiro de 1808, na tipografia de Alvares Ribeiro & filhos, com o título de Leal Portuguez, cuja tipografia e a propriedade arderam em 1820. Era situada em Santo Eloy [hoje Largo dos Loios].
O chistoso e interessante colaborador José de Sousa Bandeira (falecido em 1861), escreveu por muitos anos as cartas do Braz Tisana no Periodico dos Pobres, título que tomara aquela antiga propriedade jornalística e conservara até final, sendo ultimamente seu proprietário Joaquim Torquato Alvares Ribeiro, falecido em Setembro de 1868. Pelo tempo da Regeneração do marechal Saldanha, José de Sousa Bandeira desligou-se da política deste periódico, e estabeleceu um outro seu, denominado: O Braz Tisana, cuja propriedade depois de 1861 passou para a viúva do falecido Bandeira." in O Tripeiro, 1º ano, nº 22 (1909)


terça-feira, 12 de junho de 2012

Regresso ao passado...

Início do século XXI
Início do século XX NOTAS: Ainda não existia Praça Filipa de Lencastre, nem Rua de Ceuta...