segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Um livro de história para quem o souber apreciar

Não tenho feito segredo neste blogue, pois refiro-o volta e meia, que é na BPMP, nomeadamente nos jornais da época, que pesquiso sobre as obras a meu ver mais importantes para que a cidade do Porto tivesse a configuração atual sobretudo no que agora se denomina por Centro Histórico do Porto.

A minha principal fonte é o jornal diário O Comércio do Porto, pese embora recorra a outros quando este me falta ou mesmo querendo comparar ou saber mais informação sobre determinado ponto (como por exemplo O Primeiro de Janeiro, O Bráz Tisana, O Nacional, O Jornal do Porto, etc). Mas é o Comércio do Porto que surge em destaque na época a que neste momento dedico a minha atenção. Todos os outros ficam um qualquer coisa abaixo, quer em informação quer na descrição do dia a dia da cidade, do que se vai passando, de como se vai passando, vivendo, etc. Alguém que se desse ao trabalho de o ler e recolher essa informação sobre os mais variados assuntos, e daria para fazer uma obra em vários volumes! E que esplêndida obra sobre a história daquele período da cidade seria!

A introdução que acabam de ler serve como justificação para o que descrevo a seguir. Ainda não conhecia de todo esta informação e foi chocante ao mesmo tempo que emocionante, como se tivesse descoberto um artefacto arqueológico; pois que, desfolhando este período, no volume respeitante ao primeiro semestre de 1866, li uma(s) notícia(s) que em boa verdade era(m) mais um pedido por parte dos (sempre preocupados com os melhoramentos da cidade) colaboradores do jornal.

Eis uns exemplos:

1) Naquela época- não havia automóveis claro está - mas já havia carros funerários. Ora esses carros que levavam os mortos para Agramonte ou para o Repouso eram usados por quem os podia pagar...

Mas, e os pobres, que eram a maioria? O que lhes acontecia quando se queriam deslocar para a sua última morada? Bem, para esses havia um carro bem mais humilde, puxado por um animalejo já velho e doente e muitas das vezes eram levados(de casa pois morria-se em casa, tal como se nascia também) nessa carroça, onde 3 ou 4 empregados empilhavam às vezes mais de 4 cadáveres, e numa lentidão agonizante dado que paravam em tascos e tabernas para beber ou petiscar, levando assim a sua mórbida mercadoria, rua a rua até ao destino, como se este trajeto fosse já o início do purgatório.

E claro, essas pessoas, que não primavam pela educação, quantas vezes não escarneciam dos mortos que levavam, levantando o lençol que parcamente os cobria e escarnecendo das suas feições ou outra particularidade do seu aspeto!!! E muitas das vezes, paravam os carros à porta da taberna quando os cadáveres começavam já a deitar cheiro, espalhando-o por onde passavam!

Estamos a falar, para situarmos bem "a coisa", na mesma época em que todo o Porto se preocupava com o embelezamento da cidade por causa da impressão causada aquando da exposição industrial no célebre e já demolido Palácio de Cristal!

2) Uma outra situação, é a forma como eram eliminados os cães vadios das ruas da cidade: nada mais nada menos do que através de pílulas envenenadas que eram espalhadas pela cidade! E era - segundo o jornal - um modo bastante eficaz, posto que hediondo, de por fim à situação. Muitos desses cães eram encontrados por quem passava na rua ainda a agonizar lentamente até à morte envoltos no seu próprio sangue, espetáculo que chocava, ao que parece, a maioria das pessoas.

Enfim, são dois aspetos menos bonitos do Porto pós-romantiso; uma cidade que vivia nos dois extremos: onde não faltavam ideias e concretizações de medidas para a melhoria civilizacional da urbe, mas do outro lado se notava ainda aquele caráter muito de velho regime, onde os bairros de pobres e a miséria imperavam, sendo as ruas estreitas quase sempre lugares fétidos, com muito lixo e entulhos a pejarem o chão e onde um cheiro nauseabundo pairava permanentemente no ar em alguns locais.

Não é este o Porto que se quer recordar e contar, mas sem este lado exposto, seria sempre um quadro onde meia tela teria de ficar forçosamente em branco, com risco de não respeitarmos a verdade com o quer que pincelássemos em seu lugar.

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