segunda-feira, 26 de abril de 2010

A apanha dos cães no Porto

"Na velha e gloriosa cidade do Porto, todos os antiquados costumes têm passado por uma metamorfose completa, dando lugar a outros mais modernos, mais dinâmicos e económicos.

Vamos, pois, em sucintas palavras, explicar à mocidade de hoje como eram apanhados em tempos decorridos os cães que vagueavam de dia e de noite por todas as artérias da cidade invicta.


Dois funcionários municipais, de inferior categoria, deselegantemente uniformizados, conduziam pelas ruas da acidentadas da urbe, num passo vagaroso, sonolento, um carro de duas rodas e, sobre o eixo destas, poisava um grande e alto caixão de madeira, de figuração rectangular, interiormente dividido em compartimentos, onde se recolhiam os cães. Mais dois funcionários do município, de igual classe e indumentária, a par, com os olhos fixos em todos os vultos que se mexiam, seguiam por um dos passeios laterais, levando um deles uma rede de corda delgada aos ombros. Os primeiros que enxergassem um cão desaçamado, davam sinal, assobiando, e os que puxavam o carro logo paravam, pegavam na rede que geralmente ia sobre o tejadilho do do pequeno carro celular e apressadamente, não fosse o cachorro escapulir-se pela demora, estendia-na de lés a lés da rua, chegando por vezes a impedir todo o trânsito.

Os modestos funcionários, ou melhor dizendo, na gíria popular da época, os "caça-cães" que seguiam pelo passeio, com receio de que fossem notados pelo cão, escondiam-se por detrás das costas das pessoas que passavam e, após o canino ter tomado a direcção dos empregados que já tinham a rede preparada, avançavam na cauda deste e uns e outros iam-se juntando até que o animal ficava envolvido nas redes.

Agarrado espectacularmente o cão - espectáculo este que não deixava de ser cómico, triste e irritante, desagradavelmente comentado pelas pessoas de coração, pois a liberdade não foi somente dada ao género humano -, era depois enclausurado numa das divisões do supracitado carro.

Porém, nem sempre os referidos funcionários eram bem sucedidos no seu ingrato modo de vida, pois os cães mais espertos, desconfiados - em virtude dos grandes saltos que formavam -, conseguiam transpor as redes, fugiam e punham-se a olhar para trás, como quem diz: "ainda não foi desta vez".

Quando isto acontecia, o rapazio endiabrado, principalmente, que não deixava de acompanhar atentamente e encolerizado as evoluções desenhadas em ziguezagues dos "caça-cães", batia palmas de contente, saltitava entusiasmado e não poupava a respectiva zombaria.

Conflitos, questões sérias se travavam de quando em vez entre os empregados e o povo, por este, quando via o carro da rede, dar-se ao cuidado de afugentar os cães. Para terminar com a caçoada dos garotos e com as desordens originadas pela apanha dos cães, que se tornavam em espetáculos vergonhosos e aviltantes para a cidade do trabalho, o carro dos cães começou a andar acompanhado por um polícia civil.

A história da apanha dos cães no burgo tripeirinho de à meio século, ficaria incompleta se deixássemos de descrever os casos deveras extraordinárias que vamos passar a expor."

in O Tripeiro, Série V, Ano VII, pág. 249
(continua)

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